Pensamentos Avulsos

A decisão que inaugura destinos

Talvez por isso o “vir a ser” seja tão fundamental que, de certa forma, está refletido até nas estruturas que criamos para proteger a vida, as Leis. Há em nós — e nas sociedades que organizamos — um reconhecimento implícito de que aquilo que ainda não é plenamente também merece existir.

Mas há um ponto crítico aqui: nada disso acontece sem decisão.

Ser amigo de si mesmo

Sêneca escreveu a Lucílio algo simples e radical: “Sê tu mesmo o amigo que gostarias de ter.”

Essa frase, quando levada a sério, muda tudo.

Porque ser amigo de si mesmo não é se poupar — é se conduzir.
Não é ceder — é orientar.
Não é buscar conforto imediato — é sustentar aquilo que, no longo prazo, nos torna melhores do que éramos.

Foi isso que comecei a compreender, ainda aos 18 anos, quando decidi trilhar um caminho filosófico. Mas hoje, uma década depois, enquanto escrevo este texto, afirmo: compreender não é o mesmo que viver.

Durante anos, essa decisão existiu mais como intenção do que como prática. Até que, algo mudou. Eu me coloquei propositalmente em um contexto que exigia de mim aquilo que eu dizia valorizar: morar sozinha, em outro estado, em um trabalho novo, sem família, sem amigos, longe das referências que antes sustentavam minha identidade.

Foi ali que a filosofia deixou de ser teoria e passou a ser ferramenta sustentadora da decisão: a busca pelo propósito.

Quando você entende que decidir custa

Essa semana, em São Paulo, a vida me deu um desses pequenos testes que parecem banais — mas não são.

Fiquei hospedada em um hotel funcional: confortável, bem localizado, mas sem academia, sem piscina, sem espaço adequado para estudo. Um ambiente feito para quem acorda, toma café (se enche de comida com tudo que sabemos que tem num café da manhã de hotel), trabalha, dorme e repete.

Para a maioria das pessoas, isso não seria um problema. Para mim, era. Porque eu tomei uma decisão junto com o meu médico. Eu seguiria o pós operatório à risca.

Nadar não é opcional — é parte da minha recuperação. Treinar não é estética — é disciplina da recuperação. Estudar não é obrigação — é direção e treino da mente. É a razão, direcionada à virtude, que sustenta tudo. Então como deixar de treiná-la também através do estudo?

Durante dias, a agenda não ajudou. Reuniões, deslocamentos, vôo errado, conexão nos confins (literalmente, risos), cansaço. Sempre havia um motivo plausível para adiar a escolha. E todos os dias eu estava lá, de novo. No sábado, eu decidi mais uma vez agir de acordo com meu vir a ser. Só que dessa vez, foi a vida quem me surpreendeu. 

Ela não sabe, mas me explicou — em um único dia — a importância de nunca esperar condições ideais.

De não negociar comigo mesma.

De não me diminuir diante do contexto, do desafio ou das pessoas.

As costas doíam. Ainda assim, encontrei uma piscina a 6 km do hotel e fui. São Paulo pela manhã é gelado. A água, parada como um lago de gelo. O treino foi difícil. Mais ainda, respirar do lado direito — algo que vem me desafiando todos os treinos por eu ser canhota, confesso que já estava até desistindo. Mas, sob a orientação do novo professor, começou a destravar. Coordenação, respiração, confiança em cada braçada.

Saí da água melhor do que entrei. Mas o mais interessante ainda estava por vir.

O encontro que nasce de uma decisão

No vestiário, entre o banho e aquele show que é uma mulher se arrumar fora de casa (shampoo, pente, roupas, toalha, cremes etc) e uma conversa casual ao fundo, encontrei duas mulheres. Começamos a falar — primeiro de forma leve, depois com uma profundidade e um rumo inesperado.

Uma delas compartilhou comigo a perda da mãe para o câncer. A dor foi o que a levou à decisão do autocuidado. Ao movimento. À decisão de viver de outra forma. Viver, acima de tudo, honrando a memória de sua falecida mãe.

Demos adeus a nossa outra colega e decidimos fazer um segundo treino juntas, na academia do shopping, No caminho até lá, seguimos conversando. Histórias diferentes, mas um ponto em comum: a decisão de não se render ao que nos aconteceu.

Treinamos juntas. E, ao nos despedirmos, fizemos uma promessa de um lado improvável e, ao mesmo tempo, profundamente séria: em 2031, cruzaremos juntas a linha de chegada da prova de Ironman no Rio de Janeiro.

