Pensamentos Avulsos

Onde a Conveniência Silencia a essência

Onde a Conveniência Silencia a essência

mulher na cachoeira

A aurora de sábado na praia deveria ser uma ode à  vida. O plano era comemorar o aniversário de uma grande amiga com as pequenas alegrias da vida: o aroma do café preto, o frescor das frutas, o calor dos afetos. Tudo junto e misturado sob o teto infinito do céu e o ritmo ancestral das marés. Era um convite para ser, simplesmente, parte da paisagem em um piquenique na praia.

Até então, eu estava responsável por levar o cafezinho e algumas frutas. Na quinta-feira anterior, veio um pequeno detalhe. “Leva os descartáveis também?”, disseram. E eu, no automatismo das inúmeras urgências (trabalho, estudo, treinos, dieta, casa), comprei. Na hora, não foi nada demais. Acho que você, assim como eu, já organizou uma festa com descartáveis não uma, mas várias vezes. O choque veio depois. Lá estava eu, estudando um módulo da pós sobre o humanismo e o professor um slide sobre o especismo:

Depois da aula (4 horas sobre isso), várias atitudes minhas alugaram um triplex na minha cabeça. Percebi que carregamos, muitas vezes sem notar, a arrogância de quem se crê como a medida de todas as coisas. Olhamos para o oceano e para a terra não como o ventre que nos sustenta, mas como um grande supermercado, posto ali para servir ao nosso conforto imediato com recursos infinitos. É o antropocentrismo¹ em sua forma mais estéril: o humano que, para poupar-se de ter trabalho, condena o mundo a lidar com seus restos por séculos. Isso quando ele consegue.

Na filosofia nós estudamos a deliberação como o ato de ponderar ANTES de agir. E ao agir, agir com virtude: ser correto, justo, corajoso, temperante. Onde estava a minha razão? Adormecida. Essa ferramenta preciosa que nos permite filtrar o que é apenas a “norma social” do que é verdadeiramente ético.

Eu não contei pra ninguém o meu desconforto, mas prometi a mim mesma que faria diferente em próximas ocasiões. Ao segurar aqueles pratinhos, eu não era um ser em comunhão com a natureza; eu era o homem especista, exercendo poder sobre o planeta (ainda que inconscientemente). Ao agirmos assim, nos vemos como o centro, e não como o grão. Esquecemos que a verdadeira liberdade não está em fazer o que é mais cômodo, mas em agir conforme a natureza universal, aquela que exige que cada passo nosso seja coerente com a harmonia do todo. Que essa semana, possamos agir mais assim. Porque entre a intenção e o ato, existe a escolha.


Não há nada que nos envolva em maiores males do que o facto de nos ajustarmos ao rumor comum, considerando como melhor o que é aceite por consenso.

SÊNECA

O banquete na areia, que deveria ser um ritual de gratidão me lembrou como é fácil se perder no que é “normal” quando esquecemos de nossa verdadeira natureza.

É possível abandonar a ilusão de que somos os senhores da paisagem com as nossas atitudes diárias? 

Caminho pela vida na esperança de que meu rastro na areia mostre que sou apenas o desenho dos meus pés descalços, e não o resíduo da minha conveniência. Afinal, a felicidade que buscamos na filosofia não é um estado de conforto, mas um estado de retidão. E a retidão, quase sempre, exige que troquemos o fácil pelo esforço demorado, consciente e contínuo.

Sejamos o grão de areia — pequeno, consciente de sua finitude, mas indispensável para a existência.

¹ Concepção filosófica e cultural que posiciona o ser humano como o centro do universo e a medida de todas as coisas. Nesta visão, a natureza e as demais espécies são valorizadas apenas na medida em que servem aos interesses, necessidades e ao bem-estar da humanidade, justificando uma relação de dominação e exploração dos recursos naturais.

↓↓↓ COMECE A ESTUDAR SOBRE / SAIBA MAIS ↓↓↓

Pensamentos Avulsos

O “pace” do coração

Você já parou para observar como o Rei Leão estava certo? A vida é, de fato, um “ciclo sem fim que nos guiará”. Ela não caminha em linha reta; ela gira. Em um instante, o foco é o vigor dos músculos e a clareza da saúde; ou aquela tatuagem que todo mundo está fazendo. No giro seguinte, o choro de um filho recém-nascido preenche a casa, ou o silêncio de uma mudança de endereço ecoa pelas salas vazias. Relacionamentos florescem e fenecem como as estações, e a notícia de uma doença em alguém que amamos interrompe o ritmo da música. É… a vida é cíclica, agridoce e inevitável.

O problema, no entanto, não é para onde o ciclo nos leva, mas o que deixamos de enxergar enquanto rodamos com ele. Como Epicteto já nos alertava há 2 mil anos atrás: “Não são as coisas que atormentam os homens, mas as opiniões que eles têm sobre as coisas.”

À medida que pequenos, médios e grandes eventos nos atropelam, dia após dia, nós nos tornamos arquitetos de indicadores. Criamos planilhas para a existência. Monitoramos obsessivamente a velocidade média da corrida na orla, o cronômetro que marca o engarrafamento, os litros de água que descem pela garganta e as fatias de um salário que, em teoria, compra pedaços de felicidade. No digital, a obsessão ganha outros contornos de urgência: contamos os minutos de vácuo no WhatsApp e dissecamos a métrica cruel entre quem visualizou nossos stories e quem, de fato, deixou um “coraçãozinho” pulsando na tela fria.

Nos cercamos de números e KPIs para tentar provar a nós mesmos que estamos indo bem. Mas e o pace do seu coração, você mede?

