Pensamentos Avulsos

Repouso

Repouso

A perda de tempo de quem se acostumou a medir a vida pelo movimento. 

carnaval no brasil e felicidade

Esta semana meu corpo tomou uma decisão sem me consultar.

Ele decidiu repousar. Imagina, que ultraje?!

A verdade é que eu já sabia que isso aconteceria depois de deliberadamente escolher fazer uma tatuagem grande, cobrindo o abdômen e parte das costelas, não existia outro caminho possível né (risos).

Sem natação.

Sem bicicleta.

Sem fisioterapia.

Sem boa parte da rotina que costumo usar para organizar a cabeça, a mente e o espírito.

Mesmo sabendo da necessidade de descansar algo dentro de mim resistiu. Porque existe uma diferença gritante entre saber que precisamos parar, aceitar que precisamos parar e de fato parar.

Me peguei nesse tapete de Penélope¹, desfazendo durante o dia aquilo que havia decidido pela manhã. Marquei e desmarquei com a fisioterapeuta, com a professora de dança, o rolê com os amigos.

O desconforto da cicatrização começou a me abalar. Percebi o quanto, de um lado, meu corpo estava exigindo repouso e, de outro, minha mente insistia em negociar. Como um cabo de guerra.

Sem poder movimentar o corpo, resolvi movimentar uma palavra. 

Como não podia correr para lugar nenhum, corri atrás dessa singela palavra: repouso. Ela, para mim, sempre foi uma intrigante dificuldade que esconde dentro de si duas partes:

Re-pousar.

É como pousar outra vez. Voltar ao solo. Retornar à terra firme. 

Deitada, com as linhas da tatuagem besuntadas de óleo de coco, focada em não me mexer, pensei nos aviões…

Depois de meditar por longos minutos, constatei um fato: nenhum piloto passa horas preparando uma decolagem para simplesmente permanecer no ar para sempre. Então por que era o que estava tentando fazer?

“Julia, todo voo pressupõe um pouso”. Disse a mim mesma.

Veja, todo deslocamento pressupõe uma pausa. É, o óbvio realmente precisa ser dito.

Recorri à internet para alimentar meu novo objeto de curiosidade: como pousar um avião.

Descobri algo interessante: antes de pousar, pilotos executam uma série de verificações para garantir que a aeronave e seus passageiros chegarão em segurança ao destino. Não é nem de longe a parte mais glamourosa da viagem. Contudo, é uma das mais importantes.

Internamente, pensei com meus botões: E se minha vida fosse um avião? quais seriam os procedimentos necessários para repousar? Peguei papel e caneta e construí um pequeno checklist…

Admitir que o combustível é finito

#1 procedimentos necessários para repousar

Nenhum piloto ignora o nível de combustível.

Nenhum avião permanece voando indefinidamente. Mas nós tentamos.

Ah, o ser humano… seria cômico se não fosse trágico.

Dormimos menos.

Aceleramos mais.

Empilhamos compromissos.

Transformamos a exaustão em medalha.

Como se reconhecer limites fosse sinal de fraqueza. Não é.

Verificar as condições externas

#2 procedimentos necessários para repousar

Antes de pousar, um piloto observa vento, visibilidade, pista e condições meteorológicas. Não porque controla essas variáveis, mas porque precisa respeitá-las. Se necessário, ele irá cancelar o voo. Mesmo que isso não satisfaça a opinião pública.

Nós raramente fazemos o mesmo. Eu raramente faço o mesmo.

Insistimos em exigir de nós produtividade máxima durante períodos que pedem recolhimento. Queremos desempenho de verão em estações de inverno.

Resultado?

Chamamos de fracasso aquilo que muitas vezes é apenas incompatibilidade entre expectativa e realidade.

Reduzir velocidade

#3 procedimentos necessários para repousar

Nenhum avião pousa acelerando.

Ele desacelera.

Perde altitude.

Ajusta trajetória e só então abre espaço para tocar o chão.

Penso que a vida funciona de forma parecida. Com fases que não exigem crescimento e sim assimilação.

Não produzir. Integrar.

Não lutar. Cicatrizar.

Foi isso que meu corpo me ensinou esta semana.

Enquanto eu observava a tatuagem cicatrizando, a pele rejeitando o filme protetor e o desconforto aparecendo até para respirar, percebi uma coisa curiosa:

A natureza não considera o repouso uma interrupção da vida. Nós é que consideramos.

Para a natureza, repouso também é processo.

A ferida repousa para fechar.

O alimento repousa para ser digerido.

A lagarta repousa no casulo antes de ganhar asas.

Até o solo que pisamos entra em repouso para voltar a produzir, a ter fertilidade.

Só nós – humanos – parecemos acreditar que viver significa estar em movimento permanente.

Por isso essa semana a palavra “repousar” me pareceu tão bonita, tão filosófica.

Pesquisei e sua origem remonta ao latim repausare, ligada à ideia de descansar, pausar e retornar a um estado de equilíbrio. Curiosamente, o prefixo re- carrega justamente esse sentido de voltar, retornar, fazer novamente.

Repousar não é desistir da viagem. É garantir que ela possa continuar.

Não é abandonar o voo.

É tocar o solo por tempo suficiente para que uma nova decolagem seja possível. É a vida silenciosamente nos ensinando a reconhecer quando a jornada pede menos aceleração e mais aterrissagem.

Nem toda pausa é atraso.

Nem todo descanso é improdutividade.

Nem todo repouso é ausência de caminho.

Às vezes, é apenas a preparação necessária para continuar viajando, em segurança, com inteireza.

Com a humildade de quem finalmente compreendeu que até os aviões mais sofisticados precisam, de vez em quando, voltar ao chão.

Confiar no pouso.

#4 procedimentos necessários para repousar

O repouso não apaga o caminho.

Ele preserva quem o percorre.

Repousar não é apenas voltar ao chão. É voltar para si.

Porque nenhuma viagem continua por muito tempo quando abandonamos o piloto, ignoramos os instrumentos e fingimos que o combustível é infinito.

Às vezes, a maior demonstração de coragem não é continuar voando.

É aceitar a pista, tocar o solo e confiar que haverá céu novamente.

¹ Tapete de Penélope: referência à personagem Penélope, da Odisseia de Homero. Enquanto aguardava o retorno de Ulisses da Guerra de Troia, ela tecia durante o dia e desfazia o trabalho à noite para adiar uma decisão que não desejava tomar. A expressão passou a representar situações em que avançamos e retrocedemos continuamente, construindo e desfazendo os próprios planos.

Pensamentos Avulsos

O conjunto da obra.

mulher contemplando a natureza

Maria Eduarda vive em nós.

