Decisões Difíceis

Olhos: meus.

“Te vi em todos os cantos ou te levei por todos os cantos?”

— Ivyson

Uma das grandes invenções da vida moderna se chama streaming. Isto é, capacidade de transmitir conteúdo sem fazer download de nada.

Era domingo e lá estava eu, cozinhando e ouvindo músicas no streaming. De repente, uma música que eu não ouvia há algum tempo começou a tocar. Me dei conta de que já nem estava mais prestando atenção na comida porque a letra era tão… incisiva? real? crua? Não sei bem o melhor adjetivo para descrever, mas talvez ao ler um pedaço você, leitor, consiga me ajudar:

“Quando a saudade apertar
Lembra que a gente já foi amor
Exagerado, mas era amor (…)

Era amor
Tornou dor
E o tempo curou” — Girassóis, Ivyson.

Ao escrever este texto me dou conta do quanto a consciência do tempo é importante e do quanto ele normaliza diversas questões. Como a relação de amor (ou ausência dela) que dirigimos a nós mesmos. Talvez você me pergunte, o que isso tem a ver com a filosofia? Com a tal música Girassóis? Com streaming?

Porque a filosofia permite que mergulhemos em nós mesmos. À clareza, o bom julgamentos, os bons princípios e a boa saúde, como ensina o diário estóico. Antes do exacerbamento da tecnologia havia amor exagerado! Pelo discurso. Pela boa oratória. Pelas discussões. Pela política. Pela polis e pelo que representava ser um cidadão, pela prática das virtudes.

Que fizemos com esse amor?

Nos valemos do trânsito, do chefe “ruim”, da falta de dinheiro, do esgotamento mental, da inflação, dos vícios para dizer “Era amor”, não mais. Pior, entramos em estado de sofrimento profundo e o que era amor, torna-se dor não tratada, que acumula em nosso aparato biológico suscitando não só em doenças psicossomáticas como também problemas psicológicos críticos: burnout, crises de pânico, ataques de ansiedade. Mesmo depois de tudo isso, continuamos usando de subterfúgios para empurrar mais de tudo, pra dentro. Batemos no peito para dizer:

Jajá será sexta-feira e eu vou poder descansar!

Já vem o feriado de carnaval e eu vou poder curtir.

Vou tirar 15 dias de férias! Já reparou que quando voltamos parece que o trabalho triplica? e a quantidade de e-mails? é…. será que eu vendo minhas férias?

O tempo. cura. a dor. e o amor.

Nos lembremos de um coisa: nossos olhos são NOSSA responsabilidade. Foi Nietzche quem disse: “As circunstâncias objetivas poder ser as mesmas, nossa interpretação, percepção, orientação pode ser radicalmente diferente, e isso faz diferença”. Ao passar pela vida, deixe que seus olhos realmente vejam e tenham consciência do que acontece. Há quanto tempo você é carregado pelo tempo e não permite a si mesmo afagá-lo? Ele é como uma criança que cresce rápido e, há meses sem a ver, proclamamos: “Como esse menino cresceu!”.

Não permita. Teus olhos, tua responsabilidade.

Pensamentos Avulsos, Decisões Difíceis

Ah, o amor.

Você diz que ama as flores e as corta.

Você diz que ama os peixes e os come.

Você diz que ama os pássaros e os prende em gaiola.

Quando você fala “eu te amo” eu sinto medo.

Jacques Prívert.

Uma das grandes alegrias de morar longe (a uma distância de um avião ou 10 horas de carro) daqueles que você ama – família e amigos – é recebê-los em casa depois de meses sem vê-los.

Num desses meses mais tranquilos no trabalho, meu melhor amigo ficou hospedado na minha casa e decidimos ir à Praia (vai esperar o que de dois cariocas há mais de 3 meses sem se ver, não é?). 

