
“Não é a morte que um homem deve temer, mas ele deve temer nunca começar a viver.”
Sabe o que é muito assustador? Perder o gosto pela vida. Acordar um dia e perceber que os livros não têm o cheiro de alguém. Que o sol já não brilha tão bonito e que um dia de céu de brigadeiro não te dá mais vontade de ir à praia. É uma vida que a barriga não dói de tanto dar risada. Onde a rotina te prende e você não se vê mais fazendo um café da manhã de hotel para receber o domingo. É prostante essa vida. Imagine, o cheiro de café recém passado não te causa nada, os cachorros passeando abanam o rabo e você não se sente feliz com esse simples gesto. É a existência de estar numa cidade paradisíaca, passar por um show de uma cantora brilhante e não se sentir abraçado pelas notas musicais. É nesse meio tempo, encontrar pessoas mas não se sentir preenchido pelas conversas. É estar em um corpo e não se regozijar em sentir os músculos trabalhando, o suor na pele, a endorfina fluindo por todos os poros.
Você já se sentiu assim? Imagino que todos nós… em algum momento da vida.
Agora eu quero te convidar a imaginar o cenário oposto e mais importante, lembrar que este é totalmente possível e alcançável. Vamos comigo?
A luz do sol atravessa a fresta da cortina e toca seus olhos não como um despertador invasivo, mas como um convite. Você acorda e, antes mesmo de abrir os olhos por completo, sente o metabolismo pulsar. Não é ansiedade; é o “motor” da vida já em rotação e você pode senti-lo. Uma presença vibrante que preenche cada célula. Você se levanta sentindo que a alma está perfeitamente ajustada ao corpo, como se houvesse uma simetria exata entre quem você é e o que o universo espera de você.
No banheiro, a água gelada desperta os sentidos. Enquanto lava o cabelo, você sente o peso do sono escorrer pelo ralo, deixando as incertezas. Aqui, reside apenas a clareza. Há uma gratidão silenciosa que transborda. Ao caminhar para a cozinha, a Alexa toca uma playlist aleatória que parece ter sido cunhada pelo próprio destino — cada nota ressoa com seu estado de espírito. Diante das frutas coloridas na mesa, você é atingido pelo privilégio da escolha. Em um mundo de tantas carências, ter a liberdade de decidir entre bananas ou um pedaço de mamão torna-se um ato sagrado de reconhecimento da abundância.
O dia flui. As tarefas domésticas, antes fardos, agora são movimentos de organização do seu “espaço”, um reflexo da ordem interna que você conquistou. No almoço, o plano muda. Você decide ir para a rua, sentir o calor das pessoas. Acaba sentando-se com alguém que acabou de conhecer, e a conversa não é só sobre amenidades. Vocês mergulham em confissões honestas sobre o passado, os medos que ainda sussurram e os planos que gritam para o futuro. É uma conexão de almas que reforça a ideia de que a convivência, quando pautada pela verdade, potencializa nossa existência.
A noite chega e te leva a uma festa de aniversário improvável. Você dança forró, samba, canta letras que estavam guardadas no fundo da memória. Ao ver pessoas se pintando com purpurina, você sorri: “A vida é isso. Brilho, energia, alma, contato”. Nada do que você planejou para o dia aconteceu, mas tudo o que o seu “ser” precisava simplesmente veio! E você nunca se divertiu TANTO.
Ao chegar em casa, o silêncio das paredes é o anfiteatro para a sua festa interna. Sentado no sofá, você percebe que a vida sempre foi simples assim, mas você estava ocupado olhando para o lugar errado. Focado em “projetos” de ter e fazer, enquanto o segredo estava no plano de ser.
O Elo com a Filosofia: Por que “a vida presta”?
Coisas que acontecem, pessoas que conhecemos, situações que passamos. Isso tudo por si só é apenas parte da vida. A vida mesmo é na verdade um projeto. E ele se chama “Ser”: A vida é esse agridoce processo de vislumbrar diariamente quem você quer se tornar, o polimento das suas virtudes e o alinhamento com o propósito universal: nos tornarmos maiores do que quando começamos: mais justos, mais corajosos, mais temperantes, mais humanos.
Creio que, muitas vezes, não conseguimos enxergar este lado poético, majestoso e inefável da vida porque, na verdade, não a vemos como o projeto do ser, mas sim como as coisas a conquistar. Desejos de consumo e fantasias de fuga estão longe de transmitir a potência que se chama vida. Haverá um dia em que será preciso descrevermos o que é “bom” não com o que foi “conquistado” externamente e testemunhado pela sociedade e sim por ter assumido o controle das nossas ferramentas mentais e emocionais para encontrar algo verdadeiramente revolucionário: o interior de nós mesmos.
Quando você ajusta seu olhar para a vida como um todo, você percebe que a vida “presta” porque seus sonhos individuais se alinharam aos sonhos da natureza, o Dharma¹. Nesse estado de sincronicidade, você não caminha sozinho; o universo “patrocina” seus passos, transformando esse dia comum em uma jornada épica de sentido rumo à eterna construção do ser.
¹ Dharma: Termo de origem sânscrita que, no contexto da filosofia perenial, refere-se à “Lei Universal” ou à “Ordem Cósmica”. Representa o papel fundamental que cada ser deve desempenhar para estar em harmonia com o todo. Enquanto o projeto busca satisfações pessoais e temporárias, o alinhamento com o Dharma significa viver de acordo com a própria natureza e com a inteligência que organiza o universo, transformando a existência em um ato de serviço e evolução espiritual.





