O ano era 2004.
— Esse “J” está muito grande, filha. Faz de novo, deixa eu ver.
Mamãe dizia, enquanto lavava o pano de prato na pia de mármore, e eu treinava numa folha A4 a caligrafia do meu nome. Mostrava-lhe o resultado, orgulhosa. No ambiente, o rádio Panasonic tocava bem alto Amor e Sexo, de Rita Lee. Minha mãe cantava animada, ainda esfregando o pano encardido do trabalho. Eu a acompanhava na cantoria, rindo, balançando os pés.
Hoje, me vejo ouvindo a Alexa na cozinha, ecoando 50 receitas, de Leoni, enquanto repouso na cama após uma cirurgia na coluna. Sou obrigada a interromper a leitura: o efeito déjà vu é intenso. Como na infância, dona Glória ainda canta enquanto cuida da casa. Ouço-a arrumando as compras recém-chegadas do supermercado, cantando a plenos pulmões.
Desde que me lembro, Maria da Glória — nome dado em homenagem à Nossa Senhora da Glória — sempre trabalhou fora. Era comum sair cedo para a escola e ela já não estar em casa. Ao voltar, ainda não havia chegado: só aparecia à noitinha, no servir do jantar, que por tradição e ordem do meu pai acontecia sempre à mesa, sem distrações, apenas nós em família. No fim de semana, no entanto, a história mudava: mamãe acordava cedo para lavar roupa, faxinar a casa e conversar sobre nossa semana.
De súbito, percebo: é comum nos sentirmos vazios. Solitários, mesmo rodeados de gente. Ao longo do dia. Das semanas. Dos meses. Das festas. Essa consciência não é doce — pelo contrário. Fernando Pessoa já disse:
“Pensar incomoda como andar à chuva. Quando o vento cresce e parece que chove mais”.
pessoa, fernando. poemas completos. são paulo, saraiva (2007).
Em repouso, há em nós um caleidoscópio de pensamentos. Já reparou? Recordo de uma conversa em que expliquei à minha namorada que me considerava workaholic — Será que você é viciada em trabalho ou está fugindo de si mesma? — perguntou. Resolvi morar nos versos de Pessoa, fugi para a chuva, corri para o pensar, fui pega pegas gotas pesadas trazidas pelo vento. Estar presa à cama e de repouso mostrou-me que a força com que continuamos a caminhar no dia a dia repousa, inevitavelmente, no amor pelo inefável cotidiano. A anedota está aí: “inefável” tanto nomeia aquilo que nos encanta e dá prazer quanto aquilo que não sabemos descrever, tamanha sua força e beleza. Desde que retornei à minha cidade natal, esse pout-pourri de sabedoria que habita o dia a dia me arrebata a fronte, tira-me o ar como uma maratona. Estou afastada do trabalho por trinta dias e, na ausência dele, quem sou? A tia que embala os lanches? A filha que precisa dos pais depois de uma cirurgia? A paciente sob ordens médicas de repouso extremo? Não. Existe algo aí, enterrado no profundo do ser. Algo que permeia tanto o labor de Sísifo¹ — dormir, acordar, comer, estudar, trabalhar, se relacionar — quanto a ataraxia da alma: a serenidade que nasce da ausência de inquietações.
Talvez quem somos afastados do lugar de onde deveríamos estar seja isso: aprender a existir sem a definição de rótulos, etnias, cargos ou conquistas. É poder habitar a simplicidade de ser, como quem canta distraído lavando um pano de prato ou repousa no silêncio de um quarto. Não se trata de reinventar-se todos os dias, mas de recordar que, por trás de todos os papéis, há uma essência que permanece. E é nessa essência que encontramos o verdadeiro sentido da vida: sermos quem somos, sem adornos, sem medo, simplesmente.
O cotidiano é um palco pequeno, mas infinito: nele cabem nossas dores, nossas memórias e nossas alegrias. Autenticidade na ausência não é um destino grandioso, mas o gesto singelo de não fugirmos de nós mesmos. É descobrir, mesmo entre as cicatrizes, que o amor pelo ordinário nos sustenta. Que somos mais do que pacientes, filhos, profissionais ou amantes. Somos o sopro que insiste, a chama que permanece — e, talvez, seja nisso que a existência encontra o seu sentido… em quão humano somos.
A vida não nos pede grandes façanhas todos os dias, mas nos pede presença. Ser, no fundo, é isso: dar-se inteiro àquilo que se propõe a fazer, seja no repouso ou na luta, no trabalho ou na quietude. Se não sabemos ao certo quem somos sem os rótulos, talvez seja porque autenticidade, este eterno viver, não é uma resposta pronta — é uma busca. Uma escolha diária de viver como somos, mesmo quando o mundo (ou nós mesmos) espera que sejamos outra coisa.
— Lúcia Helena Galvão
¹ Na mitologia grega, Sísifo foi condenado pelos deuses a rolar uma enorme pedra montanha acima, apenas para vê-la despencar toda vez que se aproximava do cume, sendo obrigado a repetir a tarefa por toda a eternidade. O mito simboliza a repetição incessante e, muitas vezes, a aparente inutilidade das ações humanas, mas também pode ser interpretado — como fez Albert Camus em O Mito de Sísifo (1942) — como metáfora da condição humana: ainda que a vida seja marcada pela rotina e pela inevitabilidade da morte, é na consciência e na aceitação desse esforço que podemos encontrar liberdade e sentido.

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