Pensamentos Avulsos

O que há de vivo em mim.

O que há de vivo em mim.¹

Não quero que você seja meu.

Quero que você seja livre, e ainda assim, escolha estar comigo.

— Khalil Gibran

O amor preocupa a mim.

Eu, aparentemente de vida noturna, acinzentado,
aprendi a olhar sem abrir os olhos.

Passei muito tempo assim:
imóvel diante do mundo,
camuflado do superficial,
parecendo um pedaço de madeira
para que ninguém encontrasse
o que havia de vivo em mim; estratégia de sobrevivência.

Esconder-me dos predadores
sedentos por tomar posse
daquilo que não poderia ser tomado:
este verdadeiro eurutau².

E sem saber,
ao contemplar as fendas
pelas quais ele enxerga o mundo
mesmo quando parece dormir,
você tenha encontrado
as fendas nos muros que ergui.

A noite, no entanto, vocalizo.

Foi.
Foi.
Foi.

O lamento de um amor que não veio.

Agora, o som é outro.

É a melancolia do aprender a associar
saudade ao teu nome.

Há algo de curioso
na maneira como dois seres
podem tecer uma casa
sem saber exatamente como fazê-lo.

Não sei nada sobre essa arte de costurar.

Contribuo apenas com o fio da vida
que ainda habita em mim.

Você traz o teu fio de sutura.

E, com pouca estrutura,
improvisamos um lugar
onde alguma coisa maior possa nascer.

Pouca estrutura?
Sim.

Mas enorme devoção.

Há dias em que o amor
não se encontra em mim.

Há dias em que volto à camuflagem,
ao silêncio,
à madeira,
àquela que aprendeu
a não ser vista.

Mas a plumagem estonteante
do teu ser reverbera em mim.

E talvez seja por isso
que o ideal é chamarmos relacionamento de parceria:

não importa se hoje eu protejo e você caça,

ou se amanhã é você quem descansa enquanto eu vigio.

Importa que,
alternadamente,
incubamos aquilo
que decidimos trazer ao mundo.

Um amor.

Uma vida.

Um nós.

Às vezes posso parecer
um pedaço de madeira.

Duro.
Opaco.
Sem cor.

É verdade.

Mas agora você sabe:

é apenas camuflagem.

Porque há uma vida inteira
escondida aqui,

ganhando força ao longo do dia,
esperando a noite,

que tornará possível voar
ao encontro teu.

— Julia Porto

NOTA

¹ Nota do autor — Este poema nasceu de uma conversa sobre o urutau (Nyctibius griseus), ave noturna conhecida por sua extraordinária capacidade de camuflagem. Durante o dia, permanece imóvel sobre galhos, confundindo-se com a madeira e observando o mundo através de pequenas fendas nas pálpebras. À noite, deixa o esconderijo para caçar e vocalizar. Na época reprodutiva, macho e fêmea compartilham a incubação e os cuidados com o filhote, alternando entre proteger e sair em busca de alimento.

A rotina desse pássaro serviu aqui como metáfora para a intimidade: os muros que construímos para sobreviver, as pequenas fendas por onde permitimos ser vistos e a possibilidade de, ao encontrar alguém, alternarmos entre proteger, descansar e buscar aquilo que mantém vivo o que estamos construindo juntos.

A biologia do urutau é real; o amor que ela passou a representar, não. Esse último pertence ao poema.

² Eurutau — neologismo formado pela fusão de eu + urutau. Uma palavra inventada para nomear o encontro entre o sujeito que fala e a ave que lhe serve de metáfora: aquele que aprendeu a se camuflar, a olhar pelas próprias fendas e, ainda assim, a encontrar na noite um lugar para voar em direção ao outro.