Pensamentos Avulsos

Nem toda corrente é prisão.

Nem toda corrente é prisão.

Algumas te mantém no caminho.

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@juliasporto

A corrente prende ou orienta quem sabe ancorar.

— Julia Porto

Tem uma ilusão confortável que muita gente escolhe viver: a de que, se prestarmos atenção suficiente, a vida vai nos avisar antes de ficar difícil.

Não vai.

A vida não entrega manual. Não destaca em vermelho os perigos. Não te dá um mapa com as correntes marcadas.

Ela simplesmente acontece.

E, quase sempre, quando você percebe, já está dentro: no meio do olho do furacão.

No último feriado, eu senti isso na prática.

Tenho treinado natação com constância. Comecei na piscina, dentro da raia, onde tudo é previsível: água calma, temperatuda agradável, espaço delimitado, controle absoluto do ambiente. Mas decidi ir além — comecei a nadar na praia, às margens.

Não pelas condições ideais. Pelo contrário: pelas condições reais.

No início, eu ia como qualquer pessoa: de biquíni, sem muita preparação. Até perceber que quem levava o mar a sério se preparava diferente. Óculos apropriado, touca visível, boia de sinalização com apito para emergência.

Aquilo inconscientemente me ensinou algo importante: existe uma diferença entre estar no ambiente e estar preparado para ele.

Algumas semanas depois, montei meu próprio “kit”.

No feriado, com meus pais na praia, resolvi nadar. E no mar aberto. Antes de entrar, meu pai — que passou 20 anos no mar como pescador — me alertou: o mar estava puxando.

Eu fui mesmo assim.

Nadei cerca de 500 metros. A praia já era pequena atrás de mim. Até que decidi voltar.

Foi aí que o cenário mudou.

Na ida, parecia que eu avançava com facilidade. Na volta, cada braçada parecia não sair do lugar. A corrente não me empurrava mais para frente — me levava para o lado.

Era como correr arrastando um saco de cimento.

O corpo começou a cansar. E junto com o cansaço, veio um início de nervosismo.

Esse é o ponto crítico.

Porque não é o mar que te vence primeiro — é a forma como você reage a ele.

Eu parei.

Respirei.

Observei a direção da corrente.

E fiz o único movimento possível naquela situação: em vez de lutar contra o mar, comecei a nadar com inteligência — a favor da corrente, ajustando a trajetória aos poucos em direção à praia.

Demorou mais do que eu esperava. Foi mais cansativo do que eu queria.

Mas eu cheguei.

Quando coloquei os pés na areia, meu pai só disse: “Deu ruim lá, né?”

Eu ri. Porque, no fundo, não deu.

Deu exatamente o que tinha que dar.

O mar estava lá. Fazendo o que o mar faz.

A diferença é que, dessa vez, eu estava minimamente preparada para lidar com ele.

E é aqui que entra o ponto que quero compartilhar com você, leitor.

A vida funciona da mesma forma.

Os “mares revoltos” não são exceção. São regra.

Relacionamentos difíceis, decisões profissionais, perdas, frustrações, momentos em que você nada, nada… e não sai do lugar.

Você pode passar a vida tentando evitar essas situações — ou pode construir, deliberadamente, as ferramentas para atravessá-las.

Respiração. Técnica. Leitura de cenário. Equipamento. Estudo. Repetição. Resistência emocional.

Virtudes.

É exatamente isso que a filosofia nos propõe — especialmente em Aristóteles.

A ideia de uma vida virtuosa não é abstrata nem moralista. É prática.

Virtudes são treináveis. São hábitos construídos. São recursos internos que você desenvolve antes de precisar deles.

Coragem não nasce no momento de perigo.
Autocontrole não aparece no meio do caos.
Clareza não surge no auge da confusão.

Tudo isso é construído antes.

Assim como aprender a nadar.

A vida não vai diminuir a força das correntes para te poupar.