Reuni dois amigos que fiz em Vitória, cidade em que moro no momento em que escrevo esse texto, eles se juntaram a nós no evento praia (se você é natural do Rio de Janeiro sabe do que estou falando) e arrumando as coisas para sairmos de casa descobrimos que só tínhamos uma única canga, para 4 pessoas. Pensei e disse: “Bom, posso levar meu tapete de yoga”. Todos gostaram da ideia e lá fomos nós, pedir um uber.

A manhã seguiu. Chegamos na praia cedo e então começa aquele ritual de protetor solar, arrumar roupa na mochila, procurar o melhor local etc. Feito tudo, meu amigo foi mergulhar e eu, estiquei meu tapetinho na areia. Quando eu ia pegar sol, vejo meu amigo retornando e conversando com um rapaz, convidando-o para sentar conosco. A primeira coisa que ele pergunta: “Esse tapetinho é de quem?”

Respondi que era meu e dali para frente, conversamos amenidades até que ele vira e fala, todo empolgado: “Eu sou professor de yoga, eu pensei em trazer meu tapete para praia mas eu ainda vou fazer uma trilha para ver o pôr do sol mais tarde”. Depois do baque inicial, porque, gente, alguém tem dúvida que a lei da atração existe e funciona? 

Nós praticamos yoga juntos por mais de uma hora, o que foi incrível porque eu nunca tinha praticado outdoor, ao ar livre. No fim do dia, já em casa, um filme passou pela minha cabeça.

Em 2018 eu tive uma pequena lesão na coluna (uma fissura entre as vértebras L4 e L5) que fez o ortopedista me proibir de praticar exercícios de impacto por 1 ano. Isso porque eu tinha tanto medo de amar e me conectar com as minhas emoções que eu forcei meu corpo ao limite do limite a ponto do médico, na consulta de diagnóstico da ressonância magnética me perguntar: “Você quer mesmo operar a coluna antes dos 20 anos?” O que eu deixei passar para chegar nesse ponto? Eu me perguntava. A resposta: Amor.

Minha preocupação é esta: Qual o impacto do amor que direcionamos (ou deixamos de direcionar) a nós mesmos? Ou pior, quando no meio deste jogo do amar a si mesmo, descobrimos que nunca o fizemos? 

Spoiler alert: Esse foi o meu caso. 

Há alguns anos eu luto com a cobrança interna de ser apaixonada por algo que eu queira trabalhar para o resto da vida, o que me levou a criar o Felicidade estóica. Descobri na jornada que o amor genuíno é um exercício diário, como o artista modelando uma nova peça do zero, peça esta que sobrevive às intempéries da vida: chuva, sol, tristeza, perigo, ameaça, boletos haha. Contudo, de tempos em tempos, se você ainda não o fez, é necessário colocar a placa “fechado para reforma” para que possamos nos conectar com aquilo que na essência nos faz feliz e iniciar o trabalho duro. Colocar a mão na massa.

Fonte: https://pt.slideshare.net/slideshow/esculpindo-a-vida/31057244

Seja lá o que for que você vem lutando e se digladiando (sim, você com você mesmo)…a resposta está aí! Debaixo desse monte de pedra. 

Aqui vai uma lista de martelos e cinzéis que me ajudaram e que também podem te guiar nessa jornada linda:

  • Terapia
  • Exercício físico
  • Journalling 
  • Meditação
  • Yoga
  • Aprender a tocar um instrumento
  • Ler poesia
  • Se desafiar em períodos sem recompensas rápidas + inserir recompensar de longo prazo. Alguns exemplos:
  • 90 dias sem cigarro, bebida, refrigerante, sexo, masturbação, pornografia, ir a bares, comer açúcar refinado, dormir com a televisão ligada, apostar, pedir comida por aplicativo etc.
  • 90 dias usando os finais de semana para ir fisicamente na natureza, se expor ao sol ao acordar, ligar em vez de mandar mensagens, desligar todas as notificações, não usar celular ao deitar na cama, cozinhar suas próprias refeições. 

Não existe receita de bolo. Meu desejo? 

Que ao ouvir o homem falando “eu amo” sintamos todos orgulho e não medo.