Pensamentos Avulsos

O peso de se tornar

mulher conduzindo palestra em evento com power point

Por que às vezes o sucesso

assusta mais do que o fracasso?

O fracasso, por mais doloroso que seja, nos permite continuar sendo quem já somos. O sucesso não. Ele exige transformação.

“Um dia eu vou mudar minha vida.”

Para dizer essa frase o fato é que o “eu” de agora precisa desaparecer para dar lugar àquela pessoa nova que chegou, que ousou. Aquela que mudou.

E toda morte simbólica produz luto. Mesmo quando é necessária.

Carl Jung escreveu que ninguém se ilumina imaginando figuras de luz, mas tornando consciente a própria escuridão.

Porque crescer não é apenas sobre adicionar coisas novas.

É também abandonar versões antigas de nós mesmos.

mulher contemplando árvore nativa brasileira em floresta

★★★★★

@juliasporto

Algumas delas muito confortáveis, familiares e acima de tudo, seguras.

É… existe uma estranha proteção no fracasso, mesmo que eu não queira admitir.

Ele nos permite continuar explicando para o mundo — e para nós mesmos — aquilo que poderíamos ter sido.

O sucesso remove essa proteção.

Depois dele, já não existe mais a hipótese. Existe a responsabilidade.

Acho que é por isso que durante anos permaneci na ante-sala dos meus próprios sonhos. O primeiro e mais ousado deles, para a Julia da época, foi amar outra mulher. Não porque me faltasse essa capacidade mas porque me sobrava consciência de que atravessar essa porta mudaria tudo.

Fracassar e vencer são acontecimentos. Transformar-se é uma condição. E essa condição assusta. Assusta porque exige coragem para abandonar a pessoa que fomos. Mas também porque exige humildade para acolher a pessoa que estamos nos tornando e que não sabe como chegar lá, qual caminho percorrer.

A pergunta para mim está longe de ser: “E se eu fracassar?”

A pergunta que raramente faço e que me assusta de verdade é: “E se eu conseguir?”

Porque, às vezes, o que nos paralisa não é o medo de cair. É o medo de descobrir que somos capazes de voar.

Não dê coragem aos seus medos.

Durante as últimas semanas eu venho tendo esse medo do sucesso.

Muito medo. Não medo da vida, das coisas que acontecem, dos noticiários. Mas da história que minha cabeça insiste em contar sobre ela.

Curioso escrever isso depois de tudo o que vivi nos últimos meses. Melhor, nos últimos anos.

Enquanto escrevo ainda sinto medo.

Medo de chegar até a largada e descobrir que eu simplesmente não sou capaz.

O curioso é que, consciente dos fatos, percebo que quase nada disso é provável de acontecer. Esse medo é apenas a minha cabeça tentando preencher com certezas um futuro que ainda não existe. Você acredita que comecei até a sonhar que desistia da prova? Sonhei que me machucava. Que alguma coisa dava errado. Acordada, os pensamentos continuam a vir e me inundar.

“Talvez você não consiga.”

“Talvez tenha começado tarde demais.”

“Talvez seu corpo ainda não esteja pronto.”

Pedalar 40km

Dá medo.

Fazer novos amigos

Da medo.

Explorar uma trilha

Dá medo.

O medo tem uma característica curiosa. Ele fala sempre no futuro. Nunca no presente.

Foi então que encontrei, por acaso, essa frase no Instagram: “Não darei coragem aos meus medos.”

Li. Uma, duas, três vezes. Continuei olhando fixamente a tela. A frase continuou comigo por todo o dia. Mais tarde, percebi que eu já venho fazendo exatamente isso. Ou melhor, venho tentando fazer o contrário!

Em vez de dar coragem aos meus medos, há alguns anos me convido e me forço a  investigá-los.

Eu tinha medo da nova praia onde acontecerá o triathlon. Então convidei um amigo para nadarmos nela antes da prova e conhecemos o percurso, as pedras, a correnteza, a temperatura da água. Dai o desconhecido começou a perder espaço. Porque parei de tentar convencer a mim mesma de que daria tudo certo e passei a observar a vida e permitir que ela me mostrasse como realmente era. 

Eu tinha medo de a bicicleta apresentar algum problema. Levei-a a um mecânico especializado. Fizemos uma revisão completa. Depois eu fiz o bikefit¹. Troca do que precisava ser trocado. Outro medo que ficou menor.

Eu tinha medo de o tênis não suportar os dez quilômetros. Passei horas pesquisando. Conversei com pessoas mais experientes. Escolhi um modelo adequado para a diminuição do impacto nas articulações. Mais um medo perdeu força.

Eu tinha medo de mim. De não conseguir terminar. Então fiz aquilo que sempre me ajuda a organizar a cabeça: Conversei com amigos, escrevi. É escrevendo que me recordo o que, a essa altura do campeonato, já deveria saber. O triathlon nunca foi a prova. Nem ter me mudado sozinha para o Espírito Santo. Nem ter superado a depressão. O autopreconceito. A prova sempre foi tudo aquilo que aconteceu e vem acontecendo. A prova é a coragem de continuar vivendo.

A cirurgia, a fisioterapia, os primeiros passos, a primeira pedalada, o primeiro mergulho, a primeira corrida sem dor.

Em suma, a vida em movimento.

Sócrates tem uma afirmação que fala sobre isso e num primeiro momento parece simples, mas mudou completamente minha relação com o medo. Ele diz que temer aquilo que não conhecemos é uma forma de acreditar que sabemos mais do que realmente sabemos.

Então percebi que meus medos falam como se conhecessem o futuro.

“Você vai fracassar.”

“Vai dar errado.”

“Você não consegue.”

Mas eles não sabem. Estão apenas supondo. 

Porque o medo traz hipóteses. Nós é que lhes damos status de verdade.

A tonta aqui começou a perceber que toda vez que eu investigava um medo ele diminuía. Em contrapartida, toda vez que permanecia apenas imaginando, ele crescia. Não sei os seus, mas esses meus medos adoram a distância. É na distância que eles parecem invencíveis. Quando nos aproximamos deles, quase sempre descobrimos que eram menores do que imaginávamos.

Me lembro do primeiro dia que resolvi que meu blog teria o nome “felicidade estoica”. É que os estoicos ensinam as coisas que dependem de nós e outras, que não.

Eu nunca poderia controlar o clima da prova. Nem o comportamento do meu corpo no dia. Mas posso conhecer melhor a praia. Revisar a bicicleta. Pedir ajuda. Estudar os videos de quem já fez. Posso treinar. Posso monitorar meus tempos. Posso continuar caminhando.

Hoje o medo é um triathlon.

Ontem foi pedir demissão.

Amanhã provavelmente o medo será começar uma nova faculdade.

Ou encerrar um relacionamento.

Pedir desculpas.

O medo, no futuro, pode ser o simples fato de ter que recomeçar. De novo e de novo.

Independentemente de qual seja o medo, a pergunta que te ajudará quase sempre será a mesma: Você está investigando esse medo ou apenas acreditando na história que ele conta?

Nossa, quantos anos e quanto tempo dei coragem aos meus próprios medos.

Alimentei cenários que nunca aconteceram. Sofri antecipadamente por futuros que jamais existiram. Transformei hipóteses em certezas.

Repito novamente o mantra: Não darei coragem aos meus medos.

Não porque eles desaparecerão.