Mas você pode — e deve — aumentar a sua capacidade de lidar com elas.

Porque, no fim, liderar a própria vida não é sobre controlar o que acontece.

É sobre não se perder quando acontecer.

Pensamentos Avulsos

A decisão que inaugura destinos

Talvez por isso o “vir a ser” seja tão fundamental que, de certa forma, está refletido até nas estruturas que criamos para proteger a vida, as Leis. Há em nós — e nas sociedades que organizamos — um reconhecimento implícito de que aquilo que ainda não é plenamente também merece existir.

Mas há um ponto crítico aqui: nada disso acontece sem decisão.

Ser amigo de si mesmo

Sêneca escreveu a Lucílio algo simples e radical: “Sê tu mesmo o amigo que gostarias de ter.”

Essa frase, quando levada a sério, muda tudo.

Porque ser amigo de si mesmo não é se poupar — é se conduzir.
Não é ceder — é orientar.
Não é buscar conforto imediato — é sustentar aquilo que, no longo prazo, nos torna melhores do que éramos.

Foi isso que comecei a compreender, ainda aos 18 anos, quando decidi trilhar um caminho filosófico. Mas hoje, uma década depois, enquanto escrevo este texto, afirmo: compreender não é o mesmo que viver.

Durante anos, essa decisão existiu mais como intenção do que como prática. Até que, algo mudou. Eu me coloquei propositalmente em um contexto que exigia de mim aquilo que eu dizia valorizar: morar sozinha, em outro estado, em um trabalho novo, sem família, sem amigos, longe das referências que antes sustentavam minha identidade.

Foi ali que a filosofia deixou de ser teoria e passou a ser ferramenta sustentadora da decisão: a busca pelo propósito.

Quando você entende que decidir custa

Essa semana, em São Paulo, a vida me deu um desses pequenos testes que parecem banais — mas não são.

Fiquei hospedada em um hotel funcional: confortável, bem localizado, mas sem academia, sem piscina, sem espaço adequado para estudo. Um ambiente feito para quem acorda, toma café (se enche de comida com tudo que sabemos que tem num café da manhã de hotel), trabalha, dorme e repete.

Para a maioria das pessoas, isso não seria um problema. Para mim, era. Porque eu tomei uma decisão junto com o meu médico. Eu seguiria o pós operatório à risca.

Nadar não é opcional — é parte da minha recuperação. Treinar não é estética — é disciplina da recuperação. Estudar não é obrigação — é direção e treino da mente. É a razão, direcionada à virtude, que sustenta tudo. Então como deixar de treiná-la também através do estudo?

Durante dias, a agenda não ajudou. Reuniões, deslocamentos, vôo errado, conexão nos confins (literalmente, risos), cansaço. Sempre havia um motivo plausível para adiar a escolha. E todos os dias eu estava lá, de novo. No sábado, eu decidi mais uma vez agir de acordo com meu vir a ser. Só que dessa vez, foi a vida quem me surpreendeu. 

Ela não sabe, mas me explicou — em um único dia — a importância de nunca esperar condições ideais.

De não negociar comigo mesma.

De não me diminuir diante do contexto, do desafio ou das pessoas.

As costas doíam. Ainda assim, encontrei uma piscina a 6 km do hotel e fui. São Paulo pela manhã é gelado. A água, parada como um lago de gelo. O treino foi difícil. Mais ainda, respirar do lado direito — algo que vem me desafiando todos os treinos por eu ser canhota, confesso que já estava até desistindo. Mas, sob a orientação do novo professor, começou a destravar. Coordenação, respiração, confiança em cada braçada.

Saí da água melhor do que entrei. Mas o mais interessante ainda estava por vir.

O encontro que nasce de uma decisão

No vestiário, entre o banho e aquele show que é uma mulher se arrumar fora de casa (shampoo, pente, roupas, toalha, cremes etc) e uma conversa casual ao fundo, encontrei duas mulheres. Começamos a falar — primeiro de forma leve, depois com uma profundidade e um rumo inesperado.