O que estamos nos tornando?

Meu plano para esta semana era escrever sobre um prêmio que descobri no instagram.

Mais especificamente sobre um prêmio recebido por Fernanda Torres pelo conjunto da obra¹.

Gosto dessa expressão.

Conjunto da obra.

Ela sugere que uma vida não pode ser reduzida a um único acontecimento.

Nem ao maior sucesso.

Nem ao pior fracasso.

Nem ao dia em que fomos brilhantes.

Nem ao dia em que falhamos.

Sugere que nossa vida é avaliada pela soma.

Pela trajetória.

Pelo que construímos.

E até pelo que deixamos.

Bom, esse era o plano. Só que, a vida acontece enquanto fazemos planos e, numa bela manhã de sol, como diria Joseph Climber, voltamos à estaca zero.

Antes, perguntar ao leitor o que gostaria de encontrar caso um dia olhasse para trás e enxergasse sua própria obra completa parecia ter bastante sentido. Mas a semana tomou outro rumo quando no meio do caminho encontrei uma pedra, como diria Drummond, a história de Maria Eduarda.

Uma jovem de 21 anos que morreu durante um salto de rope jump².

Quantas Maria Eduardas vivem em nós?

Assisti à notícia. Ri, porque de início, achei que era um vídeo produzido com IA, uma fake news, de tão absurdo.

Depois, infelizmente, vi os noticiários, as grandes emissoras com seus relatos e por último, os comentários…

E foi ali que senti algo difícil de nomear. Não era apenas tristeza. Era uma espécie de vergonha.

Vergonha de pertencer à mesma civilização capaz de transformar uma tragédia em entretenimento.

Enquanto uma família enterra uma filha, homens disputavam criatividade para produzir piadas como:

“Eu indo no IML juntar os pedaços para fazer a festa” 

“Será que vai ter festa no IML?” 

“Se juntar direitinho as peças dá pra se divertir ainda” 

“Vou fazer concurso para o IML” 

Enquanto uma vida era interrompida, surgiam comentários tratando restos humanos como material para festa. E você sabe muito bem que tipo de festa os autores se referem.

Fechei a tela.

Afastei o celular.

Dediquei bons minutos de silêncio admitindo para mim mesma que enquanto escrevo este texto uma mulher não está segura nem mesmo morta.

Se existisse um prêmio pelo conjunto da obra da humanidade, nós o mereceríamos?

A questão me persegue porque os números mostram tanto e também tão pouco de nossa capacidade.

Construímos cidades.

Construímos aviões.

Construímos satélites.

Criamos vacinas.

Criamos inteligência artificial.

Mapeamos o genoma humano.

Enviamos máquinas para outros planetas.

Um único ser humano atinge o status de trilionário.

Somos capazes de conversar instantaneamente com pessoas do outro lado do mundo.

Mas ainda não aprendemos algo infinitamente mais simples.

Respeitar a linha tênue onde termina nosso espaço e começa o do outro. A como agir com humanidade. Talvez este seja o paradoxo do nosso tempo:

Nunca fomos tão sofisticados tecnicamente. E, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas oportunidades de exibir nossa incapacidade de lidar com a humanidade – ou ausência dela – do outro.

O problema não está na tecnologia.

A tecnologia apenas amplifica aquilo que já existe. Porque ela não inventou a crueldade, apenas lhe deu um microfone.

O problema é que avançamos muito rápido por fora e muito devagar por dentro.

Desenvolvemos ferramentas extraordinárias.

Mas o caráter não tem acompanhado o mesmo ritmo.

Por isso penso que um prêmio pelo conjunto da obra da humanidade não seria decidido pelas nossas invenções.

Seria decidido pela forma como tratamos uns aos outros e ao universo como um todo.

Pela capacidade de enxergar dignidade onde hoje enxergamos apenas utilidade.

Pela compaixão.

Pela responsabilidade.

Pela defesa daqueles que não podem se defender.

Pela consciência de que existe alguém do outro lado.

Talvez seja por isso que algumas pessoas continuam me inspirando mais do que qualquer inovação tecnológica.

Não porque foram perfeitas.

Mas porque preservaram algo raro.

Humanidade.

foto de nise da silveira

Nise da Silveira

Enfrentou perseguição profissional e isolamento por se recusar a tratar pacientes psiquiátricos com métodos considerados desumanos. Mudou a forma como o Mundo enxergava saúde mental.

Sua luta foi contra a desumanização institucional.

foto deputada erika hilton

Erika Hilton

Ao longo de sua trajetória pública, enfrentou campanhas de ódio, ameaças frequentes. Ainda assim, continua defendendo princípios que considera universais, como dignidade, respeito e participação democrática. Um exemplo recente ocorreu quando se posicionou em defesa do direito de fala de uma parlamentar com quem possui divergências ideológicas profundas, reforçando a ideia de que o respeito às pessoas e à instituição humanda deve existir primeiro.

Margarida Maria Alves, sindicalista paraibana e defensora dos direitos trabalhistas rurais

Margarida Maria Alves

Lutou pelos direitos dos trabalhadores rurais da Paraíba e foi assassinada na porta de casa. Seu nome permanece vivo na maior marcha de mulheres da América Latina. Seu exemplo inspirou trabalhadoras rurais a se organizarem nacionalmente para denunciar desigualdades e reivindicar políticas públicas voltadas ao campo.


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Maria Eduarda

Ela não criou uma lei.

Não liderou um movimento.

Não fundou uma instituição.

Não teve tempo para isso.

Só é alguém que poderia ser nossa filha.

Nossa irmã.

Nossa amiga.

Nossa vizinha.

Sua morte não revelou apenas uma tragédia.

Revelou a facilidade com que ainda transformamos sofrimento em entretenimento.

Ela é um lembrete da velocidade com que esquecemos que existe uma pessoa do outro lado da tela.

Se eu recebesse hoje um prêmio pelo conjunto da obra da minha própria vida, não gostaria que ele fosse entregue pelas viagens que fiz, pelos títulos que acumulei ou pelas metas que alcancei.

Gostaria que fosse entregue pela quantidade de humanidade que consegui preservar dentro de mim enquanto o mundo me ensinava diariamente a perdê-la. E, se algum dia existir um prêmio capaz de medir uma vida humana, espero que ele considere menos os monumentos que erguemos e mais a humanidade que conseguimos não perder pelo caminho. 

Porque, no fim das contas, talvez o verdadeiro conjunto da obra não seja aquilo que construímos. Mas aquilo que nos recusamos a destruir dentro de nós ao continuar decidindo sermos humanos em um ambiente que frequentemente recompensa o contrário. 

