Pensamentos Avulsos

Onde a Conveniência Silencia a essência

foto de piquenique na praia

Onde a Conveniência Silencia a essência

mulher na cachoeira

A aurora de sábado na praia deveria ser uma ode à  vida. O plano era comemorar o aniversário de uma grande amiga com as pequenas alegrias da vida: o aroma do café preto, o frescor das frutas, o calor dos afetos. Tudo junto e misturado sob o teto infinito do céu e o ritmo ancestral das marés. Era um convite para ser, simplesmente, parte da paisagem em um piquenique na praia.

Até então, eu estava responsável por levar o cafezinho e algumas frutas. Na quinta-feira anterior, veio um pequeno detalhe. “Leva os descartáveis também?”, disseram. E eu, no automatismo das inúmeras urgências (trabalho, estudo, treinos, dieta, casa), comprei. Na hora, não foi nada demais. Acho que você, assim como eu, já organizou uma festa com descartáveis não uma, mas várias vezes. O choque veio depois. Lá estava eu, estudando um módulo da pós sobre o humanismo e o professor um slide sobre o especismo:

Depois da aula (4 horas sobre isso), várias atitudes minhas alugaram um triplex na minha cabeça. Percebi que carregamos, muitas vezes sem notar, a arrogância de quem se crê como a medida de todas as coisas. Olhamos para o oceano e para a terra não como o ventre que nos sustenta, mas como um grande supermercado, posto ali para servir ao nosso conforto imediato com recursos infinitos. É o antropocentrismo¹ em sua forma mais estéril: o humano que, para poupar-se de ter trabalho, condena o mundo a lidar com seus restos por séculos. Isso quando ele consegue.

Na filosofia nós estudamos a deliberação como o ato de ponderar ANTES de agir. E ao agir, agir com virtude: ser correto, justo, corajoso, temperante. Onde estava a minha razão? Adormecida. Essa ferramenta preciosa que nos permite filtrar o que é apenas a “norma social” do que é verdadeiramente ético.

Eu não contei pra ninguém o meu desconforto, mas prometi a mim mesma que faria diferente em próximas ocasiões. Ao segurar aqueles pratinhos, eu não era um ser em comunhão com a natureza; eu era o homem especista, exercendo poder sobre o planeta (ainda que inconscientemente). Ao agirmos assim, nos vemos como o centro, e não como o grão. Esquecemos que a verdadeira liberdade não está em fazer o que é mais cômodo, mas em agir conforme a natureza universal, aquela que exige que cada passo nosso seja coerente com a harmonia do todo. Que essa semana, possamos agir mais assim. Porque entre a intenção e o ato, existe a escolha.


Não há nada que nos envolva em maiores males do que o facto de nos ajustarmos ao rumor comum, considerando como melhor o que é aceite por consenso.

SÊNECA

O banquete na areia, que deveria ser um ritual de gratidão me lembrou como é fácil se perder no que é “normal” quando esquecemos de nossa verdadeira natureza.

É possível abandonar a ilusão de que somos os senhores da paisagem com as nossas atitudes diárias? 

Caminho pela vida na esperança de que meu rastro na areia mostre que sou apenas o desenho dos meus pés descalços, e não o resíduo da minha conveniência. Afinal, a felicidade que buscamos na filosofia não é um estado de conforto, mas um estado de retidão. E a retidão, quase sempre, exige que troquemos o fácil pelo esforço demorado, consciente e contínuo.

Sejamos o grão de areia — pequeno, consciente de sua finitude, mas indispensável para a existência.

¹ Concepção filosófica e cultural que posiciona o ser humano como o centro do universo e a medida de todas as coisas. Nesta visão, a natureza e as demais espécies são valorizadas apenas na medida em que servem aos interesses, necessidades e ao bem-estar da humanidade, justificando uma relação de dominação e exploração dos recursos naturais.

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