Pensamentos Avulsos

A versão AMEBA de mim

mulher deitada no banco de um parque

Como dizem os memes: trago verdades. E essa é uma: a vida não pede autorização para mudar os nossos planos.

A inflação aumenta. O preço do supermercado muda. Uma guerra começa do outro lado do mundo e altera o preço do combustível. Um casamento exige que duas pessoas reorganizem suas próprias vidas para construir uma terceira coisa. Um filho nasce e, de repente, alguém que antes organizava os próprios horários precisa descobrir uma nova maneira de medir o tempo. Uma empresa é adquirida. Uma profissão desaparece. Uma doença chega. Uma amizade termina. Outra começa. A família envelhece. O dinheiro deixa de comprar aquilo que comprava. O mundo muda. Mas será que nós mudamos com ele?

Nós não necessariamente mudamos porque queremos. Contudo, somos particularmente bons em mudança. O motivo? Porque não existe alternativa a ela.

Foi pensando nisso que, durante uma aula de psicologia, ouvindo meu professor mencionar um experimento realizado com amebas resolvi escrever este texto.

Fiquei intrigada…

Pesquisando sobre o assunto, descobri que se trata de um experimento realizado em 1966, pelo biólogo Kwang W. Jeon ao observar uma cultura de Amoeba proteus quando algumas delas foram infectadas por uma bactéria. Para a maioria das amebas, a infecção foi letal. As poucas que sobreviveram ficaram debilitadas, cresceram mais lentamente e pareciam ter recebido da vida exatamente aquilo que nenhum organismo gostaria de receber: um problema novo para o qual não estava preparado.

Ao longo das gerações, a relação entre as amebas e as bactérias se estabilizou de tal maneira que, quando os pesquisadores tentaram eliminar as bactérias com antibióticos, as amebas também morreram. Isto é, a bactéria que um dia representara uma ameaça havia passado a fazer parte da vida da ameba. A ameba mudou a própria maneira de existir, literalmente, depois que o problema apareceu.

Existe um conceito filosófico que gosto particularmente quando penso nisso: contingência. Contingente é aquilo que poderia ter acontecido de outra maneira. Não era necessário que acontecesse exatamente assim, ou seja, poderia ter sido diferente.

Uma amizade poderia nunca ter acontecido. Ou ainda, você poderia ter escolhido outra profissão. Poderia ter conhecido outra pessoa. Poderia ter nascido em outra cidade. Aquela oportunidade poderia não ter aparecido. Aquela doença poderia não ter chegado. Aquele casamento poderia não ter acontecido.

Dito isso, a contingência é desconfortável porque ela retira da vida a sensação de que tudo obedece a um roteiro.

Com frequência, nós gostamos de imaginar que existe uma estrada. Uma sequência lógica de acontecimentos que nos trouxe até aqui e que, se fizermos tudo corretamente, continuará nos levando para onde desejamos. Mas a vida não funciona assim. Às vezes existe uma “bactéria” no meio do caminho¹. E ela simplesmente invade seu sistema.

Se pudéssemos voltar ao passado, apagar tudo o que aconteceu e apertar novamente o botão de reprodução, será que a história da vida chegaria novamente ao mesmo lugar?

A evolução possui regularidades, mas também depende profundamente de acontecimentos históricos contingentes. Um encontro que aconteceu poderia não ter acontecido. Uma espécie poderia ter desaparecido. Outra poderia ter surgido. Um caminho evolutivo poderia ter tomado uma direção completamente diferente. E isso me faz pensar na nossa própria existência. Porque também somos resultado de uma fita que não pode ser rebobinada.

Não podemos voltar aos vinte anos e conversar com aquela versão de nós mesmos. Não podemos desfazer escolhas.Não podemos devolver pessoas ao lugar que ocupavam antes de partirem. Não podemos impedir que o mundo mude. Não podemos negociar com a passagem do tempo. A vida acontece uma vez. E, enquanto acontece, somos obrigados a responder ao que aparece.

Aquela pequena ameba do estudo não sabia que a bactéria chegaria. Tampouco havia se preparado. Não havia um curso de “como lidar com uma infecção bacteriana inesperada”. Não havia planejamento estratégico. Análise SWOT. Não havia cinco passos para transformar uma crise em oportunidade. Havia apenas o acontecimento. E depois dele, havia a necessidade de continuar vivendo. Desafio profundamente humano…

Por que passamos boa parte da vida tentando construir estruturas suficientemente seguras para impedir que qualquer coisa saia do lugar?

Organizamos nossas finanças. Planejamos nossa carreira. Escolhemos onde morar.

Não me entenda mal, tudo isso é importante. Mas existe uma pergunta que talvez seja ainda mais importante:

O que acontece comigo quando a vida não respeita o meu planejamento?

Porque há uma diferença entre planejar a vida e acreditar que a vida nos deve obediência. Planejar é uma forma de responsabilidade. Acreditar que o planejamento nos protegerá da contingência é uma forma de ilusão…

Penso que habitar o mundo, ou exercitar nossa humanidade, é aprender a sustentar alguma estabilidade interna enquanto o lado de fora permanece em movimento.

Não significa aceitar tudo passivamente. Ou chamar qualquer sofrimento de “aprendizado”, romantizando dificuldades.

Significa, ao meu ver, que há coisas que precisamos combater.

Há injustiças que precisam ser enfrentadas.

Há decisões que precisam ser tomadas.

Há momentos em que precisamos dizer não.

Há uma parte da vida que simplesmente não está sob nosso comando. E, diante dela, você pode até se perguntar: “Por que isso está acontecendo comigo?”

É aqui que a contingência encontra a felicidade estoica.

Não porque os estoicos acreditassem que tudo que acontece conosco é bom. Mas porque uma das perguntas fundamentais da filosofia estoica é justamente distinguir aquilo que depende de nós daquilo que não depende.

O acontecimento pode escapar ao nosso controle. A nossa resposta a ele não precisa escapar, uma das formas mais concretas de liberdade. Não escolher todas as circunstâncias. Entretanto, participar da construção daquilo que faremos com elas.

A ameba não escolheu a bactéria. Mas, em determinado momento, sua existência passou a depender da relação estabelecida com aquilo que um dia foi estranho ao seu organismo.

Há uma imagem poderosa aí.

Às vezes, a vida coloca contextos dentro de nós, contextos que não pedimos…

Uma responsabilidade.

Uma mudança.

Uma perda.

Uma pessoa.

Uma nova versão de nós mesmos. E passamos algum tempo tentando expulsá-la. Até percebermos que o desafio não é só como eliminar aquilo que chegou, mas também como reorganizar a vida depois que aquilo chegou.

Será que é isso que a palavra “crescer” transmite?

Não tornar-se uma pessoa capaz de impedir que a vida nos atravesse. E sim, tornar-se uma pessoa capaz de se reorganizar sem deixar de ser quem é.

A criança precisa aprender a conviver com limites.

O adulto precisa aprender a conviver com responsabilidades.

Quem ama precisa aprender a conviver com a vulnerabilidade.

Quem estuda precisa aprender a conviver com a própria ignorância.

Quem envelhece precisa aprender a conviver com aquilo que o corpo já não faz como antes.

Maturidade existencial é menos sobre finalmente descobrir como controlar a vida e mais sobre descobrir quanta vida ainda conseguimos produzir quando perdemos o controle sobre ela. 

Nós queremos estabilidade. Queremos que as coisas continuem iguais. Mas, se tudo permanecesse igual, não haveria crescimento.

Queremos conhecer o caminho. Mas algumas das transformações mais importantes da nossa vida nascerão justamente daquilo que não planejamos.

Eu já desejei diversas vezes uma existência sem contingências. Contudo, hoje desejo apenas que a vida me dê estrutura suficiente para atravessá-las.

Uma reserva financeira que permita respirar quando a economia aperta.

Uma educação que nos permita aprender a enxergar nossas limitações.

Uma rede de pessoas que nos sustente quando não conseguimos sustentar a nós mesmos.

Um corpo saudável para enfrentar os anos.

Uma mente capaz de rever suas próprias certezas.

Uma filosofia que nos ajude a distinguir aquilo que podemos transformar daquilo que precisaremos aprender a suportar.

IDEOLOGIA, EU QUERO UMA PARA VIVER

CAZUZA

Não para prever o futuro e garantir a estabilidade.

Mas para não desmoronar toda vez que ele chega diferente do que imaginávamos.

Acho bonita a ideia de que, em algum momento da história da vida, uma relação que poderia ter terminado em destruição acabou produzindo uma nova forma de vida.

É claro: não devemos transformar a evolução em uma fábula moral. A biologia não está tentando nos ensinar uma lição. A ameba não “escolheu” filosoficamente transformar adversidade em oportunidade.

Quem atribui sentido à contingência somos nós.

Essa é a nossa responsabilidade: receber os acontecimentos que a vida nos entrega e devolver a eles significado, propósito e pertencimento.

Nem sempre conseguiremos transformar uma dificuldade em algo bom.

Nem toda dor possui uma finalidade escondida. Ainda assim, podemos tentar construir, a partir daquilo que aconteceu, uma maneira mais sábia de continuar.

A insustentável leveza² do ser é balancear este eixo da vida:

Quando a vida colocar dentro de mim alguma coisa que eu não escolhi, eu vou passar o resto da existência tentando voltar a ser quem era — ou vou descobrir quem posso me tornar depois disso?

NOTAS

¹ “No meio do caminho” é uma referência ao poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade, publicado originalmente em 1928, na Revista de Antropofagia, e posteriormente incorporado ao livro Alguma Poesia (1930). O poema tornou-se célebre pela repetição da imagem da “pedra” encontrada no caminho, frequentemente interpretada como metáfora dos obstáculos e acontecimentos que interrompem o percurso esperado. No contexto deste texto, a referência é ressignificada: mais do que retirar a pedra do caminho, interessa pensar o que fazemos quando ela já está ali.

² “A insustentável leveza do ser” é uma referência ao romance A Insustentável Leveza do Ser, do escritor tcheco Milan Kundera, publicado originalmente em 1984. A obra parte da oposição entre leveza e peso para refletir sobre a existência humana, as escolhas e a impossibilidade de repetir a vida: cada decisão acontece uma única vez e, por isso, não pode ser comparada com outras versões possíveis de nós mesmos. No contexto deste texto, a expressão dialoga com a ideia de contingência: carregamos o peso das consequências de acontecimentos que não escolhemos, ao mesmo tempo em que experimentamos a leveza de uma existência que não pode ser repetida.

REFERÊNCIAS

Imagens da releitura de Sísifo retiradas do instagram @reservatoriodedopamina

Pensamentos Avulsos

A versão socialmente esperada de nós

É assim que eu sou quando não preciso me adaptar para estar com você.

Dina Salustiano uma vez escreveu:

escrever sobre o amor é tão ou mais difícil do que vivê-lo

SALUSTINO, Dina.

Nesse sentido, me aventuro a escrever sobre o amor. Talvez porque, ultimamente, tenho percebido que ele aparece para mim justamente quando diminuo a velocidade.

Penso que o amor à vida e às pessoas tem um pouco disso: aprender a prestar atenção nessas faces.

É engraçado como, quando você ama, até a experiência sutil de enxergar — e não apenas ver — o outro colocando água no café parece ganhar importância. Ou o silêncio de alguém depois de um dia longo. O jeito como ela escolhe sentar no sofá. Como ela faz uma receita de strogonoff. A maneira como alguém te olha quando você fala. Coisas pequenas demais para, à primeira vista, merecerem uma história, mas que, por algum motivo, alugam temporada na memória.

Tenho pensado muito nisso porque, quando estou com quem amo, percebo que os momentos aparentemente insignificantes do cotidiano me ensinam a enxergar o mundo de outra maneira. 

Quando penso em amar gostaria que a resposta fosse sempre: Quem amo confia em mim o suficiente para não precisar performar uma versão socialmente esperada de companhia. Isto é, estando ao meu lado, ainda assim se permitir ser.

Como estar junto e não precisar conversar. Poder passar uma hora dentro de um carro, dividindo o mesmo caminho, cada qual mergulhado em seus próprios pensamentos, sem que o silêncio precise ser interrompido para provar que estamos bem. No começo, confesso, existe um pequeno estranhamento com este amor.

Porque aprendemos desde cedo algumas regras muito específicas sobre o que significa amar alguém.

Se estamos juntos, devemos conversar. 

Se gostamos de alguém, devemos aproveitar cada minuto.

Se existe saudade, precisamos compensá-la com muitas palavras, muitos planos, muitas experiências. Ou melhor, nos dias atuais, posts performáticos. Como se a companhia ou o sentimento em si precisassem produzir alguma coisa o tempo inteiro para justificar sua validade. Por esse motivo, resolvo fazer uma faxina nas minhas memórias e trazer à tona a sensação gostosa de estar acompanhada de confiança que não precisa ser preenchida e sim compartilhada.

Já houve um tempo em que pensei que essa intimidade característica do amor seria conhecer profundamente aquilo que o outro nos diz. Hoje vejo que existe uma intimidade ainda mais silenciosa: conhecer aquilo que o outro não precisa dizer quando está conosco.

Saber diferenciar alguém permanecer em silêncio porque não tem o que dizer e alguém poder permanecer em silêncio porque não precisa desempenhar nenhum papel. É como se, ao recolher-se do convívio diário, o amor nos dissesse sem palavras:

“É assim que eu sou quando não preciso me adaptar para estar com você.”

lanterna de cabeça

Para mim, uma das formas mais bonitas de amar alguém é justamente essa: oferecer um lugar onde a pessoa não precise se explicar o tempo inteiro. Contudo, isso também me confronta. Porque percebo o quanto, muitas vezes, esperamos que as pessoas nos amem dentro das formas que aprendemos a reconhecer como amor.

Mensagens respondidas na hora. Atenção exclusiva. Demonstrações pirotécnicas e instagramáveis de afeto. Muitos planos. Muitas palavras. E, quando elas não aparecem na forma que imaginamos, chegamos rapidamente à conclusão de que alguma coisa está faltando. Mas e se estiver apenas faltando a nossa capacidade de reconhecer outras formas de amor?

Essa pergunta começou a roubar mais armazenamento nesta minha nuvem particular chamada pensamento.

