Série para o fim de semana: O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale)

Uma ficção dolorosamente real sobre escolhas, liberdade e a força interior diante do caos

Em Felicidade Estóica, falo com frequência sobre a importância de cultivar a verdadeira felicidade — aquela que nasce do exercício das virtudes e do reconhecimento claro entre aquilo que podemos controlar e aquilo que não podemos, de onde nasce o sofrimento. Neste fim de semana, convido você a assistir a uma série que confronta esses conceitos de forma intensa, corajosa e incômoda: O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), produção da Hulu, criada por Bruce Miller, inspirada no livro de Margaret Atwood.

Gilead é um regime teocrático, autoritário e patriarcal que surge nos Estados Unidos após um golpe de Estado. Diante de uma crise ambiental e de fertilidade, o novo governo estabelece uma rígida estrutura social onde as mulheres são divididas por castas e têm seus direitos mais básicos completamente suprimidos. As “aias”, como a protagonista Offred (interpretada magistralmente por Elisabeth Moss), são forçadas a gerar filhos para as famílias da elite, sendo reduzidas a meros corpos a serviço do Estado.

Offred, no entanto, não se resigna. Em meio à vigilância, à opressão e ao silenciamento, ela cultiva pensamentos próprios, memórias antigas e pequenas resistências cotidianas — como esconder um pouco de manteiga para si — como forma de reafirmar sua identidade, sua liberdade interior. Sarcástica, inteligente e inconformada, Offred encarna com força o princípio estóico de que, mesmo quando tudo nos é tirado, a mente permanece como nosso último território livre.

“Se uma causa exterior te perturba, a tua aflição não vem dessa causa, mas, sim, do teu juízo a respeito dela. Em teu poder está a possibilidade de diluir essa aflição.”

Essa é uma frase estóica que encontrei navegando na internet mas nunca descobri o autor. Em cada gesto silencioso de Offred, em cada pensamento que ela guarda só para si, em cada decisão que ela toma para se manter viva — não apenas biologicamente, mas enquanto ser pensante e livre, mesmo dentro de uma prisão, ela pensa dessa maneira.


Por que assistir?

A série é um convite brutal à reflexão: em quantas pequenas escolhas você exerce sua liberdade todos os dias e nem percebe? Escolher sua roupa, estudar outro idioma, decidir não ser mãe agora, amar quem quiser — são decisões que parecem simples, mas que, para as mulheres de Gilead, são impossíveis. O conteúdo é… difícil; doloroso. Enquanto escrevo este texto, ainda estou na terceira temporada.

O principal motivo pelo qual O Conto da Aia deve ser assistido com o olhar estóico: para lembrar o privilégio de poder escolher. No Brasil, apesar dos inúmeros desafios sociais e estruturais, nós temos direitos. Podemos protestar, podemos escrever, podemos sonhar. Podemos resistir.

Além disso, mesmo a série sendo de 2017, ela não foge de temas atuais: a fragilidade da condição da mulher em sociedades patriarcais, o colapso ambiental, o fanatismo religioso,  o silenciamento da comunidade LGBTQIA+ — cujas identidades são apagadas (uma das personagens tem seu clitóris retirado cirurgicamente por ser lésbica) em nome de uma fé distorcida, criada para atender aos interesses dos opressores.

“Não é porque certas coisas são difíceis que nós não ousamos. É justamente porque não ousamos que tais coisas são difíceis!” — Sêneca.

Offred, mesmo presa da Distopia Gilead, ousa lutar contra o sistema opressor que a detém. Em um mundo onde ousar é perigoso, ela ousa — e assim mostra que a verdadeira resistência começa dentro de si.


📍 O Conto da Aia está disponível nas plataformas de streaming e outras plataformas sob demanda. São cinco temporadas já lançadas, com uma sexta e última lançada em maio de 2025.

Assista, reflita e valorize o que você pode fazer hoje.

Porque, mesmo em meio ao caos, você ainda tem escolhas. E esse é o começo da liberdade — e da felicidade estóica: nossas escolhas.