Eles continuam aqui e tenho certeza que outros novos virão. É que eles continuarão aparecendo sempre que a vida me convidar a crescer.

E ela, em sua sabedoria, me ensinará que coragem não é expulsar o medo. É recusar entregar a ele o direito de decidir os próximos passos. É continuar fazendo perguntas. É procurar respostas. É admitir humildemente onde termina aquilo que sei e onde começa aquilo que ainda preciso aprender.

Aí que mora a verdadeira coragem. Na disposição de caminhar sem transformar nossas incertezas em destino. No fim das contas, acho que era isso que Sócrates tentava nos ensinar. A sabedoria não elimina o desconhecido. Ela apenas nos impede de tratarmos nossa ignorância como verdade.

Hoje vejo que posso repetir essa frase com muito mais convicção do que quando a li pela primeira vez.

Não darei coragem aos meus medos.

Porque toda vez que caminho em direção a eles procurando compreender o que realmente existe ali, eles deixam de parecerem monstros. E voltam a ser apenas aquilo que sempre foram.

Portas pelas quais a vida me convida a atravessar para crescer.

NOTAS

¹ processo de ajuste ergonômico da bicicleta às características físicas e biomecânicas do ciclista. Envolve regulagens como altura e recuo do selim, posição do guidão e das sapatilhas, buscando aumentar o conforto, a eficiência da pedalada e reduzir o risco de dores e lesões. Mais do que melhorar desempenho, busca harmonizar postura, conforto e eficiência, reduzindo o desgaste físico e o risco de lesões ao longo da pedalada.

Pensamentos Avulsos

Vencer a si mesmo

A única vitória que torna todas as outras possíveis.

Esta semana desabei de cansaço e até chorei porque pela primeira vez tive a sensação de que talvez não consiga terminar uma coisa importante para mim, a prova de triathlon.

Engraçado escrever isso depois de tudo o que aconteceu nos últimos 10 meses (enquanto escrevo esse texto).

Não chorei quando descobri que precisaria operar a coluna. Não chorei quando ouvi que talvez demorasse meses para recuperar os movimentos. Nem quando passei dias andando apenas alguns minutos porque o corpo simplesmente não suportava mais. Mas chorei agora. Não durante a cirurgia. Não durante a recuperação. Chorei duas semanas antes do triathlon. 

Semana passada, uma gripe forte interrompeu praticamente toda a reta final da preparação. Enquanto faço as contas do calendário penso em vários fatores ruins. Mais ainda, que eu vou ter que viajar quatro dias a trabalho para Santa Catarina, enfrentar o frio, mudar completamente minha rotina e voltar dois dias antes da prova. E isso tudo ainda cobrindo as férias do meu chefe e sendo responsável por toda a equipe…

Minha cabeça negocia comigo e me pego observando pensamentos como:

“Talvez você não consiga.”

“Talvez não esteja pronta.”

“Talvez tenha sido esforço demais para nada.”

“Seu trabalho é mais importante, como você vai fazer a prova e viajar?”

“O que vão pensar se você desistir? Se parar no meio?”

Enquanto esses pensamentos martelam a minha cabeça, resolvi fazer outra coisa, esvaziar minha mente com algo que geralmente dá certo: lavar a louça. Às vezes, as atividades mais simples que organizam as ideias mais difíceis. Ali, enxaguando os pratos, lembrei de uma frase que eu mesma escrevi meses atrás, quando comecei, em uma planilha onde acompanho meus objetivos.

A frase é:

Terminar o triathlon olímpico. Vencer a mim mesma antes de vencer o mundo

Parei alguns segundos. Respirei. Meus olhos encheram d’água novamente e ali eu tive uma nova descoberta. Que eu passei meses acreditando que essa frase era sobre a superação física e naquela tarde descobri que não era.

Quando decidi fazer um triathlon, inicialmente meu objetivo era completar uma prova para comemorar minha saúde. Hoje vejo que completar a prova significa outra coisa completamente diferente. E essa prova, eu já completei. 

Não quando comecei a correr.

Não quando aprendi a nadar.

Não quando subi na bicicleta.

Mas no dia em que voltei a acreditar que ainda existia uma vida depois da dor. 

Completei porque, poucos meses antes, existia a Julia que não conseguia carregar uma garrafa de água de 500ml sem sentir dor. Cinco minutos caminhando já eram suficientes para o meu corpo pedir descanso. Respirar doía. Dormir exigia encontrar uma posição que não machucasse. Naquela época, terminar um triathlon seria uma ideia quase ofensiva.

Lembro exatamente do instante em que a ideia nasceu. Caminhava na esteira depois de ser liberada para voltar a pedalar. Pela primeira vez em meses, eu não sentia dor. Sorri e pensei: “Vou fazer um triathlon.”

Hoje percebo que aquele momento nunca foi sobre condicionamento físico. Era, de novo, sobre recuperar a confiança de que ainda existia uma vida depois da dor. 

Pensamos que vencer a nós mesmos significa realizar grandes feitos. Mas começo a desconfiar de que acontece exatamente o contrário.

Vencer a si mesmo raramente é um acontecimento extraordinário.

É uma coleção de decisões pequenas. É alguém absolutamente comum fazendo, todos os dias, pequenas escolhas extraordinariamente consistentes.

Levantar quando ninguém está olhando.

Ir à fisioterapia mesmo sem vontade.

Dormir cedo.

Respeitar o repouso.

Pedir ajuda.

Recomeçar.

Continuar.

Permitir que alguém carregue o peso por você.

Além disso, a realidade cruel me bate quando lembro que enquanto estou aqui, preocupada com uma prova, minha avó ficou quatro dias internada na UTI e depois um grande susto para a família, receberá alta. Que minha tia, uma das pessoas que mais admirei (e admiro) durante toda a minha vida, também enfrenta problemas sérios de saúde. Conversando por vídeo, ouvi dela algo que me emocionou profundamente. Ela disse que acompanhar minha preparação para o triathlon a motivava a cuidar da própria saúde.

Será que foi mesmo o triathlon que a inspirou/motivou? Acredito que não. 

Eu não conquistei nenhuma medalha. Tampouco cruzei a linha de chegada. Mas essa mulher, uma segunda mãe para mim, me diz cheia de afeto que o que ela enxerga é alguém que continuou tentando vencer suas pequenas batalhas diárias.

O que deveria nos inspirar no outro não se trata de resultados ou fotos instagramáveis. É aquilo que o outro precisou se tornar para alcançá-los. 

Vivemos querendo mudar o mundo. Eu também quero.

Quero um mundo onde nenhuma mulher tenha medo de voltar sozinha para casa.

Quero um mundo sem fome. Sem violência. Sem corrupção. Sem crianças abandonadas.

Quero uma sociedade mais justa. Mais gentil. Mais consciente.

Mas ultimamente tenho pensado que existe um perigo escondido nisso. É muito fácil desejar transformar a humanidade enquanto ignoramos aquilo que acontece dentro de nós.

Queremos acabar com a violência enquanto alimentamos pequenas agressividades.

Queremos saúde, mas mexemos no celular na cama, noite adentro.

Queremos honestidade enquanto justificamos pequenas desonestidades. 

Queremos empatia mas somos incapazes de dialogar com quem pensa diferente.

Queremos uma sociedade menos egoísta. Mas nem sempre percebemos o egoísmo que carregamos conosco. Eu, inclusive. Toda grande transformação coletiva começa exatamente onde quase ninguém gosta de olhar. Na escala de uma única consciência.