NOTAS

¹Conjunto da obra: expressão utilizada para se referir à avaliação integral da trajetória de uma pessoa, considerando não apenas realizações pontuais, mas o legado construído ao longo da vida. Em premiações artísticas, costuma corresponder ao chamado Lifetime Achievement Award (“prêmio pelo conjunto da obra” ou “pela carreira”).

²Rope jump: modalidade de esporte de aventura em que a pessoa realiza um salto de altura presa a um sistema de cordas e ancoragens previamente instalado. Diferentemente do bungee jump, o praticante não fica conectado a um cabo elástico, mas a cordas estáticas ou semiestáticas utilizadas para amortecer e controlar o movimento do salto.

Pensamentos Avulsos

A vergonha das versões anteriores de nós mesmos.

Que relação você cultiva com quem já foi? simbiose ou parasitismo? 

amigos adolescentes bebendo

Julia adolescente?

Porque toda…

mulher que trabalha na sankhya

Julia semi adulta

transformação do…

Julia capixaba

mundo não exige…

Adulta premium

esquecer quem fomos.

Hoje acordei triste.

Não aquela tristeza dramática dos filmes, que chega anunciando sua presença, geralmente acompanhada de um choro copioso. Essa não. Era uma tristeza silenciosa, comedida até. Dessas que se sentam ao nosso lado na mesa do café da manhã e permanecem ali sem dizer nada. 

Por isso fiz o que quase sempre funciona quando preciso colocar a cabeça no lugar: fui para a natureza. Participei de uma trilha no Espírito Santo, rumo ao Monte Mestre Álvaro. Foram cerca de doze quilômetros entre subidas, descidas, pedras, cachoeiras e conversas. Ao longo do caminho, paramos algumas vezes para descansar, comer alguma coisa e simplesmente existir sem pressa. Éramos eu, outros três integrantes e nosso guia.

Em uma dessas paradas, depois de mergulhar numa cachoeira para aliviar o calor da caminhada, sentei numa pedra para secar ao sol, lagarteando. Uma das mulheres do grupo sentou-se ao meu lado. Dentre vários assuntos, um deles foi quando começamos a observar melhor as borboletas que dividiam aquele paraíso conosco.

Eram muitas.

Pequenas, grandes, amarelas, azuis, brancas. Algumas, atravessavam a clareira iluminada pelo sol. Outras pairavam sobre a água cristalina, dividindo espaço com libélulas tão grandes que pareciam ter saído de um documentário. Foi então que ela me perguntou:

— Você sabe por que algumas borboletas têm esses pontos desenhados nas asas?

Eu não sabia.

Ela explicou que aqueles desenhos ajudam a afastar predadores. A ilusão dos olhos faz com que alguns animais pensem estar diante de uma criatura maior e mais perigosa. Achei intrigante, nunca tinha parado para refletir sobre isso, pensei com meus botões. Continuamos observando as borboletas em silêncio por mais alguns instantes. Então ela começou a me contar uma história da infância dela.

Seu pai trabalhava viajando e cortando árvores para vender madeira. Até que certo dia, voltou para casa trazendo um casulo guardado dentro do plástico que envolvia um maço de cigarros. Ela ria enquanto contava que o pai chamava aquela fina embalagem de “calcinha do cigarro”. Também achei graça. Ela me contou que apesar de ainda criança, recebeu o casulo como quem recebe um tesouro. Seus olhos já não estavam ali comigo, viajavam pelas lembranças. Contou que o casulo era grande e marrom, com pequenas linhas douradas, luminosas. Secretamente me contou também que a felicidade foi momentânea. Porque a menina que era acabou esquecendo de retirá-lo do plástico. Quando a borboleta finalmente emergiu, ficou presa. 

Sem espaço para abrir as asas. Sem conseguir voar… Morreu ali mesmo.

Ela me contou que, depois daquele episódio, fez uma promessa para si mesma: não deixaria mais as coisas importantes para depois. Hoje, adulta, sabe que foi apenas um infeliz acidente infantil. Ainda assim, manteve a promessa.

Enquanto ela falava, pensei no quanto sempre fui fascinada pela metáfora da metamorfose. Contei que escrevo e que a borboleta, inclusive, é uma de capa e também muito presente no meu blog.

Ela sorriu. E então me deu um presente que talvez ela nem saiba que me deu. O diálogo. Era como se ela me olhasse da perspectiva do meu passado e me fizesse enxergar o quanto eu não entendia por que fazia todas aquelas coisas. 

Contei a ela que, às vezes, olho para versões antigas de mim mesma e não consigo compreender certos comportamentos. Como a época em que beber todos os dias parecia normal. Na verdade, parecia o certo.

Ela continuou sorrindo. Nunca vou esquecer aquele sorriso porque não era um sorriso de julgamento, nem de longe. Tampouco de concordância. Era um sorriso de quem sabia o que estava bem debaixo do meu nariz e enxergar deveria ser simples. Nem sempre. Afinal o óbvio precisa ser dito, não é? Ela disse:

— E você acha que faz sentido a borboleta olhar para a lagarta que era e perguntar: “Como assim você era uma lagarta?”

Eu ri.

— É verdade. Não faz sentido.

— Pois é — respondeu ela. — É um processo.

Passei o restante da trilha pensando nessa frase.

Talvez um dos maiores sofrimentos humanos seja a dificuldade de fazer as pazes com as versões anteriores de nós mesmos. A trilha pode ter acabado, mas sai de lá com mais uma pergunta alugando um triplex na minha cabeça. 

Quantas pessoas vivem em guerra contra a própria lagarta? incluindo eu mesma?

A jovem insegura.

A pessoa que bebeu demais.

O profissional inexperiente.

A mulher que aceitou menos do que merecia.

O homem que errou.

A adolescente perdida.

Os caminhos tortos.

Como se a lagarta fosse um erro.

Como se tudo aquilo que fomos precisasse ser apagado para validar aquilo que nos tornamos. A natureza parece nos ensinar outra coisa.

A lagarta não é uma falha da borboleta.

Ela é sua condição de existência.

Sem lagarta não existe casulo. Sem casulo não existe metamorfose. Sem metamorfose não existem asas.

Depois da trilha, penso que amadurecer não seja negar quem fomos. Talvez seja compreender que cada fase cumpriu sua função, mesmo aquelas que hoje nos parecem incompreensíveis.

Uma coisa chamou minha atenção também. Nem sempre nos comportamos como a borboleta. Na mesma trilha, nosso guia nos mostrou uma figueira estranguladora. Ela cresce envolvendo outra árvore até sufocá-la por completo. Aos poucos, a estrutura original desaparece e apenas aquilo que cresceu por fora permanece visível.