Uma delas compartilhou comigo a perda da mãe para o câncer. A dor foi o que a levou à decisão do autocuidado. Ao movimento. À decisão de viver de outra forma. Viver, acima de tudo, honrando a memória de sua falecida mãe.

Demos adeus a nossa outra colega e decidimos fazer um segundo treino juntas, na academia do shopping, No caminho até lá, seguimos conversando. Histórias diferentes, mas um ponto em comum: a decisão de não se render ao que nos aconteceu.

Treinamos juntas. E, ao nos despedirmos, fizemos uma promessa de um lado improvável e, ao mesmo tempo, profundamente séria: em 2031, cruzaremos juntas a linha de chegada da prova de Ironman no Rio de Janeiro.

Pode parecer exagero — duas desconhecidas fazendo um pacto de longo prazo. Mas não é sobre o evento. É sobre o que o tornou possível. Tudo aquilo nasceu de uma única decisão: a de ir treinar naquele dia. Um sábado, no primeiro horário, numa folga, e no meu caso, de uma viagem.

Decisões mudam destinos (mesmo quando ninguém entende)

A decisão de participar de um triathlon mexeu em inúmeros aspectos da minha vida aos quais eu era profundamente apegada: noites longas, álcool, rotina desregulada, encontros que começavam tarde e terminavam mais tarde ainda. Ou cedo, mais especificamente chegando da balada e tomando café na padaria.

Troquei tudo isso por algo simples — e, para muitos, estranho: dormir às 21h. Acordar às 05:00h para treinar (mesmo nos finais de semana), parar de beber, estudar filosofia nas folgas, comprar uma nova bicicleta em vez de um carro.

A reação não demorou:

“Ah, mas só hoje.”
“Você compensa depois.”
“Estamos em São Paulo…”
“Isso é frescura.”

Mas a verdade é que toda decisão real cobra um preço social.

Porque, quando você muda, você desorganiza o ambiente ao seu redor. E ele se reajusta. Porque você ajustou a si mesmo.

Alguns ficam.
Alguns crescem junto.
Alguns vão embora.

E tudo bem.

As amizades que permanecem são aquelas que também decidiram — decidiram crescer, decidiram apoiar, decidiram caminhar. Decidiram crescer na mesma direção.

A amizade como força que movimenta

Existe algo curioso na amizade verdadeira.

Ela não te empurra — mas te impulsiona.
Não te cobra — mas te eleva.

É como o movimento de uma hélice eólica: no começo, há resistência, gravidade. O ar parece insuficiente. As pás são pesadas. Você nem acredita que é possível mexê-las.

Mas, quando elas começam a girar, algo muda.

A própria rotação passa a gerar mais movimento. O impulso inicial gera outros e acumula mais força. O que antes era esforço vira geração de energia.

Assim são as decisões sustentadas — e as relações que nascem delas.

Elas criam um campo de força onde o crescimento deixa de ser exceção e passa a ser direção.

O ponto central

No fim, tudo volta ao mesmo lugar:

Você já é, em potência, aquilo que pode se tornar.

Mas essa potência não se realiza sozinha.

Ela exige decisão.

Decidir dormir cedo.
Decidir treinar.
Decidir estudar.
Decidir se afastar.
Decidir se aproximar.

Decidir dialogar.
Decidir, todos os dias, ser o tipo de pessoa que você se orgulha.

Porque o destino não é algo que se encontra.

É algo que se constrói — uma decisão de cada vez. 

E não decidir… também é uma decisão.

