Que objetivo vale uma vida inteira tentando alcançá-lo?


Marco Aurélio certa vez escreveu que aquilo que prejudica a colmeia prejudica também a abelha.
Sempre gostei dessa imagem para me lembrar que ninguém existe isoladamente. Isto é, nossas ações fazem parte de algo maior: todo o universo e a humanidade. Por esse motivo, quando uma pessoa morre, algo da humanidade desaparece junto com ela. Uma forma única de enxergar o mundo. Uma voz. Uma história. Uma perspectiva irrepetível.
Coincidência ou não, nesta mesma semana que eu estava bem reflexiva nesse tema, uma grande amiga disse:
“Caraaa, falando em filosofia… vi que tu tá cursando, que tudo. Tem um anime que é muito essa pegada (frieren). Coisa mais linda já feita.”
fonte anônima
Não preciso nem dizer que, depois dessa mensagem, a primeira coisa que eu fiz quando chegou o final de semana foi assinar o HBO Max para ver a bendita série. Confesso que não esperava encontrar tanta filosofia em um anime aleatório sobre uma elfa.

Ao longo do texto, espero que você entenda porque eu resolvi escrever aqui o tanto que o enredo me cativou em vez de uma simples resenha. A história acompanha Frieren, uma maga élfica que resolve ajudar um grupo de guerreiros a derrotar o Rei Demônio e restaurar a paz ao mundo. Em qualquer outra narrativa, esse seria o final da história. Por exemplo, se você, assim como eu, é apaixonado pelos filmes de animação – Moana, Rei Leão, Vida de Inseto, como treinar seu dragão – vai perceber um padrão: nessas obras você acompanha a jornada.
Nesses clássicos, os heróis:
- começam sem nada;
- Sofrem todos os desafios possíveis;
- Acham que vão desistir;
- Dão a volta por cima;
- E só no final, retornam a sua cidade de origem vitoriosos.
E todos vivem felizes para sempre.
Aquela famosa “jornada do herói”. Frieren – na contramão de tudo e todos – começa exatamente onde as outras histórias terminam.
Na primeira cena:
A guerra já acabou.
A paz já foi conquistada.
A missão já foi cumprida.
Ela é a mulher mais poderosa de seu tempo.
Domina um conhecimento técnico inconcebível para outros, ninguém mais está a sua altura. Ela pode fazer o que quiser. Mas e agora, ela pensa, o que fazer?
A pergunta parece simples. Contudo, está bem longe de ser.
A título de contexto, Frieren viveu uma campanha¹ de dez anos ao lado dos bravos guerreiros que se tornaram heróis: Himmel, Eisen e Heiter. A maga, no entanto, por mais que tivesse consciência do grande impacto de sua empreitada (a paz mundial) enxergava a aventura como apenas um pequeno fragmento de sua existência. Dez anos em uma vida de mais de mil? Uma nota de rodapé, um nada. Ainda mais porque, para ela, os humanos envelhecem, morrem e desaparecem. Então por que essas experiências teriam algum valor? Ela, ao contrário, permanece.
Junto dela seu conhecimento, experiência, poder. Nessa linha de raciocínio, Frieren acredita fielmente que todos aqueles encontros foram insignificantes. Até que, um dia, no enterro de um dos heróis (um pequeno spoiler aqui foi inevitável), ela descobre algo perturbador.
A sábia maga de mil anos de vida nunca compreendeu de verdade o valor daqueles dez anos. O valor das pessoas. O valor do próprio tempo.
Ainda no primeiro episódio, pensei em como nós também organizamos a vida ao redor de grandes objetivos e ignoramos o valor do nosso tempo e das pessoas que compartilham esse tempo conosco. Então, fui obrigada a parar, porque eu simplesmente não conseguia mais assistir, tamanho o incômodo existencial. E talvez você, leitor, também pense que a vida é:
Passar no vestibular.
Conseguir um emprego.
Comprar uma casa.
Casar.
Ter filhos.
Publicar um livro.
Receber uma promoção.
Aposentar-se.
Já reparou que existe sempre alguma montanha à vista no horizonte (ou no nosso tempo, nas redes sociais) prometendo que, quando finalmente alcançarmos o topo, encontraremos aquilo que procurávamos? Mas existe um problema aí.
Todo pico da montanha tem um fim. E o que fazemos quando chegamos lá?
Lembro de quando era criança e sonhava em andar de avião.
Depois sonhei em falar inglês.
Depois em morar sozinha.
Depois em trabalhar viajando.
E cada vez que uma dessas coisas aconteceu, eu, como Frieren, me perguntei (e continuo me perguntando): “E agora?”
Não porque minhas conquistas sejam vazias.
Mas porque são finitas.
E porque nenhuma delas representa plenamente quem sou ou quem desejo me tornar.
Atingi metas que nunca pensei estarem ao meu alcance.
Frieren venceu o Rei demônio quando ninguém acreditava ser possível.
E agora?
A maior armadilha da vida moderna é escrever em pedra que o sentido da existência está escondido em alguma linha de chegada. Sempre a uma distância de um diploma, uma promoção, um carro, uma casa, um iphone, uma viagem da felicidade.
