100 METROS

capa do filme 100 metros na netflix
capa do filme 100 metros na netflix

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100 metros

Baseado em uma história real

Existem filmes que emocionam. Outros que inspiram. Mas poucos conseguem fazer algo ainda mais raro: obrigar o espectador a confrontar a própria maneira de enxergar a vida.

100 Metros, dirigido por Marcel Barrena, parece inicialmente apenas mais uma narrativa de superação baseada em fatos reais. Porém, conforme a trama avança, o filme revela algo muito mais profundo: a diferença brutal entre aqueles que se entregam sem questionar e aqueles que decidem questionar e então responder a altura.

Inspirado na história real de Ramón Arroyo, publicitário espanhol diagnosticado com esclerose múltipla aos 32 anos, o longa acompanha a transformação de um homem que, após ouvir dos médicos que em pouco tempo talvez não conseguisse andar cem metros, decide treinar para uma das provas esportivas mais difíceis do mundo: o Ironman.

Mas calma lá. Vai por mim… o verdadeiro centro da história não é o esporte. É o que o linguista Ferdinand de Saussure sintetizava em uma de suas frases mais conhecidas:

“O ponto de vista cria o objeto.”

Sem dar muito spoiler, Ramón nos entrega uma das cenas mais marcantes durante uma aparentemente simples sessão de tratamento venoso.

Na mesma sala, quatro pessoas têm o mesmo diagnóstico: mas não a mesma visão da vida.

Um paciente escolhe dormir o tempo inteiro, como se não presenciar a vida fosse mais confortável do que enfrentar a realidade ao estar acordado. Outro transforma sua dor em amargura e passa a contaminar os demais com pessimismo e revolta. E então surge um terceiro homem que oferece uma frase que vira a chave de Ramón:

“A esclerose múltipla é como um parceiro ruim de dança. A única coisa que você precisa fazer é não deixar que ela pise em você.”

Essa frase resume boa parte da filosofia estóica na qual eu acredito.

Os estóicos jamais negaram a dor humana. Eles não defendiam otimismo ingênuo nem felicidade artificial. O que defendiam era a capacidade de manter a soberania interior mesmo quando o mundo externo sai totalmente do nosso controle. Até mesmo quando a vida nos bate com força, nos oprime, nos humilha e nos drena. E derrotados, não entendemos porque continuar.

Para Ramón, assim como para muitos de nós, a doença permanece. Com ela, o medo. A limitação. O fracasso.

O personagem, no entanto, encara o espelho e pergunta silenciosamente a si mesmo, ao lembrar de um dos gibis de super-herói de seu pequeno filho: qual será sua postura diante disso?

E o filme constrói essa ideia com enorme delicadeza.

O roteiro de Marcel Barrena não é, nem de longe, melodrama barato. É um lembrete brutal de algo que frequentemente esquecemos: existem pessoas lutando batalhas invisíveis todos os dias enquanto nós reclamamos de obstáculos que, diante da vida, talvez não sejam tão grandes quanto acreditamos.

Talvez o maior mérito de 100 Metros seja lembrar a você e a mim que a vida não se divide entre pessoas fortes e fracas. Ricas e pobres. Brancas ou negras. Mulheres ou homens.

Ela se divide, muitas vezes, entre aqueles que escolhem parar e aqueles que continuam avançando. E com eles, toda a humanidade.

Mesmo devagar.

Mesmo cansados.

Mesmo com medo.

Mesmo quando todos dizem não.

Mesmo quando todas as portas se fecham.

Porque, às vezes, quando todas as portas se fecham, uma última se abre silenciosamente: aquela que leva ao nosso verdadeiro eu.

O “eu” que, como os estóicos costumavam dizer, não controla os acontecimentos, apenas as respostas a eles. 

Ramón Arroyo não controlou a esclerose múltipla.

Mas decidiu que ela não pisaria nele.

E talvez seja exatamente esse o tipo de história que precisamos assistir antes de começar uma nova semana.

Bom filme!

Sobre o Ramón Arroyo real

A história de Ramón Arroyo é ainda mais impressionante quando se descobre que grande parte do filme realmente aconteceu.

Ramón foi diagnosticado com esclerose múltipla em 2004. Segundo entrevistas e materiais ligados ao filme, os médicos chegaram a afirmar que, em pouco tempo, talvez ele não conseguisse caminhar cem metros sem ajuda.

Em vez de aceitar o prognóstico como sentença definitiva, ele começou um processo gradual de treinamento físico e adaptação mental até concluir um Ironman: prova composta por 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e uma maratona completa ao final.

Em entrevistas reproduzidas por portais sobre o filme, ele frequentemente reforça que não é um “super-herói”. É apenas um homem que compreendeu uma ideia simples: viver continua valendo a pena mesmo quando a vida não acontece da forma planejada.

E talvez seja exatamente isso que torna sua história tão humana.