Pensamentos Avulsos

O “pace” do coração

Você já parou para observar como o Rei Leão estava certo? A vida é, de fato, um “ciclo sem fim que nos guiará”. Ela não caminha em linha reta; ela gira. Em um instante, o foco é o vigor dos músculos e a clareza da saúde; ou aquela tatuagem que todo mundo está fazendo. No giro seguinte, o choro de um filho recém-nascido preenche a casa, ou o silêncio de uma mudança de endereço ecoa pelas salas vazias. Relacionamentos florescem e fenecem como as estações, e a notícia de uma doença em alguém que amamos interrompe o ritmo da música. É… a vida é cíclica, agridoce e inevitável.

O problema, no entanto, não é para onde o ciclo nos leva, mas o que deixamos de enxergar enquanto rodamos com ele. Como Epicteto já nos alertava há 2 mil anos atrás: “Não são as coisas que atormentam os homens, mas as opiniões que eles têm sobre as coisas.”

À medida que pequenos, médios e grandes eventos nos atropelam, dia após dia, nós nos tornamos arquitetos de indicadores. Criamos planilhas para a existência. Monitoramos obsessivamente a velocidade média da corrida na orla, o cronômetro que marca o engarrafamento, os litros de água que descem pela garganta e as fatias de um salário que, em teoria, compra pedaços de felicidade. No digital, a obsessão ganha outros contornos de urgência: contamos os minutos de vácuo no WhatsApp e dissecamos a métrica cruel entre quem visualizou nossos stories e quem, de fato, deixou um “coraçãozinho” pulsando na tela fria.

Nos cercamos de números e KPIs para tentar provar a nós mesmos que estamos indo bem. Mas e o pace do seu coração, você mede?

Não falo da frequência cardíaca que o seu relógio de última geração marca enquanto você corre, anda, nada. Falo do ritmo da sua alma. Daquela batida surda que acontece no centro do peito quando o mundo lá fora grita. E se a oxigenação que o smartwatch marca fosse a deliberação sobre o nosso interior? A nossa essência, ao contrário do que o status quo quer que você acredite, não é um passageiro mudo em um carro em alta velocidade. Carl Jung, com a precisão de quem conhece as sombras, já costumava dizer:

Eu senti o peso dessa máquina esta semana. Faltando sete dias para o fechamento do ano fiscal na empresa onde trabalho (multinacional que olha o ano de abril março x Brasil que olha janeiro a dezembro), eu me vi no centro de um paradoxo barulhento. De um lado, a consciência afiada das entregas, o foco cirúrgico no cumprimento das metas de março. Do outro, um cansaço que não é físico, mas de perspectiva. E o mundo? O mundo não para para que possamos respirar. Ele despeja sobre nós festivais, o jogo do Flamengo, o riso dos amigos em uma balada e um noticiário que, por vezes, parece uma carta de despedida da humanidade: guerra, estupro, corrupção, feminicídio.

Nesse turbilhão de estímulos, com que frequência você para (para mesmo) e ajusta a rota? Em que momento você escuta quando o seu coração pede um tempo de silêncio? Veja, não um desvio no caminho, mas caminho algum. Isto é, introspecção, comedimento, solitude.

Esta semana, o meu convite é para que você desacelere o olhar. Sinta o estado do seu interior à medida que pessoas e situações convergem e divergem de você. Tenha a coragem quase revolucionária de parar diante de um convite, de uma tarefa ou de uma notícia, e deliberar em silêncio: Isso está adequado à minha alma? Ao meu “eu” superior?

Os estóicos chamavam essa bússola interna de Daimon — uma centelha divina, um guia silencioso que usa a razão para filtrar o que é nobre e o que é apenas ruído. Agir com o Daimon é dar o polimento final na própria vida, através do uso correto das aparências¹, escolhendo a temperança quando o mundo exige euforia, e a justiça quando o mundo oferece conveniência.

Não permita que sua alma corra no automático, sendo levada por algoritmos ou calendários fiscais. Monitore o ritmo que nasce de dentro. Garanta que cada passo no asfalto esteja em harmonia com o passo do seu Ser. Como Sócrates disse a Alcibíades:

– Tente ser belo.

Boa semana e, acima de tudo, bom monitoramento interno.