Será que estamos confundindo amor com aquilo que conseguimos facilmente identificar como amor? Presença com quantidade de acontecimentos? intimidade com a necessidade de preencher todos os espaços?

Pode ser que nosso tempo tenha desaprendido o cerne que repousa o amor: atenção legítima, genuína e gentil.

Vivemos anos em que amar, ou existir de forma geral, parece trazer consigo a obrigação de ter alguma coisa acontecendo. Uma notícia nova. Uma reunião. Uma notificação. Uma crise. Uma meta. Uma oportunidade. Uma preocupação. Um vídeo. Acontecimentos que exigem imediatamente alguma reação.

A sensação é de que o mundo adquiriu uma velocidade que não conseguimos acompanhar. E essa velocidade também aparece nas relações. Esperamos que alguém acompanhe tudo isso conosco, responda a tudo, demonstre tudo, esteja disponível para tudo — e chamamos essa aceleração de amor. 

Será que é dai que o amor tranquilo nos parece tão estranho?

Porque ele não está tentando produzir uma experiência o tempo inteiro. Ele simplesmente está. Foi então que comecei a pensar que essa experiência tão cotidiana — amar alguém — pudesse esconder uma pergunta filosófica bem antiga…

O que, afinal, acontece conosco quando amamos?

Não apenas quem merece ser amado. Não apenas como saber se alguém nos ama. Mas o que o amor faz com aquele que ama?

Em O Banquete¹, quando Sócrates apresenta o ensinamento de Diotima, o amor não aparece simplesmente como a posse de alguém belo ou como a satisfação de um desejo. Eros aparece como movimento: um desejo em direção ao belo e ao bom. Isso me interessa porque muda drasticamente a pergunta. Deslocando amar alguém de simplesmente encontrar aquilo que desejávamos para caminharmos em outra direção porque encontramos algo que nos fez desejar enxergar mais.

Diotima² apresenta o amor como uma espécie de ascensão: começamos diante de uma beleza particular e, pouco a pouco, podemos aprender a reconhecer a beleza em outras pessoas, nas almas, nas práticas, nos conhecimentos e na própria beleza.

Não preciso transformar isso em uma escada para entender o que me interessa nela. Basta perceber que uma pessoa pode ser o começo de uma ampliação do nosso olhar.

Começo observando alguém colocar água no café e termino percebendo que existe um mundo inteiro acontecendo de uma maneira que não é a minha. O que faz alguém rir. O que a assusta. O que prefere calar.

Amar alguém é, em alguma medida, descobrir que a minha maneira de experimentar a vida não é a maneira de experimentar a vida. É apenas uma delas. E o outro, quando realmente o enxergamos, desmonta um pouco da nossa arrogância. Será que por isso amar tenha um quê filosófico? Porque Filosofar também começa quando aquilo que parecia óbvio o deixa de ser.

Eu achava que estar acompanhada precisava de conversa. O amor me fez perguntar por quê.

Eu achava que presença precisava ser demonstrada. O amor me fez perguntar por quê.

Eu achava que conhecer alguém era saber o que essa pessoa pensa e diz. O amor me fez perceber que também existe aquilo que alguém só consegue ser quando não precisa dizer nada.

Tenho caminhado cada dia mais para enxergar o ato de amar como um exercício de descentralização. Sair um pouco do centro da própria experiência para perguntar: Como será que o mundo parece daqui?

Não para abandonar quem somos. Não para concordar com tudo. Não para aceitar aquilo que nos machuca. Mas para desenvolver a delicadeza necessária para perceber que existe uma – senão mais de uma – realidade acontecendo ao lado da nossa. 

Para mim, tratar o amor assim é especialmente desafiador — e especialmente necessário — nas relações.

Porque não controlo a forma como alguém demonstra amor. Não controlo o ritmo de outra pessoa. Não controlo aquilo que ela sente. Não controlo suas escolhas. Entretanto, posso observar minhas próprias impressões antes de transformá-las em certezas.

Posso perguntar por que interpretei um silêncio como rejeição. Por que uma mensagem não respondida imediatamente me pareceu abandono. Por que preciso de determinada demonstração para me sentir segura. Posso distinguir aquilo que aconteceu da história que construí sobre aquilo que aconteceu.

Antes de exigir, observar.

Antes de concluir, compreender.

Antes de transformar o outro em personagem das minhas expectativas, lembrar que ele é uma pessoa inteira. Isso não significa, no entanto, romantizar ausência, negligência ou sofrimento. Significa apenas reconhecer que amar alguém não me dá o direito de reduzir a pessoa àquilo que preciso que ela seja para confirmar minhas próprias expectativas.

Pode ser que amar seja justamente permitir que o outro permaneça outro. E isso é difícil. Porque existe uma tentação silenciosa em todo afeto: transformar aquilo que amamos naquilo que gostaríamos que fosse. Que o outro ame na minha linguagem. Que se encaixe na minha ideia de felicidade.

O amor, quando encontra uma pessoa real, encontra também uma realidade que não foi feita sob medida para nós. Por isso, também vejo que amar é uma forma poderosa de educação. O outro nos obriga a aprender aquilo que a nossa própria experiência não conseguiria nos ensinar sozinha.

Paciência. Justiça. Coragem. Temperança. Ternura. E talvez até sabedoria.

Porque amar alguém pode exigir que eu aprenda a diferenciar desejo de necessidade, expectativa de realidade, medo de intuição, controle de cuidado.

No fim, é possível que o amor seja menos sobre encontrar alguém que nos faça felizes e mais sobre descobrir que tipo de pessoa estamos nos tornando enquanto amamos.

Quero amar a beleza das coisas que não são testemunháveis em primeiro plano.

O silêncio e nenhuma necessidade de preenchê-lo.

O café tomado sem pressa e o olhar atento por cima da xícara³.

Uma caminhada sem objetivo.

Uma conversa que não precisa chegar a nenhuma conclusão.

É curioso como, depois de tanto tempo tentando acompanhar o mundo, um amor tranquilo assim pode parecer quase uma experiência de descompressão. Como chegar em casa depois de um dia difícil, tirar os sapatos e colocar a mochila pesada sobre a mesa da cozinha.

Você não precisa fazer nada imediatamente. Não precisa resolver nada. Não precisa provar nada. Por alguns instantes, basta estar ali. É um privilégio esse amor que nos devolve ao tamanho humano. O amor que não precisa tornar a vida extraordinária para torná-la profundamente percebida.

Uma vida inteira é insuficiente para conhecer completamente alguém. No entanto, podemos passar uma vida inteira aprendendo a prestar atenção nas pequenas quantias despercebidas. E, quando percebemos, existe ali uma fortuna de apreço que não foi construída em grandes momentos, mas na repetição dos pequenos.

Amar como prática diária em reconhecer que existe um mundo inteiro acontecendo dentro de alguém que não sou eu. E, ainda assim, escolher aproximar-me dele com curiosidade, cuidado e respeito.

A felicidade estoica ocorre justamente nesse encontro.

Não na tentativa de possuir o outro ou na exigência de que ele corresponda à versão de amor que aprendemos a reconhecer e sim na possibilidade de olhar para alguém e perceber que existe um mundo inteiro acontecendo ali — um mundo que não é o meu, que não me pertence e que eu jamais conhecerei completamente. E que ainda assim escolho prestar atenção, aprender, transformar e amar.

Porque, no fim, talvez amar seja aceitar o convite para uma festa que não estava nos nossos planos, entrar sem saber exatamente o que esperar, descobrir que havia beleza em uma música que nunca havíamos ouvido e voltar para casa diferentes — não porque a festa tenha mudado, mas porque, depois dela, já não somos exatamente os mesmos que aceitaram o convite de quem nos chamou para dançar.

NOTAS

¹ PLATÃO. O Banquete. Na obra, composta em forma de diálogo, diferentes personagens apresentam discursos sobre Eros. A reflexão de Sócrates, atribuída aos ensinamentos de Diotima, apresenta o amor como desejo orientado ao belo e ao bem e como um movimento de ascensão em direção a formas mais amplas de beleza.

² Diotima é uma personagem de O Banquete, apresentada por Sócrates como uma mulher de Mantineia que teria lhe ensinado sobre a natureza de Eros. Seu discurso constitui a principal elaboração filosófica sobre o amor na obra de Platão.

³ LUFT, Lya. Pensar é transgredir: para entender o mundo e a nós mesmos. Rio de Janeiro: Record, 2004. A obra reúne reflexões da autora sobre temas relacionados à existência, às relações humanas, à liberdade e à experiência de viver, propondo o pensamento como exercício de questionamento das ideias e padrões previamente estabelecidos.

Pensamentos Avulsos

Organizar-se em crescimento

E se a vida que você está organizando hoje já precisasse comportar o “eu” que você mesmo ainda não conhece?

Fui a uma formatura no último fim de semana. Não a minha (ainda).

Eu estava ali para prestigiar uma colega de trabalho, minha xará, Julia, que estava se formando em Biblioteconomia. Confesso que fui pensando que faria aquilo que normalmente fazemos nessas ocasiões: assistir à cerimônia, aplaudir, tirar algumas fotos, abraçar a formanda, desejar sucesso e voltar para casa. Contudo, fui surpreendida pela fala da professora homenageada pela turma, fala essa que me fez prestar ainda mais atenção ao discurso.

Ela mencionou uma das ideias fundamentais da Biblioteconomia, formulada pelo matemático e bibliotecário indiano S. R. Ranganathan:

 “A biblioteca é um organismo em crescimento.”¹

É uma frase simples e um tanto quanto óbvia. Entretanto, a vida tem me ensinado todos os dias que o óbvio precisa ser dito. Fiquei pensando na frase durante todas as 9 horas de viagem até o Rio de Janeiro (eu já estava com passagem comprada para ir direto da formatura para a rodoviária). Pensei cá com meus botões… por que uma biblioteca não pode ser organizada apenas para aquilo que já existe dentro dela? A resposta? Porque ela precisa ser capaz de receber aquilo que ainda virá.

Livros novos. Autores novos. Descobertas novas. Novas formas de produzir conhecimento (como bibliotecas digitais). Novas áreas. Novas necessidades.

De repente, percebi que essa singela frase – organiza-os em crescimento – não é só sobre livros. É um mantra sobre a vida.

foto de biblioteca

Imagine uma biblioteca perfeitamente organizada.

Tudo catalogado. Tudo em seu devido lugar. Nenhum espaço vazio. Nenhuma prateleira disponível. Nenhuma necessidade de reorganização. À primeira vista, parece o sonho de qualquer pessoa que gosta de organização. Mas existe um problema. Ela parou de crescer.

Uma biblioteca que não consegue receber novos conhecimentos pode estar perfeitamente organizada e, ainda assim, estar obsoleta.

Penso que nossa vida funcione de maneira parecida. Muitas vezes organizamos nossa rotina e nossos horários para aquilo que somos hoje. Organizamos nosso tempo. Nossa agenda. Nosso dinheiro. Nosso corpo. Nossa carreira. Nossos relacionamentos. Nossos conhecimentos. Mas será que deixamos espaço para aquilo que ainda não sabemos que precisaremos aprender a lidar?

Vivemos em uma época estranha…

Temos mais acesso ao conhecimento do que qualquer geração anterior. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil saber o que merece nossa atenção. Uma informação chega antes mesmo de termos formulado uma pergunta. Uma inteligência artificial responde antes que tenhamos terminado de pensar. Isso quando pensamos…

Algoritmos selecionam aquilo que supostamente deveríamos assistir. Um curso promete ensinar uma nova habilidade em poucas horas. Um aplicativo sugere nossos hábitos. Outro monitora nosso sono. Outro mede nossos treinos. Outro nos diz quanto tempo deveríamos dedicar a alguma coisa. Nunca tivemos tantas ferramentas para organizar a vida.

E essa máxima da biblioteconomia aloja um triplex na minha cabeça e me faz questionar de novo e de novo:

Estamos realmente nos organizando para crescer ou apenas tentando administrar aquilo que já conhecemos?

Organizar é colocar as coisas em ordem.

Crescer é descobrir que a ordem anterior já não é suficiente. E isso pode (e de fato é) ser desconfortável. Porque crescer exige abrir espaço. Às vezes, precisamos abandonar uma rotina que funcionava. Aprender uma habilidade que não dominamos. Mudar uma opinião.

Aceitar que uma crença antiga estava errada. Reconhecer que temos falas preconceituosas, capacitistas. A vida e a biblioteconomia nos convidam a admitir que o conhecimento que nos trouxe até aqui talvez não seja suficiente para nos levar até o próximo lugar. Mais ainda, por este motivo inúmeras pessoas param de crescer. Pessoas que confundem estabilidade com completude.

Ranganathan estava pensando em bibliotecas. Mas vejo que ele foi tão além… A quinta lei tem um grande provocação escondida:

Uma estrutura precisa crescer junto com aquilo que pretende sustentar.

Se o conhecimento cresce, a biblioteca precisa crescer.

Se uma empresa cresce, sua estrutura precisa crescer.

Se uma sociedade cresce, suas instituições e seus líderes precisam crescer.

E se nós crescemos?

O que precisa mudar dentro de nós para acompanhar esse crescimento?

Uma pergunta que raramente fazemos.

Queremos uma carreira maior com os mesmos hábitos.

Queremos responsabilidades maiores, mas não desenvolvemos nossa capacidade de lidar com elas.

Queremos relações mais maduras, mas continuamos utilizando as mesmas ferramentas emocionais de quando éramos adolescentes.

Queremos compreender um mundo VUCA² cada vez mais complexo, mas continuamos alimentando nossas certezas com aquilo que confirma apenas o que já pensamos.

Queremos utilizar tecnologias novas, mas não desenvolvemos a capacidade de questionar aquilo que elas nos entregam.

Queremos crescer. Mas será que estamos estruturados para crescer?

Tenho pensado muito nisso desde que comecei a estudar filosofia. O mais belo do conhecimento é perceber que ele não termina. Uma resposta pode produzir uma pergunta melhor. Uma pergunta pode revelar nossa ignorância. Nossa ignorância pode nos levar a estudar. O estudo pode mudar aquilo que pensávamos saber. E aquilo que aprendemos pode, novamente, nos mostrar o quanto ainda falta conhecer e mudar o rumo de toda Humanidade. Não é um processo linear. É crescimento.