Os estoicos diziam que algumas coisas dependem de nós. Outras, não.

Não depende de mim quando vou adoecer. Nem a morte. Nem a injustiça. Nem a economia. Nem o comportamento das outras pessoas. Mas depende de mim decidir quem continuo sendo diante de tudo isso. Essa é a batalha mais difícil da existência.

Porque vencer o mundo pode acontecer por acaso. Mas vencer a si mesmo…

Essa é uma tarefa suficientemente difícil para ocupar uma vida inteira.

Existe uma frase de Sêneca que acompanha meus dias há algum tempo. Ela fica escrita no alto da planilha onde organizo meus sonhos.

“Tenha a satisfação de ver seus vícios morrerem antes de você.”

Quanto mais penso nela, mais eu vou tomando consciência das coisas que preciso mudar.

Preguiça. Vaidade. Orgulho. Covardia. Ressentimento.

Daquela parte de nós, de mim, que insiste em permanecer pequena quando a vida nos convida a crescer. Essa é a verdadeira vitória. Não aquela que sobe ao pódio, nem aquela que faz o oba oba e recebe a medalha no pescoço. É a que acontece silenciosamente, dentro de quem aprende o que deve morrer um pouco em si para a humanidade renascer melhor.

Não sei se terminarei o triathlon.

Talvez caminhe.

Talvez pare.

Talvez meu corpo cobre um preço que minha vontade não consiga pagar.

Mas existe uma coisa que ninguém pode tirar de mim.

A pessoa que precisei me tornar para chegar até a linha de largada.

Porque medalhas oxidam. Recordes são quebrados. Títulos mudam de dono. O corpo envelhece. Mas nenhuma derrota é capaz de desfazer a vitória de quem lapidou o próprio caráter. Essa que transforma quem a conquista. Por isso sigo acreditando que um mundo melhor nunca começará nas grandes revoluções.

Talvez seja por isso que Sêneca dizia para termos a satisfação de ver nossos vícios morrerem antes de nós. Porque, no fim, vencer a si mesmo é sobre a construção de alguém capaz de permanecer íntegro, mesmo quando não há pódio algum esperando no final do caminho.

Na escolha diária de morrer um pouco para que algo melhor possa nascer dentro de nós.

Porque, no fim das contas, nenhuma vitória muda tanto o mundo quanto aquela que muda primeiro quem a conquistou.

Pensamentos Avulsos

Cláusulas pétreas da humanidade

Que objetivo vale uma vida inteira tentando alcançá-lo?

mulher contemplando a natureza
Foto registrada em uma das cachoeiras do monte mestre álvaro, Serra, ES.
casal contemplando a natureza
Foto registrada no topo do monte mestre álvaro, Serra, ES.

Marco Aurélio certa vez escreveu que aquilo que prejudica a colmeia prejudica também a abelha.

Sempre gostei dessa imagem para me lembrar que ninguém existe isoladamente. Isto é, nossas ações fazem parte de algo maior: todo o universo e a humanidade. Por esse motivo, quando uma pessoa morre, algo da humanidade desaparece junto com ela. Uma forma única de enxergar o mundo. Uma voz. Uma história. Uma perspectiva irrepetível.
Coincidência ou não, nesta mesma semana que eu estava bem reflexiva nesse tema, uma grande amiga disse: 

“Caraaa, falando em filosofia… vi que tu tá cursando, que tudo. Tem um anime que é muito essa pegada (frieren). Coisa mais linda já feita.”

fonte anônima

Não preciso nem dizer que, depois dessa mensagem, a primeira coisa que eu fiz quando chegou o final de semana foi assinar o HBO Max para ver a bendita série. Confesso que não esperava encontrar tanta filosofia em um anime aleatório sobre uma elfa.

anime frieren
Fonte: Google images.

Ao longo do texto, espero que você entenda porque eu resolvi escrever aqui o tanto que o enredo me cativou em vez de uma simples resenha. A história acompanha Frieren, uma maga élfica que resolve ajudar um grupo de guerreiros a derrotar o Rei Demônio e restaurar a paz ao mundo. Em qualquer outra narrativa, esse seria o final da história. Por exemplo, se você, assim como eu, é apaixonado pelos filmes de animação – Moana, Rei Leão, Vida de Inseto, como treinar seu dragão – vai perceber um padrão: nessas obras você acompanha a jornada.

Nesses clássicos, os heróis:


  • começam sem nada;
  • Sofrem todos os desafios possíveis;
  • Acham que vão desistir;
  • Dão a volta por cima;
  • E só no final, retornam a sua cidade de origem vitoriosos.

E todos vivem felizes para sempre.

Aquela famosa “jornada do herói”. Frieren – na contramão de tudo e todos – começa exatamente onde as outras histórias terminam.

Na primeira cena:

A guerra já acabou.

A paz já foi conquistada.

A missão já foi cumprida.

Ela é a mulher mais poderosa de seu tempo.

Domina um conhecimento técnico inconcebível para outros, ninguém mais está a sua altura. Ela pode fazer o que quiser. Mas e agora, ela pensa, o que fazer?

A pergunta parece simples. Contudo, está bem longe de ser.

A título de contexto, Frieren viveu uma campanha¹ de dez anos ao lado dos bravos guerreiros que se tornaram heróis: Himmel, Eisen e Heiter. A maga, no entanto, por mais que tivesse consciência do grande impacto de sua empreitada (a paz mundial) enxergava a aventura como apenas um pequeno fragmento de sua existência. Dez anos em uma vida de mais de mil? Uma nota de rodapé, um nada. Ainda mais porque, para ela, os humanos envelhecem, morrem e desaparecem. Então por que essas experiências teriam algum valor? Ela, ao contrário, permanece. 

Junto dela seu conhecimento, experiência, poder. Nessa linha de raciocínio, Frieren acredita fielmente que todos aqueles encontros foram insignificantes. Até que, um dia, no enterro de um dos heróis (um pequeno spoiler aqui foi inevitável), ela descobre algo perturbador. 

A sábia maga de mil anos de vida nunca compreendeu de verdade o valor daqueles dez anos. O valor das pessoas. O valor do próprio tempo.

Ainda no primeiro episódio, pensei em como nós também organizamos a vida ao redor de grandes objetivos e ignoramos o valor do nosso tempo e das pessoas que compartilham esse tempo conosco. Então, fui obrigada a parar, porque eu simplesmente não conseguia mais assistir, tamanho o incômodo existencial. E talvez você, leitor, também pense que a vida é:

Passar no vestibular.

Conseguir um emprego.

Comprar uma casa.

Casar.

Ter filhos.

Publicar um livro.

Receber uma promoção.

Aposentar-se.

Já reparou que existe sempre alguma montanha à vista no horizonte (ou no nosso tempo, nas redes sociais) prometendo que, quando finalmente alcançarmos o topo, encontraremos aquilo que procurávamos? Mas existe um problema aí.

Todo pico da montanha tem um fim. E o que fazemos quando chegamos lá?

Lembro de quando era criança e sonhava em andar de avião.

Depois sonhei em falar inglês.

Depois em morar sozinha.

Depois em trabalhar viajando.

E cada vez que uma dessas coisas aconteceu, eu, como Frieren, me perguntei (e continuo me perguntando): “E agora?”

Não porque minhas conquistas sejam vazias.

Mas porque são finitas.

E porque nenhuma delas representa plenamente quem sou ou quem desejo me tornar.