¹ Aparências (Phantasia): Na psicologia estoica de Epicteto, são as impressões que o mundo externo causa em nossa mente. O exercício da virtude consiste em não aceitá-las cegamente, mas em examiná-las através da razão para decidir se devemos ou não dar importância a elas.

REFERÊNCIAS

EPICTETO. Discursos. Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien. São Cristóvão: Editora UFS, 2014.

JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991. (Obras completas de C.G. Jung, v. 6).

PLATÃO. O Banquete. Tradução de José Cavalcante de Souza. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991.

Pensamentos Avulsos

A Morte em Vida: O Perigo de Perder de vista o que importa

mulher contemplando o nada

“Não é a morte que um homem deve temer, mas ele deve temer nunca começar a viver.”

Sabe o que é muito assustador? Perder o gosto pela vida. Acordar um dia e perceber que os livros não têm o cheiro de alguém. Que o sol já não brilha tão bonito e que um dia de céu de brigadeiro não te dá mais vontade de ir à praia. É uma vida que a barriga não dói de tanto dar risada. Onde a rotina te prende e você não se vê mais fazendo um café da manhã de hotel para receber o domingo. É prostante essa vida. Imagine, o cheiro de café recém passado não te causa nada, os cachorros passeando abanam o rabo e você não se sente feliz com esse simples gesto. É a existência de estar numa cidade paradisíaca, passar por um show de uma cantora brilhante e não se sentir abraçado pelas notas musicais. É nesse meio tempo, encontrar pessoas mas não se sentir preenchido pelas conversas. É estar em um corpo e não se regozijar em sentir os músculos trabalhando, o suor na pele, a endorfina fluindo por todos os poros. 

Você já se sentiu assim? Imagino que todos nós… em algum momento da vida. 

Agora eu quero te convidar a imaginar o cenário oposto e mais importante, lembrar que este é totalmente possível e alcançável. Vamos comigo?

A luz do sol atravessa a fresta da cortina e toca seus olhos não como um despertador invasivo, mas como um convite. Você acorda e, antes mesmo de abrir os olhos por completo, sente o metabolismo pulsar. Não é ansiedade; é o “motor” da vida já em rotação e você pode senti-lo. Uma presença vibrante que preenche cada célula. Você se levanta sentindo que a alma está perfeitamente ajustada ao corpo, como se houvesse uma simetria exata entre quem você é e o que o universo espera de você.

No banheiro, a água gelada desperta os sentidos. Enquanto lava o cabelo, você sente o peso do sono escorrer pelo ralo, deixando as incertezas. Aqui, reside apenas a clareza. Há uma gratidão silenciosa que transborda. Ao caminhar para a cozinha, a Alexa toca uma playlist aleatória que parece ter sido cunhada pelo próprio destino — cada nota ressoa com seu estado de espírito. Diante das frutas coloridas na mesa, você é atingido pelo privilégio da escolha. Em um mundo de tantas carências, ter a liberdade de decidir entre bananas ou um pedaço de mamão torna-se um ato sagrado de reconhecimento da abundância.

O dia flui. As tarefas domésticas, antes fardos, agora são movimentos de organização do seu “espaço”, um reflexo da ordem interna que você conquistou. No almoço, o plano muda. Você decide ir para a rua, sentir o calor das pessoas. Acaba sentando-se com alguém que acabou de conhecer, e a conversa não é só sobre amenidades. Vocês mergulham em confissões honestas sobre o passado, os medos que ainda sussurram e os planos que gritam para o futuro. É uma conexão de almas que reforça a ideia de que a convivência, quando pautada pela verdade, potencializa nossa existência.

A noite chega e te leva a uma festa de aniversário improvável. Você dança forró, samba, canta letras que estavam guardadas no fundo da memória. Ao ver pessoas se pintando com purpurina, você sorri: “A vida é isso. Brilho, energia, alma, contato”. Nada do que você planejou para o dia aconteceu, mas tudo o que o seu “ser” precisava simplesmente veio! E você nunca se divertiu TANTO.

