NOTA
¹ Nota do autor — Este poema nasceu de uma conversa sobre o urutau (Nyctibius griseus), ave noturna conhecida por sua extraordinária capacidade de camuflagem. Durante o dia, permanece imóvel sobre galhos, confundindo-se com a madeira e observando o mundo através de pequenas fendas nas pálpebras. À noite, deixa o esconderijo para caçar e vocalizar. Na época reprodutiva, macho e fêmea compartilham a incubação e os cuidados com o filhote, alternando entre proteger e sair em busca de alimento.
A rotina desse pássaro serviu aqui como metáfora para a intimidade: os muros que construímos para sobreviver, as pequenas fendas por onde permitimos ser vistos e a possibilidade de, ao encontrar alguém, alternarmos entre proteger, descansar e buscar aquilo que mantém vivo o que estamos construindo juntos.
A biologia do urutau é real; o amor que ela passou a representar, não. Esse último pertence ao poema.
² Eurutau — neologismo formado pela fusão de eu + urutau. Uma palavra inventada para nomear o encontro entre o sujeito que fala e a ave que lhe serve de metáfora: aquele que aprendeu a se camuflar, a olhar pelas próprias fendas e, ainda assim, a encontrar na noite um lugar para voar em direção ao outro.