Não falo da frequência cardíaca que o seu relógio de última geração marca enquanto você corre, anda, nada. Falo do ritmo da sua alma. Daquela batida surda que acontece no centro do peito quando o mundo lá fora grita. E se a oxigenação que o smartwatch marca fosse a deliberação sobre o nosso interior? A nossa essência, ao contrário do que o status quo quer que você acredite, não é um passageiro mudo em um carro em alta velocidade. Carl Jung, com a precisão de quem conhece as sombras, já costumava dizer:

Eu senti o peso dessa máquina esta semana. Faltando sete dias para o fechamento do ano fiscal na empresa onde trabalho (multinacional que olha o ano de abril março x Brasil que olha janeiro a dezembro), eu me vi no centro de um paradoxo barulhento. De um lado, a consciência afiada das entregas, o foco cirúrgico no cumprimento das metas de março. Do outro, um cansaço que não é físico, mas de perspectiva. E o mundo? O mundo não para para que possamos respirar. Ele despeja sobre nós festivais, o jogo do Flamengo, o riso dos amigos em uma balada e um noticiário que, por vezes, parece uma carta de despedida da humanidade: guerra, estupro, corrupção, feminicídio.

Nesse turbilhão de estímulos, com que frequência você para (para mesmo) e ajusta a rota? Em que momento você escuta quando o seu coração pede um tempo de silêncio? Veja, não um desvio no caminho, mas caminho algum. Isto é, introspecção, comedimento, solitude.

Esta semana, o meu convite é para que você desacelere o olhar. Sinta o estado do seu interior à medida que pessoas e situações convergem e divergem de você. Tenha a coragem quase revolucionária de parar diante de um convite, de uma tarefa ou de uma notícia, e deliberar em silêncio: Isso está adequado à minha alma? Ao meu “eu” superior?

Os estóicos chamavam essa bússola interna de Daimon — uma centelha divina, um guia silencioso que usa a razão para filtrar o que é nobre e o que é apenas ruído. Agir com o Daimon é dar o polimento final na própria vida, através do uso correto das aparências¹, escolhendo a temperança quando o mundo exige euforia, e a justiça quando o mundo oferece conveniência.

Não permita que sua alma corra no automático, sendo levada por algoritmos ou calendários fiscais. Monitore o ritmo que nasce de dentro. Garanta que cada passo no asfalto esteja em harmonia com o passo do seu Ser. Como Sócrates disse a Alcibíades:

– Tente ser belo.

Boa semana e, acima de tudo, bom monitoramento interno.

¹ Aparências (Phantasia): Na psicologia estoica de Epicteto, são as impressões que o mundo externo causa em nossa mente. O exercício da virtude consiste em não aceitá-las cegamente, mas em examiná-las através da razão para decidir se devemos ou não dar importância a elas.

REFERÊNCIAS

EPICTETO. Discursos. Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien. São Cristóvão: Editora UFS, 2014.

JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991. (Obras completas de C.G. Jung, v. 6).

PLATÃO. O Banquete. Tradução de José Cavalcante de Souza. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991.

Pensamentos Avulsos

A Morte em Vida: O Perigo de Perder de vista o que importa

mulher contemplando o nada

“Não é a morte que um homem deve temer, mas ele deve temer nunca começar a viver.”

Sabe o que é muito assustador? Perder o gosto pela vida. Acordar um dia e perceber que os livros não têm o cheiro de alguém. Que o sol já não brilha tão bonito e que um dia de céu de brigadeiro não te dá mais vontade de ir à praia. É uma vida que a barriga não dói de tanto dar risada. Onde a rotina te prende e você não se vê mais fazendo um café da manhã de hotel para receber o domingo. É prostante essa vida. Imagine, o cheiro de café recém passado não te causa nada, os cachorros passeando abanam o rabo e você não se sente feliz com esse simples gesto. É a existência de estar numa cidade paradisíaca, passar por um show de uma cantora brilhante e não se sentir abraçado pelas notas musicais. É nesse meio tempo, encontrar pessoas mas não se sentir preenchido pelas conversas. É estar em um corpo e não se regozijar em sentir os músculos trabalhando, o suor na pele, a endorfina fluindo por todos os poros. 

Você já se sentiu assim? Imagino que todos nós… em algum momento da vida. 

Agora eu quero te convidar a imaginar o cenário oposto e mais importante, lembrar que este é totalmente possível e alcançável. Vamos comigo?

A luz do sol atravessa a fresta da cortina e toca seus olhos não como um despertador invasivo, mas como um convite. Você acorda e, antes mesmo de abrir os olhos por completo, sente o metabolismo pulsar. Não é ansiedade; é o “motor” da vida já em rotação e você pode senti-lo. Uma presença vibrante que preenche cada célula. Você se levanta sentindo que a alma está perfeitamente ajustada ao corpo, como se houvesse uma simetria exata entre quem você é e o que o universo espera de você.

No banheiro, a água gelada desperta os sentidos. Enquanto lava o cabelo, você sente o peso do sono escorrer pelo ralo, deixando as incertezas. Aqui, reside apenas a clareza. Há uma gratidão silenciosa que transborda. Ao caminhar para a cozinha, a Alexa toca uma playlist aleatória que parece ter sido cunhada pelo próprio destino — cada nota ressoa com seu estado de espírito. Diante das frutas coloridas na mesa, você é atingido pelo privilégio da escolha. Em um mundo de tantas carências, ter a liberdade de decidir entre bananas ou um pedaço de mamão torna-se um ato sagrado de reconhecimento da abundância.