No curto, médio ou longo prazo tudo isso passará. E, nesse momento, experimentar essa melancolia silenciosa justamente depois de conquistar aquilo que desejamos não é um fracasso. É apenas o encontro inevitável com uma pergunta que esperamos encontrar resposta do outro lado da meta.
Por que continuar?
Em uma das cenas mais bonitas da série, Frieren joga na cara dos amigos que aqueles dez anos ao lado dos heróis não representavam um décimo de sua longa existência. Anos depois, um daqueles antigos companheiros lhe oferece uma resposta simples e devastadora, ao quanto ela mudou em 50 anos (quando ela retorna):
Não importa quanto tempo durou. Importa o que aquele tempo fez com você.
Nesse momento percebi a tal filosofia da série, aquela que minha amiga comentou lá atrás…
A pergunta mais importante não é quanto tempo vivemos. Nem o que acumulamos. Nem o que conquistamos.
A pergunta é:
O que nos transforma para melhor enquanto estamos vivos?
Uma guerra pode acabar.
Uma carreira pode terminar.
Um relacionamento pode chegar ao fim.
Os filhos crescem.
Os amigos partem.
Os pais envelhecem.
As fases mudam.
As pessoas morrem.
Se o sentido da vida estiver apenas nessas coisas, estaremos condenados a perdê-lo toda vez que uma delas terminar.
E se existirem projetos diferentes? Projetos que não terminam? Projetos capazes de atravessar uma vida inteira? Mil anos? Civilizações?
Tornar-se alguém mais sábio.
Aprender a amar genuinamente.
Compreender a si mesmo.
Desenvolver coragem.
Exercitar a bondade.
Refinar o caráter.
Jornadas estas que não possuem linha de chegada porque pertencem a algo mais profundo. Algo que aprendi com meu pai e sua paixão pelo Direito: as cláusulas pétreas². São princípios tão fundamentais que não podem ser abolidos nem mesmo por uma emenda constitucional.
E se a humanidade também possuísse suas próprias cláusulas pétreas?
Não leis, fundamentos irrevogáveis.
A capacidade de aprender.
A busca pela verdade.
A construção do caráter.
A transmissão de conhecimento entre gerações.
O cuidado com o universo, nossa casa.
Talvez sejam essas as coisas que permanecem mesmo quando tudo o mais muda.
Impérios caem.
Tecnologias são descontinuadas.
As cláusulas pétreas atravessam séculos.
Foi isso que Eisen, o velho guerreiro, tentou ensinar à elfa… que a existência por si só não basta. Acumular mil anos não basta. Sobreviver não basta. Porque uma vida não é medida apenas pelo tempo que dura e sim pelas transformações que abriga. A série mostra que os mártires guerreiros, mesmo após a morte, continuam transformando Frieren.
Como professores continuam vivos em seus alunos. Pais continuam vivos nos filhos. Amigos continuam vivos nas relações que ajudaram a moldar. As quebras de paradigma entre gerações que vêm e vão.
Talvez Marco Aurélio estivesse certo.
Quando uma pessoa parte, a humanidade perde algo de si. Mas aquilo que ela transformou nos outros permanece. E é por isso continuamos e devemos continuar.
Não porque ainda falta alguma coisa. Mas porque a verdadeira meta é buscar aquilo que nos transformará ao trilhar o caminho. E elevará consigo a humanidade mais um pouco.
A guerra termina.
Os companheiros partem.
As montanhas ficam para trás.
As cláusulas pétreas da humanidade ficam.
E talvez seja nelas que construiremos uma humanidade que delibera sobre galgar metas no âmbito do ser e que reverberam em toda a terra-pátria³ pela eternidade.
Notas
¹ Campanha: Na linguagem militar, campanha é uma série de ações e batalhas realizadas ao longo do tempo para atingir um objetivo maior. Em Frieren, refere-se à jornada de dez anos empreendida pelos heróis para derrotar o Rei Demônio e restaurar a paz ao mundo.
² Cláusulas Pétreas: Dispositivos fundamentais da Constituição Federal brasileira que não podem ser abolidos nem mesmo por emenda constitucional. Estão previstas no art. 60, §4º da Constituição de 1988 e protegem princípios essenciais do Estado Democrático de Direito, como a separação dos poderes, o voto direto e os direitos e garantias individuais.
³ Conceito desenvolvido pelo filósofo e sociólogo francês Edgar Morin para expressar a ideia de que toda a humanidade compartilha uma mesma casa comum: o planeta Terra. O termo propõe uma consciência planetária baseada na interdependência entre povos, culturas e ecossistemas, superando visões restritas de nação, raça ou território.
REFERÊNCIAS
FRIEREN
Frieren: Beyond Journey’s End. Frieren: Beyond Journey’s End (Sousou no Frieren). Direção de Keiichiro Saito. Japão: Madhouse, 2023. Série de televisão.
Obra original:
Sousou no Frieren. YAMADA, Kanehito; ABE, Tsukasa. Sousou no Frieren. Tóquio: Shogakukan, 2020.
MARCO AURÉLIO
Meditações. MARCO AURÉLIO. Meditações. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2019.
EDGAR MORIN
Terra-Pátria. MORIN, Edgar; KERN, Anne Brigitte. Terra-Pátria. Porto Alegre: Sulina, 2003.

























