Pensamentos Avulsos

Guia de sobrevivência para dias de caos

mulher triste contempla o nada

Guia de sobrevivência para dias de caos

Como não se destruir emocionalmente enquanto caminha.

mulher naa montanha admirando a paisagem

Olho a cidade ao redor e nada me interessa. Eu finjo ter calma, a solidão me apressa.

– Ana Carolina

Quantos e quantos dias somos atravessados pelo desespero…

da quantidade de problemas que temos que criar solução.

Desde que acordo até a hora que vou deitar, perco de vista a quantidade de desafios impostos a mim pela vida. Será que eu dou conta? É essa frase que muitas vezes fica ali orbitando meus pensamentos, como um hamster na rodinha, infinitamente. Enquanto meu coração carrega um mix de emoções desenfreadas: raiva, frustração, tristeza, solidão, melancolia. 

Esse sábado eu decidi que meu treino seria uma caminhada longa, mais precisamente de 10km. Pelos meus cálculos, eu andaria por mais ou menos uma hora e meia, por isso resolvi escolher uma palestra sobre o autor que estou lendo agora, Epicteto, um dos maiores filósofos estóicos da história. Eu começara a aquecer as pernas, caminhando em uma velocidade lenta enquanto a professora Lúcia Helena Galvão já ia fazendo suas primeiras considerações sobre o Filósofo. Até que, de repente, ela traz uma frase que me bateu como um nocaute de UFC, uma citação de outro autor que gosto muito mas não conhecia: É mais fácil o homem desenvolver uma máquina que nos leve à lua do que um conhecimento que nos leve ao interior de nós mesmos” (JUNG, Carl, 1957).

Vivemos na Era da invasão silenciosa do nosso íntimo. Isto é, da nossa essência mais primordial. Essa usurpação do nosso núcleo vem do que Sócrates chamava de “mundo das aparências”, os famosos fatores externos: o clima, a condição financeira, o status social, como te tratam, a família que estou inserido, o governo vigente. E esse mundo sensível não apenas sussurra atrocidades em nossos ouvidos. Ele grita através das telas, do algoritmo, da inteligência artificial. O tempo todo este mesmo agente redige e nos entrega uma lista do que “nos pertence”: o carro do ano, a casa urbana perfeita, o sucesso profissional inabalável, a família que não briga, o shape do momento. O resultado? Uma legião de indivíduos emocionalmente angustiados e insuficientes, cujas vontades foram sequestradas pelo que é externo. E às vezes – senão várias ou a maioria delas – esses indivíduos somos nós.  

Como a razão nos devolve a posse de nós mesmos

mulher contemplando o nada

Há dias mais difíceis do que outros. Dias em que você se pergunta se não é possível que um buraco se abra no chão e você possa deitar ali em posição fetal. Sem ninguém pra te chamar, sem nenhum e-mail no trabalho pra responder, com todas as notificações silenciadas. Você se deita no quarto escuro e deseja, na verdade, que o mundo inteiro esteja em modo avião.

O que o estoicismo tem a nos dizer nesses dias? É justamente nesse esgotamento que a filosofia deixa de ser uma abstração e se torna um kit de sobrevivência. Enquanto escrevo repasso minhas anotações do livro Discursos, de Epicteto. É interessante notar que o autor, que escreveu a obra por volta do século II, já ensinava que a felicidade não depende da aquisição de algo, mas de uma faculdade chamada vontade, que podia ser má ou boa para alma através do bom uso da razão. Eu vejo que o uso da razão é como observar duas partes que moram dentro de nós. Essas duas partes caminham juntas em uma rua de chão, imersas no seu destino. Enquanto uma se depara com uma pedra e diz: “Isto é um obstáculo no nosso caminho, vai nos atrasar!” A outra rebate: “Olha! Uma pedra para descansar antes de continuar a jornada!”.

Tolstói costumava resumir isso com uma frase bem poderosa (que particularmente acho genial): “há quem passe por uma floresta e enxergue apenas lenha para sua fogueira”. Essa semana, eu me vi assim. Olhando apenas para a ‘lenha’ do cansaço, esquecida da floresta de possibilidades que habita os meus caminhos. Recebi um convite do meu chefe para conduzir uma palestra de três horas em São Paulo sobre inovação no comércio exterior. O primeiro ímpeto da minha razão foi: caos. Minha mente disparou uma enxurrada de pensamentos sabotadores como: “Você não tem conteúdo para três horas. Você é jovem demais, você é mulher num ambiente majoritariamente masculino, você é uma ‘menina’ que que acabou de entrar nessa área. E se você não souber a resposta para um problema que a plateia trouxer?”.