Atingi metas que nunca pensei estarem ao meu alcance.

Frieren venceu o Rei demônio quando ninguém acreditava ser possível.

E agora?

A maior armadilha da vida moderna é escrever em pedra que o sentido da existência está escondido em alguma linha de chegada. Sempre a uma distância de um diploma, uma promoção, um carro, uma casa, um iphone, uma viagem da felicidade.

No curto, médio ou longo prazo tudo isso passará. E, nesse momento, experimentar essa melancolia silenciosa justamente depois de conquistar aquilo que desejamos não é um fracasso. É apenas o encontro inevitável com uma pergunta que esperamos encontrar resposta do outro lado da meta.

Por que continuar?

Em uma das cenas mais bonitas da série, Frieren joga na cara dos amigos que aqueles dez anos ao lado dos heróis não representavam um décimo de sua longa existência. Anos depois, um daqueles antigos companheiros lhe oferece uma resposta simples e devastadora, ao quanto ela mudou em 50 anos (quando ela retorna):

Não importa quanto tempo durou. Importa o que aquele tempo fez com você.

Nesse momento percebi a tal filosofia da série, aquela que minha amiga comentou lá atrás…

A pergunta mais importante não é quanto tempo vivemos. Nem o que acumulamos. Nem o que conquistamos.

A pergunta é:

O que nos transforma para melhor enquanto estamos vivos?

Uma guerra pode acabar.

Uma carreira pode terminar.

Um relacionamento pode chegar ao fim.

Os filhos crescem.

Os amigos partem.

Os pais envelhecem.

As fases mudam.

As pessoas morrem.

Se o sentido da vida estiver apenas nessas coisas, estaremos condenados a perdê-lo toda vez que uma delas terminar.

E se existirem projetos diferentes? Projetos que não terminam? Projetos capazes de atravessar uma vida inteira? Mil anos? Civilizações?

Tornar-se alguém mais sábio.

Aprender a amar genuinamente.

Compreender a si mesmo.

Desenvolver coragem.

Exercitar a bondade.

Refinar o caráter.

Jornadas estas que não possuem linha de chegada porque pertencem a algo mais profundo. Algo que aprendi com meu pai e sua paixão pelo Direito: as cláusulas pétreas². São princípios tão fundamentais que não podem ser abolidos nem mesmo por uma emenda constitucional.

E se a humanidade também possuísse suas próprias cláusulas pétreas?

Não leis, fundamentos irrevogáveis.

A capacidade de aprender.

A busca pela verdade.

A construção do caráter.

A transmissão de conhecimento entre gerações.

O cuidado com o universo, nossa casa.

Talvez sejam essas as coisas que permanecem mesmo quando tudo o mais muda.

Impérios caem.

Tecnologias são descontinuadas.

As cláusulas pétreas atravessam séculos.

Foi isso que Eisen, o velho guerreiro, tentou ensinar à elfa… que a existência por si só não basta. Acumular mil anos não basta. Sobreviver não basta. Porque uma vida não é medida apenas pelo tempo que dura e sim pelas transformações que abriga. A série mostra que os mártires guerreiros, mesmo após a morte, continuam transformando Frieren.

Como professores continuam vivos em seus alunos. Pais continuam vivos nos filhos. Amigos continuam vivos nas relações que ajudaram a moldar. As quebras de paradigma entre gerações que vêm e vão.

Talvez Marco Aurélio estivesse certo.

Quando uma pessoa parte, a humanidade perde algo de si. Mas aquilo que ela transformou nos outros permanece. E é por isso continuamos e devemos continuar.

Não porque ainda falta alguma coisa. Mas porque a verdadeira meta é buscar aquilo que nos transformará ao trilhar o caminho. E elevará consigo a humanidade mais um pouco. 

A guerra termina.

Os companheiros partem.

As montanhas ficam para trás.

As cláusulas pétreas da humanidade ficam.

E talvez seja nelas que construiremos uma humanidade que delibera sobre galgar metas no âmbito do ser e que reverberam em toda a terra-pátria³ pela eternidade.

Notas

¹ Campanha: Na linguagem militar, campanha é uma série de ações e batalhas realizadas ao longo do tempo para atingir um objetivo maior. Em Frieren, refere-se à jornada de dez anos empreendida pelos heróis para derrotar o Rei Demônio e restaurar a paz ao mundo.

² Cláusulas Pétreas: Dispositivos fundamentais da Constituição Federal brasileira que não podem ser abolidos nem mesmo por emenda constitucional. Estão previstas no art. 60, §4º da Constituição de 1988 e protegem princípios essenciais do Estado Democrático de Direito, como a separação dos poderes, o voto direto e os direitos e garantias individuais.

³ Conceito desenvolvido pelo filósofo e sociólogo francês Edgar Morin para expressar a ideia de que toda a humanidade compartilha uma mesma casa comum: o planeta Terra. O termo propõe uma consciência planetária baseada na interdependência entre povos, culturas e ecossistemas, superando visões restritas de nação, raça ou território.

REFERÊNCIAS

FRIEREN

Frieren: Beyond Journey’s End. Frieren: Beyond Journey’s End (Sousou no Frieren). Direção de Keiichiro Saito. Japão: Madhouse, 2023. Série de televisão.

Obra original:

Sousou no Frieren. YAMADA, Kanehito; ABE, Tsukasa. Sousou no Frieren. Tóquio: Shogakukan, 2020.


MARCO AURÉLIO

Meditações. MARCO AURÉLIO. Meditações. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2019.


EDGAR MORIN

Terra-Pátria. MORIN, Edgar; KERN, Anne Brigitte. Terra-Pátria. Porto Alegre: Sulina, 2003.

Pensamentos Avulsos

A Casa do Ser.

Até que em algum momento, único, exclusivo e diferente para cada um de nós, nos damos conta de que na verdade essa companhia não mora no apartamento dos sonhos, no carro do ano, no cônjuge, nem no trabalho. E então começamos a ruminar pelo mundo, nos alimentando das mais variadas fontes de informações indigestas ao ser

O meio da travessia costuma ser solitário mesmo. Talvez você se pergunte: Por que é mais fácil encontrar companhia do que encontrar conexão?

É interessante pensar que se o objetivo for claro, todo GPS recalcula a rota, mesmo se você pegar o caminho errado. Então por que seria diferente conosco? Os pensamentos que nos assolam são tão cruéis. E nos matam em partes, como Jack. Tanta comparação, cada uma delas um golpe à autenticidade. A curiosidade que tínhamos pelo mundo passa a ser um picolé de chuchu porque as coisas simplesmente perderam a graça. Você se pergunta onde estão as novidades. Esse é o problema da vida construída em metas futuras. Ela traz consigo o vazio que é perceber que nenhuma delas oferece companhia interior.

Talvez Jung tenha razão. O homem é mais capaz de construir uma nave que o leve à lua do que ao interior de si mesmo. E por isso fomos apenas à Lua.

Como habitar a própria interioridade

Talvez habitar a própria interioridade comece justamente quando paramos de tentar escapar dela. Porque quase tudo hoje parece desenhado para impedir esse encontro.

As notificações. Os vídeos curtos. O excesso de opinião. A necessidade constante de performance. O algoritmo que escolhe e seleciona por você. A verdade é que quase sempre estamos ocupados demais para perceber o que sentimos de verdade. E talvez exista algo de profundamente assustador nisso: o silêncio. Acho que por isso eu demorei a me adaptar à natação. Sou só eu, meus medos e meus pensamentos. Porque quando o barulho cessa, sobra o encontro com perguntas que passamos anos tentando adiar. Para alguns de nós, décadas!