O dia flui. As tarefas domésticas, antes fardos, agora são movimentos de organização do seu “espaço”, um reflexo da ordem interna que você conquistou. No almoço, o plano muda. Você decide ir para a rua, sentir o calor das pessoas. Acaba sentando-se com alguém que acabou de conhecer, e a conversa não é só sobre amenidades. Vocês mergulham em confissões honestas sobre o passado, os medos que ainda sussurram e os planos que gritam para o futuro. É uma conexão de almas que reforça a ideia de que a convivência, quando pautada pela verdade, potencializa nossa existência.

A noite chega e te leva a uma festa de aniversário improvável. Você dança forró, samba, canta letras que estavam guardadas no fundo da memória. Ao ver pessoas se pintando com purpurina, você sorri: “A vida é isso. Brilho, energia, alma, contato”. Nada do que você planejou para o dia aconteceu, mas tudo o que o seu “ser” precisava simplesmente veio! E você nunca se divertiu TANTO.

Ao chegar em casa, o silêncio das paredes é o anfiteatro para a sua festa interna. Sentado no sofá, você percebe que a vida sempre foi simples assim, mas você estava ocupado olhando para o lugar errado. Focado em “projetos” de ter e fazer, enquanto o segredo estava no plano de ser.

O Elo com a Filosofia: Por que “a vida presta”?

Coisas que acontecem, pessoas que conhecemos, situações que passamos. Isso tudo por si só é apenas parte da vida. A vida mesmo é na verdade um projeto. E ele se chama “Ser”: A  vida é esse agridoce processo de vislumbrar diariamente quem você quer se tornar, o polimento das suas virtudes e o alinhamento com o propósito universal: nos tornarmos maiores do que quando começamos: mais justos, mais corajosos, mais temperantes, mais humanos.

Creio que, muitas vezes, não conseguimos enxergar este lado poético, majestoso e inefável da vida porque, na verdade, não a vemos como o projeto do ser, mas sim como as coisas a conquistar. Desejos de consumo e fantasias de fuga estão longe de transmitir a potência que se chama vida. Haverá um dia em que será preciso descrevermos o que é “bom” não com o que foi “conquistado” externamente e testemunhado pela sociedade e sim por ter assumido o controle das nossas ferramentas mentais e emocionais para encontrar algo verdadeiramente revolucionário: o interior de nós mesmos. 

Quando você ajusta seu olhar para a vida como um todo, você percebe que a vida “presta” porque seus sonhos individuais se alinharam aos sonhos da natureza, o Dharma¹. Nesse estado de sincronicidade, você não caminha sozinho; o universo “patrocina” seus passos, transformando esse dia comum em uma jornada épica de sentido rumo à eterna construção do ser.

¹ Dharma: Termo de origem sânscrita que, no contexto da filosofia perenial, refere-se à “Lei Universal” ou à “Ordem Cósmica”. Representa o papel fundamental que cada ser deve desempenhar para estar em harmonia com o todo. Enquanto o projeto busca satisfações pessoais e temporárias, o alinhamento com o Dharma significa viver de acordo com a própria natureza e com a inteligência que organiza o universo, transformando a existência em um ato de serviço e evolução espiritual.

Inspiração para a semana

Assista a aula que me ajuda a reajustar a rota sempre que necessário.

Pensamentos Avulsos

A coragem de permanecer quando o fim é inevitável.

Você já se perguntou por que muitas das coisas que desejamos na mecânica indiferente dos dias, aquela reciprocidade rítmica, o caminhar na mesma direção,  o ambiente de trabalho equilibrado, simplesmente não estão acessíveis para nós no momento em que queremos?

Pra mim,

o “não” é uma interdição que a alma custa a processar. Por outro lado, o ‘não’ da vida não é necessariamente um castigo, é um aviso de fronteira. Lidar com a frustração é aprender a respeitar o território do outro sem sentir que o seu próprio território foi diminuído. Isso faz sentido para você?

Eventualmente, todos nós teremos que lidar com a frustração, com o exercício de permanência no desconforto. Óbvio, somos humanos. Queremos que a dor passe rápido, queremos “resolver” o sentimento, queremos que o filme acabe para podermos acender as luzes e fingir que nada aconteceu, que era só uma história de ficção e nada mais. Contudo, a Vida, em sua sabedoria, muitas vezes exige que fiquemos sentados no escuro um pouco mais. É que ela sabe que ainda não temos solo para criar raízes. Há uma beleza triste em aceitar esse “não”. De certa forma, é o registro de nossa fragilidade, vulnerabilidade e exposição. A maior dureza não é não poder ter o que se ama (ou o que se quer), é ter que admitir que nós não controlamos nada. Tudo é impermanente.  É amargo perceber que, por mais que queiramos diversas coisas, sensações, afetos, a vida é um território onde não podemos invadir, apenas dialogar. Também vejo positividade nisso! Se eu sinto esse aperto, essa dor, é porque ainda sou capaz de me deixar atravessar pelo universo e sua mão invisível. Mais ainda, que eu entendo quando a vida me diz que esse “atravessar” talvez signifique ver as situações de outra maneira, cogitando caminhos diferentes do que eu jamais imaginei. E como diz o poeta, caminho se conhece andando, e de vez em quando é bom se perder.

mulher na cachoeira

Talvez, no futuro…

como mostra a história de Shakespeare, que precisou de anos para converter o silêncio da morte de Hamnet na voz de sua arte, nossas dores atuais também podem estar apenas em estado de gestação. Mas por enquanto, elas são só isso: um choro silencioso enquanto a cidade passa e eu aprendo, mais uma vez, que a vida não nos deve nada. Nem mesmo o que parece ser nosso por direito de conexão.

