
Quando a busca pelo “convencional” encontra pessoas inteiras.
Cada coração é um mundo e ainda tem que bombear sangue.
– Curumim.
Via de regra, somos ensinados que a relação com o outro é um campo de batalha onde alguém tem que vencer. Uma negociação austera com um vendedor ou um jogo de xadrez onde ganha quem traça a melhor estratégia. No mundo pós-moderno, por exemplo, é muito comum observar a disputa pelo pódio do desinteresse: ganha quem se importa menos, quem demora mais a responder, quem camufla melhor o brilho no olhar. Pessoalmente, gosto de pensar que existe uma alternativa que subverte essa lógica: a coragem de ser verdadeiro.
Para explicar melhor o que quero dizer recorro à filosofia de Platão e Sócrates. Esses grandes mestres que nos ensinam que a verdade não está nas coisas que vemos, tocamos ou sentimos (o mundo sensível), pois estas mudam, envelhecem e desaparecem. A verdade reside na Forma ou Ideia imutável de cada coisa. Em relação às trocas humanas, na ideia por trás da troca e não das interações de fato. Por exemplo, Imagine uma amizade que você admira. Ela não é “a verdade” do que significa ser amigo; ela é apenas uma participação passageira na ideia absoluta de lealdade.
A verdade é o que permanece quando o objeto físico se vai. Ela é comparada à luz. Assim como o Sol torna os objetos visíveis aos olhos, a Ideia do Bem torna a verdade compreensível à alma. Sem o “Bem”, a nossa razão apenas tropeça em opiniões (doxa), sem nunca atingir o conhecimento real (episteme). E isso também é válido para as relações que cultivamos no caminho, sejam elas amorosas, consanguíneas, trabalhistas.
Ao abrir mão das máscaras e escolher a vulnerabilidade, percebo que o mundo responde em outra frequência. Quando oferecemos verdade, o outro entende que somos mais que a nossa capacidade de manipular um tabuleiro. A honestidade atua como um grande filtro humano; ela afasta o que é raso e convoca o que é profundo a se mostrar e seleciona silenciosamente o que deve permanecer.
Olho para o cenário atual e me pergunto: por que acreditamos que, para sermos livres, precisamos ser emocionalmente distantes ou indisponíveis? Por que o tesão, a conexão e o diálogo precisam, obrigatoriamente, vir acompanhados de uma “responsabilidade” que sufoca?
A resposta que encontrei na areia da praia, entre risadas, anéis e adornos refletindo a luz do sol, é que a fortaleza emocional não é sobre ser inabalável, mas sobre ser acessível, verdadeiro e humano quando o mundo te pede sedução, jogos e poder. Melhor seria estabelecer que, em nossas trocas com outrem, é possível louvar o físico, admirar a mente e respeitar a trajetória do outro sem pretender a posse do mapa alheio.
Por muitos anos observei e observo a construção da relação ideal como uma grande e majestosa gaiola de ouro. Que possamos nos livrar deste referencial de prisão que a publicidade nos vende.
Enquanto escrevo é dia primeiro de março e mais um mês está começando. Nesta oportunidade de agirmos diferente, que foquemos na construção do Ágora: a praça pública onde o diálogo é a única moeda. Onde os filósofos gregos buscavam a verdade no burburinho das ruas, dos comerciantes, dos jovens. E não no distanciamento. É preferível o encontro que ensina e que nos eleva como seres humanos. Ou, encontros que virão e levarão consigo aqueles que em primeira instância nem humanos o são. Destarte, que este mês todos sigamos na busca de lugares, pessoas e situações em que entramos por prazer, ficamos por vontade e saímos com a paz de quem se fez enxergar por inteiro — sem filtros, sem “nuvens”, sem esconderijos.
Talvez você esteja se perguntando. Mas Julia, e sobre o que deixar ir?
Além de ser muito importante definir o que queremos de uma troca com o outro é, sem dúvida, destacar o que não queremos. Será que temos a lealdade de quem se sente obrigado a estar? Não. Mas a lealdade de quem, sendo livre para ser o que quiser, escolhe promover entretenimento, tomar banho de mar e o falar sobre o nada num domingo? Essa talvez sim. Porque, no fim das contas, a maior vitória nunca foi conquistar alguém, mas conquistar a si mesmo a ponto de não ser necessário coagir para enfim sermos notados, desejados e amados. Como diria Milan Kundera, a insustentável leveza do ser.
REFERÊNCIAS
KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 1985.
PLATÃO. A República. Tradução de Anna Lia Amaral de Almeida Prado. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
