Pensamentos Avulsos

A versão socialmente esperada de nós

É assim que eu sou quando não preciso me adaptar para estar com você.

Dina Salustiano uma vez escreveu:

escrever sobre o amor é tão ou mais difícil do que vivê-lo

SALUSTINO, Dina.

Nesse sentido, me aventuro a escrever sobre o amor. Talvez porque, ultimamente, tenho percebido que ele aparece para mim justamente quando diminuo a velocidade.

Penso que o amor à vida e às pessoas tem um pouco disso: aprender a prestar atenção nessas faces.

É engraçado como, quando você ama, até a experiência sutil de enxergar — e não apenas ver — o outro colocando água no café parece ganhar importância. Ou o silêncio de alguém depois de um dia longo. O jeito como ela escolhe sentar no sofá. Como ela faz uma receita de strogonoff. A maneira como alguém te olha quando você fala. Coisas pequenas demais para, à primeira vista, merecerem uma história, mas que, por algum motivo, alugam temporada na memória.

Tenho pensado muito nisso porque, quando estou com quem amo, percebo que os momentos aparentemente insignificantes do cotidiano me ensinam a enxergar o mundo de outra maneira. 

Quando penso em amar gostaria que a resposta fosse sempre: Quem amo confia em mim o suficiente para não precisar performar uma versão socialmente esperada de companhia. Isto é, estando ao meu lado, ainda assim se permitir ser.

Como estar junto e não precisar conversar. Poder passar uma hora dentro de um carro, dividindo o mesmo caminho, cada qual mergulhado em seus próprios pensamentos, sem que o silêncio precise ser interrompido para provar que estamos bem. No começo, confesso, existe um pequeno estranhamento com este amor.

Porque aprendemos desde cedo algumas regras muito específicas sobre o que significa amar alguém.

Se estamos juntos, devemos conversar. 

Se gostamos de alguém, devemos aproveitar cada minuto.

Se existe saudade, precisamos compensá-la com muitas palavras, muitos planos, muitas experiências. Ou melhor, nos dias atuais, posts performáticos. Como se a companhia ou o sentimento em si precisassem produzir alguma coisa o tempo inteiro para justificar sua validade. Por esse motivo, resolvo fazer uma faxina nas minhas memórias e trazer à tona a sensação gostosa de estar acompanhada de confiança que não precisa ser preenchida e sim compartilhada.

Já houve um tempo em que pensei que essa intimidade característica do amor seria conhecer profundamente aquilo que o outro nos diz. Hoje vejo que existe uma intimidade ainda mais silenciosa: conhecer aquilo que o outro não precisa dizer quando está conosco.

Saber diferenciar alguém permanecer em silêncio porque não tem o que dizer e alguém poder permanecer em silêncio porque não precisa desempenhar nenhum papel. É como se, ao recolher-se do convívio diário, o amor nos dissesse sem palavras:

“É assim que eu sou quando não preciso me adaptar para estar com você.”

lanterna de cabeça

Para mim, uma das formas mais bonitas de amar alguém é justamente essa: oferecer um lugar onde a pessoa não precise se explicar o tempo inteiro. Contudo, isso também me confronta. Porque percebo o quanto, muitas vezes, esperamos que as pessoas nos amem dentro das formas que aprendemos a reconhecer como amor.

Mensagens respondidas na hora. Atenção exclusiva. Demonstrações pirotécnicas e instagramáveis de afeto. Muitos planos. Muitas palavras. E, quando elas não aparecem na forma que imaginamos, chegamos rapidamente à conclusão de que alguma coisa está faltando. Mas e se estiver apenas faltando a nossa capacidade de reconhecer outras formas de amor?

Essa pergunta começou a roubar mais armazenamento nesta minha nuvem particular chamada pensamento.

Será que estamos confundindo amor com aquilo que conseguimos facilmente identificar como amor? Presença com quantidade de acontecimentos? intimidade com a necessidade de preencher todos os espaços?