Ao chegar em casa, o silêncio das paredes é o anfiteatro para a sua festa interna. Sentado no sofá, você percebe que a vida sempre foi simples assim, mas você estava ocupado olhando para o lugar errado. Focado em “projetos” de ter e fazer, enquanto o segredo estava no plano de ser.

O Elo com a Filosofia: Por que “a vida presta”?

Coisas que acontecem, pessoas que conhecemos, situações que passamos. Isso tudo por si só é apenas parte da vida. A vida mesmo é na verdade um projeto. E ele se chama “Ser”: A  vida é esse agridoce processo de vislumbrar diariamente quem você quer se tornar, o polimento das suas virtudes e o alinhamento com o propósito universal: nos tornarmos maiores do que quando começamos: mais justos, mais corajosos, mais temperantes, mais humanos.

Creio que, muitas vezes, não conseguimos enxergar este lado poético, majestoso e inefável da vida porque, na verdade, não a vemos como o projeto do ser, mas sim como as coisas a conquistar. Desejos de consumo e fantasias de fuga estão longe de transmitir a potência que se chama vida. Haverá um dia em que será preciso descrevermos o que é “bom” não com o que foi “conquistado” externamente e testemunhado pela sociedade e sim por ter assumido o controle das nossas ferramentas mentais e emocionais para encontrar algo verdadeiramente revolucionário: o interior de nós mesmos. 

Quando você ajusta seu olhar para a vida como um todo, você percebe que a vida “presta” porque seus sonhos individuais se alinharam aos sonhos da natureza, o Dharma¹. Nesse estado de sincronicidade, você não caminha sozinho; o universo “patrocina” seus passos, transformando esse dia comum em uma jornada épica de sentido rumo à eterna construção do ser.

¹ Dharma: Termo de origem sânscrita que, no contexto da filosofia perenial, refere-se à “Lei Universal” ou à “Ordem Cósmica”. Representa o papel fundamental que cada ser deve desempenhar para estar em harmonia com o todo. Enquanto o projeto busca satisfações pessoais e temporárias, o alinhamento com o Dharma significa viver de acordo com a própria natureza e com a inteligência que organiza o universo, transformando a existência em um ato de serviço e evolução espiritual.

Inspiração para a semana

Assista a aula que me ajuda a reajustar a rota sempre que necessário.

Pensamentos Avulsos

Guia de sobrevivência para dias de caos

Guia de sobrevivência para dias de caos

Como não se destruir emocionalmente enquanto caminha.

mulher naa montanha admirando a paisagem

Olho a cidade ao redor e nada me interessa. Eu finjo ter calma, a solidão me apressa.

– Ana Carolina

Quantos e quantos dias somos atravessados pelo desespero…

da quantidade de problemas que temos que criar solução.

Desde que acordo até a hora que vou deitar, perco de vista a quantidade de desafios impostos a mim pela vida. Será que eu dou conta? É essa frase que muitas vezes fica ali orbitando meus pensamentos, como um hamster na rodinha, infinitamente. Enquanto meu coração carrega um mix de emoções desenfreadas: raiva, frustração, tristeza, solidão, melancolia. 

Esse sábado eu decidi que meu treino seria uma caminhada longa, mais precisamente de 10km. Pelos meus cálculos, eu andaria por mais ou menos uma hora e meia, por isso resolvi escolher uma palestra sobre o autor que estou lendo agora, Epicteto, um dos maiores filósofos estóicos da história. Eu começara a aquecer as pernas, caminhando em uma velocidade lenta enquanto a professora Lúcia Helena Galvão já ia fazendo suas primeiras considerações sobre o Filósofo. Até que, de repente, ela traz uma frase que me bateu como um nocaute de UFC, uma citação de outro autor que gosto muito mas não conhecia: É mais fácil o homem desenvolver uma máquina que nos leve à lua do que um conhecimento que nos leve ao interior de nós mesmos” (JUNG, Carl, 1957).