Na sua semana talvez o desafio, o conflito, a dificuldade não tenha sido uma palestra ou algo no trabalho. E sim um contratempo com seu filho, uma doença, o falecimento de alguém próximo, pouco dinheiro. É aqui que o estoicismo se torna mais desafiador e, paradoxalmente, mais reconfortante. Ele nos ensina que exercitar a filosofia é sentar-se à mesa do escritório da razão e julgar as impressões advindas do mundo antes de dar assentimento a elas para invadir nosso ser. Para os filósofos como Epicteto, a felicidade não reside em acordar cedo, fazer dieta, ou administrar bem seu dinheiro, a vida que vale a pena ser vivida é aquela em que nós, enquanto seres humanos, usamos a capacidade de escolher deliberadamente o que é o nosso bem espiritual e mental. É o filtro que decide: isto entra na minha alma ou isto fica do lado de fora?

Imagine o seguinte. De um lado, sua mente é como uma sala de reuniões dessas bem corporativas em que o único objetivo é tomar uma decisão. De outro, o mundo lança impressões (aparências) dentro dessa sala o tempo todo: “Você precisa disso para ser feliz”, “Isso é uma tragédia”, “Aquele homem te ofendeu”, “você viu como aquela mãe vestiu a filha dela?” e por aí vai. Até que, vendo tudo isso constantemente, alguém no escritório – você e sua vontade – precisam tomar uma decisão. E esta geralmente é um dilema¹.

Ao fazer esse grande processo de decantação da alma a beleza do ser humano se mostra: conseguimos enxergar que nossa vontade é insubjugável. Que, se assim desejarmos, podem nos acorrentar, exilar, silenciar, abusar. Entretanto, ninguém pode nos forçar a assentir ao que julgamos falso, equivocado, divergente da nossa essência.

Como usar a razão quando meu entorno só traz caos?

O uso da razão é internalizar esta máxima: a felicidade é o sutil reajuste do nosso caráter pela vida afora. Se não te ensinaram ou você não sabe ainda como perseguir o que é nobre, bom, justo, corajoso, temperante, virtuoso, é você quem precisa ser seu próprio instrutor. E começar agora.

Transformando Monstros em Oportunidades

Se você deseja o bem, deve buscá-lo dentro de si mesmo. A única coisa que você controla. O corpo, as posses. sua reputação nas redes sociais —  nada disso é seu. O corpo adoece, a aparência muda, as posses se vão. Sua disposição de caráter, não.

Cada desafio — seja uma notícia triste no feed ou uma injustiça no trabalho — é como os monstros para Hércules. Sem o Leão de Nemeia ou a Hidra de Lerna, Hércules seria apenas um homem comum. Foram os desafios que permitiram que ele demonstrasse sua grandeza de alma. Esta semana, procure usar a sua faculdade racional para pensar sobre o uso correto das aparências. Não por um fim específico: ganhar dinheiro, ser promovido etc. Mas pelo fim em si mesmo: nosso aprimoramento moral.

O que é correto para mim? ou, o que é correto nessa situação?

O que entendo por bom, nobre e justo?

O que é coragem? Justiça? como aplicar esses conceitos na minha vida?

Depois de deliberar sobre o que você entende sobre o que é a vida boa, virtuosa, ética e justa honre esta vida. Ao decidir todos os dias o que pertence a você e essa vida virtuosa que você almeja. Encare os momentos pelo que eles são, aplique os princípios da escolha e da recusa no dia a dia. Ao final, você descobrirá que a paz não vem de um mundo sem guerras, mas de uma vontade imparável de deixar vir exatamente o que lhe pertence: a sua capacidade de pôr à prova seu discernimento, integridade e ação nos tempos de paz e também nos mais hostis. Nada mais.

¹ Dilema: Situação de escolha difícil na qual a mente é confrontada com alternativas conflitantes, exigindo que a vontade exerça o discernimento para decidir o que é moralmente correto em oposição ao que é apenas vantajoso ou urgente.

REFERÊNCIAS

EPICTETO. Discursos: Livro I. Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien. São Paulo: Edipro, 2021. E-book. Disponível em: Kindle Unlimited. Acesso em: 14 mar. 2026.

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Tradução de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. Petrópolis: Vozes, 1991.

GALVÃO, Lúcia Helena. A Arte de Viver: Epicteto. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/5xnnhxguIFSyhRkfNBBcKY?si=hqlTmw4SRS6-g4yr_zpOrQ. Acesso em: 14 mar. 2026.

JUNG, Carl Gustav. O eu desconhecido: civilização em transição. Tradução de Maria Luiza Appy. Petrópolis: Vozes, 2012.

Um comentário sobre “Guia de sobrevivência para dias de caos”

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