A Navegação do Improvável:
Onde a Expectativa Termina e a Vida Começa



Dizem que o Carnaval é o território do caos, mas a verdade é que o caos reside na nossa tentativa de controlar o outro, ou melhor, o mundo. Planejamos reencontros, visualizamos tudo na nossa cabeça! O roteiro entre as baterias e os sorrisos, e esquecemos que a vida, essa sim, reina soberana conectando – ou não – nossas bússolas.
Ir ao encontro do outro é um ato de coragem, mas permanecer em si quando esse encontro falha é o verdadeiro ato de liberdade e dignidade primal e, ao mesmo tempo última, do ser humano. Como explica Viktor Frankl que, mesmo nos campos de concentração, havia aqueles que nas situações mais deploráveis e indignas, ainda assim, escolhiam ser bons, leais, justos e verdadeiros.
Há tanto em jogo no dia a dia. Na multidão das ruas, o sinal cai, a mensagem não chega e o objeto que buscamos muitas vezes parece olhar para outra direção. A antiga versão de mim — aquela que protegia o ego com o escudo da indiferença — teria buscado muitas coisas na troca com o outro. Um beijo de vitrine, uma retribuição de descaso, um espelho do erro alheio, julgamento. Teria calado o olhar humano, desumanizando-me um pouco por dentro para provar o que? força? Não. Agir assim, só prova uma coisa: que temos medo. Da rejeição, da falta de controle, de não sermos amados, lesados. O que também é válido e natural do homem.
Querido leitor, gostaria de compartilhar agora algo que tem me trazido um coração cada vez mais tranquilo: a maturidade é uma forma de navegação que não exige mar calmo, apenas um timão firme.
Reparo que a cada dia, com escuta atenta da pessoa que mais me ama, isto é, a minha humanidade interior, escolho a clareza sobre o orgulho. Entendi que a honestidade não é sobre manipular uma conversa para que o outro mude ou para que tenhamos razão, mas sobre garantir que não nos percamos, a nós e ao outro, por causa do silêncio, do ego, da raiva. Falar sobre sentimentos, seja você homem ou mulher, idoso ou criança, via de regra é um tabu. Uma vergonha. Um martírio… isto porque atrelado a esse dialogar vem o peso do julgamento ou a algema da posse. Com isso, perdemos uma oportunidade grandiosa de dar ao outro o direito de ser humano — falho, confuso, atravessado por memórias, presente, passado, projeção do futuro. Com, assim como nós, reproduções de estruturas sociais: machismo, racismo, tirania e tantas outras que ainda tentamos, ao longo de vários séculos, desaprender.
A beleza não reside no controle e sim na reação.
Enquanto há aqueles que se perdem no próprio turbilhão, que nos permitamos cada vez mais sentir a nossa perturbação, convidando o caos para um café ou quem sabe, uma drink tropical? Um Mate, um rum; ou melhor! tudo junto. Dance com seus amigos, sinta o aperto da decepção chegar e, em seguida, deixe que o vento o leve. Não busque uma revanche, busque ser surpreendido pela vida, nos detalhes, nas minúcias, nos sussurros. A magia acontece nesse exato momento: quando soltamos as cordas da expectativa e percebemos que o barco não afunda; ele flutua conforme a maré. E mesmo que o barco principal afunde, nossas estruturas de longa data que fazem de nós esse indivíduo único, a vida sempre tem uma bóia, um bote reserva, colete.
Dialogar com a vida é aceitar que não dominamos o ritmo das ondas, as cartas que vem no baralho, as escolhas de quem cruzou nosso caminho em um domingo de sol. Controlamos apenas o cuidado com a nossa própria narrativa. Mais ainda, com as cenas que o outro participa nesta cenografia que, em instância última, é de direção nossa.
Com essas palavras espero que hoje você faça as pazes. Não com pessoas e situações, mas com a sua capacidade de ser vulnerável sem agredir, julgar, manipular, coagir. Perceba que, ao baixar a guarda, a vida devolve a verdade. O segredo, afinal, não é evitar o furacão, mas aprender a manter o coração leve enquanto ele atormenta as marés do nosso ser.