Vivemos na Era da invasão silenciosa do nosso íntimo. Isto é, da nossa essência mais primordial. Essa usurpação do nosso núcleo vem do que Sócrates chamava de “mundo das aparências”, os famosos fatores externos: o clima, a condição financeira, o status social, como te tratam, a família que estou inserido, o governo vigente. E esse mundo sensível não apenas sussurra atrocidades em nossos ouvidos. Ele grita através das telas, do algoritmo, da inteligência artificial. O tempo todo este mesmo agente redige e nos entrega uma lista do que “nos pertence”: o carro do ano, a casa urbana perfeita, o sucesso profissional inabalável, a família que não briga, o shape do momento. O resultado? Uma legião de indivíduos emocionalmente angustiados e insuficientes, cujas vontades foram sequestradas pelo que é externo. E às vezes – senão várias ou a maioria delas – esses indivíduos somos nós.  

Como a razão nos devolve a posse de nós mesmos

mulher contemplando o nada

Há dias mais difíceis do que outros. Dias em que você se pergunta se não é possível que um buraco se abra no chão e você possa deitar ali em posição fetal. Sem ninguém pra te chamar, sem nenhum e-mail no trabalho pra responder, com todas as notificações silenciadas. Você se deita no quarto escuro e deseja, na verdade, que o mundo inteiro esteja em modo avião.

O que o estoicismo tem a nos dizer nesses dias? É justamente nesse esgotamento que a filosofia deixa de ser uma abstração e se torna um kit de sobrevivência. Enquanto escrevo repasso minhas anotações do livro Discursos, de Epicteto. É interessante notar que o autor, que escreveu a obra por volta do século II, já ensinava que a felicidade não depende da aquisição de algo, mas de uma faculdade chamada vontade, que podia ser má ou boa para alma através do bom uso da razão. Eu vejo que o uso da razão é como observar duas partes que moram dentro de nós. Essas duas partes caminham juntas em uma rua de chão, imersas no seu destino. Enquanto uma se depara com uma pedra e diz: “Isto é um obstáculo no nosso caminho, vai nos atrasar!” A outra rebate: “Olha! Uma pedra para descansar antes de continuar a jornada!”.

Tolstói costumava resumir isso com uma frase bem poderosa (que particularmente acho genial): “há quem passe por uma floresta e enxergue apenas lenha para sua fogueira”. Essa semana, eu me vi assim. Olhando apenas para a ‘lenha’ do cansaço, esquecida da floresta de possibilidades que habita os meus caminhos. Recebi um convite do meu chefe para conduzir uma palestra de três horas em São Paulo sobre inovação no comércio exterior. O primeiro ímpeto da minha razão foi: caos. Minha mente disparou uma enxurrada de pensamentos sabotadores como: “Você não tem conteúdo para três horas. Você é jovem demais, você é mulher num ambiente majoritariamente masculino, você é uma ‘menina’ que que acabou de entrar nessa área. E se você não souber a resposta para um problema que a plateia trouxer?”.

Na sua semana talvez o desafio, o conflito, a dificuldade não tenha sido uma palestra ou algo no trabalho. E sim um contratempo com seu filho, uma doença, o falecimento de alguém próximo, pouco dinheiro. É aqui que o estoicismo se torna mais desafiador e, paradoxalmente, mais reconfortante. Ele nos ensina que exercitar a filosofia é sentar-se à mesa do escritório da razão e julgar as impressões advindas do mundo antes de dar assentimento a elas para invadir nosso ser. Para os filósofos como Epicteto, a felicidade não reside em acordar cedo, fazer dieta, ou administrar bem seu dinheiro, a vida que vale a pena ser vivida é aquela em que nós, enquanto seres humanos, usamos a capacidade de escolher deliberadamente o que é o nosso bem espiritual e mental. É o filtro que decide: isto entra na minha alma ou isto fica do lado de fora?