Uma vida saudável precisa ter um quê de biblioteca.

Precisamos catalogar experiências. Revisitar ideias. Descartar aquilo que perdeu validade. Abrir espaço para novos conhecimentos. Conectar assuntos que antes pareciam distantes. E, principalmente, não transformar nossas próprias estantes em prisão. Requisito urgente na Era da tecnologia.

O mundo que estamos construindo será mais complexo do que aquele que recebemos.

A inteligência artificial está mudando profissões. A automação está transformando processos. Novas tecnologias surgem em velocidades que tornam impossível acompanhar todas elas. As relações de trabalho mudam. A informação se multiplica. As fronteiras entre conhecimento, opinião, propaganda e entretenimento ficam cada vez mais confusas. 

O mundo não está esperando que terminemos de nos preparar. Ele simplesmente continua acontecendo. Você pode até se perguntar:

“Estou preparado para o futuro?”

Você descobrirá que ninguém está. A pergunta mais pé no chão, no entanto, é:

Minha estrutura atual consegue suportar o futuro que me trará inúmeras coisas que ainda não sei e com as quais precisarei lidar?”

Penso nisso também de uma maneira muito prática.

Que espaço existe hoje na minha agenda para aprender alguma coisa que não tem utilidade imediata? Que espaço existe para mudar de opinião? Para errar? Descansar? Para uma conversa que não estava planejada? Para um livro que não tem relação nenhuma com meu trabalho/com minha faculdade? Que espaço existe para uma pessoa diferente de mim? Que espaço existe para aquilo que ainda não sei mas vou precisar?

Crescimento não é simplesmente adicionar. É organizar o presente de maneira suficientemente inteligente para que o futuro possa caber dentro dele.

Você pode inicialmente interpretar isso como disciplina. Isto é, repetição, fazer o que precisa ser feito, todos os dias: no horário certo, sem negociar. Até existe valor nisso. Mas existe  também uma disciplina ainda mais sofisticada:a disciplina de permanecer disponível para mudar.

Uma pessoa verdadeiramente comprometida com o crescimento precisa estar disposta a reorganizar a própria biblioteca.

Aquilo que ontem era essencial pode deixar de ser.

Aquilo que ontem parecia irrelevante pode se tornar fundamental.

Uma experiência que parecia fracasso pode virar conhecimento.

Uma pessoa pode nos ensinar algo que nenhum livro ensinaria.

Uma aula pode abrir uma porta que não sabíamos que existia.

E, às vezes, aquilo que chamamos de desorganização é apenas o começo de uma reorganização necessária à mudança genuína.

Sou extremamente grata pelas aulas magnas gratuitas que a vida me insere. Me encanta como ela pode fazer o ato de prestigiar uma colega recebendo um diploma num merecido tapa de luva da eterna lapidação do ser.

Como ela me faz enxergar minha própria precária biblioteca. Com suas prateleiras internas.

Conhecimentos que tenho acumulado. Outros que tenho deixado de lado…

O fomento sutil das ideias que preciso revisitar.

Nas certezas que precisem ser questionadas.

E, principalmente, nos espaços vazios que ainda preciso preservar.

Porque uma biblioteca sem espaço para novos livros não é uma biblioteca preparada. É uma biblioteca lotada.

Estar cheio não significa estar preparado para crescer

JULIA PORTO

Não sei o que o futuro vai exigir de mim. Mas quero construir uma vida que consiga receber aquilo que ainda não conheço e que será necessário.

Quero mudar de opinião quando encontrar razões melhores.

Quero desenvolver virtudes que possam sustentar responsabilidades que ainda não tenho.

Quero que meus hábitos de hoje sejam capazes de acolher a pessoa que vou me tornar amanhã.

A verdadeira organização… Não colocar tudo no lugar definitivo e sim construir uma estrutura que saiba se reorganizar quando a vida crescer.

Porque, se a quinta lei de Ranganathan ensina que uma biblioteca é um organismo em crescimento, talvez nós também possamos experimentar essa ideia. Não como quem tenta controlar o futuro mas como quem se prepara para encontrá-lo.

“Como organizar minha vida para que ela continue capaz de crescer?”

Com um estilo de vida que não encerra possibilidades. Apenas cria – constantemente – espaço para elas.

NOTAS

¹ A quinta lei de Ranganathan, formulada pelo bibliotecário e matemático indiano S. R. Ranganathan em The Five Laws of Library Science (1931), afirma: “A biblioteca é um organismo em crescimento.” As cinco leis foram concebidas como princípios fundamentais para orientar a Biblioteconomia, e a quinta chama atenção para o caráter dinâmico das bibliotecas: o conhecimento, os acervos, as tecnologias e as necessidades dos leitores mudam continuamente. Por isso, uma biblioteca não pode ser pensada como uma estrutura acabada, mas como um organismo que precisa se adaptar para continuar útil. A ideia também se relaciona à concepção de Ranganathan de um “Universo do Conhecimento” em desenvolvimento contínuo.

² VUCA é um acrônimo, em inglês, para Volatility, Uncertainty, Complexity and Ambiguity — volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade. O conceito surgiu no contexto militar norte-americano no final da Guerra Fria e passou a ser utilizado também para descrever ambientes sociais, econômicos e profissionais marcados por mudanças rápidas, dificuldade de previsão, múltiplas variáveis e interpretações possíveis. Falar em preparação para um mundo VUCA, portanto, não significa tentar prever o futuro, mas desenvolver estruturas capazes de aprender, adaptar-se e tomar boas decisões mesmo quando as condições mudam.

Pensamentos Avulsos

Dar corda à vida.

crianças brincando na fazenda

Seu tempo não tem feito muito sentido?

Ou será que nós temos esquecido de alimentar nossas engrenagens internas?

Desde criança eu reparo que todo professor que um dia admirei — e continuo admirando — usava um desses relógios pequenininhos de pulso. Desses que mal dá para ver os ponteiros, sabe?

Geralmente tinham o mesmo padrão: arredondados, dourados e com uma fina pulseira de couro.

Nos meus vinte e poucos anos, comprei um parecido em uma feira em São Paulo. Permaneci com ele durante um bom tempo até que, já morando em Vitória, um grande amigo, dono de uma relojoaria, publicou a foto de um relógio¹ aparentemente modesto que fez eu me apaixonar de bate-pronto. 

Tem algumas coisas na vida das quais eu simplesmente não entendo bulhufas: Carros, bordados e relógios são bons exemplos. Ainda assim, esse amigo pacientemente me explicou tudo sobre aquele relógio até que formalizamos o negócio e eu finalmente o comprei.

Na minha leiga ignorância sobre o assunto, lembro que, mesmo depois de ele ter explicado tudo, alguns dias depois — eu havia passado uma semana trabalhando em São Paulo — voltei para casa, peguei o relógio para usá-lo pela primeira vez e, para minha surpresa, ele estava parado.

Passei a mão no telefone e, seguindo minha experiência de quem acha que todo relógio precisa de bateria, mandei um áudio para o amigo:

— Rafa, tem alguma coisa errada. Acho que temos que trocar a bateria do relógio!

Minutos depois, ele respondeu me encaminhando um áudio no whatsapp com a mesma paciência de sempre:

— Julia, esse relógio funciona com corda, minha amiga.

Eu havia esquecido.

Bastava acertar as horas, girar a coroa algumas vezes e, a partir dali, as engrenagens internas fariam o restante. E não é que foi assim mesmo? Bastou dar corda no bendito e ele: pah! Funcionou perfeitamente. Naquela época, achei apenas curioso e a vida seguiu.

Hoje acho que talvez eu tenha comprado uma pequena lição de vida sem saber porque, enquanto escrevo este texto, cheguei ao fim de uma semana particularmente difícil.

Foi a primeira semana de aulas na UFES. Primeira semana que minha rotina virou de cabeça para baixo. Rotina essa que não parou só para que eu pudesse ser caloura novamente… 

Teve Trabalho. Família. Estudos. Treinos. Compromissos. Mensagens. Prazos. Meta de trimestre. Gente precisando de mim. Eu tentando estar presente para todo mundo e, ao mesmo tempo, tentando não desaparecer de mim mesma. Em determinado momento, precisei desistir por alguns minutos. Eu juro. Só isso. Desistir por alguns minutos. Fui para a escada de incêndio do trabalho procurar uma coisa que havia se tornado um luxo nessa bendita semana: silêncio.

Levei uma xícara de café comigo. Sentei e respirei fundo. E, antes de dar o primeiro gole, olhei de relance para o pulso e percebi que o relógio estava parado. Pensei: “Será que é esse o problema?”. Mais ainda, que esse problema veio carregado de uma segunda pergunta um pouco mais incômoda: essa semana, quando foi a última vez que eu dei corda para as engrenagens internas que sustentam a minha própria vida?

Pois é. Eu não tinha dado. Penso que nossa vida seja um pouco parecida com esse fino relógio de corda. Existem momentos em que olhamos para ela e pensamos:

“Por que nada está funcionando?”

“Por que eu estou tão cansada?”

“Por que estou estagnada?”

“Por que parece que todo mundo está andando e eu fiquei para trás?”

“Por que o tempo está passando e eu não consigo acompanhar?”

Mas talvez, em alguns desses momentos, a pergunta não seja sobre o relógio e sim sobre a corda. Porque um relógio mecânico não funciona por mágica. Existe uma energia que precisa ser colocada dentro dele. Depois, essa energia percorre engrenagens minúsculas, uma após a outra, até produzir aquilo que conseguimos enxergar do lado de fora: o movimento dos ponteiros. É bonito pensar nisso. Porque quase tudo o que sustenta uma vida boa também acontece assim: Por dentro. Silenciosamente.

Ninguém vê a engrenagem.

As pessoas veem o ponteiro. Veem o resultado. O corpo. O diploma. O emprego. A casa. A viagem. A fotografia bonita. O relacionamento. O sucesso. O carro. Mas quase ninguém tem consciência daquilo que mantém tudo isso funcionando.

A disciplina. A prudência. A coragem. A honestidade. A ética. A capacidade de dizer não. O descanso. Dar o primeiro passo pedindo ajuda. A temperança. O cuidado. É aí que o estoicismo volta para mim.

A felicidade estoica² não promete uma vida em que tudo funciona. Muito pelo contrário.

Os estoicos sabiam que existem coisas que não estão sob nosso controle: A doença, a morte, a opinião dos outros, o acaso, o resultado de determinadas escolhas, a economia, o clima, o candidato eleito, a passagem do tempo. Não somos donos dos ponteiros. Mas somos responsáveis, na medida do possível, pela energia que colocamos nas engrenagens que dependem de nós, engrenagens essas que uma a uma moldam a sociedade.

Cabe aqui ressaltar brevemente as quatro engrenagens estoicas que nos ensinam a dar corda na vida, nas relações e no nosso caráter:

Sabedoria, para compreender o que está acontecendo e distinguir aquilo que depende de mim daquilo que não depende.

Coragem, para agir mesmo quando aquilo que precisa ser feito assusta.

Justiça, para lembrar que minha vida não existe isoladamente e que minhas escolhas também atingem as pessoas ao meu redor.

Temperança, para saber que nem toda corda precisa ser esticada.

Um relógio, assim como a vida, também pode ser danificado quando tentamos exigir dele mais do que seu mecanismo suporta.

Há momentos em que precisamos sim dar corda. Outros, em que precisamos apenas ajustar os ponteiros. E há momentos em que também precisamos simplesmente deixá-la repousar e seguir seu curso porque, o que cabia a nós (regular a corda), já foi feito.

Além das quatro virtudes, os estoicos constantemente repetem o mantra memento mori³. Isto é, o tempo está passando: Lembre-se de que você vai morrer.

À primeira vista, parece uma frase sombria. Para mim, é quase o contrário. É um convite para lembrar que os ponteiros estão andando. Que existe uma quantidade finita de tempo disponível. Que não temos a garantia de amanhã. E que justamente por isso precisamos prestar atenção à maneira como estamos utilizando o tempo que recebemos.

O problema é que lembrar da morte não significa correr desesperadamente contra o relógio. Significa compreender que cada segundo tem peso porque não volta.

A vida vai acontecendo. E talvez a grande pergunta não seja: “Quanto tempo ainda tenho?” Mas: “O que estou fazendo com o tempo que tenho?”

Penso nisso agora porque passei alguns dias tentando fazer o relógio funcionar sem perceber que havia esquecido de dar corda. Queria produtividade sem descanso. Disciplina sem temperança. Resultado sem processo. Movimento sem direção. E é aqui que reside a sabedoria filosófica. Não como uma coleção de frases bonitas para colocar em um post no instagram. E sim como uma maneira de olhar para a própria vida e perguntar: Que engrenagens estou alimentando?

Estou alimentando a vaidade? A comparação? A ansiedade? O ressentimento? A necessidade de aprovação? A pressa?

Ou estou alimentando aquilo que realmente quero que conduza minha vida? Sabedoria. Coragem. Justiça. Temperança.

Nossos hábitos conscientes são justamente a corda que damos diariamente à nossa existência.

Toda vez que escolhemos agir de acordo com aquilo que acreditamos ser correto, damos uma pequena volta na coroa. Toda vez que descansamos quando precisamos, mais uma. Toda vez que fazemos aquilo que sabemos que devemos fazer mesmo sem vontade, mais uma. Toda vez que recusamos uma pequena desonestidade, mais uma. Toda vez que tratamos alguém com dignidade mesmo quando seria mais fácil agir com crueldade, mais uma. Toda vez que reconhecemos que não sabemos, pedimos ajuda e aprendemos, mais uma. E então, lentamente, quase sem perceber, alguma coisa começa a funcionar.

Será que é daí que vem esta memória afetiva tão grande com esse relógio?

Não porque ele seja sofisticado, ou porque ele seja caro. Nem sequer porque eu entenda alguma coisa sobre relojoaria. Gosto dele porque ele me lembra uma coisa que tenho uma tendência enorme a esquecer: as coisas que importam precisam ser cuidadas.