Pode ser que nosso tempo tenha desaprendido o cerne que repousa o amor: atenção legítima, genuína e gentil.

Vivemos anos em que amar, ou existir de forma geral, parece trazer consigo a obrigação de ter alguma coisa acontecendo. Uma notícia nova. Uma reunião. Uma notificação. Uma crise. Uma meta. Uma oportunidade. Uma preocupação. Um vídeo. Acontecimentos que exigem imediatamente alguma reação.

A sensação é de que o mundo adquiriu uma velocidade que não conseguimos acompanhar. E essa velocidade também aparece nas relações. Esperamos que alguém acompanhe tudo isso conosco, responda a tudo, demonstre tudo, esteja disponível para tudo — e chamamos essa aceleração de amor. 

Será que é dai que o amor tranquilo nos parece tão estranho?

Porque ele não está tentando produzir uma experiência o tempo inteiro. Ele simplesmente está. Foi então que comecei a pensar que essa experiência tão cotidiana — amar alguém — pudesse esconder uma pergunta filosófica bem antiga…

O que, afinal, acontece conosco quando amamos?

Não apenas quem merece ser amado. Não apenas como saber se alguém nos ama. Mas o que o amor faz com aquele que ama?

Em O Banquete¹, quando Sócrates apresenta o ensinamento de Diotima, o amor não aparece simplesmente como a posse de alguém belo ou como a satisfação de um desejo. Eros aparece como movimento: um desejo em direção ao belo e ao bom. Isso me interessa porque muda drasticamente a pergunta. Deslocando amar alguém de simplesmente encontrar aquilo que desejávamos para caminharmos em outra direção porque encontramos algo que nos fez desejar enxergar mais.

Diotima² apresenta o amor como uma espécie de ascensão: começamos diante de uma beleza particular e, pouco a pouco, podemos aprender a reconhecer a beleza em outras pessoas, nas almas, nas práticas, nos conhecimentos e na própria beleza.

Não preciso transformar isso em uma escada para entender o que me interessa nela. Basta perceber que uma pessoa pode ser o começo de uma ampliação do nosso olhar.

Começo observando alguém colocar água no café e termino percebendo que existe um mundo inteiro acontecendo de uma maneira que não é a minha. O que faz alguém rir. O que a assusta. O que prefere calar.

Amar alguém é, em alguma medida, descobrir que a minha maneira de experimentar a vida não é a maneira de experimentar a vida. É apenas uma delas. E o outro, quando realmente o enxergamos, desmonta um pouco da nossa arrogância. Será que por isso amar tenha um quê filosófico? Porque Filosofar também começa quando aquilo que parecia óbvio o deixa de ser.

Eu achava que estar acompanhada precisava de conversa. O amor me fez perguntar por quê.

Eu achava que presença precisava ser demonstrada. O amor me fez perguntar por quê.

Eu achava que conhecer alguém era saber o que essa pessoa pensa e diz. O amor me fez perceber que também existe aquilo que alguém só consegue ser quando não precisa dizer nada.

Tenho caminhado cada dia mais para enxergar o ato de amar como um exercício de descentralização. Sair um pouco do centro da própria experiência para perguntar: Como será que o mundo parece daqui?

Não para abandonar quem somos. Não para concordar com tudo. Não para aceitar aquilo que nos machuca. Mas para desenvolver a delicadeza necessária para perceber que existe uma – senão mais de uma – realidade acontecendo ao lado da nossa. 

Para mim, tratar o amor assim é especialmente desafiador — e especialmente necessário — nas relações.

Porque não controlo a forma como alguém demonstra amor. Não controlo o ritmo de outra pessoa. Não controlo aquilo que ela sente. Não controlo suas escolhas. Entretanto, posso observar minhas próprias impressões antes de transformá-las em certezas.