A maior vitória da consciência não é conseguir o que se quer, mas não se deixar abater quando a vida diz: ‘agora não’. O ensinamento real que fica é: honre os momentos pelo que eles são, mas não tente forçar o desdobramento que não necessariamente virá. No fim, a vida não nos deve o que planejamos, mas nos entrega o que somos capazes de suportar para nos desenvolvermos enquanto humanos. Destarte, se não houver disponibilidade (emocional, de tempo, de momento) para dialogar com a vida, a conexão é uma ponte que nunca chegará ao outro lado.

REFERÊNCIAS

CHICO CÉSAR. Deus me Proteja. Composição: Francisco Cesar Goncalves. In: Francisco, forró y frevo. Rio de Janeiro: Biscoito Fino, 2008. 1 faixa (3 min 58s).  Ouça no spotify: https://open.spotify.com/intl-pt/track/1IOnmDTQVVvy0MsDQr6KdW?si=ae54afc4c3054499

HAMNET: A Vida Antes de Hamlet. Direção: Chloé Zhao. Produção: Hera Pictures, Neal Street Productions, Amblin Entertainment. Intérpretes: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson e outros. Roteiro: Chloé Zhao, Maggie O’Farrell. Estados Unidos/Reino Unido: Focus Features/Universal Pictures, 2025. 1 filme (126 min), son., color. 

SHAKESPEARE, William. Hamlet: texto integral. São Paulo: Martin Claret, 2004.

Pensamentos Avulsos

A Física da Insignificância: Por que parar de levar a vida para o lado pessoal.

O que o Rei de Copas e Eileen Gu ensinam sobre o Ego

A arte de sentir a imensidão do mundo sem

se deixar afogar pelas expectativas alheias.

pessoa observando o céu estrelado

Por que o Rei de Copas?

Recentemente uma amiga me indicou um novo podcast que, todos os dias, traz uma carta de tarot para “guiar nosso dia” com sua sabedoria. Neste dia em questão, aprendi que existe uma imagem no Tarot que define a maturidade: um rei sentado em um trono que flutua sobre o oceano. Pesquisei várias imagens no Google e a maioria das representações traz esse cenário do trono sobre as águas e o rei lá… governando sereno. Observa-se que ele não tenta segurar as ondas, nem ordena que o mar se acalme. Ele apenas permanece. Com isso, cheguei a conclusão que o Rei de Copas é o símbolo máximo de quem sente tudo, mas não é governado por nada. Ele entende que as emoções são o clima, mas ele é a montanha que frente a elas não se abala.

Rei de Copas. Qual a relação com Eileen Gu?

A leitura do tarot me fez recordar um episódio recente das Olimpíadas 2026 em que Eileen Gu, a esquiadora mais premiada da história enquanto escrevo esse texto, foi questionada por um repórter de forma subjugante, a respeito de suas duas medalhas de prata olímpicas serem um “fracasso”. Como acontece com frequência — principalmente com mulheres –, naquele momento o mundo tentou impor à atleta uma narrativa de insuficiência. Em contrapartida, Gu respondeu com a clareza de quem habita o próprio trono, como o Rei de Copas: “sonhos e conquistas nunca são fracassos”, disse ela.

Da perspectiva estóica, achei muito interessante o que Eileen compartilhou. Ela demonstrou, sabiamente aos 22 anos, o que Marco Aurélio escreveu há quase dois mil: “Não deverias dar às circunstâncias o poder de despertar raiva em ti, porque elas não se importam nem um pouco”. O repórter, a crítica ou a expectativa do público são apenas isso; “circunstâncias”. Elas não têm consciência. O universo não está conspirando para nos humilhar, nem para nos aplaudir.

Ele apenas é.

eileen gu concede entrevista

A Ontologia¹ da nossa Insignificância

Se você não viu a entrevista com a atleta Eileen Gu, vou deixar o link aqui no post. Resumidamente, ela explanou sobre como ela gosta de praticar o exercício de “se afastar de si mesma”, isto é, olhar em terceira pessoa o que acontece internamente (pensamentos) para que ela possa usar o conceito de neuroplasticidade² ao seu favor. Quem dera todos tivéssemos esse hábito poderoso (ou apenas desejássemos construí-lo)! Observo que, via de regra, nosso comportamento natural é adular nosso ego. Esse jovem que adora acreditar que os eventos ocorrem em um nível pessoal. Resultado? Sentimos o “peso do mundo” como se fôssemos o centro dele… Daí talvez tanta ansiedade, depressão. Mas a ciência nos oferece um banho de realidade ontológica que, em vez de nos diminuir, pode ajudar a nos libertar.

Pense comigo:

Somos um recorte (ênfase no um) microscópico da espécie Homo sapiens (ultrapassou 8 bilhões em 2022);

Uma espécie entre milhões de outras espécies em um planeta rochoso chamado Terra;

Orbitando um Sol ordinário em uma galáxia, a Via Láctea, que é apenas uma entre centenas de bilhões no universo observável.

Quando olhamos para essa escala, a pergunta “o que pensarão de mim?” perde o oxigênio. Como Viktor Frankl sugeriu em sua busca por sentido: talvez exista uma dimensão além da humana onde o sofrimento encontra resposta — mas, enquanto estamos aqui, a resposta é a autotranscendência.

Praticar o ser em vez do ter.

Tenho cada vez mais praticado a arte de deliberar sobre o fato de que não precisamos passar pelo mundo com a ansiedade de produzir algo “avassalador” para o olhar do outro. O verdadeiro ato avassalador é a prática de se tornar um ser humano melhor. Destarte, contribuir para que o universo em que estamos inseridos também o seja. Como diz costumeiramente a professora Lúcia Helena Galvão em suas palestras: quando um ser humano se eleva, toda a humanidade se eleva com ele.