Não existe vida em piloto automático. Não existe caráter em piloto automático. Não existe relacionamento em piloto automático. Não existe corpo em piloto automático. Não existe amizade em piloto automático. Não existe felicidade em piloto automático.

Até um relógio precisa receber energia para continuar fazendo aquilo para o qual foi construído. Nós também.

Às vezes essa energia vem do descanso. Às vezes, de uma conversa. Às vezes, de um livro. Às vezes, de um treino. Às vezes, de um café sozinho na escada de incêndio. Às vezes, de uma pessoa por quem estamos apaixonados. Às vezes, simplesmente da decisão silenciosa de continuar.

Hoje, quando olho para o meu relógio, não vejo apenas as horas. Vejo uma pergunta: Dei corda para a minha vida hoje?

Não necessariamente fazendo mais e sim fazendo melhor. Sendo mais presente. Talvez para você, leitor, seja dormindo, ou estudando ou dizendo não. Até mesmo, fazer melhor seja pedir desculpas. Perdoar. Praticar o silêncio.

Não quero passar pela vida apenas observando os ponteiros se moverem. Quero participar das engrenagens. Quero escolher, tanto quanto estiver ao meu alcance, aquilo que dá movimento à minha existência. E, quando a corda acabar, quero ter a tranquilidade de saber que não desperdicei o mecanismo inteiro tentando fazer o relógio marcar uma hora que não era a minha. Afinal, o tempo continuará passando independentemente de mim. O que depende de mim é como escolho viver enquanto ele passa.

É sobre isso. Dar corda. 

Ajustar os ponteiros, respeitar os limites e cuidar das engrenagens. Dali pra frente elas irão continuar.

Segundo a segundo.

Minuto a minuto.

Hora a hora.

Dia a dia.

Até que, olhando para trás, eu possa reconhecer que não apenas o tempo passou.

Eu estive presente enquanto ele passava.

mulher bebendo vinho
mariposa em mulher

NOTA

¹ O relógio que acompanha esta história é um Zenith vintage, de fabricação suíça, provavelmente produzido entre as décadas de 1950 e 1960. Trata-se de um relógio social de pequena dimensão. Seu funcionamento é mecânico, de corda manual: em vez de utilizar bateria, a coroa tensiona uma mola no interior do mecanismo, que libera gradualmente sua energia e movimenta os ponteiros. A peça conserva características originais de sua época, incluindo a caixa delicada, a coroa serrilhada e a pulseira fina de couro. Mais do que um objeto de alta relojoaria, para mim ele acabou se tornando uma pequena lembrança diária de que até aquilo que parece parado pode estar apenas precisando de energia para voltar a se mover.

² Felicidade estoica — Na tradição estoica, a felicidade está relacionada à eudaimonia, isto é, ao florescimento humano por meio de uma vida vivida de acordo com a razão e com a natureza. Esse caminho é sustentado pelo exercício das quatro virtudes cardeais: sabedoria, para distinguir o que é verdadeiro, bom e está sob nosso controle; coragem, para agir corretamente diante do medo e da adversidade; justiça, para reconhecer que nossa vida também se realiza na relação com os outros; e temperança, para estabelecer medida sobre desejos, impulsos e paixões. Assim, a felicidade não é algo que simplesmente encontramos, mas algo que construímos pelo caráter e pelas escolhas que repetimos diariamente. É nesse sentido que uso a expressão felicidade estoica: não como promessa de uma vida sem problemas, mas como o esforço contínuo de aprender a viver bem, qualquer que seja o movimento das circunstâncias.

³ Memento mori é uma expressão latina que significa, literalmente, “lembre-se de que você morrerá”. Embora a frase tenha se tornado fortemente associada ao estoicismo, sua formulação e circulação histórica são mais amplas do que a filosofia estoica. Para os estoicos, porém, a consciência da finitude não deveria produzir medo, mas urgência para viver bem: a morte é uma das coisas que não dependem de nós; o que depende de nós é a maneira como utilizamos o tempo que nos foi concedido. Em vez de esperar que a vida nos lembre de sua brevidade apenas quando algo termina, o memento mori nos convida a perguntar, enquanto ainda temos tempo: “O que estou fazendo com a vida que tenho?” É justamente nesse sentido que a expressão se conecta à imagem do relógio: os ponteiros continuam avançando, independentemente de estarmos atentos a eles.

Pensamentos Avulsos

Quem sou eu quando não preciso provar que sou capaz?

A verdadeira força pode começar quando a batalha termina.

Nas últimas duas semanas, um sentimento estranho me incomoda, me ronda e me cerca.

Eu consegui.

Estabeleci uma vida confortável no Espírito Santo começando do zero, sem amigos e sem família no dia a dia para me apoiar.

Comecei como única mulher do meu setor – em um ambiente predominantemente masculino – e hoje inspiro e treino mais três novas executivas na equipe a conquistarem seu lugar ao sol e baterem suas primeiras metas. 

Trabalho na sexta maior empresa de tecnologia do mundo e todos, incluindo a diretoria e presidência da empresa, confiam em mim, não importa o tamanho da entrega.

Passei na Universidade Federal do Espírito Santo.

Terminei o triathlon olímpico.

Coisas que, durante muito tempo, ocuparam uma enorme quantidade da minha energia, dos meus pensamentos e da minha disciplina. Coisas essas que finalmente aconteceram.

E eu achei que sentiria apenas felicidade pelas conquistas. Mas, depois da euforia, veio uma sensação que eu não esperava: silêncio. E essa ausência me assusta porque durante meses, na verdade anos, sempre havia algo que eu precisava muito fazer.

Treinar. Estudar. Persistir. Acordar cedo. Cumprir a planilha. Fazer fisioterapia.

Correr. Nadar. Pedalar.

Trabalhar. Resolver. Avançar.

Fazer algo.

Havia sempre alguma coisa para conquistar, algum obstáculo para atravessar, alguma montanha para subir. Agora não.

Eu não preciso treinar forte todos os dias. Posso fazer um treino leve porque a competição já passou. Posso chegar em casa depois de uma aula da faculdade, tomar banho e dormir. Não preciso acordar pensando no próximo edital. Não preciso transformar cada semana em uma preparação para alguma coisa. E isso justamente me deixa inquieta.

Porque passei tanto tempo aprendendo a lutar que agora preciso aprender a viver quando não há uma batalha acontecendo.

Meu terapeuta costuma dizer que sou uma pessoa extremamente corajosa. Minha família, há anos, desde que saí de casa para morar no Ceará, em Fortaleza, brinca me chamando de “melhor soldado”. Acho que eles dizem isso porque, diante de um obstáculo, eu simplesmente começo a procurar uma saída. Não importa muito o tamanho do problema. Eu olho para as condições que tenho, entendo meus limites, descubro o que está ao meu alcance e faço o que precisa ser feito. É uma característica da qual gosto. Mas ultimamente essa característica começou a me perseguir de outra forma:

Quem eu sou quando não preciso provar que sou capaz?

Se ser forte é uma das características mais marcantes da minha identidade, o que acontece quando não preciso ser forte?

Se eu sempre estou me preparando para a próxima batalha, será que sei reconhecer quando é hora de guardar a espada e repousar o escudo?

Ou será que, secretamente, preciso de uma luta externa para continuar reconhecendo quem sou?

Felicidade estoica hoje me leva a refletir que a vida reclama que estejamos prontos a buscar a metamorfose de Ovídio¹.

“As Metamorfoses” não é apenas uma obra com uma coleção de histórias fantásticas sobre deuses, heróis, monstros e homens. É, talvez, uma das maiores obras já escritas sobre aquilo que significa estar vivo.

Em Ovídio nada permanece exatamente como é.

Pessoas viram árvores. Homens viram animais. Mulheres viram flores. Pedras ganham vida. Corpos desaparecem. Amores mudam. Impérios caem. E, por trás de todas essas transformações, existe uma ideia incômoda:

Não existe permanência. Tudo muda. Nós mudamos. 

O maior perigo não é a mudança em si, mas em não percebermos no que estamos nos transformando.

Narciso olha para o próprio reflexo e se torna prisioneiro daquilo que contempla.

Midas deseja que tudo aquilo que toca se transforme em ouro e descobre tarde demais que aquilo que parecia poder também pode se transformar em condenação.

Aracne transforma sua habilidade em soberba e desafia aquilo que não reconhece como maior do que ela.

Ícaro recebe asas para escapar e morre justamente porque não soube reconhecer o limite entre a liberdade e a imprudência.

É curioso pensar nisso agora.

Porque eu passei tanto tempo aprendendo a voar que posso estar começando a esquecer que quando parar de voar.

Olho para a tatuagem da carruagem alada no meu corpo e penso nisso, de novo e de novo. Durante muito tempo, eu achei que a pergunta importante era:

“Consigo?”

Consigo terminar? Consigo correr? Consigo nadar? Consigo estudar? Consigo trabalhar? Consigo suportar? Consigo chegar até lá? E quase sempre a resposta foi sim.

Agora a pergunta é muito mais difícil: “Devo?”

Devo continuar acelerando? Devo transformar todo descanso em preparação? Devo transformar todo desejo em meta? Devo transformar toda oportunidade em obrigação? Devo continuar correndo e fazer um ironman apenas porque descobri que consigo?

Busco responder qual a diferença entre coragem e temperança.

A coragem nos ensina a atravessar a tempestade.

A temperança nos ensina a reconhecer quando não precisamos atravessá-la.

Respiro fundo na rede e abraço mais um poema de Ovídio. O problema de Ícaro não era ter asas. Era não saber quando parar de subir. Ele recebeu uma ferramenta extraordinária e confundiu capacidade com permissão.

Poder fazer alguma coisa não significa que devemos fazê-la.

Uma das lições mais difíceis para alguém acostumado a vencer desafios. Porque existe uma embriaguez particular em descobrir que somos capazes.

Você vence uma coisa. Depois outra. E outra. E começa a construir uma identidade em torno da própria capacidade de superar. Até que, sem perceber, a superação deixa de ser uma ferramenta e vira uma prisão.

Você não descansa porque “consegue mais”. Não recusa porque “dá conta”. Não para porque “ainda aguenta”. Não aceita o suficiente porque sempre existe um pouco mais que poderia ser conquistado. E então aquilo que um dia foi coragem começa a se transformar em compulsão.

É aqui que Ovídio volta a fazer sentido.

As metamorfoses não acontecem apenas no corpo. Elas acontecem no caráter.

Nossos hábitos, escolhas, paixões e desejos vão lentamente inscrevendo quem somos na forma da nossa vida.

A pessoa que escolhe a vaidade repetidamente se torna mais vaidosa.

A pessoa que alimenta o ressentimento se torna ressentida.

A pessoa que precisa provar o próprio valor o tempo inteiro se torna dependente da prova.

A pessoa que não sabe parar pode, pouco a pouco, esquecer por que começou a correr.

E eu não quero isso.

Não quero me tornar escrava das minhas próprias virtudes.

Não quero que a disciplina que me salvou se transforme na rigidez que me aprisiona.

Não quero que a coragem que me trouxe até aqui me impeça de reconhecer quando é hora de repousar.

Não quero precisar estar sempre vencendo para me sentir alguém.

Penso que em algum momento da vida há uma nova pergunta esperando por todos nós:

Quem somos quando não estamos tentando chegar a lugar nenhum?

Ainda não sei completamente. E talvez essa seja a resposta por enquanto…

Durante muito tempo, eu quis construir uma identidade baseada naquilo que conseguiria conquistar. Agora começo a perceber que existe uma identidade muito mais profunda escondida atrás das conquistas.

O caráter.

A maneira como trato as pessoas.

A honestidade com que reconheço meus próprios limites.

A disposição de aprender.

A capacidade de permanecer gentil quando ninguém está olhando.

A coragem de pedir ajuda.

A temperança de saber quando parar.

A justiça de reconhecer que o mundo não existe apenas para atender as metas que estabeleço.

A sabedoria de perceber que, por mais que eu saiba um pouco, existe um universo inteiro que ainda desconheço.

Isso permanece quando todas as medalhas deixam de importar.

Quando o diploma já está na parede. Quando a planilha é encerrada. Quando a prova termina. Quando ninguém mais está olhando.

Quem somos quando não precisamos provar nada?

Apenas pensar sobre a resposta nos coloca em um patamar mais próximo de finalmente livres para descobrir quem somos de verdade.

Ovídio termina As Metamorfoses falando sobre sua própria obra e sobre o que sobrevive à passagem do tempo.

Ele sabia que seu corpo morreria. Sabia que seu mundo mudaria. Sabia que impérios desapareceriam. Mas acreditava que aquilo que havia criado poderia continuar existindo depois dele.

Não a imortalidade do corpo. Mas a do caráter.

Daquilo que ensinamos. Daquilo que despertamos. Das pessoas que tratamos com dignidade. Dos filhos que educamos. Dos amigos que acolhemos. Das ideias que deixamos. Dos gestos que alguém reproduz anos depois sem sequer lembrar de onde aprendeu.

A minha maior preocupação talvez não devesse ser construir uma vida que prove o quanto sou capaz e sim construir uma vida que, quando eu não estiver mais aqui, tenha deixado alguma coisa boa para trás.

Porque as medalhas oxidam. Os títulos mudam de dono. Os corpos envelhecem. Os prédios caem. Os resultados são esquecidos. Mas aquilo que fazemos com o nosso caráter pode atravessar gerações. Essa é a verdadeira metamorfose que nos cabe.

Não transformar nosso corpo em algo extraordinário. Mas transformar, pouco a pouco, aquilo que somos.

Trocar culpa por diálogo.

Pressa por presença.

Vaidade por verdade.

Medo por coragem.

Excesso por temperança.

Egoísmo por cuidado.

Até que, um dia, olhando para trás, possamos reconhecer que todas aquelas pequenas escolhas silenciosamente construíram alguém que valeu a pena ser.

Eu e você podemos não saber para onde devemos apontar nossa carruagem alada². Está tudo bem, não precisamos saber agora. Depois de tantos anos aprendendo a acelerar, a próxima grande lição pode ser simplesmente aprender a conduzi-la.

Saber quando subir. Quando descer. Quando enfrentar o vento. Quando mudar a rota. E, principalmente, quando não voar perto demais do sol. Porque viver não é chegar o mais longe possível. Pode ser atravessar o tempo sem perder a própria humanidade no caminho.