Posso perguntar por que interpretei um silêncio como rejeição. Por que uma mensagem não respondida imediatamente me pareceu abandono. Por que preciso de determinada demonstração para me sentir segura. Posso distinguir aquilo que aconteceu da história que construí sobre aquilo que aconteceu.

Antes de exigir, observar.

Antes de concluir, compreender.

Antes de transformar o outro em personagem das minhas expectativas, lembrar que ele é uma pessoa inteira. Isso não significa, no entanto, romantizar ausência, negligência ou sofrimento. Significa apenas reconhecer que amar alguém não me dá o direito de reduzir a pessoa àquilo que preciso que ela seja para confirmar minhas próprias expectativas.

Pode ser que amar seja justamente permitir que o outro permaneça outro. E isso é difícil. Porque existe uma tentação silenciosa em todo afeto: transformar aquilo que amamos naquilo que gostaríamos que fosse. Que o outro ame na minha linguagem. Que se encaixe na minha ideia de felicidade.

O amor, quando encontra uma pessoa real, encontra também uma realidade que não foi feita sob medida para nós. Por isso, também vejo que amar é uma forma poderosa de educação. O outro nos obriga a aprender aquilo que a nossa própria experiência não conseguiria nos ensinar sozinha.

Paciência. Justiça. Coragem. Temperança. Ternura. E talvez até sabedoria.

Porque amar alguém pode exigir que eu aprenda a diferenciar desejo de necessidade, expectativa de realidade, medo de intuição, controle de cuidado.

No fim, é possível que o amor seja menos sobre encontrar alguém que nos faça felizes e mais sobre descobrir que tipo de pessoa estamos nos tornando enquanto amamos.

Quero amar a beleza das coisas que não são testemunháveis em primeiro plano.

O silêncio e nenhuma necessidade de preenchê-lo.

O café tomado sem pressa e o olhar atento por cima da xícara³.

Uma caminhada sem objetivo.

Uma conversa que não precisa chegar a nenhuma conclusão.

É curioso como, depois de tanto tempo tentando acompanhar o mundo, um amor tranquilo assim pode parecer quase uma experiência de descompressão. Como chegar em casa depois de um dia difícil, tirar os sapatos e colocar a mochila pesada sobre a mesa da cozinha.

Você não precisa fazer nada imediatamente. Não precisa resolver nada. Não precisa provar nada. Por alguns instantes, basta estar ali. É um privilégio esse amor que nos devolve ao tamanho humano. O amor que não precisa tornar a vida extraordinária para torná-la profundamente percebida.

Uma vida inteira é insuficiente para conhecer completamente alguém. No entanto, podemos passar uma vida inteira aprendendo a prestar atenção nas pequenas quantias despercebidas. E, quando percebemos, existe ali uma fortuna de apreço que não foi construída em grandes momentos, mas na repetição dos pequenos.

Amar como prática diária em reconhecer que existe um mundo inteiro acontecendo dentro de alguém que não sou eu. E, ainda assim, escolher aproximar-me dele com curiosidade, cuidado e respeito.

A felicidade estoica ocorre justamente nesse encontro.

Não na tentativa de possuir o outro ou na exigência de que ele corresponda à versão de amor que aprendemos a reconhecer e sim na possibilidade de olhar para alguém e perceber que existe um mundo inteiro acontecendo ali — um mundo que não é o meu, que não me pertence e que eu jamais conhecerei completamente. E que ainda assim escolho prestar atenção, aprender, transformar e amar.

Porque, no fim, talvez amar seja aceitar o convite para uma festa que não estava nos nossos planos, entrar sem saber exatamente o que esperar, descobrir que havia beleza em uma música que nunca havíamos ouvido e voltar para casa diferentes — não porque a festa tenha mudado, mas porque, depois dela, já não somos exatamente os mesmos que aceitaram o convite de quem nos chamou para dançar.

NOTAS

¹ PLATÃO. O Banquete. Na obra, composta em forma de diálogo, diferentes personagens apresentam discursos sobre Eros. A reflexão de Sócrates, atribuída aos ensinamentos de Diotima, apresenta o amor como desejo orientado ao belo e ao bem e como um movimento de ascensão em direção a formas mais amplas de beleza.