Pode parecer exagero — duas desconhecidas fazendo um pacto de longo prazo. Mas não é sobre o evento. É sobre o que o tornou possível. Tudo aquilo nasceu de uma única decisão: a de ir treinar naquele dia. Um sábado, no primeiro horário, numa folga, e no meu caso, de uma viagem.

Decisões mudam destinos (mesmo quando ninguém entende)

A decisão de participar de um triathlon mexeu em inúmeros aspectos da minha vida aos quais eu era profundamente apegada: noites longas, álcool, rotina desregulada, encontros que começavam tarde e terminavam mais tarde ainda. Ou cedo, mais especificamente chegando da balada e tomando café na padaria.

Troquei tudo isso por algo simples — e, para muitos, estranho: dormir às 21h. Acordar às 05:00h para treinar (mesmo nos finais de semana), parar de beber, estudar filosofia nas folgas, comprar uma nova bicicleta em vez de um carro.

A reação não demorou:

“Ah, mas só hoje.”
“Você compensa depois.”
“Estamos em São Paulo…”
“Isso é frescura.”

Mas a verdade é que toda decisão real cobra um preço social.

Porque, quando você muda, você desorganiza o ambiente ao seu redor. E ele se reajusta. Porque você ajustou a si mesmo.

Alguns ficam.
Alguns crescem junto.
Alguns vão embora.

E tudo bem.

As amizades que permanecem são aquelas que também decidiram — decidiram crescer, decidiram apoiar, decidiram caminhar. Decidiram crescer na mesma direção.

A amizade como força que movimenta

Existe algo curioso na amizade verdadeira.

Ela não te empurra — mas te impulsiona.
Não te cobra — mas te eleva.

É como o movimento de uma hélice eólica: no começo, há resistência, gravidade. O ar parece insuficiente. As pás são pesadas. Você nem acredita que é possível mexê-las.

Mas, quando elas começam a girar, algo muda.

A própria rotação passa a gerar mais movimento. O impulso inicial gera outros e acumula mais força. O que antes era esforço vira geração de energia.

Assim são as decisões sustentadas — e as relações que nascem delas.

Elas criam um campo de força onde o crescimento deixa de ser exceção e passa a ser direção.

O ponto central

No fim, tudo volta ao mesmo lugar:

Você já é, em potência, aquilo que pode se tornar.

Mas essa potência não se realiza sozinha.

Ela exige decisão.

Decidir dormir cedo.
Decidir treinar.
Decidir estudar.
Decidir se afastar.
Decidir se aproximar.

Decidir dialogar.
Decidir, todos os dias, ser o tipo de pessoa que você se orgulha.

Porque o destino não é algo que se encontra.

É algo que se constrói — uma decisão de cada vez. 

E não decidir… também é uma decisão.

Pensamentos Avulsos

Onde a Conveniência Silencia a essência

Onde a Conveniência Silencia a essência

mulher na cachoeira

A aurora de sábado na praia deveria ser uma ode à  vida. O plano era comemorar o aniversário de uma grande amiga com as pequenas alegrias da vida: o aroma do café preto, o frescor das frutas, o calor dos afetos. Tudo junto e misturado sob o teto infinito do céu e o ritmo ancestral das marés. Era um convite para ser, simplesmente, parte da paisagem em um piquenique na praia.

Até então, eu estava responsável por levar o cafezinho e algumas frutas. Na quinta-feira anterior, veio um pequeno detalhe. “Leva os descartáveis também?”, disseram. E eu, no automatismo das inúmeras urgências (trabalho, estudo, treinos, dieta, casa), comprei. Na hora, não foi nada demais. Acho que você, assim como eu, já organizou uma festa com descartáveis não uma, mas várias vezes. O choque veio depois. Lá estava eu, estudando um módulo da pós sobre o humanismo e o professor um slide sobre o especismo:

Depois da aula (4 horas sobre isso), várias atitudes minhas alugaram um triplex na minha cabeça. Percebi que carregamos, muitas vezes sem notar, a arrogância de quem se crê como a medida de todas as coisas. Olhamos para o oceano e para a terra não como o ventre que nos sustenta, mas como um grande supermercado, posto ali para servir ao nosso conforto imediato com recursos infinitos. É o antropocentrismo¹ em sua forma mais estéril: o humano que, para poupar-se de ter trabalho, condena o mundo a lidar com seus restos por séculos. Isso quando ele consegue.

Na filosofia nós estudamos a deliberação como o ato de ponderar ANTES de agir. E ao agir, agir com virtude: ser correto, justo, corajoso, temperante. Onde estava a minha razão? Adormecida. Essa ferramenta preciosa que nos permite filtrar o que é apenas a “norma social” do que é verdadeiramente ético.