E se tudo está destinado a mudar, como ensinou Ovídio, que pelo menos uma coisa permaneça em movimento: a construção consciente de quem escolhemos ser.

Para mim, a única viagem que realmente importa. E a única vitória que o tempo não consegue nos tirar.

NOTAS

¹ Metamorfoses, de Ovídio — Metamorfoses (Metamorphoseon, em latim), escrita pelo poeta romano Públio Ovídio Nasão no início do século I d.C., é um longo poema narrativo composto por quinze livros que reúne cerca de 250 mitos ligados por um tema comum: a transformação. De deuses a mortais, de homens a animais, árvores ou constelações, Ovídio utiliza a metamorfose para refletir sobre desejo, poder, orgulho, sofrimento, identidade e a impermanência da vida. Mais do que uma coleção de mitos, a obra pode ser lida como uma investigação poética sobre a condição humana: aquilo que somos está permanentemente se transformando, e nossas paixões, escolhas e ações participam dessa transformação.

² A metáfora da carruagem — A imagem da carruagem alada utilizada neste texto dialoga principalmente com o Fedro, de Platão, no qual Sócrates apresenta a famosa alegoria da alma como uma carruagem conduzida por um cocheiro e puxada por dois cavalos (que fiz uma releitura em conjunto com a artista e tatuadora Lis Torres). O cocheiro representa a razão; os cavalos, as forças e desejos que movem a alma, sendo um associado à disciplina e à nobreza e o outro aos impulsos desordenados. A carruagem, portanto, não representa apenas deslocamento, mas a própria condução da vida: cabe ao cocheiro aprender a governar forças que nem sempre apontam na mesma direção. É nesse sentido que a imagem aparece aqui: depois de aprender a acelerar e vencer obstáculos, talvez a próxima tarefa seja reaprender a conduzir (apenas) — reconhecer quando avançar, quando mudar a rota e quando conter o próprio impulso.

Pensamentos Avulsos

Acho chic

– Ouvir também pode fazer minha alma florir, mesmo quando meus olhos se cansam

Essa semana, enquanto escrevo este texto, está muito em alta uma trend no Instagram que consiste, basicamente, em declarar aquilo que cada pessoa considera chic na vida.

Confesso que gostei bastante dessa trend. Porque me faz questionar algo aparentemente superficial, mas que não necessariamente o seja. O que é o “chic”³? O que é luxo?

Uma bolsa? O consumo? O poder aquisitivo de alguém? Um restaurante superfaturado? Uma viagem? Um hotel? Uma roupa? Um carro? O chic pode ser tanta coisa aos olhos de quem vê. Depois deste último fim de semana, voltando do Rio de Janeiro para Vitória, passei boa parte do voo pensando que eu tenho uma lista de coisas que penso serem bem chic…

Para começar, eu acho chic coisas que não cabem numa vitrine. E muitas delas, não estarem à venda.

Eu acho chic ter uma amiga que passa o dia em uma feira literária porque realmente quer estar lá. Que está não só fisicamente como também inteira: ouvindo autores, pensando, fazendo perguntas, descobrindo livros, encontrando pessoas. Essa amiga em questão estava na FLIN, a Festa Literária Internacional de Niterói, que este ano aconteceu sob o tema “Território das Palavras”, celebrando literatura, memória, diversidade e encontros. Mesmo ocupada, ela me mandava mensagens empolgada para contar sobre as palestras que queria assistir, porque coincidência ou não, eu também estaria em Niterói.

Eu acho chic ter amigos que fazem você querer crescer intelectualmente. Que ampliam o seu vocabulário, seu local de fala. Que apresentam autores que você não conhecia. Que fazem o mundo parecer maior depois de uma conversa. Acho chic ter amigos que aumentam nosso senso de pertencimento. Que fazem a gente lembrar que não estamos sozinhos. Amigos que, por uma dessas coincidências bonitas da vida, acabam indo parar na casa da sua avó em uma sexta-feira aleatória.

Era a primeira vez que recebia esta amiga na dona Onilda, minha avó. Quem, assim que conheceu minha amiga, ofereceu jantar e, porque eu contei, descobriu que ela era vegetariana e se ofereceu para fritar um ovo. Minha amiga, no entanto, em vez de fazer cerimônia, foi lá e fritou o próprio ovo, depois sentou à mesa e devorou o prato como se tivesse feito aquilo desde sempre. Eu acho chic isso.

Não precisar pedir licença para existir. Não transformar uma casa em território estrangeiro. Sentir-se recebido. Não precisar pisar em ovos. Acho chic fazer o outro se sentir à vontade também. Mais tarde, quando todos foram dormir, ficamos nós duas bebendo vinho e conversando. Ela me contou sobre os meses difíceis que tinha atravessado. Separação. Dor. Mudanças. Medos. Vulnerabilidades que só aparecem quando existe confiança suficiente para que a gente deixe de tentar parecer bem.

Depois rimos. Rimos tanto que minha barriga começou a doer e meus olhos a lacrimejarem. Eu acho chic poder conversar sobre as coisas mais difíceis da vida e, algumas horas depois, estar chorando de rir.

Acho chic ter amigos que sabem ser profundos sem serem pesados. Amigos especialistas em sua área de atuação que – do absoluto NEIDA – começam a explicar a rotina de um urutau¹. Um pássaro absolutamente estranho e extraordinariamente esplêndido que eu não sabia da existência (?). Agora sei. E acho chic isso também. Ter conhecimento sobre coisas aleatórias para mim, mas totalmente sensíveis e relevantes para o outro. Como o nome de uma árvore. Reconhecer um pássaro. Saber preparar uma geleia. Saber acender uma fogueira. Saber fazer alguma coisa que não serve para aumentar o salário, melhorar o currículo ou alimentar o algoritmo. Saber porque é parte da sua existência.

Na manhã seguinte, ainda na minha avó, montamos uma farta mesa de café da manhã: Pão, queijo, geleia caseira, café. E a maior fartura: conversa fiada (risos). Minha tia apareceu e as duas começaram a conversar. Uma hora depois, tinham trocado contatos para compartilhar receitas de geleia como se fossem amigas havia anos. 

Eu acho chic isso. A capacidade humana de criar intimidade com pessoas que, algumas horas antes, eram desconhecidas através da linguagem, da cultura, da afinidade.

Saindo dali, fui para o aniversário da minha mãe. Peguei estrada debaixo de chuva. Dirigi devagar, colocando as fofocas familiares em dia. Cheguei em uma casa cheia, com cheiro de feijoada, som de lenha crepitando e gente falando ao mesmo tempo. Criança correndo. Adultos discutindo. Os cachorros pedindo um petisco. Alguém perguntando se ainda tinha café.

Eu acho chic tradição. Não porque a tradição seja sempre boa. Mas porque existem algumas tradições que carregam memória. Receitas que atravessam gerações. Jeitos de cozinhar que ninguém escreveu. O fogo que meu pai me ensinou a controlar. Aquela espécie de conhecimento doméstico que não aparece em nenhum certificado, mas que passa de uma pessoa para outra simplesmente porque alguém um dia parou para ensinar.

Eu acho chic isso. Parar para ensinar.

Mais tarde, dormi com meus afilhados. Nós quatro na mesma cama. De conchinha. Assistindo a um desenho que eu assistia quando criança e que agora eles amam: os jovens titãs. Acordei com os braços dormentes enquanto eles continuavam dormindo. E pensei:

Eu acho chic dormir profundamente nos braços de alguém porque você sabe que está seguro. Existe luxo maior?

No dia seguinte, outro café da manhã. Uma mesa novamente grande o suficiente para caber todo mundo. Meus amigos, que dormiram na casa dos meus pais, acordando cedo e saindo para comprar pão enquanto todo mundo ainda dormia. Voltando com sacolas. Pegando chinelo emprestado. Entrando e saindo da casa sem cerimônia.

Eu acho chic ter amigos que se sentem em casa na sua casa. Me dei ainda mais conta disso quando vi minha amiga que fiicou ensinando minha afilhada a fazer acrobacia pendurada invertida² na corda. Consciência corporal. Força. Tentativa. Erro. Queda. Tentativa outra vez. Eu acho chic uma criança descobrir pela primeira vez que é capaz de fazer coisas que ela ainda não sabia. E acho mais chic ainda uma infância em que existe espaço para isso.

Para correr. Para cair. Para aprender. Para errar sem transformar cada erro em culpa, trauma. Acho chic descobrir o próprio corpo antes de descobrir o mundo através de uma tela.

Tomei um banho demorado e pensei que também acho chic isso. Um banho sem pressa. A sensação de sair do banheiro como se fosse outra pessoa, embora continue sendo exatamente a mesma. A vida adulta nos convence de que tudo precisa ter alguma finalidade. Até o descanso, a conversa, o banho, o conhecimento, o tempo dedicado. E talvez não. Talvez algumas coisas sejam valiosas justamente porque não precisam produzir nada.

Mais tarde fui levar uma das minhas amigas em casa. Ouvindo a playlist dela no spotify. Acho chic afinidade musical e ter intimidade no silêncio. Só na permanência de uma viagem tranquila de carro, sem muita conversa, a música rolando no fundo. Ao chegar, conheci a mãe dela e, naquela situação de conhecer alguém pela primeira vez, ela me pegou desprevenida e pediu desculpas porque estava sem um dente da frente. Literalmente. Tinha acabado de perder uma prótese e estava visivelmente constrangida. Mas, para minha surpresa, não tentou esconder e explicou o que havia acontecido. E, mesmo morrendo de vergonha daquele primeiro encontro, insistiu para que eu ficasse para almoçar.

Eu acho chic isso. A vulnerabilidade que não pede autorização.

A capacidade de dizer: “É isso. Hoje eu estou assim.” Sem maquiagem emocional. Sem tentar parecer mais bonita, mais forte, mais bem resolvida do que realmente estamos. Acho chic quem sustenta seus próprios ciclos. Quem consegue dizer “estou mal”. “Estou com medo.”. “Não sei.”. “Hoje não estou bem.” E ainda assim abrir a porta da sua casa, do seu ser.

Depois dali, fui deixar minha avó em casa e saí para terminar uma tatuagem que venho fazendo há algum tempo. Enquanto minha tatuadora terminava a arte, conversávamos sobre os próximos meses, nossa vida, nossos planos. Ela vai passar um período nos Estados Unidos, trabalhando e enfrentando uma série de coisas novas. E, no meio da conversa, apareceu o medo e a ansiedade. Medo do que vem pela frente. 

Eu acho chic isso também. Gente que sente medo e vai mesmo assim.

No fim daquele dia, voltei para a casa da minha avó e ela já tinha preparado o jantar: Feijão vermelho, arroz fresquinho e ovo mexido. Tudo simples. E ainda preparou uma marmitinha, e me deu para eu levar no dia seguinte. Porque ela sabe que estou treinando e eu não gosto de comer na rua. Eu acho chic comida que vem acompanhada de memória. Acho chic quando alguém conhece você o suficiente para saber o que colocar dentro de uma marmita. Acho chic quando o amor não precisa ser anunciado.

Ele aparece no ovo feito na manteiga. No pano de prato envolvendo uma marmita para a viagem de volta. 

E foi assim que eu passei o fim de semana. Colecionando coisas que considero chic. Só que, dentro do avião, percebi que talvez eu estivesse usando essa palavra de um jeito completamente diferente. Porque nada daquilo era raro por ser caro. Era raro por ser humano.

Eu não acho chic ter uma casa cheia porque isso demonstra seu networking. Acho chic ter uma casa onde as pessoas podem ir para qualquer outro lugar e ainda assim escolhem ficar.

Não acho chic uma mesa bonita. Acho chic uma mesa onde ninguém precisa olhar o relógio ou o celular.

Não acho chic ter amigos interessantes. Acho chic ter amigos que nos tornam pessoas mais elevadas.

Não acho chic conhecer pessoas importantes. Acho chic fazer pessoas comuns se sentirem importantes.

Não acho chic viajar para lugares distantes. Acho chic ter alguém que pergunta se você chegou bem.

Acho chic uma criança dormir tranquila. Uma mãe oferecer comida. Um pai ensinar a mexer no fogo. Uma amiga contar seus medos. Outra ensinar uma criança a sustentar o próprio corpo. Alguém admitir que está sem um dente. Uma pessoa compartilhar uma receita. Outra compartilhar um livro. Alguém cozinhar pensando nas restrições do outro. Gente adulta cantando Mauricio Manieri no aniversário da mãe; sem vergonha. Sem preocupação com a performance. Só porque é divertido. Eu acho chic o parabéns da Xuxa cantado por adultos.

Eu acho chic um karaokê improvisado de sofrência. Eu acho chic rir até a barriga doer. E acho chic poder voltar para casa depois de tudo isso e perceber que, talvez, nós tenhamos mais do que imaginamos. Um grande privilégio sobre o qual falamos pouco. Não o privilégio de possuir. Mas o privilégio de pertencer.

Ter alguém. Ter histórias. Ter memórias. Ter lugares onde você pode chegar sem precisar explicar quem é. Ter pessoas que sabem como você gosta do café. Ter alguém que percebe quando você não está bem. Ter uma mesa. Ter tempo. Ter diálogo. Ter uma criança que confia em você o suficiente para se aninhar em seus braços. Ter alguém que abre a porta mesmo estando vulnerável. Ter uma avó que prepara comida para a viagem. E, se você não tem ou nunca teve essas experiências, talvez chic seja procurar/estar aberto a elas. Porque algumas das coisas mais bonitas da vida não são herdadas mas podem sim ser construídas.

Você pode ser a pessoa que oferece o jantar. A pessoa que chama um amigo para conversar. A pessoa que cria uma tradição. A pessoa que prepara uma comida pensando em alguém. A pessoa que ensina uma criança. A pessoa que escuta. A pessoa que abre a porta. A pessoa que diz: “Pode ficar.”

Penso que é assim que uma vida boa começa a ser construída. Não necessariamente com grandes acontecimentos mas com pequenos lugares de segurança espalhados pelo caminho. 

Com mesas onde caibam mais pessoas.