² Diotima é uma personagem de O Banquete, apresentada por Sócrates como uma mulher de Mantineia que teria lhe ensinado sobre a natureza de Eros. Seu discurso constitui a principal elaboração filosófica sobre o amor na obra de Platão.

³ LUFT, Lya. Pensar é transgredir: para entender o mundo e a nós mesmos. Rio de Janeiro: Record, 2004. A obra reúne reflexões da autora sobre temas relacionados à existência, às relações humanas, à liberdade e à experiência de viver, propondo o pensamento como exercício de questionamento das ideias e padrões previamente estabelecidos.

Pensamentos Avulsos

Acho chic

– Ouvir também pode fazer minha alma florir, mesmo quando meus olhos se cansam

Essa semana, enquanto escrevo este texto, está muito em alta uma trend no Instagram que consiste, basicamente, em declarar aquilo que cada pessoa considera chic na vida.

Confesso que gostei bastante dessa trend. Porque me faz questionar algo aparentemente superficial, mas que não necessariamente o seja. O que é o “chic”³? O que é luxo?

Uma bolsa? O consumo? O poder aquisitivo de alguém? Um restaurante superfaturado? Uma viagem? Um hotel? Uma roupa? Um carro? O chic pode ser tanta coisa aos olhos de quem vê. Depois deste último fim de semana, voltando do Rio de Janeiro para Vitória, passei boa parte do voo pensando que eu tenho uma lista de coisas que penso serem bem chic…

Para começar, eu acho chic coisas que não cabem numa vitrine. E muitas delas, não estarem à venda.

Eu acho chic ter uma amiga que passa o dia em uma feira literária porque realmente quer estar lá. Que está não só fisicamente como também inteira: ouvindo autores, pensando, fazendo perguntas, descobrindo livros, encontrando pessoas. Essa amiga em questão estava na FLIN, a Festa Literária Internacional de Niterói, que este ano aconteceu sob o tema “Território das Palavras”, celebrando literatura, memória, diversidade e encontros. Mesmo ocupada, ela me mandava mensagens empolgada para contar sobre as palestras que queria assistir, porque coincidência ou não, eu também estaria em Niterói.

Eu acho chic ter amigos que fazem você querer crescer intelectualmente. Que ampliam o seu vocabulário, seu local de fala. Que apresentam autores que você não conhecia. Que fazem o mundo parecer maior depois de uma conversa. Acho chic ter amigos que aumentam nosso senso de pertencimento. Que fazem a gente lembrar que não estamos sozinhos. Amigos que, por uma dessas coincidências bonitas da vida, acabam indo parar na casa da sua avó em uma sexta-feira aleatória.

Era a primeira vez que recebia esta amiga na dona Onilda, minha avó. Quem, assim que conheceu minha amiga, ofereceu jantar e, porque eu contei, descobriu que ela era vegetariana e se ofereceu para fritar um ovo. Minha amiga, no entanto, em vez de fazer cerimônia, foi lá e fritou o próprio ovo, depois sentou à mesa e devorou o prato como se tivesse feito aquilo desde sempre. Eu acho chic isso.

Não precisar pedir licença para existir. Não transformar uma casa em território estrangeiro. Sentir-se recebido. Não precisar pisar em ovos. Acho chic fazer o outro se sentir à vontade também. Mais tarde, quando todos foram dormir, ficamos nós duas bebendo vinho e conversando. Ela me contou sobre os meses difíceis que tinha atravessado. Separação. Dor. Mudanças. Medos. Vulnerabilidades que só aparecem quando existe confiança suficiente para que a gente deixe de tentar parecer bem.

Depois rimos. Rimos tanto que minha barriga começou a doer e meus olhos a lacrimejarem. Eu acho chic poder conversar sobre as coisas mais difíceis da vida e, algumas horas depois, estar chorando de rir.