Aumentar nosso grau de humanidade exige domínio de nossas emoções. É certo que, na prática, o cenário que vemos é do homem, de maneira geral, reprimindo-as. Após essa leitura, meu convite é que você se permita sentir antes de agir. A água bater nos pés, o que uma notificação provoca no seu corpo, a energia da sua casa, o que você pensa quando está com quem ama. É reconhecer a força da correnteza, mas recusar-se a ser arrastado por ela. É entender que se fisicamente³ falando o universo é vasto, grandioso e indiferente ao indivíduo. Ele é o todo. Nossa única obrigação real é com a integridade da nossa própria consciência. Por conseguinte, dos nossos atos.

Viver de forma autotranscendente é saber que você é um ponto minúsculo no cosmos, mas que esse ponto tem a capacidade única de contribuir à imensidão sem perder a humanidade no meio do processo.

¹ A ontologia, ramo fundamental da metafísica na filosofia, é o estudo do ser enquanto ser, investigando a natureza da existência, realidade e as categorias do que existe. Ela questiona o que constitui a realidade, diferenciando seres materiais e imateriais, e busca compreender os fundamentos do ser, suas propriedades e relações.

² Neuroplasticidade, ou plasticidade cerebral, é a capacidade do cérebro de se reorganizar, adaptar e formar novas conexões neuronais ao longo da vida em resposta a experiências, aprendizados, mudanças ambientais ou lesões. Diferente da antiga crença de que o cérebro adulto é fixo, ele se modifica continuamente, fortalecendo ou enfraquecendo sinapses e até gerando novos neurônios (neurogênese).

³ Isto é, do ponto de vista da Física enquanto ciência. A física é a ciência natural que estuda os fundamentos do universo: matéria, energia, espaço e tempo. Ela utiliza observações, experimentos e modelos matemáticos para explicar fenômenos, abrangendo desde partículas subatômicas até escalas cosmológicas. 

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Rita. A energia dos Arcanos. Disponível em: <https://open.spotify.com/show/0ot7WVjWUW08UXcaXnXd2Z?si=8b5a8fee1b6245f2>. Acesso em 23 de fevereiro de 2026.

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 2025, 68ª Edição.

GU, Eileen. Disponível em: <https://www.instagram.com/p/DVGvVbTgfk6/>. Acesso em: 25 de fevereiro de 2026.

Pensamentos Avulsos

A filosofia da não-resistência com a beleza do “imprevisto”.

A Navegação do Improvável:

Onde a Expectativa Termina e a Vida Começa

contemplação da natureza
contemplação do ser

Dizem que o Carnaval é o território do caos, mas a verdade é que o caos reside na nossa tentativa de controlar o outro, ou melhor, o mundo. Planejamos reencontros, visualizamos tudo na nossa cabeça! O roteiro entre as baterias e os sorrisos, e esquecemos que a vida, essa sim, reina soberana conectando – ou não – nossas bússolas.

Ir ao encontro do outro é um ato de coragem, mas permanecer em si quando esse encontro falha é o verdadeiro ato de liberdade e dignidade primal e, ao mesmo tempo última, do ser humano. Como explica Viktor Frankl que, mesmo nos campos de concentração, havia aqueles que nas situações mais deploráveis e indignas, ainda assim, escolhiam ser bons, leais, justos e verdadeiros.

Há tanto em jogo no dia a dia. Na multidão das ruas, o sinal cai, a mensagem não chega e o objeto que buscamos muitas vezes parece olhar para outra direção. A antiga versão de mim — aquela que protegia o ego com o escudo da indiferença — teria buscado muitas coisas na troca com o outro. Um beijo de vitrine, uma retribuição de descaso, um espelho do erro alheio, julgamento. Teria calado o olhar humano, desumanizando-me um pouco por dentro para provar o que? força? Não. Agir assim, só prova uma coisa: que temos medo. Da rejeição, da falta de controle, de não sermos amados, lesados. O que também é válido e natural do homem.

Querido leitor, gostaria de compartilhar agora algo que tem me trazido um coração cada vez mais tranquilo: a maturidade é uma forma de navegação que não exige mar calmo, apenas um timão firme.

Reparo que a cada dia, com escuta atenta da pessoa que mais me ama, isto é, a minha humanidade interior, escolho a clareza sobre o orgulho. Entendi que a honestidade não é sobre manipular uma conversa para que o outro mude ou para que tenhamos razão, mas sobre garantir que não nos percamos, a nós e ao outro, por causa do silêncio, do ego, da raiva. Falar sobre sentimentos, seja você homem ou mulher, idoso ou criança, via de regra é um tabu. Uma vergonha. Um martírio… isto porque atrelado a esse dialogar vem o peso do julgamento ou a algema da posse. Com isso, perdemos uma oportunidade grandiosa de dar ao outro o direito de ser humano — falho, confuso, atravessado por memórias, presente, passado, projeção do futuro. Com, assim como nós, reproduções de estruturas sociais: machismo, racismo, tirania e tantas outras que ainda tentamos, ao longo de vários séculos, desaprender.

A beleza não reside no controle e sim na reação.

Enquanto há aqueles que se perdem no próprio turbilhão, que nos permitamos cada vez mais sentir a nossa perturbação, convidando o caos para um café ou quem sabe, uma drink tropical? Um Mate, um rum; ou melhor! tudo junto. Dance com seus amigos, sinta o aperto da decepção chegar e, em seguida, deixe que o vento o leve. Não busque uma revanche, busque ser surpreendido pela vida, nos detalhes, nas minúcias, nos sussurros. A magia acontece nesse exato momento: quando soltamos as cordas da expectativa e percebemos que o barco não afunda; ele flutua conforme a maré. E mesmo que o barco principal afunde, nossas estruturas de longa data que fazem de nós esse indivíduo único, a vida sempre tem uma bóia, um bote reserva, colete. 