Pensei imediatamente em quantas vezes fiz algo parecido comigo mesma. Talvez você também tenha feito.

Estrangulamos nossa própria história, esmorecendo-a pouco a pouco.

Tentamos sufocar nossas raízes.

Negamos as etapas anteriores da jornada.

Queremos parecer apenas a borboleta. Ver e Postar apenas a borboleta.

Mas a natureza não funciona assim.

A borboleta não renega a lagarta.

Ela apenas olha do futuro – essa versão nossa que está em gestação – e confia que a lagarta, no momento certo, encontrará um local seguro para continuar o caminho e garantir espaço suficiente para que as asas batam e assumam a jornada a partir dali. Curiosamente, daqui, ela também sabe que sua nova e próxima versão ainda há de enfrentar seus próprios percalços, na poesia eterna de tingir nossas armaduras contra os predadores que retornam dia após dia.

E talvez viver em paz seja exatamente isso.

Reconhecer que a lagarta, o casulo e a borboleta pertencem à mesma história.

A nossa.

P.s Porque aquela lagarta era exatamente quem você precisava ser para chegar até aqui.

Pensamentos Avulsos

O Brasileiro Médio.

A mina que ninguém vê.

Certo dia li uma manchete que dizia, em letras garrafais:
“O brasileiro médio não sabe o que é nióbio”, Confesso que me senti representada. Até pouco tempo atrás, eu também não fazia ideia. Nunca fui muito fã das aulas de geografia, apesar de, ainda no ensino fundamental, ter feito uma prova para ganhar uma viagem pelo National Geographic (risos).

Se você ainda não sabe, o nióbio é um metal utilizado em uma infinidade de produtos que atravessam nosso cotidiano sem pedir licença: ligas de aço de alta resistência, equipamentos médicos, automóveis, turbinas, celulares e tantas outras tecnologias das quais nos tornamos dependentes. Você provavelmente conhece um dos produtos acabados mais admirados do mercado: o iPhone . 

O curioso é que o Brasil concentra a maior parte das reservas conhecidas desse mineral no mundo (entre 94% e 98%). Mas foi justamente aí que uma pergunta me ocorreu. Se possuímos uma das maiores reservas de nióbio do planeta, por que isso não nos transforma automaticamente no país mais desenvolvido do mundo?

A resposta parece óbvia. Contudo, possuir não é o mesmo que transformar. O nióbio enterrado sob a terra não produz riqueza. Ele não constrói aviões. Não fabrica celulares. Não movimenta a economia. Porque antes de tudo isso, ele precisa ser descoberto, extraído e processado. Ou melhor, antes de tudo estudado e por fim transformado.

Uma jazida, por mais valiosa que seja, não gera nenhum benefício apenas por existir. E talvez a mesma coisa aconteça conosco. Vivemos em uma época obcecada pelos produtos acabados.

O celular pronto. O livro publicado. O atleta campeão. O empreendedor bem-sucedido. A carreira consolidada. A foto perfeita. O verificado no instagram. 

O resultado. Sempre o resultado. Poucas vezes paramos para pensar na mina. 

Julia porto

Quando alguém tira um iPhone do bolso, é fácil admirar o objeto. 

E os anos de pesquisa? 

Os processos industriais, a matéria-prima escondida sob o solo? 

E as milhares de pessoas que participaram da transformação daquele potencial em realidade?

O produto final sempre recebe os aplausos. O processo permanece invisível.

Com as pessoas acontece algo parecido.

Frequentemente admiramos aquilo que alguém se tornou, mas ignoramos o que precisou ser escavado para chegar até ali. A disciplina que ninguém viu. Os fracassos. As dúvidas. As renúncias. As tentativas frustradas. As pequenas escolhas repetidas diariamente. Talvez cada ser humano carregue dentro de si uma reserva semelhante.

Não de nióbio. Mas de potencial. O problema é que – de novo – confundimos potencial com realização. Enganamo-nos ao acreditar que possuir uma capacidade é o mesmo que desenvolvê-la. Que ter um talento equivale a exercê-lo. Que desejar algo significa estar caminhando em sua direção. Mas nenhuma jazida produz riqueza apenas por existir. Nenhum talento produz valor apenas por estar presente. O que admiramos externamente no mundo passou por algum processo de transformação com muito esforço envolvido.

Um avião. Uma obra de arte. Uma descoberta científica. Uma amizade duradoura. Um caráter íntegro. Nada disso surgiu pronto. E talvez seja justamente aí que mora uma das maiores dificuldades da vida contemporânea. Fomos ensinados a admirar o resultado e a desprezar o processo.

Queremos a colheita sem o cultivo.

A obra sem a construção.

A sabedoria sem a experiência.

A transformação sem o trabalho.

No entanto, a vida parece funcionar de outra maneira.

Ela exige escavação, refinamento e tempo.

Talvez a verdadeira riqueza de uma pessoa não esteja naquilo que ela possui, mas naquilo que conseguiu transformar dentro de si.

Porque, no final das contas, o valor nunca esteve apenas na matéria-prima.

O valor está naquilo que somos capazes de fazer com ela.

A transformação do nióbio em tecnologia é um projeto.

A transformação do potencial humano em humanidade efetiva também.

A diferença é que uma mina pode ser explorada por máquinas.

Já a interioridade exige consciência.

REFERÊNCIAS

BRANCO, Pércio de Moraes. Nióbio brasileiro. Serviço Geológico do Brasil (SGB), 19 out. 2016. Disponível em: Serviço Geológico do Brasil (SGB). Acesso em: 30 maio 2026.

SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL (SGB). Brasil lidera produção global de nióbio e se destaca como principal detentor das reservas. 1 mar. 2024. Disponível em: Serviço Geológico do Brasil (SGB). Acesso em: 30 maio 2026.

Pensamentos Avulsos

A Casa do Ser.

Até que em algum momento, único, exclusivo e diferente para cada um de nós, nos damos conta de que na verdade essa companhia não mora no apartamento dos sonhos, no carro do ano, no cônjuge, nem no trabalho. E então começamos a ruminar pelo mundo, nos alimentando das mais variadas fontes de informações indigestas ao ser

O meio da travessia costuma ser solitário mesmo. Talvez você se pergunte: Por que é mais fácil encontrar companhia do que encontrar conexão?

É interessante pensar que se o objetivo for claro, todo GPS recalcula a rota, mesmo se você pegar o caminho errado. Então por que seria diferente conosco? Os pensamentos que nos assolam são tão cruéis. E nos matam em partes, como Jack. Tanta comparação, cada uma delas um golpe à autenticidade. A curiosidade que tínhamos pelo mundo passa a ser um picolé de chuchu porque as coisas simplesmente perderam a graça. Você se pergunta onde estão as novidades. Esse é o problema da vida construída em metas futuras. Ela traz consigo o vazio que é perceber que nenhuma delas oferece companhia interior.