Acho chic ter amigos que sabem ser profundos sem serem pesados. Amigos especialistas em sua área de atuação que – do absoluto NEIDA – começam a explicar a rotina de um urutau¹. Um pássaro absolutamente estranho e extraordinariamente esplêndido que eu não sabia da existência (?). Agora sei. E acho chic isso também. Ter conhecimento sobre coisas aleatórias para mim, mas totalmente sensíveis e relevantes para o outro. Como o nome de uma árvore. Reconhecer um pássaro. Saber preparar uma geleia. Saber acender uma fogueira. Saber fazer alguma coisa que não serve para aumentar o salário, melhorar o currículo ou alimentar o algoritmo. Saber porque é parte da sua existência.

Na manhã seguinte, ainda na minha avó, montamos uma farta mesa de café da manhã: Pão, queijo, geleia caseira, café. E a maior fartura: conversa fiada (risos). Minha tia apareceu e as duas começaram a conversar. Uma hora depois, tinham trocado contatos para compartilhar receitas de geleia como se fossem amigas havia anos. 

Eu acho chic isso. A capacidade humana de criar intimidade com pessoas que, algumas horas antes, eram desconhecidas através da linguagem, da cultura, da afinidade.

Saindo dali, fui para o aniversário da minha mãe. Peguei estrada debaixo de chuva. Dirigi devagar, colocando as fofocas familiares em dia. Cheguei em uma casa cheia, com cheiro de feijoada, som de lenha crepitando e gente falando ao mesmo tempo. Criança correndo. Adultos discutindo. Os cachorros pedindo um petisco. Alguém perguntando se ainda tinha café.

Eu acho chic tradição. Não porque a tradição seja sempre boa. Mas porque existem algumas tradições que carregam memória. Receitas que atravessam gerações. Jeitos de cozinhar que ninguém escreveu. O fogo que meu pai me ensinou a controlar. Aquela espécie de conhecimento doméstico que não aparece em nenhum certificado, mas que passa de uma pessoa para outra simplesmente porque alguém um dia parou para ensinar.

Eu acho chic isso. Parar para ensinar.

Mais tarde, dormi com meus afilhados. Nós quatro na mesma cama. De conchinha. Assistindo a um desenho que eu assistia quando criança e que agora eles amam: os jovens titãs. Acordei com os braços dormentes enquanto eles continuavam dormindo. E pensei:

Eu acho chic dormir profundamente nos braços de alguém porque você sabe que está seguro. Existe luxo maior?

No dia seguinte, outro café da manhã. Uma mesa novamente grande o suficiente para caber todo mundo. Meus amigos, que dormiram na casa dos meus pais, acordando cedo e saindo para comprar pão enquanto todo mundo ainda dormia. Voltando com sacolas. Pegando chinelo emprestado. Entrando e saindo da casa sem cerimônia.

Eu acho chic ter amigos que se sentem em casa na sua casa. Me dei ainda mais conta disso quando vi minha amiga que fiicou ensinando minha afilhada a fazer acrobacia pendurada invertida² na corda. Consciência corporal. Força. Tentativa. Erro. Queda. Tentativa outra vez. Eu acho chic uma criança descobrir pela primeira vez que é capaz de fazer coisas que ela ainda não sabia. E acho mais chic ainda uma infância em que existe espaço para isso.

Para correr. Para cair. Para aprender. Para errar sem transformar cada erro em culpa, trauma. Acho chic descobrir o próprio corpo antes de descobrir o mundo através de uma tela.

Tomei um banho demorado e pensei que também acho chic isso. Um banho sem pressa. A sensação de sair do banheiro como se fosse outra pessoa, embora continue sendo exatamente a mesma. A vida adulta nos convence de que tudo precisa ter alguma finalidade. Até o descanso, a conversa, o banho, o conhecimento, o tempo dedicado. E talvez não. Talvez algumas coisas sejam valiosas justamente porque não precisam produzir nada.