Dialogar com a vida é aceitar que não dominamos o ritmo das ondas, as cartas que vem no baralho, as escolhas de quem cruzou nosso caminho em um domingo de sol. Controlamos apenas o cuidado com a nossa própria narrativa. Mais ainda, com as cenas que o outro participa nesta cenografia que, em instância última, é de direção nossa.

Com essas palavras espero que hoje você faça as pazes. Não com pessoas e situações, mas com a sua capacidade de ser vulnerável sem agredir, julgar, manipular, coagir. Perceba que, ao baixar a guarda, a vida devolve a verdade. O segredo, afinal, não é evitar o furacão, mas aprender a manter o coração leve enquanto ele atormenta as marés do nosso ser.

Pensamentos Avulsos

A ansiedade da espera e a beleza do reencontro.

Quantos encontros acontecem no Carnaval. Muitos? Centenas? Que deixam rastro, poucos. Talvez um único. O encontro da sorte de ser encontrada. Uma foto de brincadeira e o destino batendo no direct de verdade. Tem sentimentos que não pedem licença, eles simplesmente ocupam o sofá, pedem um vinho e decidem passar a noite.

Esse único encontro acontece entre as risadas de amigos e mergulhos na piscina. No café da manhã, no gosto da rotina fora de ordem, mas que, de alguma forma, parece ocupar a estante como prêmio de a mais correta. No gosto dos corpos e também… na lareira acolhedora e ao mesmo tempo agonizante do silêncio.

Observar um sentimento nascer é um exercício de paciência que muitas vezes nós não dominamos. Ou melhor, nem temos. 

08:26h. 

08:34h.

14:16h. 

17:09h. Mais uma vez buscamos por uma notificação. É engraçado, sabe? A palavra “encontro” tem sua origem no latim incontrare, formado pela junção do prefixo in- (“em”, “para dentro”) e contra (“contra”, “oposto”). Originalmente, o termo designava um confronto ou oposição, evoluindo para o sentido de “ir na direção de” ou deparar-se com algo/alguém. Hoje, as mensagens vão na direção dos transeuntes. Da amante, do amigo. Contudo, a presença não ocorre; se arrasta e escapa aos dedos, como uma ampulheta em que a areia escorre. Nesse intervalo em que ansiamos a espera e bem aventurados desejamos o reencontro. Até o reconstruímos oniricamente. Histórias suas, sons nossos, lembramo-nos de cada toque. É doido, caçamos e buscamos até o erro, a fresta por onde o encanto pudesse ter escapado. É curioso como a mente tenta nos convencer de que a conexão é um delírio só nosso, só porque o celular não vibra na hora que o coração pede. Destarte, o sentimento está presente, pulsa. Sobrevive ao vácuo das horas. Ele se mantém aquecido na mensagem no fim de tarde. Que traz consigo o sol se pondo. Seria isso uma metáfora da beleza que há na impermanência e o convite à promessa de um novo começo?

Os encontros não precisam de monitoramento 24h para serem reais.

Ainda assim, eu sei. É difícil esperar. Com o miojo, o microondas, o fast-food, o whatsapp e tantas coisas hoje instantâneas. Será que esse “aperto” no peito é só o medo que sentimos de perder o que mal começou, mas que já tem peso de algo que sabemos, inconscientemente, que é importante?

As cartas que o destino traz têm um ritmo que eu ainda estou aprendendo a ler. O bom é que a cigana leu o meu destino e me explicou que no baralho as cartas sozinhas não dizem nada, precisam de combinações. De dois. De ouro. O novo ano, o novo ciclo, me fazem parar de pensar e sim… vivenciar. Guardo o baralho das minhas inquietações e escolho acreditar no quão bom é ser vulnerável. Porque é nisso que o sentimento recém-nascido se apoia. E, pelo visto, onde ele quer crescer.

Pensamentos Avulsos

Motivos para continuar

Motivos para Continuar

“Age como alguém que influencia o destino de muitos.”

— Sêneca, Cartas, 94.

Do meu quarto, encaro o calentário do próximo ano enviado pelo marketing do médico sem fronteiras.

Disposto sobre a mesa com o slogan:

Quais são os seus?

Me lembro que houve um tempo em que para mim, não havia nenhum. É nítido em minha memória. As luzes apagadas, a antiga casa dos meus pais. Todos dormindo, inclusive minha irmã, ao meu lado, na cama que costumávamos compartilhar. Me recordo de encarar o teto de madeira e pensar:

— Qual é o motivo de acordar amanhã? — A vida seria tão mais fácil, simples, se eu pudesse não acordar.

Nos dias de hoje é o contrário. Quer dizer, um misto disso. Grande parte de mim, antes de descobrir uma lesão na coluna e precisar operar às pressas, achava que sabia de todos os motivos para continuar.

Continuar me exercitando.

Continuar seguindo a dieta.

Continuar indo para o trabalho.

Continuar limpando a casa.

Continuar, continuar, continuar.

Mas quando a vida te força a parar, a renunciar a tudo e a todos, ao que você ama, o que sobra?

E se continuar agora significasse permanecer quieto, parado e inerte, qual nova conotação ganha o sentido?

Encaro minha mala no canto do quarto da casa da minha avó e tia, onde estou temporariamente sob cuidados pós operatórios e de repente desejo fugir.