Com conversas que durem mais do que deveriam.

Com comida feita sem pressa.

Com amigos que chegam e ficam.

Com coragem para mostrar o que está faltando.

Com crianças que possam cair sem medo.

Com adultos que possam brincar sem vergonha.

Com famílias que preservem aquilo que vale a pena preservar.

E com a consciência de que, no fim, quase tudo aquilo que realmente importa não pode ser comprado. Pode apenas ser vivido. Se alguém me perguntasse hoje:

“O que você acha chic?”

Eu responderia:

Eu acho chic estar inteiro onde o corpo está.

Eu acho chic saber conversar.

Eu acho chic saber ouvir.

Eu acho chic ter curiosidade.

Eu acho chic ter amigos que nos fazem pensar.

Eu acho chic cuidar.

Eu acho chic deixar-se cuidar.

Eu acho chic pedir ajuda.

Eu acho chic admitir vulnerabilidade.

Eu acho chic uma mesa cheia.

Eu acho chic uma casa onde você pode entrar de chinelo.

Eu acho chic uma pessoa dormindo segura.

Eu acho chic alguém te preparar uma marmita.

Eu acho chic rir.

Eu acho chic cantar por cantar.

Eu acho chic cozinhar para todos, respeitando que alguém não pode comer o que todos comem.

Eu acho chic respeitar o momento do outro.

Eu acho chic ensinar alguma coisa sem esperar nada em troca.

Eu acho chic continuar aprendendo.

Eu acho chic ter coragem para partir.

E, principalmente,

Eu acho chic construir uma vida da qual não precisamos fugir de nós para encontrar o belo.

Porque existem coisas que, ao meu ver, nunca sairão da trend.

A gentileza.

A amizade.

A curiosidade.

A vulnerabilidade.

A presença.

O cuidado.

O riso.

O conhecimento.

A comunidade.

O amor.

Coisas que não precisam de tendência. Tampouco de algoritmo ou aprovação. Coisas que não precisam de uma postagem ou fotografia para existir. E talvez esse seja o verdadeiro luxo.

Chegar ao fim de um fim de semana absolutamente comum, olhar pela janela e perceber que, apesar de tudo que ainda falta conquistar, há coisas que já são tão inefáveis que eu e você já somos privilegiados por tê-las.

E para você, o que é chic?

NOTAS

¹ Urutau — nome popular dado a aves noturnas do gênero Nyctibius, encontradas principalmente nas regiões tropicais da América Latina. De hábitos discretos e predominantemente noturnos, o urutau é conhecido por sua impressionante camuflagem: durante o dia, permanece imóvel sobre galhos, assumindo uma aparência semelhante à de um pedaço de madeira ou tronco. Seus grandes olhos e sua expressão peculiar fazem dele uma das aves mais curiosas da fauna brasileira. O nome também aparece associado a diferentes espécies de Nyctibius, entre elas o urutau-comum (Nyctibius griseus).

² Pendurada invertida — movimento de ginástica e treinamento de força realizado em uma barra, no qual a pessoa parte da posição suspensa, eleva as pernas e passa o corpo para trás, ficando temporariamente invertida, com as pernas acima da cabeça. O movimento exige força de braços, ombros, abdômen e costas, além de mobilidade e consciência corporal para controlar a posição com segurança. Apesar de parecer uma simples acrobacia, é um exercício que ensina algo bastante bonito: confiar no próprio corpo, sustentar o próprio peso e aprender gradualmente até onde ele é capaz de ir.

³ Chic — Na língua portuguesa, a forma correta e oficial de escrever é chique. A grafia chic está correta apenas no idioma francês, que deu origem ao termo, ou quando usada como estrangeirismo de uso restrito. Mantive a palavra original no texto para que você leitor, saiba um pouco mais sobre a etimologia da palavra.

Pensamentos Avulsos

Navegar eu quero

será que ainda temos desejo de procurar? 

Felicidade Estoica


Talvez o maior luxo do nosso tempo seja não saber. 

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Awesome, you’re in! Can’t wait to share our launch with you. Stay tuned!

@ j u l i a s p o r t o

Outro dia, ouvi meu podcast preferido: a energia dos arcanos. Para quem não sabe, nele a hostess, Rita Araújo, fala sobre a carta do dia a qual, enquanto escrevo este texto é o três de paus. A metáfora para explicar esse arcano menor¹ durante o episódio, foi um sujeito diante do infinito oceano, olhando para o horizonte, como quem ainda não sabe exatamente o que encontrará do outro lado mas ainda assim vai.

Um descobridor. Um navegador. Alguém prestes a partir. A conquistar.

O curioso é que, enquanto ouvia, minha cabeça imediatamente foi parar em uma música que você leitor provavelmente conhece: Descobridor dos setes mares², do Tim Maia.

Pensei: Navegar eu quero.

Existe algo tão profundamente humano nesse desejo.

Durante séculos, nós olhamos para o horizonte e sentimos curiosidade pelo que havia depois dele. Atravessamos os oceanos sem saber exatamente o que encontraríamos. Entramos em florestas que não conhecíamos. Subimos montanhas. Observamos o céu. Mapeamos territórios. Fizemos perguntas para as quais não tínhamos respostas. E, muitas vezes, foi justamente a ausência delas que nos fez partir.

Hoje, em contrapartida, temos um problema curioso.

O mundo ficou muito menor. E as respostas, muito mais próximas. Se quero saber alguma coisa, pergunto a OPENAI³. Se quero aprender alguma coisa, procuro um tutorial. Se quero estudar, encontro uma aula. Se quero uma opinião, encontro milhares. Se quero uma síntese de um livro, alguém já fez. Se quero organizar meus pensamentos, uma inteligência artificial pode me ajudar. Se quero saber o caminho, o GPS me mostra. Se quero saber o que outras pessoas pensam, basta abrir uma rede social. Temos mapas para praticamente tudo e talvez por isso estejamos perdendo o gosto pela navegação.

Não porque deixamos de ser curiosos. Mas porque começamos a acreditar que toda pergunta precisa terminar rapidamente em uma resposta. O grande paradoxo do nosso tempo…

Nunca tivemos tanto acesso à informação. Por outro lado, nunca tivemos tanta dificuldade para simplesmente permanecer diante de uma pergunta. Em habitar de verdade a diferença enorme entre receber informação e buscar conhecimento.

Uma resposta pronta pode informar. Entretanto, a procura transforma. É durante a procura que somos obrigados a duvidar. A comparar. A errar. A voltar. A mudar de ideia. A buscar ajuda, dialogar. A descobrir que aquilo que acreditávamos saber era mera opinião.

Os gregos  e filósofos tinham uma palavra para o conhecimento verdadeiro; fundamentado: a episteme⁴. E tinham outra para aquilo que é opinião, aparência, crença: doxa⁴. Caramba, como temos vivido cercados por tanta doxa.

Ela chega pelo celular. Pelo algoritmo. Pelo vídeo de trinta segundos. Pelo comentário de alguém que fala com absoluta convicção sobre aquilo que pesquisou por cinco minutos. Pelo influenciador que transforma opinião em autoridade. Pelo especialista autoproclamado. Pelo amigo que compartilha uma informação porque “viu em algum lugar”. E existe algo particularmente perigoso na doxa: Ela não precisa ser verdadeira para parecer verdadeira. Basta ser convincente. Basta ser repetida. Basta aparecer muitas vezes. Basta ser dita por alguém que fala bem. E é por isso que a filosofia continua sendo tão necessária na minha vida e espero que você a convide para a sua também.

Ela nos ensina a desconfiar da facilidade com que acreditamos que sabemos. Sócrates⁵ fez disso praticamente uma forma de viver, para si e seus alunos. Não porque acreditasse que nada poderia ser conhecido. Mas porque compreendeu algo muito mais desconfortável: há uma diferença entre aquilo que sabemos e aquilo que apenas acreditamos saber. A verdadeira virtude começa justamente nesse espaço.

Entre a certeza e a dúvida. Entre a doxa e a episteme. 

Nesse sentido, a tecnologia nos interessa (e muito). Não tenho medo dela, tampouco da inteligência artificial. Nem você leitor deveria. Pelo contrário. Eu as utilizo. Todos os dias, para as mais variadas tarefas. E acho extraordinário poder conversar com uma ferramenta capaz de me ajudar a pesquisar, organizar ideias, encontrar referências e enxergar ângulos que talvez eu não tivesse percebido sozinha.

Agora, faça a si mesmo uma pergunta:

Essas ferramentas que você usa, são para navegar melhor ou para deixar de navegar?

Uma coisa é usar um mapa para atravessar um território. Outra é nunca olhar para a paisagem porque o mapa já disse onde estamos.

Uma coisa é utilizar uma inteligência artificial para ampliar nossa capacidade de pensar. Outra é terceirizar o próprio pensamento.

Uma coisa é perguntar. Outra é deixar de ter curiosidade.

E aí reside  a ameça; o risco. Não na existência das respostas. Mas na nossa perda de apetite pelas perguntas genuínas. Dessas que tangibilizam as coisas mais importantes da vida, que não possuem nem possuirão um tutorial.

Como amar alguém. Como perdoar. Como criar um filho para o mundo. Como lidar com a morte. Como descobrir quem somos. Como decidir pelo justo mesmo que haja perda. Como saber quando insistir e quando partir. Como viver uma vida boa. Como definir o que é uma vida boa. Como distinguir aquilo que desejamos daquilo que realmente precisamos.

Para essas coisas, podemos consultar filósofos, cientistas, livros, professores, amigos e até inteligências artificiais. Mas no fim do dia ninguém conseguirá navegar na resposta verdadeira para nós e por nós.

Há uma parte da viagem que permanece inevitavelmente nossa. E nós enquanto navegadores não possuiremos todas as respostas. Instrumentos, mapas, conhecimento acumulado por quem veio antes, claro. Mas ainda é preciso partir. Ainda é preciso olhar para o horizonte. Lidar com o vento. Corrigir a rota.

Viver filosoficamente é um pouco isso. Não saber exatamente onde vamos chegar, mas ter coragem suficiente para sair em busca do que nos tornará maiores do que quando viemos ao mundo. A espécie de vida que nasce quando deixamos de exigir certezas. Uma vida em que o desconhecido é um convite, uma pergunta que pode sim permanecer aberta. Por que não?

Uma dúvida não precisa ser resolvida antes do jantar. Tudo bem dizer: eu não sei. E continuar. Uma das frases mais honestas que um ser humano pode pronunciar. Eu não sei.

Não sei se isso é verdadeiro. Não sei se estou certo. Não sei qual é o melhor caminho. Não sei o que existe depois daquele emprego/relacionamento/golpe etc. Mas quero descobrir.

Quero ler.

Quero perguntar.

Quero conversar.

Quero experimentar.

Quero errar.

Quero mudar de ideia.

Quero conhecer.

Quero navegar.

A vida não é uma viagem cujo objetivo é chegar ao lugar onde todas as respostas estão. É a própria disposição de continuar fazendo perguntas melhores para chegar naquilo que é, em essência, verdadeiro.

Aquilo que é justo. Aquilo que é bom. Aquilo que é belo. Aquilo que merece ser vivido. Por todos…

Diante de um mundo que tenta nos entregar tudo pronto, essa disposição pelo incógnito é uma pequena forma de liberdade.

Então, se me perguntarem o que quero fazer com tudo aquilo que ainda não sei…

Eu acho que já tenho a resposta.

Navegar, eu quero.

NOTAS

¹ Três de Paus — Arcano menor do tarô tradicional, frequentemente associado à expansão, aos horizontes e à disposição para explorar aquilo que ainda não foi conhecido. A imagem de uma figura contemplando o horizonte ajuda a representar o momento anterior à partida: já existe um caminho percorrido, mas o que está além ainda permanece desconhecido.

² Navegar eu quero” — referência à canção Descobridor dos Sete Mares, de Tim Maia, lançada em 1983. A música celebra, em tom quase mítico, a figura do navegante que deseja conhecer o mundo e partir em direção ao desconhecido. Aqui, a expressão é utilizada como metáfora para a disposição humana de explorar aquilo que ainda não sabemos

³ OPENAI — É uma empresa de pesquisa e tecnologia de inteligência artificial dos Estados Unidos, fundada em 2015. Ela é famosa por criar o ChatGPT e o gerador de imagens DALL-E, com o objetivo de desenvolver sistemas de IA seguros que ajudem toda a humanidade.

⁴ Episteme e doxa — termos de origem grega fundamentais para a reflexão filosófica sobre o conhecimento. Episteme pode ser compreendida como conhecimento fundamentado, enquanto doxa corresponde à opinião, crença ou percepção não necessariamente sustentada por fundamentos sólidos. A distinção aparece de diferentes formas na filosofia grega, especialmente nas discussões de Platão sobre conhecimento e opinião.

⁵ Sócrates — filósofo ateniense do século V a.C., conhecido por transformar o questionamento em método de investigação filosófica. Embora a famosa formulação “só sei que nada sei” não apareça literalmente dessa forma nos textos de Platão, ela sintetiza uma ideia recorrente nos diálogos socráticos: reconhecer a própria ignorância é condição para começar a investigar aquilo que se acredita saber.

Pensamentos Avulsos

Não dá para fazer tudo

Mas sempre dá para fazer alguma coisa.

Resolvi escrever esse texto após subir ao pódio, em quinto lugar na minha categoria, da maior prova de triathlon olímpico do Espírito Santo, o capixaba de ferro.

O texto é sobre uma coisa curiosa: Eu quase não comecei esse triathlon. Não porque faltou vontade. Mas porque, durante muito tempo, fazer tudo era simplesmente impossível.

Quando operei a coluna, eu só podia andar pela casa para tomar banho e fazer minhas refeições. Depois, fui liberada para subir e descer as escadas uma vez por dia. Uma vez. Na época, eu estava no apartamento da minha avó, no primeiro andar e sem elevador. Mais tarde, eu trocaria para o meu apartamento atual (enquanto escrevo esse texto), no quarto andar e também sem elevador.

Depois veio a recomendação médica de caminhar cinco minutos. Era isso.

Cinco minutos por dia. E eu me sentia inútil. Porque o que são cinco minutos?