Mais tarde fui levar uma das minhas amigas em casa. Ouvindo a playlist dela no spotify. Acho chic afinidade musical e ter intimidade no silêncio. Só na permanência de uma viagem tranquila de carro, sem muita conversa, a música rolando no fundo. Ao chegar, conheci a mãe dela e, naquela situação de conhecer alguém pela primeira vez, ela me pegou desprevenida e pediu desculpas porque estava sem um dente da frente. Literalmente. Tinha acabado de perder uma prótese e estava visivelmente constrangida. Mas, para minha surpresa, não tentou esconder e explicou o que havia acontecido. E, mesmo morrendo de vergonha daquele primeiro encontro, insistiu para que eu ficasse para almoçar.

Eu acho chic isso. A vulnerabilidade que não pede autorização.

A capacidade de dizer: “É isso. Hoje eu estou assim.” Sem maquiagem emocional. Sem tentar parecer mais bonita, mais forte, mais bem resolvida do que realmente estamos. Acho chic quem sustenta seus próprios ciclos. Quem consegue dizer “estou mal”. “Estou com medo.”. “Não sei.”. “Hoje não estou bem.” E ainda assim abrir a porta da sua casa, do seu ser.

Depois dali, fui deixar minha avó em casa e saí para terminar uma tatuagem que venho fazendo há algum tempo. Enquanto minha tatuadora terminava a arte, conversávamos sobre os próximos meses, nossa vida, nossos planos. Ela vai passar um período nos Estados Unidos, trabalhando e enfrentando uma série de coisas novas. E, no meio da conversa, apareceu o medo e a ansiedade. Medo do que vem pela frente. 

Eu acho chic isso também. Gente que sente medo e vai mesmo assim.

No fim daquele dia, voltei para a casa da minha avó e ela já tinha preparado o jantar: Feijão vermelho, arroz fresquinho e ovo mexido. Tudo simples. E ainda preparou uma marmitinha, e me deu para eu levar no dia seguinte. Porque ela sabe que estou treinando e eu não gosto de comer na rua. Eu acho chic comida que vem acompanhada de memória. Acho chic quando alguém conhece você o suficiente para saber o que colocar dentro de uma marmita. Acho chic quando o amor não precisa ser anunciado.

Ele aparece no ovo feito na manteiga. No pano de prato envolvendo uma marmita para a viagem de volta. 

E foi assim que eu passei o fim de semana. Colecionando coisas que considero chic. Só que, dentro do avião, percebi que talvez eu estivesse usando essa palavra de um jeito completamente diferente. Porque nada daquilo era raro por ser caro. Era raro por ser humano.

Eu não acho chic ter uma casa cheia porque isso demonstra seu networking. Acho chic ter uma casa onde as pessoas podem ir para qualquer outro lugar e ainda assim escolhem ficar.

Não acho chic uma mesa bonita. Acho chic uma mesa onde ninguém precisa olhar o relógio ou o celular.

Não acho chic ter amigos interessantes. Acho chic ter amigos que nos tornam pessoas mais elevadas.

Não acho chic conhecer pessoas importantes. Acho chic fazer pessoas comuns se sentirem importantes.

Não acho chic viajar para lugares distantes. Acho chic ter alguém que pergunta se você chegou bem.

Acho chic uma criança dormir tranquila. Uma mãe oferecer comida. Um pai ensinar a mexer no fogo. Uma amiga contar seus medos. Outra ensinar uma criança a sustentar o próprio corpo. Alguém admitir que está sem um dente. Uma pessoa compartilhar uma receita. Outra compartilhar um livro. Alguém cozinhar pensando nas restrições do outro. Gente adulta cantando Mauricio Manieri no aniversário da mãe; sem vergonha. Sem preocupação com a performance. Só porque é divertido. Eu acho chic o parabéns da Xuxa cantado por adultos.