— Para onde? — Escuto os meus próprios pensamentos…

— Para o meu verdadeiro Eu — Respondo.

futuro quem eu sou
felicidadeestoica texto motivacional

AFINAL, QUEM É NOSSO VERDADEIRO EU?

Aquele que mesmo incapacitado, adoecido, vulnerável, melancólico, apequenado, taciturno, desgastado, cansado, sobrecarregado… emerge das águas que o afogam, dia após dia, limpa o rosto demoradamente com ambas as mãos, retira o excesso de água e sorri! Largo. Os dentes podem estar meio opacos, desalinhados. Contudo, ele ainda assim sorri e…

felicidadeestoica

Julia Porto

/

@juliasporto

Ele bate os braços e as pernas preguiçosamente ao meu encontro e me convida a entrar também!

ele pode jurar que a água está uma delícia, que não há perigo e que eu sei como nadar.

Viktor Frankl uma vez disse, em sua obra “Em busca de sentido”, que o ser humano é aquele a que tudo se adapta. Talvez, esse seja o motivo que erroneamente usamos para continuar. O fato de, por sobrevivência ou desespero, continuarmos a qualquer custo. Mas a que preço?

Talvez, só talvez, a prioridade, o farol, a luz que guia, seja encontrar o caminho de volta a si mesmo e nele arrastar consigo toda a humanidade.

“Tudo o que um homem excelente (ou um grande homem) faz, os homens comuns imitam, e o padrão que ele estabelece, todo o mundo o segue”

— Bhagavad-Gita¹. 3.21.

¹ Livro sagrado do hinduísmo, a mais conhecida obra da literatura sânscrita, e uma das mais importantes da literatura universal. A Bhagavad-Gītā (“Canto do Bem-aventurado”) é um diálogo filosófico e espiritual que compõe parte do épico indiano Mahābhārata. Composta por 18 capítulos e cerca de 700 versos, ela apresenta o ensinamento do deus Krishna ao guerreiro Arjuna, que está tomado por dúvida e angústia no campo de batalha de Kurukshetra.

Pensamentos Avulsos

Na ausência, quem somos?

O ano era 2004.

— Esse “J” está muito grande, filha. Faz de novo, deixa eu ver.
Mamãe dizia, enquanto lavava o pano de prato na pia de mármore, e eu treinava numa folha A4 a caligrafia do meu nome. Mostrava-lhe o resultado, orgulhosa. No ambiente, o rádio Panasonic tocava bem alto Amor e Sexo, de Rita Lee. Minha mãe cantava animada, ainda esfregando o pano encardido do trabalho. Eu a acompanhava na cantoria, rindo, balançando os pés.

Hoje, me vejo ouvindo a Alexa na cozinha, ecoando 50 receitas, de Leoni, enquanto repouso na cama após uma cirurgia na coluna. Sou obrigada a interromper a leitura: o efeito déjà vu é intenso. Como na infância, dona Glória ainda canta enquanto cuida da casa. Ouço-a arrumando as compras recém-chegadas do supermercado, cantando a plenos pulmões.

Desde que me lembro, Maria da Glória — nome dado em homenagem à Nossa Senhora da Glória — sempre trabalhou fora. Era comum sair cedo para a escola e ela já não estar em casa. Ao voltar, ainda não havia chegado: só aparecia à noitinha, no servir do jantar, que por tradição e ordem do meu pai acontecia sempre à mesa, sem distrações, apenas nós em família. No fim de semana, no entanto, a história mudava: mamãe acordava cedo para lavar roupa, faxinar a casa e conversar sobre nossa semana.

De súbito, percebo: é comum nos sentirmos vazios. Solitários, mesmo rodeados de gente. Ao longo do dia. Das semanas. Dos meses. Das festas. Essa consciência não é doce — pelo contrário. Fernando Pessoa já disse:

“Pensar incomoda como andar à chuva. Quando o vento cresce e parece que chove mais”.

pessoa, fernando. poemas completos. são paulo, saraiva (2007).

Em repouso, há em nós um caleidoscópio de pensamentos. Já reparou? Recordo de uma conversa em que expliquei à minha namorada que me considerava workaholic — Será que você é viciada em trabalho ou está fugindo de si mesma?  perguntou. Resolvi morar nos versos de Pessoa, fugi para a chuva, corri para o pensar, fui pega pegas gotas pesadas trazidas pelo vento. Estar presa à cama e de repouso mostrou-me que a força com que continuamos a caminhar no dia a dia repousa, inevitavelmente, no amor pelo inefável cotidiano. A anedota está aí: “inefável” tanto nomeia aquilo que nos encanta e dá prazer quanto aquilo que não sabemos descrever, tamanha sua força e beleza. Desde que retornei à minha cidade natal, esse pout-pourri de sabedoria que habita o dia a dia me arrebata a fronte, tira-me o ar como uma maratona. Estou afastada do trabalho por trinta dias e, na ausência dele, quem sou? A tia que embala os lanches? A filha que precisa dos pais depois de uma cirurgia? A paciente sob ordens médicas de repouso extremo? Não. Existe algo aí, enterrado no profundo do ser. Algo que permeia tanto o labor de Sísifo¹ — dormir, acordar, comer, estudar, trabalhar, se relacionar — quanto a ataraxia da alma: a serenidade que nasce da ausência de inquietações.

Talvez quem somos afastados do lugar de onde deveríamos estar seja isso: aprender a existir sem a definição de rótulos, etnias, cargos ou conquistas. É poder habitar a simplicidade de ser, como quem canta distraído lavando um pano de prato ou repousa no silêncio de um quarto. Não se trata de reinventar-se todos os dias, mas de recordar que, por trás de todos os papéis, há uma essência que permanece. E é nessa essência que encontramos o verdadeiro sentido da vida: sermos quem somos, sem adornos, sem medo, simplesmente.