Eu não contei pra ninguém o meu desconforto, mas prometi a mim mesma que faria diferente em próximas ocasiões. Ao segurar aqueles pratinhos, eu não era um ser em comunhão com a natureza; eu era o homem especista, exercendo poder sobre o planeta (ainda que inconscientemente). Ao agirmos assim, nos vemos como o centro, e não como o grão. Esquecemos que a verdadeira liberdade não está em fazer o que é mais cômodo, mas em agir conforme a natureza universal, aquela que exige que cada passo nosso seja coerente com a harmonia do todo. Que essa semana, possamos agir mais assim. Porque entre a intenção e o ato, existe a escolha.


Não há nada que nos envolva em maiores males do que o facto de nos ajustarmos ao rumor comum, considerando como melhor o que é aceite por consenso.

SÊNECA

O banquete na areia, que deveria ser um ritual de gratidão me lembrou como é fácil se perder no que é “normal” quando esquecemos de nossa verdadeira natureza.

É possível abandonar a ilusão de que somos os senhores da paisagem com as nossas atitudes diárias? 

Caminho pela vida na esperança de que meu rastro na areia mostre que sou apenas o desenho dos meus pés descalços, e não o resíduo da minha conveniência. Afinal, a felicidade que buscamos na filosofia não é um estado de conforto, mas um estado de retidão. E a retidão, quase sempre, exige que troquemos o fácil pelo esforço demorado, consciente e contínuo.

Sejamos o grão de areia — pequeno, consciente de sua finitude, mas indispensável para a existência.

¹ Concepção filosófica e cultural que posiciona o ser humano como o centro do universo e a medida de todas as coisas. Nesta visão, a natureza e as demais espécies são valorizadas apenas na medida em que servem aos interesses, necessidades e ao bem-estar da humanidade, justificando uma relação de dominação e exploração dos recursos naturais.

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Pensamentos Avulsos

O “pace” do coração

Você já parou para observar como o Rei Leão estava certo? A vida é, de fato, um “ciclo sem fim que nos guiará”. Ela não caminha em linha reta; ela gira. Em um instante, o foco é o vigor dos músculos e a clareza da saúde; ou aquela tatuagem que todo mundo está fazendo. No giro seguinte, o choro de um filho recém-nascido preenche a casa, ou o silêncio de uma mudança de endereço ecoa pelas salas vazias. Relacionamentos florescem e fenecem como as estações, e a notícia de uma doença em alguém que amamos interrompe o ritmo da música. É… a vida é cíclica, agridoce e inevitável.

O problema, no entanto, não é para onde o ciclo nos leva, mas o que deixamos de enxergar enquanto rodamos com ele. Como Epicteto já nos alertava há 2 mil anos atrás: “Não são as coisas que atormentam os homens, mas as opiniões que eles têm sobre as coisas.”

À medida que pequenos, médios e grandes eventos nos atropelam, dia após dia, nós nos tornamos arquitetos de indicadores. Criamos planilhas para a existência. Monitoramos obsessivamente a velocidade média da corrida na orla, o cronômetro que marca o engarrafamento, os litros de água que descem pela garganta e as fatias de um salário que, em teoria, compra pedaços de felicidade. No digital, a obsessão ganha outros contornos de urgência: contamos os minutos de vácuo no WhatsApp e dissecamos a métrica cruel entre quem visualizou nossos stories e quem, de fato, deixou um “coraçãozinho” pulsando na tela fria.

Nos cercamos de números e KPIs para tentar provar a nós mesmos que estamos indo bem. Mas e o pace do seu coração, você mede?

Não falo da frequência cardíaca que o seu relógio de última geração marca enquanto você corre, anda, nada. Falo do ritmo da sua alma. Daquela batida surda que acontece no centro do peito quando o mundo lá fora grita. E se a oxigenação que o smartwatch marca fosse a deliberação sobre o nosso interior? A nossa essência, ao contrário do que o status quo quer que você acredite, não é um passageiro mudo em um carro em alta velocidade. Carl Jung, com a precisão de quem conhece as sombras, já costumava dizer:

Eu senti o peso dessa máquina esta semana. Faltando sete dias para o fechamento do ano fiscal na empresa onde trabalho (multinacional que olha o ano de abril março x Brasil que olha janeiro a dezembro), eu me vi no centro de um paradoxo barulhento. De um lado, a consciência afiada das entregas, o foco cirúrgico no cumprimento das metas de março. Do outro, um cansaço que não é físico, mas de perspectiva. E o mundo? O mundo não para para que possamos respirar. Ele despeja sobre nós festivais, o jogo do Flamengo, o riso dos amigos em uma balada e um noticiário que, por vezes, parece uma carta de despedida da humanidade: guerra, estupro, corrupção, feminicídio.