Eu acho chic um karaokê improvisado de sofrência. Eu acho chic rir até a barriga doer. E acho chic poder voltar para casa depois de tudo isso e perceber que, talvez, nós tenhamos mais do que imaginamos. Um grande privilégio sobre o qual falamos pouco. Não o privilégio de possuir. Mas o privilégio de pertencer.

Ter alguém. Ter histórias. Ter memórias. Ter lugares onde você pode chegar sem precisar explicar quem é. Ter pessoas que sabem como você gosta do café. Ter alguém que percebe quando você não está bem. Ter uma mesa. Ter tempo. Ter diálogo. Ter uma criança que confia em você o suficiente para se aninhar em seus braços. Ter alguém que abre a porta mesmo estando vulnerável. Ter uma avó que prepara comida para a viagem. E, se você não tem ou nunca teve essas experiências, talvez chic seja procurar/estar aberto a elas. Porque algumas das coisas mais bonitas da vida não são herdadas mas podem sim ser construídas.

Você pode ser a pessoa que oferece o jantar. A pessoa que chama um amigo para conversar. A pessoa que cria uma tradição. A pessoa que prepara uma comida pensando em alguém. A pessoa que ensina uma criança. A pessoa que escuta. A pessoa que abre a porta. A pessoa que diz: “Pode ficar.”

Penso que é assim que uma vida boa começa a ser construída. Não necessariamente com grandes acontecimentos mas com pequenos lugares de segurança espalhados pelo caminho. 

Com mesas onde caibam mais pessoas.

Com conversas que durem mais do que deveriam.

Com comida feita sem pressa.

Com amigos que chegam e ficam.

Com coragem para mostrar o que está faltando.

Com crianças que possam cair sem medo.

Com adultos que possam brincar sem vergonha.

Com famílias que preservem aquilo que vale a pena preservar.

E com a consciência de que, no fim, quase tudo aquilo que realmente importa não pode ser comprado. Pode apenas ser vivido. Se alguém me perguntasse hoje:

“O que você acha chic?”

Eu responderia:

Eu acho chic estar inteiro onde o corpo está.

Eu acho chic saber conversar.

Eu acho chic saber ouvir.

Eu acho chic ter curiosidade.

Eu acho chic ter amigos que nos fazem pensar.

Eu acho chic cuidar.

Eu acho chic deixar-se cuidar.

Eu acho chic pedir ajuda.

Eu acho chic admitir vulnerabilidade.

Eu acho chic uma mesa cheia.

Eu acho chic uma casa onde você pode entrar de chinelo.

Eu acho chic uma pessoa dormindo segura.

Eu acho chic alguém te preparar uma marmita.

Eu acho chic rir.

Eu acho chic cantar por cantar.

Eu acho chic cozinhar para todos, respeitando que alguém não pode comer o que todos comem.

Eu acho chic respeitar o momento do outro.

Eu acho chic ensinar alguma coisa sem esperar nada em troca.

Eu acho chic continuar aprendendo.

Eu acho chic ter coragem para partir.

E, principalmente,

Eu acho chic construir uma vida da qual não precisamos fugir de nós para encontrar o belo.

Porque existem coisas que, ao meu ver, nunca sairão da trend.

A gentileza.

A amizade.

A curiosidade.

A vulnerabilidade.

A presença.

O cuidado.

O riso.

O conhecimento.

A comunidade.

O amor.

Coisas que não precisam de tendência. Tampouco de algoritmo ou aprovação. Coisas que não precisam de uma postagem ou fotografia para existir. E talvez esse seja o verdadeiro luxo.

Chegar ao fim de um fim de semana absolutamente comum, olhar pela janela e perceber que, apesar de tudo que ainda falta conquistar, há coisas que já são tão inefáveis que eu e você já somos privilegiados por tê-las.

E para você, o que é chic?