Quem sou eu sem as metas? Quem sou eu sem o trabalho? Quem sou eu sem alguém para validar minha existência? Desnorteados, confundimos distração com felicidade. E voltamos ao vuco vuco do mundo VUCA¹.

Habitar a própria interioridade não significa gostar de tudo o que existe dentro de si. Às vezes significa apenas permanecer mesmo depois de conferir o que há do outro lado. Sem fugir imediatamente. Sem anestesiar cada vazio com consumo, relações rasas ou excesso de estímulo.

Existe uma coragem silenciosa em sustentar a própria companhia. Falamos pouco dessa firmeza que é repousar na infinitude do ser.

Não como quem se basta o tempo inteiro — porque isso também seria uma fantasia contemporânea — mas como alguém que aprende, pouco a pouco, a não se abandonar. Talvez o autoconhecimento não seja uma grande revelação mística e sim intimidade construída com repetição. Como visitar diariamente uma casa antiga até reconhecer onde o chão range, onde entra luz pela manhã e quais paredes ainda precisam de reforma.

A obra de uma casa não termina nunca. O interior humano também é uma casa. E muitas vezes passamos anos decorando a fachada enquanto os cômodos internos permanecem abandonados e o alicerce pede uma intervenção.

Talvez por isso a solidão doa tanto. Porque ela nos obriga a ouvir ecos que a vida acelerada abafa. Notificação a notificação. Todavia, existe algo importante do outro lado desse encontro. No momento em que aprendemos a habitar minimamente a nós mesmos, as relações deixam de ser apenas tentativa de preenchimento. O outro deixa de carregar a responsabilidade impossível de nos salvar da própria ausência interior.

E então, pela primeira vez, a conexão verdadeira se torne possível.

Não porque deixamos de sentir vazio.

Mas porque finalmente paramos de preenchê-lo com coisas que não o cabem.

¹mundo VUCA: É um acrônimo² criado pelo exército dos Estados Unidos após a Guerra Fria para descrever ambientes marcados por Volatility, Uncertainty, Complexity e Ambiguity — em português: volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade. O conceito passou a ser amplamente utilizado no mundo corporativo e acadêmico para caracterizar cenários de rápidas transformações, imprevisibilidade e excesso de informações.

² Acrônimo é uma palavra formada pelas letras ou sílabas iniciais de outras palavras.

Pensamentos Avulsos

Projetos que tatuam a alma.

Projetos que tatuam a alma.

Aquilo que repetimos deixa de ser esforço e passa a ser natureza.

Domingo de manhã.
Eu pedalava pelas ruas de Vitória ouvindo uma palestra da filósofa Lúcia Helena Galvão sobre hábitos: “Hábitos, os construtores do seu destino”. Enquanto as pernas repetiam mecanicamente o movimento do pedal, minha mente fazia outro deslocamento. A professora contava uma anedota sobre uma entrevista com Whindersson Nunes e a necessidade de ‘tatuar a alma’. Sem perceber, comecei a pensar nas minhas próprias tatuagens.

Tenho muitas. E percebi, naquele instante, que todas elas têm algo em comum: representam coisas que eu gostaria de tatuar na alma, mas ainda não consegui completamente.

Por isso as tatuo no corpo.

Como quem deixa bilhetes espalhados pela própria existência. Notas sobre aquilo que ainda precisa ser inscrito no caráter. Ou ainda, lembretes permanentes de virtudes que ainda precisam ser exercitadas, com consciência, dia após dia.

Humanidade.
Empatia.
Condescendência.
Colaboração.
Coragem.
Disciplina.

Justiça.

Talvez o grande desafio da vida humana seja justamente esse: deixar de carregar símbolos na pele ou em objetos de consumo para transformá-los em hábitos da alma.

Porque uma tatuagem no corpo pode desbotar, se desfigurar. Mas uma virtude verdadeiramente incorporada já não pode ser arrancada de nós. E então pensei em algo que me atravessou profundamente durante o pedal: quando conseguimos “tatuar” uma virtude na alma, ela deixa de exigir esforço consciente o tempo inteiro. Ela passa a habitar em nós.

Antes, era preciso lutar para ser paciente. Depois de anos praticando, a paciência se torna espontânea. Antes, era difícil agir com gentileza diante do caos. Depois de repetir esse exercício centenas de vezes, a gentileza vira reflexo. Assim como o diálogo, a compaixão. Assim como subir numa bicicleta e andar, porque você já aprendeu.

Os eventos externos continuam acontecendo? Sim.
As pessoas continuam sendo duras.
As injustiças ainda acontecem.

Mas algo mudou dentro de nós. Percebemos o tamanho da mudança que precisamos alcançar e não abrimos mão dela. 

Lembro da recente certificação em Gestão de Projetos que fiz durante o MBA. A definição clássica de projeto é um empreendimento temporário, com início, meio e fim. Você já parou para pensar no quanto nossa sociedade nos ensina a viver apenas de projetos?

Quando eu era menina, sonhava em entrar num avião, falar inglês, morar sozinha e trabalhar viajando, como via nos filmes.

E eu consegui. Contudo, lembro também que todas as vezes em que conquistei uma dessas metas, uma pergunta aparecia quase imediatamente:

“E agora? Qual é o próximo passo? Acaba aqui?”

Porque os projetos acabam.

A aprovação chega. A paixão termina. A promoção vem. O apartamento é quitado. O carro é premiado no consórcio. O corpo atlético aparece na tela do Instagram e uma hora as curtidas e os comentários cessam. E, pouco depois, chega também aquele estranho vazio existencial que aparece quando confundimos realização com destino final.

Talvez porque a vida humana não suporte mais ser reduzida a uma coleção de metas concluídas. A vida pede continuidade. Ela pede algo maior do que performance.

A virtude, antes treinada com dificuldade, agora tornou-se inerente ao próprio ser. 

Por isso venho acreditando cada vez mais na necessidade de construir projetos que tatuem a alma. Projetos que não terminem quando uma meta é alcançada. Projetos que nos transformem enquanto os realizamos. Talvez seja isso que os filósofos antigos queriam dizer quando ensinavam sobre caráter.

Como diz Epicteto, filósofo estoico:

A bondade é a prática e a própria recompensa. Basta-nos para sermos felizes. Devemos afinar o nosso caráter como se fossem as cordas de um instrumento. A bondade é o sutil reajuste do nosso caráter durante a vida inteira

EPICTETO.

Talvez seja exatamente esse o verdadeiro trabalho de uma vida.

Afinar o caráter.

Não para parecer virtuoso.
Não para performar sabedoria.
Mas para transformar repetição em essência.

Até que humanidade, empatia, coragem e colaboração também deixem de ser esforço e passem, finalmente, a habitar em nós. 

Como tatuagens invisíveis. Marcas que doem enquanto são feitas, mas que, depois de cicatrizadas, passam a habitar quem somos. Porque, embora caminhemos a passos largos rumo ao futuro tecnológico, ainda avançamos a passos de formiga naquilo que mais importa: a construção do caráter humano. 

REFERÊNCIAS

EPICTETO. A arte de viver: o manual clássico da virtude, felicidade e sabedoria. Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, 2012.