Talvez Jung tenha razão. O homem é mais capaz de construir uma nave que o leve à lua do que ao interior de si mesmo. E por isso fomos apenas à Lua.

Como habitar a própria interioridade

Talvez habitar a própria interioridade comece justamente quando paramos de tentar escapar dela. Porque quase tudo hoje parece desenhado para impedir esse encontro.

As notificações. Os vídeos curtos. O excesso de opinião. A necessidade constante de performance. O algoritmo que escolhe e seleciona por você. A verdade é que quase sempre estamos ocupados demais para perceber o que sentimos de verdade. E talvez exista algo de profundamente assustador nisso: o silêncio. Acho que por isso eu demorei a me adaptar à natação. Sou só eu, meus medos e meus pensamentos. Porque quando o barulho cessa, sobra o encontro com perguntas que passamos anos tentando adiar. Para alguns de nós, décadas!

Quem sou eu sem as metas? Quem sou eu sem o trabalho? Quem sou eu sem alguém para validar minha existência? Desnorteados, confundimos distração com felicidade. E voltamos ao vuco vuco do mundo VUCA¹.

Habitar a própria interioridade não significa gostar de tudo o que existe dentro de si. Às vezes significa apenas permanecer mesmo depois de conferir o que há do outro lado. Sem fugir imediatamente. Sem anestesiar cada vazio com consumo, relações rasas ou excesso de estímulo.

Existe uma coragem silenciosa em sustentar a própria companhia. Falamos pouco dessa firmeza que é repousar na infinitude do ser.

Não como quem se basta o tempo inteiro — porque isso também seria uma fantasia contemporânea — mas como alguém que aprende, pouco a pouco, a não se abandonar. Talvez o autoconhecimento não seja uma grande revelação mística e sim intimidade construída com repetição. Como visitar diariamente uma casa antiga até reconhecer onde o chão range, onde entra luz pela manhã e quais paredes ainda precisam de reforma.

A obra de uma casa não termina nunca. O interior humano também é uma casa. E muitas vezes passamos anos decorando a fachada enquanto os cômodos internos permanecem abandonados e o alicerce pede uma intervenção.

Talvez por isso a solidão doa tanto. Porque ela nos obriga a ouvir ecos que a vida acelerada abafa. Notificação a notificação. Todavia, existe algo importante do outro lado desse encontro. No momento em que aprendemos a habitar minimamente a nós mesmos, as relações deixam de ser apenas tentativa de preenchimento. O outro deixa de carregar a responsabilidade impossível de nos salvar da própria ausência interior.

E então, pela primeira vez, a conexão verdadeira se torne possível.

Não porque deixamos de sentir vazio.

Mas porque finalmente paramos de preenchê-lo com coisas que não o cabem.

¹mundo VUCA: É um acrônimo² criado pelo exército dos Estados Unidos após a Guerra Fria para descrever ambientes marcados por Volatility, Uncertainty, Complexity e Ambiguity — em português: volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade. O conceito passou a ser amplamente utilizado no mundo corporativo e acadêmico para caracterizar cenários de rápidas transformações, imprevisibilidade e excesso de informações.

² Acrônimo é uma palavra formada pelas letras ou sílabas iniciais de outras palavras.

Pensamentos Avulsos

Nem toda corrente é prisão.

Nem toda corrente é prisão.

Algumas te mantém no caminho.

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A corrente prende ou orienta quem sabe ancorar.

— Julia Porto

Tem uma ilusão confortável que muita gente escolhe viver: a de que, se prestarmos atenção suficiente, a vida vai nos avisar antes de ficar difícil.

Não vai.

A vida não entrega manual. Não destaca em vermelho os perigos. Não te dá um mapa com as correntes marcadas.

Ela simplesmente acontece.

E, quase sempre, quando você percebe, já está dentro: no meio do olho do furacão.

No último feriado, eu senti isso na prática.

Tenho treinado natação com constância. Comecei na piscina, dentro da raia, onde tudo é previsível: água calma, temperatuda agradável, espaço delimitado, controle absoluto do ambiente. Mas decidi ir além — comecei a nadar na praia, às margens.

Não pelas condições ideais. Pelo contrário: pelas condições reais.

No início, eu ia como qualquer pessoa: de biquíni, sem muita preparação. Até perceber que quem levava o mar a sério se preparava diferente. Óculos apropriado, touca visível, boia de sinalização com apito para emergência.

Aquilo inconscientemente me ensinou algo importante: existe uma diferença entre estar no ambiente e estar preparado para ele.

Algumas semanas depois, montei meu próprio “kit”.

No feriado, com meus pais na praia, resolvi nadar. E no mar aberto. Antes de entrar, meu pai — que passou 20 anos no mar como pescador — me alertou: o mar estava puxando.

Eu fui mesmo assim.

Nadei cerca de 500 metros. A praia já era pequena atrás de mim. Até que decidi voltar.

Foi aí que o cenário mudou.

Na ida, parecia que eu avançava com facilidade. Na volta, cada braçada parecia não sair do lugar. A corrente não me empurrava mais para frente — me levava para o lado.

Era como correr arrastando um saco de cimento.

O corpo começou a cansar. E junto com o cansaço, veio um início de nervosismo.

Esse é o ponto crítico.

Porque não é o mar que te vence primeiro — é a forma como você reage a ele.

Eu parei.

Respirei.

Observei a direção da corrente.

E fiz o único movimento possível naquela situação: em vez de lutar contra o mar, comecei a nadar com inteligência — a favor da corrente, ajustando a trajetória aos poucos em direção à praia.

Demorou mais do que eu esperava. Foi mais cansativo do que eu queria.

Mas eu cheguei.

Quando coloquei os pés na areia, meu pai só disse: “Deu ruim lá, né?”

Eu ri. Porque, no fundo, não deu.

Deu exatamente o que tinha que dar.

O mar estava lá. Fazendo o que o mar faz.

A diferença é que, dessa vez, eu estava minimamente preparada para lidar com ele.

E é aqui que entra o ponto que quero compartilhar com você, leitor.

A vida funciona da mesma forma.

Os “mares revoltos” não são exceção. São regra.

Relacionamentos difíceis, decisões profissionais, perdas, frustrações, momentos em que você nada, nada… e não sai do lugar.

Você pode passar a vida tentando evitar essas situações — ou pode construir, deliberadamente, as ferramentas para atravessá-las.

Respiração. Técnica. Leitura de cenário. Equipamento. Estudo. Repetição. Resistência emocional.