Nesse turbilhão de estímulos, com que frequência você para (para mesmo) e ajusta a rota? Em que momento você escuta quando o seu coração pede um tempo de silêncio? Veja, não um desvio no caminho, mas caminho algum. Isto é, introspecção, comedimento, solitude.

Esta semana, o meu convite é para que você desacelere o olhar. Sinta o estado do seu interior à medida que pessoas e situações convergem e divergem de você. Tenha a coragem quase revolucionária de parar diante de um convite, de uma tarefa ou de uma notícia, e deliberar em silêncio: Isso está adequado à minha alma? Ao meu “eu” superior?

Os estóicos chamavam essa bússola interna de Daimon — uma centelha divina, um guia silencioso que usa a razão para filtrar o que é nobre e o que é apenas ruído. Agir com o Daimon é dar o polimento final na própria vida, através do uso correto das aparências¹, escolhendo a temperança quando o mundo exige euforia, e a justiça quando o mundo oferece conveniência.

Não permita que sua alma corra no automático, sendo levada por algoritmos ou calendários fiscais. Monitore o ritmo que nasce de dentro. Garanta que cada passo no asfalto esteja em harmonia com o passo do seu Ser. Como Sócrates disse a Alcibíades:

– Tente ser belo.

Boa semana e, acima de tudo, bom monitoramento interno.

¹ Aparências (Phantasia): Na psicologia estoica de Epicteto, são as impressões que o mundo externo causa em nossa mente. O exercício da virtude consiste em não aceitá-las cegamente, mas em examiná-las através da razão para decidir se devemos ou não dar importância a elas.

REFERÊNCIAS

EPICTETO. Discursos. Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien. São Cristóvão: Editora UFS, 2014.

JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991. (Obras completas de C.G. Jung, v. 6).

PLATÃO. O Banquete. Tradução de José Cavalcante de Souza. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991.

Pensamentos Avulsos

Motivos para continuar

Motivos para Continuar

“Age como alguém que influencia o destino de muitos.”

— Sêneca, Cartas, 94.

Do meu quarto, encaro o calentário do próximo ano enviado pelo marketing do médico sem fronteiras.

Disposto sobre a mesa com o slogan:

Quais são os seus?

Me lembro que houve um tempo em que para mim, não havia nenhum. É nítido em minha memória. As luzes apagadas, a antiga casa dos meus pais. Todos dormindo, inclusive minha irmã, ao meu lado, na cama que costumávamos compartilhar. Me recordo de encarar o teto de madeira e pensar:

— Qual é o motivo de acordar amanhã? — A vida seria tão mais fácil, simples, se eu pudesse não acordar.

Nos dias de hoje é o contrário. Quer dizer, um misto disso. Grande parte de mim, antes de descobrir uma lesão na coluna e precisar operar às pressas, achava que sabia de todos os motivos para continuar.

Continuar me exercitando.

Continuar seguindo a dieta.

Continuar indo para o trabalho.

Continuar limpando a casa.

Continuar, continuar, continuar.

Mas quando a vida te força a parar, a renunciar a tudo e a todos, ao que você ama, o que sobra?

E se continuar agora significasse permanecer quieto, parado e inerte, qual nova conotação ganha o sentido?

Encaro minha mala no canto do quarto da casa da minha avó e tia, onde estou temporariamente sob cuidados pós operatórios e de repente desejo fugir.

— Para onde? — Escuto os meus próprios pensamentos…

— Para o meu verdadeiro Eu — Respondo.

futuro quem eu sou
felicidadeestoica texto motivacional

AFINAL, QUEM É NOSSO VERDADEIRO EU?

Aquele que mesmo incapacitado, adoecido, vulnerável, melancólico, apequenado, taciturno, desgastado, cansado, sobrecarregado… emerge das águas que o afogam, dia após dia, limpa o rosto demoradamente com ambas as mãos, retira o excesso de água e sorri! Largo. Os dentes podem estar meio opacos, desalinhados. Contudo, ele ainda assim sorri e…

felicidadeestoica

Julia Porto

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@juliasporto

Ele bate os braços e as pernas preguiçosamente ao meu encontro e me convida a entrar também!

ele pode jurar que a água está uma delícia, que não há perigo e que eu sei como nadar.

Viktor Frankl uma vez disse, em sua obra “Em busca de sentido”, que o ser humano é aquele a que tudo se adapta. Talvez, esse seja o motivo que erroneamente usamos para continuar. O fato de, por sobrevivência ou desespero, continuarmos a qualquer custo. Mas a que preço?