Enquanto o mundo continuava correndo, eu tinha que andar durante cinco minutos. E, para piorar, doía. Às vezes eu queria chorar porque até cinco minutos parecia difícil demais. Mesmo assim eu ia. Cinco minutos. Todos os dias.

Depois de uma semana, o médico disse que eu poderia aumentar conforme meu corpo permitisse. Então aumentei cinco minutos. Quando doía, diminuía. Quando conseguia, aumentava. E assim fui descobrindo uma coisa que hoje parece óbvia, mas que naquela época eu precisava aprender todos os dias: não dá para fazer tudo mas sempre dá para fazer alguma coisa.

Lembro que durante o primeiro mês de fisioterapia, minha “aula de natação” nem sequer era uma aula de natação. Eu entrava na piscina e caminhava. Só isso. A piscina tinha 15 metros e a borda parecia estar do outro lado do planeta. Até que um dia eu nadei. Não foi bonito. Eu parecia um pato desajeitado tentando descobrir se deveria bater os braços, as pernas ou simplesmente desistir. Mas nadei. E não senti dor. Só um cansaço enorme. Foi uma das primeiras vezes em meses em que meu corpo me mostrou que ainda existiam coisas que ele conseguia fazer. No último mês de fisioterapia, finalmente consegui nadar de uma borda à outra sem parar. Eu ainda lembro da sensação. Aquilo aconteceu pouco antes do Natal. Eu estava no Rio, hospedada na casa da minha avó para fazer o pós-operatório. Para mim, foi um presente.

Quando voltei para o Espírito Santo, o desafio mudou. Já não era apenas físico. Era psicológico. Eu trabalhava deitada porque ficar sentada por mais de quinze minutos era cansativo. Não podia limpar a casa. Não podia carregar peso. Não podia sair várias vezes por dia porque cada saída significava enfrentar quatro andares de escada. Minha família estava no RJ. Então meus amigos precisaram ajudar. Buscar encomendas. Arrastar móveis. Organizar uma faxineira. Ajudar nas pequenas coisas que, para quem está saudável, parecem absolutamente banais. Como descobrir se uma panela cheia de água é ou não pesada demais.

Durante os primeiros meses, meu desempenho no trabalho despencou. Eu estava cansada. Sem energia. E provavelmente meus clientes percebiam. Mas eu continuava indo à fisioterapia. Trabalhando com segurança. Continuava nadando. Continuava tentando. Lembro até hoje da primeira vez em que conseguimos me manter na prancha alta durante quinze segundos. Quinze. A fisioterapeuta estava ali e eu ainda fazia as sessões em casa. Eu queria gritar e chorar de alegria, mas segurei. Hoje acho engraçado. Eu tinha acabado de passar meses lutando para recuperar movimentos básicos e ainda tentava manter a pose de quem não chorava na frente dos outros.

Cinco meses depois da cirurgia, pedi ao médico para voltar a pedalar. Eu sentia falta. Ele autorizou. E não doeu. Pouco a pouco, a vida começou a devolver pequenas partes de si mesma. Um sábado, fui fazer feira e me empolguei. Comprei mais coisas do que deveria. Voltei caminhando para casa carregando as compras. Dez minutos. Quando contei ao médico, ele achou um ótimo sinal. Eu achei curioso. Até carregar compras podia ser um indicador de recuperação.

Comecei então a testar pequenas coisas. Quanto consigo andar? Quanto consigo carregar? Quanto tempo consigo nadar? Como meu corpo responde? Eu estava, sem perceber, reconstruindo minha confiança em pequenos experimentos. Até que um dia, andando na esteira, pensei:

Eu já nado três vezes por semana. Já consigo andar sem dor. Já pedalo. E se eu fizesse um triathlon?

A ideia parecia absurda para os outros, mas fazia sentido pra mim, comemorar a vida em uma prova difícil, com tudo o que eu achei que não fosse mais conseguir fazer. Assim, pedi autorização ao médico e ele permitiu. Com uma condição: Nada de corrida ainda. Começaria pela bicicleta e pela natação. Minha fisioterapeuta entrou no plano comigo e começamos a preparar meu corpo para, algum dia (que eu não sabia quando), sustentar uma corrida. Troquei a pequena piscina onde treinava por uma piscina olímpica perto do trabalho. Resultado? Voltei a me sentir incapaz.

As raias tinham 25 metros. Era difícil. Eu não conseguia acompanhar os educativos. Terminava as aulas me sentindo a pior pessoa do mundo, Comecei a evoluir mesmo depois de três semanas. Até que um dia (de novo) cheguei para a aula e as raias estavam organizadas em 50 metros. Pronto. Voltei para a estaca zero. Eu simplesmente não conseguia chegar ao outro lado. Parecia que ia desmaiar de tanto esforço. Mas continuei.

3 meses depois finalmente consegui completar a meta da aula. Dois quilômetros. Depois de três meses tentando. Naquele dia eu não tinha conquistado nenhuma medalha. Mas alguma coisa dentro de mim tinha mudado. 

Na bicicleta a mesma coisa. Eu descobri que, para fazer a prova precisaria de uma bicicleta speed. Fui experimentar uma. Não sei se você já assistiu a Harry Potter, mas me senti como aquela aranha andando de patins¹. Não consegui andar nem dez metros. O equilíbrio era próximo ao de um gato numa canoa. Mesmo assim, comprei.

Daí veio o medo de cair, as novas posições, os exercícios de força e toda aquela sensação maravilhosa de ser novamente uma iniciante, só que não. Até que eu dominei o modos operandi da bike e aos domingos, eu pedalava trinta quilômetros, sem exceção. Aumentava tempo e intensidade conforme meu médico havia orientado. E caminhava também. Dez quilômetros. O treino que eu mais queria evitar… a tal da caminhada. Para conseguir terminar, colocava uma palestra de uma ou duas horas da professora Lúcia Helena Galvão e caminhava. De novo. E de novo. E de novo. Até que, faltando um mês para a prova, finalmente veio a autorização para correr. Só que havia outra condição.

Precisava fazer um exame² para avaliar minha pisada e comprar o tênis adequado. O resultado foi uma palmilha ortopédica e um novo processo de adaptação de mais 45 dias. Eu queria chorar novamente. Finalmente podia correr mas precisava esperar.

Três semanas antes da prova, fiz minha primeira corrida de verdade. Cinco quilômetros completos. E aconteceu uma coisa que até hoje me parece estranha.

Eu corri sem sofrimento. Sem aquela sensação de que meu corpo estava sendo testado pela primeira vez. Corri como quem passeia no shopping. Pensei: Que doideira. Até aqui, tudo foi tão difícil. Será que o universo está me pregando uma peça?

Então chegou o grande dia. O dia da competição³. 

A praia era diferente daquela que eu conhecia. O circuito da bike teria morros. A corrida seria de dez quilômetros e no asfalto.

Eu nunca tinha feito as três modalidades juntas em condições reais: na rua, com subidas, sol de 30º. E, honestamente, achava que chegaria em último. Principalmente por causa da corrida e da correnteza do mar. Eu imaginava um tempo enorme. Imaginava começar e dar tudo errado. Imaginava não terminar. Mas entre o medo e a linha de chegada existia tudo aquilo que eu havia feito durante meses sem perceber.

Cinco minutos. Depois dez. Depois quinze. Depois vinte. Uma piscina pequena. Uma piscina grande. Um quilômetro. Dois quilômetros. Trinta quilômetros de bicicleta. Dez quilômetros caminhando. Cinco quilômetros correndo. E então, naquele domingo, nadei. Pedalei. Corri. Minuto a minuto, consciente, focada, desliguei o mundo lá fora e pensei: só mais 5 minutos. Até que eles se tornaram 3 horas e 44 minutos e quinto lugar na categoria feminina de 25 a 29 anos. Eu subi ao pódio. Mas, para mim, o pódio mesmo, veio quando eu só podia caminhar cinco minutos e decidi caminhar mesmo assim.

Existe uma tendência nossa de olhar para grandes conquistas e imaginar que elas nasceram grandes. Não nasceram. Quase tudo que admiramos começou pequeno demais para parecer importante.

Uma página. Uma aula. Uma conversa. Uma decisão. Cinco minutos.

O problema é que queremos enxergar o caminho inteiro antes de dar o primeiro passo.

Queremos saber se vamos conseguir.

Queremos saber quanto tempo vai levar.

Queremos saber se o esforço será suficiente.

Queremos garantias. Quem não quer? Mas a vida não nos dá nenhuma. Só o próximo passo. E eu aprendi a aceitá-lo.

Hoje, quando alguém olha para mim e vê uma mulher que terminou um triathlon olímpico e subiu ao pódio, logo me manda mensagem sobre disciplina, força, determinação. E tudo isso existe. Mas existe também uma versão muito menos glamourosa dessa história.

A Julia que chorava porque precisava andar cinco minutos. A que achava que aquilo era injusto.

A que dependia dos amigos para tarefas simples.

A que não conseguia segurar uma garrafa de água sem dor. 

A que não conseguia atravessar uma piscina de quinze metros.

A que não conseguia andar dez metros em uma bicicleta nova.

A que precisava esperar.

A que regredia.

A que recomeçava.

A que, muitas vezes, simplesmente fazia alguma coisa porque não conseguia fazer tudo. E é justamente isso que eu gostaria de deixar para você com esse texto.

Não espere estar pronto para começar. Não espere ter força para fazer tudo. Não espere conhecer o caminho inteiro. Se hoje você só consegue caminhar cinco minutos, caminhe cinco. Se não consegue estudar uma hora, estude dez minutos. Se não consegue resolver a vida inteira, resolva o próximo problema. 

Se não consegue correr, caminhe.

Se não consegue caminhar, fique de pé.

Se nem isso for possível hoje, descanse.

Mas não confunda o tamanho do passo com a importância da direção. Porque pequenos passos continuam sendo passos. E, às vezes, o que parece pouco para quem observa de fora é exatamente o máximo que alguém consegue fazer naquele momento.

Não dá para fazer tudo. Mas sempre dá para fazer alguma coisa.

Assim que os sonhos acontecem. Não quando finalmente conseguimos correr em direção a eles. Mas quando aprendemos a caminhar. Um passo. Depois outro. Depois outro.

Até perceber, algum dia, que aquilo que parecia impossível estava apenas esperando que a gente apenas começasse.

NOTAS

¹ Bicho-papão e Riddikulus: em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, o professor Remo Lupin ensina os alunos a enfrentar bichos-papões, criaturas que assumem a forma daquilo que cada pessoa mais teme. O feitiço Riddikulus transforma a manifestação do medo em algo cômico, retirando dela parte de seu poder.

² Baropodometria: exame que analisa a distribuição das pressões exercidas pelos pés sobre uma plataforma equipada com sensores, podendo avaliar tanto a posição estática quanto o movimento. Na corrida, esse tipo de avaliação pode fornecer informações sobre a distribuição de carga e aspectos da mecânica dos pés e dos membros inferiores, auxiliando profissionais na análise individual do corredor e na tomada de decisões sobre treinamento, calçados ou outras intervenções quando indicadas.

³ Capixaba de Ferro: competição de triathlon realizada no Espírito Santo que reúne diferentes distâncias. Na categoria Standard, modalidade disputada por mim, os atletas percorrem 1,5 km de natação, 40 km de ciclismo e 10 km de corrida, em sequência. São três modalidades diferentes, realizadas de forma contínua, exigindo não apenas preparo físico, mas também estratégia e capacidade de administrar o esforço ao longo de toda a prova.

Pensamentos Avulsos

O peso de se tornar

mulher conduzindo palestra em evento com power point

Por que às vezes o sucesso

assusta mais do que o fracasso?

O fracasso, por mais doloroso que seja, nos permite continuar sendo quem já somos. O sucesso não. Ele exige transformação.

“Um dia eu vou mudar minha vida.”

Para dizer essa frase o fato é que o “eu” de agora precisa desaparecer para dar lugar àquela pessoa nova que chegou, que ousou. Aquela que mudou.

E toda morte simbólica produz luto. Mesmo quando é necessária.

Carl Jung escreveu que ninguém se ilumina imaginando figuras de luz, mas tornando consciente a própria escuridão.

Porque crescer não é apenas sobre adicionar coisas novas.

É também abandonar versões antigas de nós mesmos.

mulher contemplando árvore nativa brasileira em floresta

★★★★★

@juliasporto

Algumas delas muito confortáveis, familiares e acima de tudo, seguras.

É… existe uma estranha proteção no fracasso, mesmo que eu não queira admitir.

Ele nos permite continuar explicando para o mundo — e para nós mesmos — aquilo que poderíamos ter sido.

O sucesso remove essa proteção.

Depois dele, já não existe mais a hipótese. Existe a responsabilidade.

Acho que é por isso que durante anos permaneci na ante-sala dos meus próprios sonhos. O primeiro e mais ousado deles, para a Julia da época, foi amar outra mulher. Não porque me faltasse essa capacidade mas porque me sobrava consciência de que atravessar essa porta mudaria tudo.

Fracassar e vencer são acontecimentos. Transformar-se é uma condição. E essa condição assusta. Assusta porque exige coragem para abandonar a pessoa que fomos. Mas também porque exige humildade para acolher a pessoa que estamos nos tornando e que não sabe como chegar lá, qual caminho percorrer.

A pergunta para mim está longe de ser: “E se eu fracassar?”

A pergunta que raramente faço e que me assusta de verdade é: “E se eu conseguir?”

Porque, às vezes, o que nos paralisa não é o medo de cair. É o medo de descobrir que somos capazes de voar.

Não dê coragem aos seus medos.

Durante as últimas semanas eu venho tendo esse medo do sucesso.

Muito medo. Não medo da vida, das coisas que acontecem, dos noticiários. Mas da história que minha cabeça insiste em contar sobre ela.

Curioso escrever isso depois de tudo o que vivi nos últimos meses. Melhor, nos últimos anos.

Enquanto escrevo ainda sinto medo.

Medo de chegar até a largada e descobrir que eu simplesmente não sou capaz.

O curioso é que, consciente dos fatos, percebo que quase nada disso é provável de acontecer. Esse medo é apenas a minha cabeça tentando preencher com certezas um futuro que ainda não existe. Você acredita que comecei até a sonhar que desistia da prova? Sonhei que me machucava. Que alguma coisa dava errado. Acordada, os pensamentos continuam a vir e me inundar.