Virtudes.

É exatamente isso que a filosofia nos propõe — especialmente em Aristóteles.

A ideia de uma vida virtuosa não é abstrata nem moralista. É prática.

Virtudes são treináveis. São hábitos construídos. São recursos internos que você desenvolve antes de precisar deles.

Coragem não nasce no momento de perigo.
Autocontrole não aparece no meio do caos.
Clareza não surge no auge da confusão.

Tudo isso é construído antes.

Assim como aprender a nadar.

A vida não vai diminuir a força das correntes para te poupar.

Mas você pode — e deve — aumentar a sua capacidade de lidar com elas.

Porque, no fim, liderar a própria vida não é sobre controlar o que acontece.

É sobre não se perder quando acontecer.

Pensamentos Avulsos

A decisão que inaugura destinos

Talvez por isso o “vir a ser” seja tão fundamental que, de certa forma, está refletido até nas estruturas que criamos para proteger a vida, as Leis. Há em nós — e nas sociedades que organizamos — um reconhecimento implícito de que aquilo que ainda não é plenamente também merece existir.

Mas há um ponto crítico aqui: nada disso acontece sem decisão.

Ser amigo de si mesmo

Sêneca escreveu a Lucílio algo simples e radical: “Sê tu mesmo o amigo que gostarias de ter.”

Essa frase, quando levada a sério, muda tudo.

Porque ser amigo de si mesmo não é se poupar — é se conduzir.
Não é ceder — é orientar.
Não é buscar conforto imediato — é sustentar aquilo que, no longo prazo, nos torna melhores do que éramos.

Foi isso que comecei a compreender, ainda aos 18 anos, quando decidi trilhar um caminho filosófico. Mas hoje, uma década depois, enquanto escrevo este texto, afirmo: compreender não é o mesmo que viver.

Durante anos, essa decisão existiu mais como intenção do que como prática. Até que, algo mudou. Eu me coloquei propositalmente em um contexto que exigia de mim aquilo que eu dizia valorizar: morar sozinha, em outro estado, em um trabalho novo, sem família, sem amigos, longe das referências que antes sustentavam minha identidade.

Foi ali que a filosofia deixou de ser teoria e passou a ser ferramenta sustentadora da decisão: a busca pelo propósito.

Quando você entende que decidir custa

Essa semana, em São Paulo, a vida me deu um desses pequenos testes que parecem banais — mas não são.

Fiquei hospedada em um hotel funcional: confortável, bem localizado, mas sem academia, sem piscina, sem espaço adequado para estudo. Um ambiente feito para quem acorda, toma café (se enche de comida com tudo que sabemos que tem num café da manhã de hotel), trabalha, dorme e repete.

Para a maioria das pessoas, isso não seria um problema. Para mim, era. Porque eu tomei uma decisão junto com o meu médico. Eu seguiria o pós operatório à risca.

Nadar não é opcional — é parte da minha recuperação. Treinar não é estética — é disciplina da recuperação. Estudar não é obrigação — é direção e treino da mente. É a razão, direcionada à virtude, que sustenta tudo. Então como deixar de treiná-la também através do estudo?

Durante dias, a agenda não ajudou. Reuniões, deslocamentos, vôo errado, conexão nos confins (literalmente, risos), cansaço. Sempre havia um motivo plausível para adiar a escolha. E todos os dias eu estava lá, de novo. No sábado, eu decidi mais uma vez agir de acordo com meu vir a ser. Só que dessa vez, foi a vida quem me surpreendeu. 

Ela não sabe, mas me explicou — em um único dia — a importância de nunca esperar condições ideais.

De não negociar comigo mesma.

De não me diminuir diante do contexto, do desafio ou das pessoas.

As costas doíam. Ainda assim, encontrei uma piscina a 6 km do hotel e fui. São Paulo pela manhã é gelado. A água, parada como um lago de gelo. O treino foi difícil. Mais ainda, respirar do lado direito — algo que vem me desafiando todos os treinos por eu ser canhota, confesso que já estava até desistindo. Mas, sob a orientação do novo professor, começou a destravar. Coordenação, respiração, confiança em cada braçada.

Saí da água melhor do que entrei. Mas o mais interessante ainda estava por vir.

O encontro que nasce de uma decisão

No vestiário, entre o banho e aquele show que é uma mulher se arrumar fora de casa (shampoo, pente, roupas, toalha, cremes etc) e uma conversa casual ao fundo, encontrei duas mulheres. Começamos a falar — primeiro de forma leve, depois com uma profundidade e um rumo inesperado.

Uma delas compartilhou comigo a perda da mãe para o câncer. A dor foi o que a levou à decisão do autocuidado. Ao movimento. À decisão de viver de outra forma. Viver, acima de tudo, honrando a memória de sua falecida mãe.

Demos adeus a nossa outra colega e decidimos fazer um segundo treino juntas, na academia do shopping, No caminho até lá, seguimos conversando. Histórias diferentes, mas um ponto em comum: a decisão de não se render ao que nos aconteceu.

Treinamos juntas. E, ao nos despedirmos, fizemos uma promessa de um lado improvável e, ao mesmo tempo, profundamente séria: em 2031, cruzaremos juntas a linha de chegada da prova de Ironman no Rio de Janeiro.

Pode parecer exagero — duas desconhecidas fazendo um pacto de longo prazo. Mas não é sobre o evento. É sobre o que o tornou possível. Tudo aquilo nasceu de uma única decisão: a de ir treinar naquele dia. Um sábado, no primeiro horário, numa folga, e no meu caso, de uma viagem.

Decisões mudam destinos (mesmo quando ninguém entende)

A decisão de participar de um triathlon mexeu em inúmeros aspectos da minha vida aos quais eu era profundamente apegada: noites longas, álcool, rotina desregulada, encontros que começavam tarde e terminavam mais tarde ainda. Ou cedo, mais especificamente chegando da balada e tomando café na padaria.

Troquei tudo isso por algo simples — e, para muitos, estranho: dormir às 21h. Acordar às 05:00h para treinar (mesmo nos finais de semana), parar de beber, estudar filosofia nas folgas, comprar uma nova bicicleta em vez de um carro.

A reação não demorou:

“Ah, mas só hoje.”
“Você compensa depois.”
“Estamos em São Paulo…”
“Isso é frescura.”

Mas a verdade é que toda decisão real cobra um preço social.

Porque, quando você muda, você desorganiza o ambiente ao seu redor. E ele se reajusta. Porque você ajustou a si mesmo.

Alguns ficam.
Alguns crescem junto.
Alguns vão embora.

E tudo bem.