O cotidiano é um palco pequeno, mas infinito: nele cabem nossas dores, nossas memórias e nossas alegrias. Autenticidade na ausência não é um destino grandioso, mas o gesto singelo de não fugirmos de nós mesmos. É descobrir, mesmo entre as cicatrizes, que o amor pelo ordinário nos sustenta. Que somos mais do que pacientes, filhos, profissionais ou amantes. Somos o sopro que insiste, a chama que permanece — e, talvez, seja nisso que a existência encontra o seu sentido… em quão humano somos.

A vida não nos pede grandes façanhas todos os dias, mas nos pede presença. Ser, no fundo, é isso: dar-se inteiro àquilo que se propõe a fazer, seja no repouso ou na luta, no trabalho ou na quietude. Se não sabemos ao certo quem somos sem os rótulos, talvez seja porque autenticidade, este eterno viver, não é uma resposta pronta — é uma busca. Uma escolha diária de viver como somos, mesmo quando o mundo (ou nós mesmos) espera que sejamos outra coisa.

Eu aconselho as pessoas a pensarem: no final da sua vida, quem é o ser humano que você quer ser? Qualidades que quer ter desenvolvido. Os defeitos que quer ter polido.
— Lúcia Helena Galvão


¹ Na mitologia grega, Sísifo foi condenado pelos deuses a rolar uma enorme pedra montanha acima, apenas para vê-la despencar toda vez que se aproximava do cume, sendo obrigado a repetir a tarefa por toda a eternidade. O mito simboliza a repetição incessante e, muitas vezes, a aparente inutilidade das ações humanas, mas também pode ser interpretado — como fez Albert Camus em O Mito de Sísifo (1942) — como metáfora da condição humana: ainda que a vida seja marcada pela rotina e pela inevitabilidade da morte, é na consciência e na aceitação desse esforço que podemos encontrar liberdade e sentido.


Nos siga no instagram

Clique aqui para acessar o perfil.

Pensamentos Avulsos

O Relógio e o Humano: A sabedoria das pausas.

“O homem que move montanhas começa carregando pequenas pedras.”

— Confúcio.

A metáfora do relógio nos direciona para a necessidade de atenção aos detalhes, como o relojoeiro ajustando parafusos quase invisíveis. Assim também são nossos próprios ajustes internos — pequenos, mas decisivos.

A NATUREZA COMO MECANISMO DE REGULAÇÃO DO NOSSO RELÓGIO INTERNO.

Para ver o post da foto na íntegra acesse meu instagram.

@juliasporto

/

Julia Porto

O relógio

mecânico, tal como o conhecemos hoje com seus ponteiros marcando as horas, nasceu na Europa medieval, entre os séculos XIII e XIV. Este relógio analógico é feito de sistemas delicados de engrenagens, molas, rubis sintéticos, balanços e parafusos minúsculos. O ser humano também é composto por mecanismos internos sofisticados. Há em nós, uma engenharia sutil que rege o sono, a criatividade, a paciência, a força de decisão e até a capacidade de amar. O avanço desses sistemas levou ao nascimento de uma nova profissão altamente especializada: o relojoeiro. Isto é, aquele que identifica quando esses sistemas estão em descompasso. Esse profissional  nos mostra que essa incongruência faz tempo da vida perder seu ritmo — ficamos adiantados, ansiosos, ou atrasados, paralisados.

Na relojoaria, é comum que um relógio, mesmo sem estar visivelmente quebrado, precise de pausas para revisão e manutenção. O relojoeiro desmonta cada parte, limpa o acúmulo invisível de impurezas, lubrifica as junções, ajusta o balanço. Só então o tempo volta a fluir com precisão. Com o ser humano, é a mesma coisa — mas muitas vezes, não sabemos ou não queremos parar. Seguimos rodando no automático, mesmo rangendo por dentro.
A sociedade contemporânea, no entanto, oferece pausas que mais aceleram do que restauram: shopping centers barulhentos, compras impulsivas, telas e notificações, uma cultura de consumo disfarçada de lazer. São pausas que não nos desafivelam do ruído — apenas o maquiam. Elas nos distraem do cansaço, mas não o curam.

O descanso

verdadeiro é outro. Ele não brilha em vitrines, não pulsa em LED. Está nas trilhas silenciosas, no barulho da água batendo em pedras, no cheiro de mato depois da chuva, no vento salgado das praias vazias. Está também no sofá de casa, no silêncio de uma manhã sem obrigação, na leitura lenta, no diário escrito à mão. Nestes lugares, não fazemos nada — e ao mesmo tempo, tudo se rearranja. É como se a própria natureza fosse o relojoeiro que nós não conseguimos ser para nós mesmos.


O corpo sabe. A alma escuta. E ali, sem pressa, as molas se soltam, os rubis internos voltam a brilhar, os parafusos se assentam, e o balanço da vida reencontra seu compasso.

Fazer pausas não é um luxo. É manutenção. E não qualquer pausa — mas aquelas que nos reconectam com o que temos de mais essencial: o silêncio, o espaço, a natureza, o tempo sem cobrança. Assim como um relógio precisa parar para continuar marcando bem as horas, nós também precisamos parar para seguir vivendo com precisão, presença e propósito.

Conheça outros autores.

Abaixo, deixo alguns perfis que sigo no Instagram e que me ajudam a estar presente nessa constante manutenção interna do ser.

Lúcia Helena

@profluciahelenagalvao

Lucas Zappia

@lucas.neurofood

Madama

@br000na

Thais Godinho

@thaisgodinho.perfil