Imagine o seguinte. De um lado, sua mente é como uma sala de reuniões dessas bem corporativas em que o único objetivo é tomar uma decisão. De outro, o mundo lança impressões (aparências) dentro dessa sala o tempo todo: “Você precisa disso para ser feliz”, “Isso é uma tragédia”, “Aquele homem te ofendeu”, “você viu como aquela mãe vestiu a filha dela?” e por aí vai. Até que, vendo tudo isso constantemente, alguém no escritório – você e sua vontade – precisam tomar uma decisão. E esta geralmente é um dilema¹.

Ao fazer esse grande processo de decantação da alma a beleza do ser humano se mostra: conseguimos enxergar que nossa vontade é insubjugável. Que, se assim desejarmos, podem nos acorrentar, exilar, silenciar, abusar. Entretanto, ninguém pode nos forçar a assentir ao que julgamos falso, equivocado, divergente da nossa essência.

Como usar a razão quando meu entorno só traz caos?

O uso da razão é internalizar esta máxima: a felicidade é o sutil reajuste do nosso caráter pela vida afora. Se não te ensinaram ou você não sabe ainda como perseguir o que é nobre, bom, justo, corajoso, temperante, virtuoso, é você quem precisa ser seu próprio instrutor. E começar agora.

Transformando Monstros em Oportunidades

Se você deseja o bem, deve buscá-lo dentro de si mesmo. A única coisa que você controla. O corpo, as posses. sua reputação nas redes sociais —  nada disso é seu. O corpo adoece, a aparência muda, as posses se vão. Sua disposição de caráter, não.

Cada desafio — seja uma notícia triste no feed ou uma injustiça no trabalho — é como os monstros para Hércules. Sem o Leão de Nemeia ou a Hidra de Lerna, Hércules seria apenas um homem comum. Foram os desafios que permitiram que ele demonstrasse sua grandeza de alma. Esta semana, procure usar a sua faculdade racional para pensar sobre o uso correto das aparências. Não por um fim específico: ganhar dinheiro, ser promovido etc. Mas pelo fim em si mesmo: nosso aprimoramento moral.

O que é correto para mim? ou, o que é correto nessa situação?

O que entendo por bom, nobre e justo?

O que é coragem? Justiça? como aplicar esses conceitos na minha vida?

Depois de deliberar sobre o que você entende sobre o que é a vida boa, virtuosa, ética e justa honre esta vida. Ao decidir todos os dias o que pertence a você e essa vida virtuosa que você almeja. Encare os momentos pelo que eles são, aplique os princípios da escolha e da recusa no dia a dia. Ao final, você descobrirá que a paz não vem de um mundo sem guerras, mas de uma vontade imparável de deixar vir exatamente o que lhe pertence: a sua capacidade de pôr à prova seu discernimento, integridade e ação nos tempos de paz e também nos mais hostis. Nada mais.

¹ Dilema: Situação de escolha difícil na qual a mente é confrontada com alternativas conflitantes, exigindo que a vontade exerça o discernimento para decidir o que é moralmente correto em oposição ao que é apenas vantajoso ou urgente.

REFERÊNCIAS

EPICTETO. Discursos: Livro I. Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien. São Paulo: Edipro, 2021. E-book. Disponível em: Kindle Unlimited. Acesso em: 14 mar. 2026.

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Tradução de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. Petrópolis: Vozes, 1991.

GALVÃO, Lúcia Helena. A Arte de Viver: Epicteto. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/5xnnhxguIFSyhRkfNBBcKY?si=hqlTmw4SRS6-g4yr_zpOrQ. Acesso em: 14 mar. 2026.

JUNG, Carl Gustav. O eu desconhecido: civilização em transição. Tradução de Maria Luiza Appy. Petrópolis: Vozes, 2012.