As amizades que permanecem são aquelas que também decidiram — decidiram crescer, decidiram apoiar, decidiram caminhar. Decidiram crescer na mesma direção.

A amizade como força que movimenta

Existe algo curioso na amizade verdadeira.

Ela não te empurra — mas te impulsiona.
Não te cobra — mas te eleva.

É como o movimento de uma hélice eólica: no começo, há resistência, gravidade. O ar parece insuficiente. As pás são pesadas. Você nem acredita que é possível mexê-las.

Mas, quando elas começam a girar, algo muda.

A própria rotação passa a gerar mais movimento. O impulso inicial gera outros e acumula mais força. O que antes era esforço vira geração de energia.

Assim são as decisões sustentadas — e as relações que nascem delas.

Elas criam um campo de força onde o crescimento deixa de ser exceção e passa a ser direção.

O ponto central

No fim, tudo volta ao mesmo lugar:

Você já é, em potência, aquilo que pode se tornar.

Mas essa potência não se realiza sozinha.

Ela exige decisão.

Decidir dormir cedo.
Decidir treinar.
Decidir estudar.
Decidir se afastar.
Decidir se aproximar.

Decidir dialogar.
Decidir, todos os dias, ser o tipo de pessoa que você se orgulha.

Porque o destino não é algo que se encontra.

É algo que se constrói — uma decisão de cada vez. 

E não decidir… também é uma decisão.

Pensamentos Avulsos

Onde a Conveniência Silencia a essência

Onde a Conveniência Silencia a essência

mulher na cachoeira

A aurora de sábado na praia deveria ser uma ode à  vida. O plano era comemorar o aniversário de uma grande amiga com as pequenas alegrias da vida: o aroma do café preto, o frescor das frutas, o calor dos afetos. Tudo junto e misturado sob o teto infinito do céu e o ritmo ancestral das marés. Era um convite para ser, simplesmente, parte da paisagem em um piquenique na praia.

Até então, eu estava responsável por levar o cafezinho e algumas frutas. Na quinta-feira anterior, veio um pequeno detalhe. “Leva os descartáveis também?”, disseram. E eu, no automatismo das inúmeras urgências (trabalho, estudo, treinos, dieta, casa), comprei. Na hora, não foi nada demais. Acho que você, assim como eu, já organizou uma festa com descartáveis não uma, mas várias vezes. O choque veio depois. Lá estava eu, estudando um módulo da pós sobre o humanismo e o professor um slide sobre o especismo:

Depois da aula (4 horas sobre isso), várias atitudes minhas alugaram um triplex na minha cabeça. Percebi que carregamos, muitas vezes sem notar, a arrogância de quem se crê como a medida de todas as coisas. Olhamos para o oceano e para a terra não como o ventre que nos sustenta, mas como um grande supermercado, posto ali para servir ao nosso conforto imediato com recursos infinitos. É o antropocentrismo¹ em sua forma mais estéril: o humano que, para poupar-se de ter trabalho, condena o mundo a lidar com seus restos por séculos. Isso quando ele consegue.

Na filosofia nós estudamos a deliberação como o ato de ponderar ANTES de agir. E ao agir, agir com virtude: ser correto, justo, corajoso, temperante. Onde estava a minha razão? Adormecida. Essa ferramenta preciosa que nos permite filtrar o que é apenas a “norma social” do que é verdadeiramente ético.

Eu não contei pra ninguém o meu desconforto, mas prometi a mim mesma que faria diferente em próximas ocasiões. Ao segurar aqueles pratinhos, eu não era um ser em comunhão com a natureza; eu era o homem especista, exercendo poder sobre o planeta (ainda que inconscientemente). Ao agirmos assim, nos vemos como o centro, e não como o grão. Esquecemos que a verdadeira liberdade não está em fazer o que é mais cômodo, mas em agir conforme a natureza universal, aquela que exige que cada passo nosso seja coerente com a harmonia do todo. Que essa semana, possamos agir mais assim. Porque entre a intenção e o ato, existe a escolha.


Não há nada que nos envolva em maiores males do que o facto de nos ajustarmos ao rumor comum, considerando como melhor o que é aceite por consenso.

SÊNECA

O banquete na areia, que deveria ser um ritual de gratidão me lembrou como é fácil se perder no que é “normal” quando esquecemos de nossa verdadeira natureza.

É possível abandonar a ilusão de que somos os senhores da paisagem com as nossas atitudes diárias? 

Caminho pela vida na esperança de que meu rastro na areia mostre que sou apenas o desenho dos meus pés descalços, e não o resíduo da minha conveniência. Afinal, a felicidade que buscamos na filosofia não é um estado de conforto, mas um estado de retidão. E a retidão, quase sempre, exige que troquemos o fácil pelo esforço demorado, consciente e contínuo.

Sejamos o grão de areia — pequeno, consciente de sua finitude, mas indispensável para a existência.

¹ Concepção filosófica e cultural que posiciona o ser humano como o centro do universo e a medida de todas as coisas. Nesta visão, a natureza e as demais espécies são valorizadas apenas na medida em que servem aos interesses, necessidades e ao bem-estar da humanidade, justificando uma relação de dominação e exploração dos recursos naturais.

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Pensamentos Avulsos

Na ausência, quem somos?

O ano era 2004.

— Esse “J” está muito grande, filha. Faz de novo, deixa eu ver.
Mamãe dizia, enquanto lavava o pano de prato na pia de mármore, e eu treinava numa folha A4 a caligrafia do meu nome. Mostrava-lhe o resultado, orgulhosa. No ambiente, o rádio Panasonic tocava bem alto Amor e Sexo, de Rita Lee. Minha mãe cantava animada, ainda esfregando o pano encardido do trabalho. Eu a acompanhava na cantoria, rindo, balançando os pés.

Hoje, me vejo ouvindo a Alexa na cozinha, ecoando 50 receitas, de Leoni, enquanto repouso na cama após uma cirurgia na coluna. Sou obrigada a interromper a leitura: o efeito déjà vu é intenso. Como na infância, dona Glória ainda canta enquanto cuida da casa. Ouço-a arrumando as compras recém-chegadas do supermercado, cantando a plenos pulmões.

Desde que me lembro, Maria da Glória — nome dado em homenagem à Nossa Senhora da Glória — sempre trabalhou fora. Era comum sair cedo para a escola e ela já não estar em casa. Ao voltar, ainda não havia chegado: só aparecia à noitinha, no servir do jantar, que por tradição e ordem do meu pai acontecia sempre à mesa, sem distrações, apenas nós em família. No fim de semana, no entanto, a história mudava: mamãe acordava cedo para lavar roupa, faxinar a casa e conversar sobre nossa semana.