Talvez, só talvez, a prioridade, o farol, a luz que guia, seja encontrar o caminho de volta a si mesmo e nele arrastar consigo toda a humanidade.

“Tudo o que um homem excelente (ou um grande homem) faz, os homens comuns imitam, e o padrão que ele estabelece, todo o mundo o segue”

— Bhagavad-Gita¹. 3.21.

¹ Livro sagrado do hinduísmo, a mais conhecida obra da literatura sânscrita, e uma das mais importantes da literatura universal. A Bhagavad-Gītā (“Canto do Bem-aventurado”) é um diálogo filosófico e espiritual que compõe parte do épico indiano Mahābhārata. Composta por 18 capítulos e cerca de 700 versos, ela apresenta o ensinamento do deus Krishna ao guerreiro Arjuna, que está tomado por dúvida e angústia no campo de batalha de Kurukshetra.

Pensamentos Avulsos

O Relógio e o Humano: A sabedoria das pausas.

“O homem que move montanhas começa carregando pequenas pedras.”

— Confúcio.

A metáfora do relógio nos direciona para a necessidade de atenção aos detalhes, como o relojoeiro ajustando parafusos quase invisíveis. Assim também são nossos próprios ajustes internos — pequenos, mas decisivos.

A NATUREZA COMO MECANISMO DE REGULAÇÃO DO NOSSO RELÓGIO INTERNO.

Para ver o post da foto na íntegra acesse meu instagram.

@juliasporto

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Julia Porto

O relógio

mecânico, tal como o conhecemos hoje com seus ponteiros marcando as horas, nasceu na Europa medieval, entre os séculos XIII e XIV. Este relógio analógico é feito de sistemas delicados de engrenagens, molas, rubis sintéticos, balanços e parafusos minúsculos. O ser humano também é composto por mecanismos internos sofisticados. Há em nós, uma engenharia sutil que rege o sono, a criatividade, a paciência, a força de decisão e até a capacidade de amar. O avanço desses sistemas levou ao nascimento de uma nova profissão altamente especializada: o relojoeiro. Isto é, aquele que identifica quando esses sistemas estão em descompasso. Esse profissional  nos mostra que essa incongruência faz tempo da vida perder seu ritmo — ficamos adiantados, ansiosos, ou atrasados, paralisados.

Na relojoaria, é comum que um relógio, mesmo sem estar visivelmente quebrado, precise de pausas para revisão e manutenção. O relojoeiro desmonta cada parte, limpa o acúmulo invisível de impurezas, lubrifica as junções, ajusta o balanço. Só então o tempo volta a fluir com precisão. Com o ser humano, é a mesma coisa — mas muitas vezes, não sabemos ou não queremos parar. Seguimos rodando no automático, mesmo rangendo por dentro.
A sociedade contemporânea, no entanto, oferece pausas que mais aceleram do que restauram: shopping centers barulhentos, compras impulsivas, telas e notificações, uma cultura de consumo disfarçada de lazer. São pausas que não nos desafivelam do ruído — apenas o maquiam. Elas nos distraem do cansaço, mas não o curam.

O descanso

verdadeiro é outro. Ele não brilha em vitrines, não pulsa em LED. Está nas trilhas silenciosas, no barulho da água batendo em pedras, no cheiro de mato depois da chuva, no vento salgado das praias vazias. Está também no sofá de casa, no silêncio de uma manhã sem obrigação, na leitura lenta, no diário escrito à mão. Nestes lugares, não fazemos nada — e ao mesmo tempo, tudo se rearranja. É como se a própria natureza fosse o relojoeiro que nós não conseguimos ser para nós mesmos.


O corpo sabe. A alma escuta. E ali, sem pressa, as molas se soltam, os rubis internos voltam a brilhar, os parafusos se assentam, e o balanço da vida reencontra seu compasso.

Fazer pausas não é um luxo. É manutenção. E não qualquer pausa — mas aquelas que nos reconectam com o que temos de mais essencial: o silêncio, o espaço, a natureza, o tempo sem cobrança. Assim como um relógio precisa parar para continuar marcando bem as horas, nós também precisamos parar para seguir vivendo com precisão, presença e propósito.

Conheça outros autores.

Abaixo, deixo alguns perfis que sigo no Instagram e que me ajudam a estar presente nessa constante manutenção interna do ser.

Lúcia Helena

@profluciahelenagalvao

Lucas Zappia

@lucas.neurofood

Madama

@br000na

Thais Godinho

@thaisgodinho.perfil