NOTAS

¹ Urutau — nome popular dado a aves noturnas do gênero Nyctibius, encontradas principalmente nas regiões tropicais da América Latina. De hábitos discretos e predominantemente noturnos, o urutau é conhecido por sua impressionante camuflagem: durante o dia, permanece imóvel sobre galhos, assumindo uma aparência semelhante à de um pedaço de madeira ou tronco. Seus grandes olhos e sua expressão peculiar fazem dele uma das aves mais curiosas da fauna brasileira. O nome também aparece associado a diferentes espécies de Nyctibius, entre elas o urutau-comum (Nyctibius griseus).

² Pendurada invertida — movimento de ginástica e treinamento de força realizado em uma barra, no qual a pessoa parte da posição suspensa, eleva as pernas e passa o corpo para trás, ficando temporariamente invertida, com as pernas acima da cabeça. O movimento exige força de braços, ombros, abdômen e costas, além de mobilidade e consciência corporal para controlar a posição com segurança. Apesar de parecer uma simples acrobacia, é um exercício que ensina algo bastante bonito: confiar no próprio corpo, sustentar o próprio peso e aprender gradualmente até onde ele é capaz de ir.

³ Chic — Na língua portuguesa, a forma correta e oficial de escrever é chique. A grafia chic está correta apenas no idioma francês, que deu origem ao termo, ou quando usada como estrangeirismo de uso restrito. Mantive a palavra original no texto para que você leitor, saiba um pouco mais sobre a etimologia da palavra.

Pensamentos Avulsos

Refletir antes de Concluir: Um Exercício de consciência.

“O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas nos permite ver quanta escuridão existe ao redor”. FAULKNER, William.

Já aconteceu de você chegar a conclusões caóticas, descompassadas e automáticas sem necessariamente ter refletido sobre a aplicabilidade ou a realidade daquilo? 

Comigo já. Mais vezes do que eu possa me enumerar ou tampouco lembrar. Esse post é sobre isso.

O papel da consciência

Durkheim, em uma de suas grandes obras, estudou a religião primitiva do sistema Totêmico, na Austrália, para responder uma pergunta central: quais são os elementos fundamentais da religião e qual a sua função social? Em outras palavras, quais são os elementos essenciais da religião? Para isso, ele reforça a importância de, antes de qualquer movimento, caminhar com o leitor ombro a ombro para alinhar, a fim de estarem na mesma página, o que deve ser entendido como religião. Porque, veja, como Durkheim poderia garantir que o leitor compreenderá quais as formas primitivas da religião se o conceito em si não está claro para quem embarcou na leitura? O mesmo se dá com a vida.

Com frequência, nos pegamos (muitas vezes inconscientes disso) julgando noções que se formaram em nós pelos revezes da vida. Isto é, pela interação social, criação familiar, escolaridade (ou ausência dela). Nesse sentido, alerta Durkheim: “essas pré-noções se formaram sem método, seguindo os acasos e encontros da vida, elas não têm direito a nenhum crédito e devem ser rigorosamente mantidas afastadas do exame que se seguirá”. 

Aqui, convido-lhe a refletir sobre situações que você esteja passando agora ou que, de alguma maneira, estejam mais próximas de você no momento. Quando você julga esses acontecimentos, que respaldo você tem? Onde você buscou informações sobre? Como você chegou a conclusão que chegou ou empacou na conclusão que deveria chegar? Estas, são perguntas fundamentais para questionar:

Seu estilo de vida.

Suas crenças.

O modo como você enxerga o mundo. 

Como você responde a uma interação com o outro.

Lembro como se fosse hoje quando estava na faculdade e ouvi pela primeira vez a frase “O ponto de vista cria o objeto”, de Fernand de Saussure. Ela não poderia ser mais simples e mais real. Porque, impreterivelmente, as coisas começam no plano das ideias e, a depender das ideias que residem em nossos pensamentos, enxergaremos o mundo de maneira diferente. Não podemos apagar essas ideias. Contudo, todos os dias estamos aptos a reescrevê-las internamente, expandindo nossa consciência.