De súbito, percebo: é comum nos sentirmos vazios. Solitários, mesmo rodeados de gente. Ao longo do dia. Das semanas. Dos meses. Das festas. Essa consciência não é doce — pelo contrário. Fernando Pessoa já disse:

“Pensar incomoda como andar à chuva. Quando o vento cresce e parece que chove mais”.

pessoa, fernando. poemas completos. são paulo, saraiva (2007).

Em repouso, há em nós um caleidoscópio de pensamentos. Já reparou? Recordo de uma conversa em que expliquei à minha namorada que me considerava workaholic — Será que você é viciada em trabalho ou está fugindo de si mesma?  perguntou. Resolvi morar nos versos de Pessoa, fugi para a chuva, corri para o pensar, fui pega pegas gotas pesadas trazidas pelo vento. Estar presa à cama e de repouso mostrou-me que a força com que continuamos a caminhar no dia a dia repousa, inevitavelmente, no amor pelo inefável cotidiano. A anedota está aí: “inefável” tanto nomeia aquilo que nos encanta e dá prazer quanto aquilo que não sabemos descrever, tamanha sua força e beleza. Desde que retornei à minha cidade natal, esse pout-pourri de sabedoria que habita o dia a dia me arrebata a fronte, tira-me o ar como uma maratona. Estou afastada do trabalho por trinta dias e, na ausência dele, quem sou? A tia que embala os lanches? A filha que precisa dos pais depois de uma cirurgia? A paciente sob ordens médicas de repouso extremo? Não. Existe algo aí, enterrado no profundo do ser. Algo que permeia tanto o labor de Sísifo¹ — dormir, acordar, comer, estudar, trabalhar, se relacionar — quanto a ataraxia da alma: a serenidade que nasce da ausência de inquietações.

Talvez quem somos afastados do lugar de onde deveríamos estar seja isso: aprender a existir sem a definição de rótulos, etnias, cargos ou conquistas. É poder habitar a simplicidade de ser, como quem canta distraído lavando um pano de prato ou repousa no silêncio de um quarto. Não se trata de reinventar-se todos os dias, mas de recordar que, por trás de todos os papéis, há uma essência que permanece. E é nessa essência que encontramos o verdadeiro sentido da vida: sermos quem somos, sem adornos, sem medo, simplesmente.

O cotidiano é um palco pequeno, mas infinito: nele cabem nossas dores, nossas memórias e nossas alegrias. Autenticidade na ausência não é um destino grandioso, mas o gesto singelo de não fugirmos de nós mesmos. É descobrir, mesmo entre as cicatrizes, que o amor pelo ordinário nos sustenta. Que somos mais do que pacientes, filhos, profissionais ou amantes. Somos o sopro que insiste, a chama que permanece — e, talvez, seja nisso que a existência encontra o seu sentido… em quão humano somos.

A vida não nos pede grandes façanhas todos os dias, mas nos pede presença. Ser, no fundo, é isso: dar-se inteiro àquilo que se propõe a fazer, seja no repouso ou na luta, no trabalho ou na quietude. Se não sabemos ao certo quem somos sem os rótulos, talvez seja porque autenticidade, este eterno viver, não é uma resposta pronta — é uma busca. Uma escolha diária de viver como somos, mesmo quando o mundo (ou nós mesmos) espera que sejamos outra coisa.

Eu aconselho as pessoas a pensarem: no final da sua vida, quem é o ser humano que você quer ser? Qualidades que quer ter desenvolvido. Os defeitos que quer ter polido.
— Lúcia Helena Galvão


¹ Na mitologia grega, Sísifo foi condenado pelos deuses a rolar uma enorme pedra montanha acima, apenas para vê-la despencar toda vez que se aproximava do cume, sendo obrigado a repetir a tarefa por toda a eternidade. O mito simboliza a repetição incessante e, muitas vezes, a aparente inutilidade das ações humanas, mas também pode ser interpretado — como fez Albert Camus em O Mito de Sísifo (1942) — como metáfora da condição humana: ainda que a vida seja marcada pela rotina e pela inevitabilidade da morte, é na consciência e na aceitação desse esforço que podemos encontrar liberdade e sentido.


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Pensamentos Avulsos

Refletir antes de Concluir: Um Exercício de consciência.

“O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas nos permite ver quanta escuridão existe ao redor”. FAULKNER, William.

Já aconteceu de você chegar a conclusões caóticas, descompassadas e automáticas sem necessariamente ter refletido sobre a aplicabilidade ou a realidade daquilo? 

Comigo já. Mais vezes do que eu possa me enumerar ou tampouco lembrar. Esse post é sobre isso.

O papel da consciência

Durkheim, em uma de suas grandes obras, estudou a religião primitiva do sistema Totêmico, na Austrália, para responder uma pergunta central: quais são os elementos fundamentais da religião e qual a sua função social? Em outras palavras, quais são os elementos essenciais da religião? Para isso, ele reforça a importância de, antes de qualquer movimento, caminhar com o leitor ombro a ombro para alinhar, a fim de estarem na mesma página, o que deve ser entendido como religião. Porque, veja, como Durkheim poderia garantir que o leitor compreenderá quais as formas primitivas da religião se o conceito em si não está claro para quem embarcou na leitura? O mesmo se dá com a vida.

Com frequência, nos pegamos (muitas vezes inconscientes disso) julgando noções que se formaram em nós pelos revezes da vida. Isto é, pela interação social, criação familiar, escolaridade (ou ausência dela). Nesse sentido, alerta Durkheim: “essas pré-noções se formaram sem método, seguindo os acasos e encontros da vida, elas não têm direito a nenhum crédito e devem ser rigorosamente mantidas afastadas do exame que se seguirá”. 

Aqui, convido-lhe a refletir sobre situações que você esteja passando agora ou que, de alguma maneira, estejam mais próximas de você no momento. Quando você julga esses acontecimentos, que respaldo você tem? Onde você buscou informações sobre? Como você chegou a conclusão que chegou ou empacou na conclusão que deveria chegar? Estas, são perguntas fundamentais para questionar:

Seu estilo de vida.

Suas crenças.

O modo como você enxerga o mundo. 

Como você responde a uma interação com o outro.

Lembro como se fosse hoje quando estava na faculdade e ouvi pela primeira vez a frase “O ponto de vista cria o objeto”, de Fernand de Saussure. Ela não poderia ser mais simples e mais real. Porque, impreterivelmente, as coisas começam no plano das ideias e, a depender das ideias que residem em nossos pensamentos, enxergaremos o mundo de maneira diferente. Não podemos apagar essas ideias. Contudo, todos os dias estamos aptos a reescrevê-las internamente, expandindo nossa consciência.