GALVÃO, Lúcia Helena. Hábitos, os construtores do seu destino. Spotify, [s.d.]. Disponível em: Spotify. Acesso em: 17 maio 2026.

Pensamentos Avulsos

Quero tempo com você.

foto de muro pintado em são paulo

Eu quero o seu olhar atento por cima da xícara de café.

Quero o tempo que a gente quase nunca pede, mas sempre precisa.

No meio de tanta informação, a alma pede algo simples: presença.

E é vivendo os dias — não apenas passando por eles — que isso se revela.
Pedalando sem pressa, cozinhando juntos, recebendo amigos, arrumando a casa, rindo de coisas pequenas. É aí que a vida mostra o que realmente importa.

Quando a gente acerta o ritmo, não precisa de muito.
Quase sempre, o detalhe já é suficiente.

Não o iPhone; tempo pra ligar.
Não o carro do ano; tempo pra passear.
Porque, no fim, não é sobre onde a gente chega,
mas com quem — e como — a gente atravessa o caminho.

Tem algo na presença verdadeira que nos organiza por dentro.
Sem perceber, a gente vai se tornando alguém melhor — não por esforço, mas por convivência.

Hoje eu entendo: não há vilões na nossa história.
Há escolhas, erros, tentativas.
E, acima de tudo, vontade de fazer dar certo.

Mas “dar certo” não é acúmulo.
Não é a casa, o cargo ou o corpo dos sonhos.
É outra coisa. Mais silenciosa. Mais difícil de medir.

Também não é sobre grandes promessas, controlar tudo.
Se vier o sol, a gente aproveita.
Se vier a chuva, a gente fica.

Porque o que importa não muda com a circunstância.

Eu já tentei entender tudo antes de viver.
Já procurei respostas rápidas para perguntas profundas.
Não funciona.

Nem tudo precisa ser resolvido.
Algumas coisas só precisam ser vividas.

Talvez seja isso que a gente busque sem saber:
um acordo silencioso de presença.

Sem excessos. Sem performance.
Sem a necessidade de parecer mais do que é.
Só sendo.

E, no fim, é isso que fica:
a lembrança de que a vida não precisa ser grandiosa para ser verdadeira.
Ela só precisa ser vivida com atenção.

Se existe alguma promessa aqui, é essa:
continuar escolhendo estar presente.
Continuar escolhendo crescer — cada um no seu tempo,
sem se perder do outro no caminho. Agindo principalmente por aqueles que não podem escolher sozinhos.

Porque, no fim,
o que a gente constrói não são grandes acontecimentos.

É o tempo.
Vestido de humanidade.

E isso basta.

Pensamentos Avulsos

Nem toda corrente é prisão.

Nem toda corrente é prisão.

Algumas te mantém no caminho.

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A corrente prende ou orienta quem sabe ancorar.

— Julia Porto

Tem uma ilusão confortável que muita gente escolhe viver: a de que, se prestarmos atenção suficiente, a vida vai nos avisar antes de ficar difícil.

Não vai.

A vida não entrega manual. Não destaca em vermelho os perigos. Não te dá um mapa com as correntes marcadas.

Ela simplesmente acontece.

E, quase sempre, quando você percebe, já está dentro: no meio do olho do furacão.

No último feriado, eu senti isso na prática.

Tenho treinado natação com constância. Comecei na piscina, dentro da raia, onde tudo é previsível: água calma, temperatuda agradável, espaço delimitado, controle absoluto do ambiente. Mas decidi ir além — comecei a nadar na praia, às margens.

Não pelas condições ideais. Pelo contrário: pelas condições reais.

No início, eu ia como qualquer pessoa: de biquíni, sem muita preparação. Até perceber que quem levava o mar a sério se preparava diferente. Óculos apropriado, touca visível, boia de sinalização com apito para emergência.

Aquilo inconscientemente me ensinou algo importante: existe uma diferença entre estar no ambiente e estar preparado para ele.

Algumas semanas depois, montei meu próprio “kit”.

No feriado, com meus pais na praia, resolvi nadar. E no mar aberto. Antes de entrar, meu pai — que passou 20 anos no mar como pescador — me alertou: o mar estava puxando.

Eu fui mesmo assim.

Nadei cerca de 500 metros. A praia já era pequena atrás de mim. Até que decidi voltar.

Foi aí que o cenário mudou.

Na ida, parecia que eu avançava com facilidade. Na volta, cada braçada parecia não sair do lugar. A corrente não me empurrava mais para frente — me levava para o lado.

Era como correr arrastando um saco de cimento.

O corpo começou a cansar. E junto com o cansaço, veio um início de nervosismo.

Esse é o ponto crítico.

Porque não é o mar que te vence primeiro — é a forma como você reage a ele.

Eu parei.

Respirei.

Observei a direção da corrente.

E fiz o único movimento possível naquela situação: em vez de lutar contra o mar, comecei a nadar com inteligência — a favor da corrente, ajustando a trajetória aos poucos em direção à praia.

Demorou mais do que eu esperava. Foi mais cansativo do que eu queria.

Mas eu cheguei.

Quando coloquei os pés na areia, meu pai só disse: “Deu ruim lá, né?”

Eu ri. Porque, no fundo, não deu.

Deu exatamente o que tinha que dar.

O mar estava lá. Fazendo o que o mar faz.

A diferença é que, dessa vez, eu estava minimamente preparada para lidar com ele.

E é aqui que entra o ponto que quero compartilhar com você, leitor.

A vida funciona da mesma forma.

Os “mares revoltos” não são exceção. São regra.

Relacionamentos difíceis, decisões profissionais, perdas, frustrações, momentos em que você nada, nada… e não sai do lugar.

Você pode passar a vida tentando evitar essas situações — ou pode construir, deliberadamente, as ferramentas para atravessá-las.

Respiração. Técnica. Leitura de cenário. Equipamento. Estudo. Repetição. Resistência emocional.

Virtudes.

É exatamente isso que a filosofia nos propõe — especialmente em Aristóteles.

A ideia de uma vida virtuosa não é abstrata nem moralista. É prática.

Virtudes são treináveis. São hábitos construídos. São recursos internos que você desenvolve antes de precisar deles.

Coragem não nasce no momento de perigo.
Autocontrole não aparece no meio do caos.
Clareza não surge no auge da confusão.

Tudo isso é construído antes.

Assim como aprender a nadar.

A vida não vai diminuir a força das correntes para te poupar.

Mas você pode — e deve — aumentar a sua capacidade de lidar com elas.

Porque, no fim, liderar a própria vida não é sobre controlar o que acontece.

É sobre não se perder quando acontecer.

Pensamentos Avulsos

A decisão que inaugura destinos

Talvez por isso o “vir a ser” seja tão fundamental que, de certa forma, está refletido até nas estruturas que criamos para proteger a vida, as Leis. Há em nós — e nas sociedades que organizamos — um reconhecimento implícito de que aquilo que ainda não é plenamente também merece existir.

Mas há um ponto crítico aqui: nada disso acontece sem decisão.

Ser amigo de si mesmo

Sêneca escreveu a Lucílio algo simples e radical: “Sê tu mesmo o amigo que gostarias de ter.”

Essa frase, quando levada a sério, muda tudo.

Porque ser amigo de si mesmo não é se poupar — é se conduzir.
Não é ceder — é orientar.
Não é buscar conforto imediato — é sustentar aquilo que, no longo prazo, nos torna melhores do que éramos.