“Talvez você não consiga.”

“Talvez tenha começado tarde demais.”

“Talvez seu corpo ainda não esteja pronto.”

Pedalar 40km

Dá medo.

Fazer novos amigos

Da medo.

Explorar uma trilha

Dá medo.

O medo tem uma característica curiosa. Ele fala sempre no futuro. Nunca no presente.

Foi então que encontrei, por acaso, essa frase no Instagram: “Não darei coragem aos meus medos.”

Li. Uma, duas, três vezes. Continuei olhando fixamente a tela. A frase continuou comigo por todo o dia. Mais tarde, percebi que eu já venho fazendo exatamente isso. Ou melhor, venho tentando fazer o contrário!

Em vez de dar coragem aos meus medos, há alguns anos me convido e me forço a  investigá-los.

Eu tinha medo da nova praia onde acontecerá o triathlon. Então convidei um amigo para nadarmos nela antes da prova e conhecemos o percurso, as pedras, a correnteza, a temperatura da água. Dai o desconhecido começou a perder espaço. Porque parei de tentar convencer a mim mesma de que daria tudo certo e passei a observar a vida e permitir que ela me mostrasse como realmente era. 

Eu tinha medo de a bicicleta apresentar algum problema. Levei-a a um mecânico especializado. Fizemos uma revisão completa. Depois eu fiz o bikefit¹. Troca do que precisava ser trocado. Outro medo que ficou menor.

Eu tinha medo de o tênis não suportar os dez quilômetros. Passei horas pesquisando. Conversei com pessoas mais experientes. Escolhi um modelo adequado para a diminuição do impacto nas articulações. Mais um medo perdeu força.

Eu tinha medo de mim. De não conseguir terminar. Então fiz aquilo que sempre me ajuda a organizar a cabeça: Conversei com amigos, escrevi. É escrevendo que me recordo o que, a essa altura do campeonato, já deveria saber. O triathlon nunca foi a prova. Nem ter me mudado sozinha para o Espírito Santo. Nem ter superado a depressão. O autopreconceito. A prova sempre foi tudo aquilo que aconteceu e vem acontecendo. A prova é a coragem de continuar vivendo.

A cirurgia, a fisioterapia, os primeiros passos, a primeira pedalada, o primeiro mergulho, a primeira corrida sem dor.

Em suma, a vida em movimento.

Sócrates tem uma afirmação que fala sobre isso e num primeiro momento parece simples, mas mudou completamente minha relação com o medo. Ele diz que temer aquilo que não conhecemos é uma forma de acreditar que sabemos mais do que realmente sabemos.

Então percebi que meus medos falam como se conhecessem o futuro.

“Você vai fracassar.”

“Vai dar errado.”

“Você não consegue.”

Mas eles não sabem. Estão apenas supondo. 

Porque o medo traz hipóteses. Nós é que lhes damos status de verdade.

A tonta aqui começou a perceber que toda vez que eu investigava um medo ele diminuía. Em contrapartida, toda vez que permanecia apenas imaginando, ele crescia. Não sei os seus, mas esses meus medos adoram a distância. É na distância que eles parecem invencíveis. Quando nos aproximamos deles, quase sempre descobrimos que eram menores do que imaginávamos.

Me lembro do primeiro dia que resolvi que meu blog teria o nome “felicidade estoica”. É que os estoicos ensinam as coisas que dependem de nós e outras, que não.

Eu nunca poderia controlar o clima da prova. Nem o comportamento do meu corpo no dia. Mas posso conhecer melhor a praia. Revisar a bicicleta. Pedir ajuda. Estudar os videos de quem já fez. Posso treinar. Posso monitorar meus tempos. Posso continuar caminhando.

Hoje o medo é um triathlon.

Ontem foi pedir demissão.

Amanhã provavelmente o medo será começar uma nova faculdade.

Ou encerrar um relacionamento.

Pedir desculpas.

O medo, no futuro, pode ser o simples fato de ter que recomeçar. De novo e de novo.

Independentemente de qual seja o medo, a pergunta que te ajudará quase sempre será a mesma: Você está investigando esse medo ou apenas acreditando na história que ele conta?

Nossa, quantos anos e quanto tempo dei coragem aos meus próprios medos.

Alimentei cenários que nunca aconteceram. Sofri antecipadamente por futuros que jamais existiram. Transformei hipóteses em certezas.

Repito novamente o mantra: Não darei coragem aos meus medos.

Não porque eles desaparecerão.

Eles continuam aqui e tenho certeza que outros novos virão. É que eles continuarão aparecendo sempre que a vida me convidar a crescer.

E ela, em sua sabedoria, me ensinará que coragem não é expulsar o medo. É recusar entregar a ele o direito de decidir os próximos passos. É continuar fazendo perguntas. É procurar respostas. É admitir humildemente onde termina aquilo que sei e onde começa aquilo que ainda preciso aprender.

Aí que mora a verdadeira coragem. Na disposição de caminhar sem transformar nossas incertezas em destino. No fim das contas, acho que era isso que Sócrates tentava nos ensinar. A sabedoria não elimina o desconhecido. Ela apenas nos impede de tratarmos nossa ignorância como verdade.

Hoje vejo que posso repetir essa frase com muito mais convicção do que quando a li pela primeira vez.

Não darei coragem aos meus medos.

Porque toda vez que caminho em direção a eles procurando compreender o que realmente existe ali, eles deixam de parecerem monstros. E voltam a ser apenas aquilo que sempre foram.

Portas pelas quais a vida me convida a atravessar para crescer.

NOTAS

¹ processo de ajuste ergonômico da bicicleta às características físicas e biomecânicas do ciclista. Envolve regulagens como altura e recuo do selim, posição do guidão e das sapatilhas, buscando aumentar o conforto, a eficiência da pedalada e reduzir o risco de dores e lesões. Mais do que melhorar desempenho, busca harmonizar postura, conforto e eficiência, reduzindo o desgaste físico e o risco de lesões ao longo da pedalada.

Pensamentos Avulsos

Vencer a si mesmo

A única vitória que torna todas as outras possíveis.

Esta semana desabei de cansaço e até chorei porque pela primeira vez tive a sensação de que talvez não consiga terminar uma coisa importante para mim, a prova de triathlon.

Engraçado escrever isso depois de tudo o que aconteceu nos últimos 10 meses (enquanto escrevo esse texto).

Não chorei quando descobri que precisaria operar a coluna. Não chorei quando ouvi que talvez demorasse meses para recuperar os movimentos. Nem quando passei dias andando apenas alguns minutos porque o corpo simplesmente não suportava mais. Mas chorei agora. Não durante a cirurgia. Não durante a recuperação. Chorei duas semanas antes do triathlon. 

Semana passada, uma gripe forte interrompeu praticamente toda a reta final da preparação. Enquanto faço as contas do calendário penso em vários fatores ruins. Mais ainda, que eu vou ter que viajar quatro dias a trabalho para Santa Catarina, enfrentar o frio, mudar completamente minha rotina e voltar dois dias antes da prova. E isso tudo ainda cobrindo as férias do meu chefe e sendo responsável por toda a equipe…

Minha cabeça negocia comigo e me pego observando pensamentos como:

“Talvez você não consiga.”

“Talvez não esteja pronta.”

“Talvez tenha sido esforço demais para nada.”

“Seu trabalho é mais importante, como você vai fazer a prova e viajar?”

“O que vão pensar se você desistir? Se parar no meio?”

Enquanto esses pensamentos martelam a minha cabeça, resolvi fazer outra coisa, esvaziar minha mente com algo que geralmente dá certo: lavar a louça. Às vezes, as atividades mais simples que organizam as ideias mais difíceis. Ali, enxaguando os pratos, lembrei de uma frase que eu mesma escrevi meses atrás, quando comecei, em uma planilha onde acompanho meus objetivos.

A frase é:

“Terminar o triathlon olímpico. Vencer a mim mesma antes de vencer o mundo“

Parei alguns segundos. Respirei. Meus olhos encheram d’água novamente e ali eu tive uma nova descoberta. Que eu passei meses acreditando que essa frase era sobre a superação física e naquela tarde descobri que não era.

Quando decidi fazer um triathlon, inicialmente meu objetivo era completar uma prova para comemorar minha saúde. Hoje vejo que completar a prova significa outra coisa completamente diferente. E essa prova, eu já completei. 

Não quando comecei a correr.

Não quando aprendi a nadar.

Não quando subi na bicicleta.

Mas no dia em que voltei a acreditar que ainda existia uma vida depois da dor. 

Completei porque, poucos meses antes, existia a Julia que não conseguia carregar uma garrafa de água de 500ml sem sentir dor. Cinco minutos caminhando já eram suficientes para o meu corpo pedir descanso. Respirar doía. Dormir exigia encontrar uma posição que não machucasse. Naquela época, terminar um triathlon seria uma ideia quase ofensiva.

Lembro exatamente do instante em que a ideia nasceu. Caminhava na esteira depois de ser liberada para voltar a pedalar. Pela primeira vez em meses, eu não sentia dor. Sorri e pensei: “Vou fazer um triathlon.”

Hoje percebo que aquele momento nunca foi sobre condicionamento físico. Era, de novo, sobre recuperar a confiança de que ainda existia uma vida depois da dor. 

Pensamos que vencer a nós mesmos significa realizar grandes feitos. Mas começo a desconfiar de que acontece exatamente o contrário.

Vencer a si mesmo raramente é um acontecimento extraordinário.

É uma coleção de decisões pequenas. É alguém absolutamente comum fazendo, todos os dias, pequenas escolhas extraordinariamente consistentes.

Levantar quando ninguém está olhando.

Ir à fisioterapia mesmo sem vontade.

Dormir cedo.

Respeitar o repouso.

Pedir ajuda.

Recomeçar.

Continuar.

Permitir que alguém carregue o peso por você.

Além disso, a realidade cruel me bate quando lembro que enquanto estou aqui, preocupada com uma prova, minha avó ficou quatro dias internada na UTI e depois um grande susto para a família, receberá alta. Que minha tia, uma das pessoas que mais admirei (e admiro) durante toda a minha vida, também enfrenta problemas sérios de saúde. Conversando por vídeo, ouvi dela algo que me emocionou profundamente. Ela disse que acompanhar minha preparação para o triathlon a motivava a cuidar da própria saúde.

Será que foi mesmo o triathlon que a inspirou/motivou? Acredito que não. 

Eu não conquistei nenhuma medalha. Tampouco cruzei a linha de chegada. Mas essa mulher, uma segunda mãe para mim, me diz cheia de afeto que o que ela enxerga é alguém que continuou tentando vencer suas pequenas batalhas diárias.

O que deveria nos inspirar no outro não se trata de resultados ou fotos instagramáveis. É aquilo que o outro precisou se tornar para alcançá-los. 

Vivemos querendo mudar o mundo. Eu também quero.

Quero um mundo onde nenhuma mulher tenha medo de voltar sozinha para casa.

Quero um mundo sem fome. Sem violência. Sem corrupção. Sem crianças abandonadas.

Quero uma sociedade mais justa. Mais gentil. Mais consciente.

Mas ultimamente tenho pensado que existe um perigo escondido nisso. É muito fácil desejar transformar a humanidade enquanto ignoramos aquilo que acontece dentro de nós.

Queremos acabar com a violência enquanto alimentamos pequenas agressividades.

Queremos saúde, mas mexemos no celular na cama, noite adentro.

Queremos honestidade enquanto justificamos pequenas desonestidades. 

Queremos empatia mas somos incapazes de dialogar com quem pensa diferente.

Queremos uma sociedade menos egoísta. Mas nem sempre percebemos o egoísmo que carregamos conosco. Eu, inclusive. Toda grande transformação coletiva começa exatamente onde quase ninguém gosta de olhar. Na escala de uma única consciência.

Os estoicos diziam que algumas coisas dependem de nós. Outras, não.

Não depende de mim quando vou adoecer. Nem a morte. Nem a injustiça. Nem a economia. Nem o comportamento das outras pessoas. Mas depende de mim decidir quem continuo sendo diante de tudo isso. Essa é a batalha mais difícil da existência.

Porque vencer o mundo pode acontecer por acaso. Mas vencer a si mesmo…

Essa é uma tarefa suficientemente difícil para ocupar uma vida inteira.

Existe uma frase de Sêneca que acompanha meus dias há algum tempo. Ela fica escrita no alto da planilha onde organizo meus sonhos.

“Tenha a satisfação de ver seus vícios morrerem antes de você.”

Quanto mais penso nela, mais eu vou tomando consciência das coisas que preciso mudar.

Preguiça. Vaidade. Orgulho. Covardia. Ressentimento.

Daquela parte de nós, de mim, que insiste em permanecer pequena quando a vida nos convida a crescer. Essa é a verdadeira vitória. Não aquela que sobe ao pódio, nem aquela que faz o oba oba e recebe a medalha no pescoço. É a que acontece silenciosamente, dentro de quem aprende o que deve morrer um pouco em si para a humanidade renascer melhor.

Não sei se terminarei o triathlon.

Talvez caminhe.

Talvez pare.

Talvez meu corpo cobre um preço que minha vontade não consiga pagar.

Mas existe uma coisa que ninguém pode tirar de mim.

A pessoa que precisei me tornar para chegar até a linha de largada.

Porque medalhas oxidam. Recordes são quebrados. Títulos mudam de dono. O corpo envelhece. Mas nenhuma derrota é capaz de desfazer a vitória de quem lapidou o próprio caráter. Essa que transforma quem a conquista. Por isso sigo acreditando que um mundo melhor nunca começará nas grandes revoluções.

Talvez seja por isso que Sêneca dizia para termos a satisfação de ver nossos vícios morrerem antes de nós. Porque, no fim, vencer a si mesmo é sobre a construção de alguém capaz de permanecer íntegro, mesmo quando não há pódio algum esperando no final do caminho.

Na escolha diária de morrer um pouco para que algo melhor possa nascer dentro de nós.

Porque, no fim das contas, nenhuma vitória muda tanto o mundo quanto aquela que muda primeiro quem a conquistou.