Foi isso que comecei a compreender, ainda aos 18 anos, quando decidi trilhar um caminho filosófico. Mas hoje, uma década depois, enquanto escrevo este texto, afirmo: compreender não é o mesmo que viver.

Durante anos, essa decisão existiu mais como intenção do que como prática. Até que, algo mudou. Eu me coloquei propositalmente em um contexto que exigia de mim aquilo que eu dizia valorizar: morar sozinha, em outro estado, em um trabalho novo, sem família, sem amigos, longe das referências que antes sustentavam minha identidade.

Foi ali que a filosofia deixou de ser teoria e passou a ser ferramenta sustentadora da decisão: a busca pelo propósito.

Quando você entende que decidir custa

Essa semana, em São Paulo, a vida me deu um desses pequenos testes que parecem banais — mas não são.

Fiquei hospedada em um hotel funcional: confortável, bem localizado, mas sem academia, sem piscina, sem espaço adequado para estudo. Um ambiente feito para quem acorda, toma café (se enche de comida com tudo que sabemos que tem num café da manhã de hotel), trabalha, dorme e repete.

Para a maioria das pessoas, isso não seria um problema. Para mim, era. Porque eu tomei uma decisão junto com o meu médico. Eu seguiria o pós operatório à risca.

Nadar não é opcional — é parte da minha recuperação. Treinar não é estética — é disciplina da recuperação. Estudar não é obrigação — é direção e treino da mente. É a razão, direcionada à virtude, que sustenta tudo. Então como deixar de treiná-la também através do estudo?

Durante dias, a agenda não ajudou. Reuniões, deslocamentos, vôo errado, conexão nos confins (literalmente, risos), cansaço. Sempre havia um motivo plausível para adiar a escolha. E todos os dias eu estava lá, de novo. No sábado, eu decidi mais uma vez agir de acordo com meu vir a ser. Só que dessa vez, foi a vida quem me surpreendeu. 

Ela não sabe, mas me explicou — em um único dia — a importância de nunca esperar condições ideais.

De não negociar comigo mesma.

De não me diminuir diante do contexto, do desafio ou das pessoas.

As costas doíam. Ainda assim, encontrei uma piscina a 6 km do hotel e fui. São Paulo pela manhã é gelado. A água, parada como um lago de gelo. O treino foi difícil. Mais ainda, respirar do lado direito — algo que vem me desafiando todos os treinos por eu ser canhota, confesso que já estava até desistindo. Mas, sob a orientação do novo professor, começou a destravar. Coordenação, respiração, confiança em cada braçada.

Saí da água melhor do que entrei. Mas o mais interessante ainda estava por vir.

O encontro que nasce de uma decisão

No vestiário, entre o banho e aquele show que é uma mulher se arrumar fora de casa (shampoo, pente, roupas, toalha, cremes etc) e uma conversa casual ao fundo, encontrei duas mulheres. Começamos a falar — primeiro de forma leve, depois com uma profundidade e um rumo inesperado.

Uma delas compartilhou comigo a perda da mãe para o câncer. A dor foi o que a levou à decisão do autocuidado. Ao movimento. À decisão de viver de outra forma. Viver, acima de tudo, honrando a memória de sua falecida mãe.

Demos adeus a nossa outra colega e decidimos fazer um segundo treino juntas, na academia do shopping, No caminho até lá, seguimos conversando. Histórias diferentes, mas um ponto em comum: a decisão de não se render ao que nos aconteceu.

Treinamos juntas. E, ao nos despedirmos, fizemos uma promessa de um lado improvável e, ao mesmo tempo, profundamente séria: em 2031, cruzaremos juntas a linha de chegada da prova de Ironman no Rio de Janeiro.

Pode parecer exagero — duas desconhecidas fazendo um pacto de longo prazo. Mas não é sobre o evento. É sobre o que o tornou possível. Tudo aquilo nasceu de uma única decisão: a de ir treinar naquele dia. Um sábado, no primeiro horário, numa folga, e no meu caso, de uma viagem.

Decisões mudam destinos (mesmo quando ninguém entende)

A decisão de participar de um triathlon mexeu em inúmeros aspectos da minha vida aos quais eu era profundamente apegada: noites longas, álcool, rotina desregulada, encontros que começavam tarde e terminavam mais tarde ainda. Ou cedo, mais especificamente chegando da balada e tomando café na padaria.

Troquei tudo isso por algo simples — e, para muitos, estranho: dormir às 21h. Acordar às 05:00h para treinar (mesmo nos finais de semana), parar de beber, estudar filosofia nas folgas, comprar uma nova bicicleta em vez de um carro.

A reação não demorou:

“Ah, mas só hoje.”
“Você compensa depois.”
“Estamos em São Paulo…”
“Isso é frescura.”

Mas a verdade é que toda decisão real cobra um preço social.

Porque, quando você muda, você desorganiza o ambiente ao seu redor. E ele se reajusta. Porque você ajustou a si mesmo.

Alguns ficam.
Alguns crescem junto.
Alguns vão embora.

E tudo bem.

As amizades que permanecem são aquelas que também decidiram — decidiram crescer, decidiram apoiar, decidiram caminhar. Decidiram crescer na mesma direção.

A amizade como força que movimenta

Existe algo curioso na amizade verdadeira.

Ela não te empurra — mas te impulsiona.
Não te cobra — mas te eleva.

É como o movimento de uma hélice eólica: no começo, há resistência, gravidade. O ar parece insuficiente. As pás são pesadas. Você nem acredita que é possível mexê-las.

Mas, quando elas começam a girar, algo muda.

A própria rotação passa a gerar mais movimento. O impulso inicial gera outros e acumula mais força. O que antes era esforço vira geração de energia.

Assim são as decisões sustentadas — e as relações que nascem delas.

Elas criam um campo de força onde o crescimento deixa de ser exceção e passa a ser direção.

O ponto central

No fim, tudo volta ao mesmo lugar:

Você já é, em potência, aquilo que pode se tornar.

Mas essa potência não se realiza sozinha.

Ela exige decisão.

Decidir dormir cedo.
Decidir treinar.
Decidir estudar.
Decidir se afastar.
Decidir se aproximar.

Decidir dialogar.
Decidir, todos os dias, ser o tipo de pessoa que você se orgulha.

Porque o destino não é algo que se encontra.

É algo que se constrói — uma decisão de cada vez. 

E não decidir… também é uma decisão.

Pensamentos Avulsos

Onde a Conveniência Silencia a essência

Onde a Conveniência Silencia a essência

mulher na cachoeira

A aurora de sábado na praia deveria ser uma ode à  vida. O plano era comemorar o aniversário de uma grande amiga com as pequenas alegrias da vida: o aroma do café preto, o frescor das frutas, o calor dos afetos. Tudo junto e misturado sob o teto infinito do céu e o ritmo ancestral das marés. Era um convite para ser, simplesmente, parte da paisagem em um piquenique na praia.

Até então, eu estava responsável por levar o cafezinho e algumas frutas. Na quinta-feira anterior, veio um pequeno detalhe. “Leva os descartáveis também?”, disseram. E eu, no automatismo das inúmeras urgências (trabalho, estudo, treinos, dieta, casa), comprei. Na hora, não foi nada demais. Acho que você, assim como eu, já organizou uma festa com descartáveis não uma, mas várias vezes. O choque veio depois. Lá estava eu, estudando um módulo da pós sobre o humanismo e o professor um slide sobre o especismo:

Depois da aula (4 horas sobre isso), várias atitudes minhas alugaram um triplex na minha cabeça. Percebi que carregamos, muitas vezes sem notar, a arrogância de quem se crê como a medida de todas as coisas. Olhamos para o oceano e para a terra não como o ventre que nos sustenta, mas como um grande supermercado, posto ali para servir ao nosso conforto imediato com recursos infinitos. É o antropocentrismo¹ em sua forma mais estéril: o humano que, para poupar-se de ter trabalho, condena o mundo a lidar com seus restos por séculos. Isso quando ele consegue.

Na filosofia nós estudamos a deliberação como o ato de ponderar ANTES de agir. E ao agir, agir com virtude: ser correto, justo, corajoso, temperante. Onde estava a minha razão? Adormecida. Essa ferramenta preciosa que nos permite filtrar o que é apenas a “norma social” do que é verdadeiramente ético.

Eu não contei pra ninguém o meu desconforto, mas prometi a mim mesma que faria diferente em próximas ocasiões. Ao segurar aqueles pratinhos, eu não era um ser em comunhão com a natureza; eu era o homem especista, exercendo poder sobre o planeta (ainda que inconscientemente). Ao agirmos assim, nos vemos como o centro, e não como o grão. Esquecemos que a verdadeira liberdade não está em fazer o que é mais cômodo, mas em agir conforme a natureza universal, aquela que exige que cada passo nosso seja coerente com a harmonia do todo. Que essa semana, possamos agir mais assim. Porque entre a intenção e o ato, existe a escolha.


Não há nada que nos envolva em maiores males do que o facto de nos ajustarmos ao rumor comum, considerando como melhor o que é aceite por consenso.

SÊNECA

O banquete na areia, que deveria ser um ritual de gratidão me lembrou como é fácil se perder no que é “normal” quando esquecemos de nossa verdadeira natureza.

É possível abandonar a ilusão de que somos os senhores da paisagem com as nossas atitudes diárias? 

Caminho pela vida na esperança de que meu rastro na areia mostre que sou apenas o desenho dos meus pés descalços, e não o resíduo da minha conveniência. Afinal, a felicidade que buscamos na filosofia não é um estado de conforto, mas um estado de retidão. E a retidão, quase sempre, exige que troquemos o fácil pelo esforço demorado, consciente e contínuo.

Sejamos o grão de areia — pequeno, consciente de sua finitude, mas indispensável para a existência.

¹ Concepção filosófica e cultural que posiciona o ser humano como o centro do universo e a medida de todas as coisas. Nesta visão, a natureza e as demais espécies são valorizadas apenas na medida em que servem aos interesses, necessidades e ao bem-estar da humanidade, justificando uma relação de dominação e exploração dos recursos naturais.

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Pensamentos Avulsos

O “pace” do coração

Você já parou para observar como o Rei Leão estava certo? A vida é, de fato, um “ciclo sem fim que nos guiará”. Ela não caminha em linha reta; ela gira. Em um instante, o foco é o vigor dos músculos e a clareza da saúde; ou aquela tatuagem que todo mundo está fazendo. No giro seguinte, o choro de um filho recém-nascido preenche a casa, ou o silêncio de uma mudança de endereço ecoa pelas salas vazias. Relacionamentos florescem e fenecem como as estações, e a notícia de uma doença em alguém que amamos interrompe o ritmo da música. É… a vida é cíclica, agridoce e inevitável.

O problema, no entanto, não é para onde o ciclo nos leva, mas o que deixamos de enxergar enquanto rodamos com ele. Como Epicteto já nos alertava há 2 mil anos atrás: “Não são as coisas que atormentam os homens, mas as opiniões que eles têm sobre as coisas.”

À medida que pequenos, médios e grandes eventos nos atropelam, dia após dia, nós nos tornamos arquitetos de indicadores. Criamos planilhas para a existência. Monitoramos obsessivamente a velocidade média da corrida na orla, o cronômetro que marca o engarrafamento, os litros de água que descem pela garganta e as fatias de um salário que, em teoria, compra pedaços de felicidade. No digital, a obsessão ganha outros contornos de urgência: contamos os minutos de vácuo no WhatsApp e dissecamos a métrica cruel entre quem visualizou nossos stories e quem, de fato, deixou um “coraçãozinho” pulsando na tela fria.

Nos cercamos de números e KPIs para tentar provar a nós mesmos que estamos indo bem. Mas e o pace do seu coração, você mede?

Não falo da frequência cardíaca que o seu relógio de última geração marca enquanto você corre, anda, nada. Falo do ritmo da sua alma. Daquela batida surda que acontece no centro do peito quando o mundo lá fora grita. E se a oxigenação que o smartwatch marca fosse a deliberação sobre o nosso interior? A nossa essência, ao contrário do que o status quo quer que você acredite, não é um passageiro mudo em um carro em alta velocidade. Carl Jung, com a precisão de quem conhece as sombras, já costumava dizer:

Eu senti o peso dessa máquina esta semana. Faltando sete dias para o fechamento do ano fiscal na empresa onde trabalho (multinacional que olha o ano de abril março x Brasil que olha janeiro a dezembro), eu me vi no centro de um paradoxo barulhento. De um lado, a consciência afiada das entregas, o foco cirúrgico no cumprimento das metas de março. Do outro, um cansaço que não é físico, mas de perspectiva. E o mundo? O mundo não para para que possamos respirar. Ele despeja sobre nós festivais, o jogo do Flamengo, o riso dos amigos em uma balada e um noticiário que, por vezes, parece uma carta de despedida da humanidade: guerra, estupro, corrupção, feminicídio.

Nesse turbilhão de estímulos, com que frequência você para (para mesmo) e ajusta a rota? Em que momento você escuta quando o seu coração pede um tempo de silêncio? Veja, não um desvio no caminho, mas caminho algum. Isto é, introspecção, comedimento, solitude.

Esta semana, o meu convite é para que você desacelere o olhar. Sinta o estado do seu interior à medida que pessoas e situações convergem e divergem de você. Tenha a coragem quase revolucionária de parar diante de um convite, de uma tarefa ou de uma notícia, e deliberar em silêncio: Isso está adequado à minha alma? Ao meu “eu” superior?

Os estóicos chamavam essa bússola interna de Daimon — uma centelha divina, um guia silencioso que usa a razão para filtrar o que é nobre e o que é apenas ruído. Agir com o Daimon é dar o polimento final na própria vida, através do uso correto das aparências¹, escolhendo a temperança quando o mundo exige euforia, e a justiça quando o mundo oferece conveniência.

Não permita que sua alma corra no automático, sendo levada por algoritmos ou calendários fiscais. Monitore o ritmo que nasce de dentro. Garanta que cada passo no asfalto esteja em harmonia com o passo do seu Ser. Como Sócrates disse a Alcibíades:

– Tente ser belo.

Boa semana e, acima de tudo, bom monitoramento interno.

¹ Aparências (Phantasia): Na psicologia estoica de Epicteto, são as impressões que o mundo externo causa em nossa mente. O exercício da virtude consiste em não aceitá-las cegamente, mas em examiná-las através da razão para decidir se devemos ou não dar importância a elas.

REFERÊNCIAS

EPICTETO. Discursos. Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien. São Cristóvão: Editora UFS, 2014.

JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991. (Obras completas de C.G. Jung, v. 6).

PLATÃO. O Banquete. Tradução de José Cavalcante de Souza. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991.