Pensamentos Avulsos

Navegar eu quero

será que ainda temos desejo de procurar? 

Felicidade Estoica


Talvez o maior luxo do nosso tempo seja não saber. 

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@ j u l i a s p o r t o

Outro dia, ouvi meu podcast preferido: a energia dos arcanos. Para quem não sabe, nele a hostess, Rita Araújo, fala sobre a carta do dia a qual, enquanto escrevo este texto é o três de paus. A metáfora para explicar esse arcano menor¹ durante o episódio, foi um sujeito diante do infinito oceano, olhando para o horizonte, como quem ainda não sabe exatamente o que encontrará do outro lado mas ainda assim vai.

Um descobridor. Um navegador. Alguém prestes a partir. A conquistar.

O curioso é que, enquanto ouvia, minha cabeça imediatamente foi parar em uma música que você leitor provavelmente conhece: Descobridor dos setes mares², do Tim Maia.

Pensei: Navegar eu quero.

Existe algo tão profundamente humano nesse desejo.

Durante séculos, nós olhamos para o horizonte e sentimos curiosidade pelo que havia depois dele. Atravessamos os oceanos sem saber exatamente o que encontraríamos. Entramos em florestas que não conhecíamos. Subimos montanhas. Observamos o céu. Mapeamos territórios. Fizemos perguntas para as quais não tínhamos respostas. E, muitas vezes, foi justamente a ausência delas que nos fez partir.

Hoje, em contrapartida, temos um problema curioso.

O mundo ficou muito menor. E as respostas, muito mais próximas. Se quero saber alguma coisa, pergunto a OPENAI³. Se quero aprender alguma coisa, procuro um tutorial. Se quero estudar, encontro uma aula. Se quero uma opinião, encontro milhares. Se quero uma síntese de um livro, alguém já fez. Se quero organizar meus pensamentos, uma inteligência artificial pode me ajudar. Se quero saber o caminho, o GPS me mostra. Se quero saber o que outras pessoas pensam, basta abrir uma rede social. Temos mapas para praticamente tudo e talvez por isso estejamos perdendo o gosto pela navegação.

Não porque deixamos de ser curiosos. Mas porque começamos a acreditar que toda pergunta precisa terminar rapidamente em uma resposta. O grande paradoxo do nosso tempo…

Nunca tivemos tanto acesso à informação. Por outro lado, nunca tivemos tanta dificuldade para simplesmente permanecer diante de uma pergunta. Em habitar de verdade a diferença enorme entre receber informação e buscar conhecimento.

Uma resposta pronta pode informar. Entretanto, a procura transforma. É durante a procura que somos obrigados a duvidar. A comparar. A errar. A voltar. A mudar de ideia. A buscar ajuda, dialogar. A descobrir que aquilo que acreditávamos saber era mera opinião.

Os gregos  e filósofos tinham uma palavra para o conhecimento verdadeiro; fundamentado: a episteme⁴. E tinham outra para aquilo que é opinião, aparência, crença: doxa⁴. Caramba, como temos vivido cercados por tanta doxa.

Ela chega pelo celular. Pelo algoritmo. Pelo vídeo de trinta segundos. Pelo comentário de alguém que fala com absoluta convicção sobre aquilo que pesquisou por cinco minutos. Pelo influenciador que transforma opinião em autoridade. Pelo especialista autoproclamado. Pelo amigo que compartilha uma informação porque “viu em algum lugar”. E existe algo particularmente perigoso na doxa: Ela não precisa ser verdadeira para parecer verdadeira. Basta ser convincente. Basta ser repetida. Basta aparecer muitas vezes. Basta ser dita por alguém que fala bem. E é por isso que a filosofia continua sendo tão necessária na minha vida e espero que você a convide para a sua também.

Ela nos ensina a desconfiar da facilidade com que acreditamos que sabemos. Sócrates⁵ fez disso praticamente uma forma de viver, para si e seus alunos. Não porque acreditasse que nada poderia ser conhecido. Mas porque compreendeu algo muito mais desconfortável: há uma diferença entre aquilo que sabemos e aquilo que apenas acreditamos saber. A verdadeira virtude começa justamente nesse espaço.

Entre a certeza e a dúvida. Entre a doxa e a episteme. 

Nesse sentido, a tecnologia nos interessa (e muito). Não tenho medo dela, tampouco da inteligência artificial. Nem você leitor deveria. Pelo contrário. Eu as utilizo. Todos os dias, para as mais variadas tarefas. E acho extraordinário poder conversar com uma ferramenta capaz de me ajudar a pesquisar, organizar ideias, encontrar referências e enxergar ângulos que talvez eu não tivesse percebido sozinha.

Agora, faça a si mesmo uma pergunta:

Essas ferramentas que você usa, são para navegar melhor ou para deixar de navegar?

Uma coisa é usar um mapa para atravessar um território. Outra é nunca olhar para a paisagem porque o mapa já disse onde estamos.

Uma coisa é utilizar uma inteligência artificial para ampliar nossa capacidade de pensar. Outra é terceirizar o próprio pensamento.

Uma coisa é perguntar. Outra é deixar de ter curiosidade.

E aí reside  a ameça; o risco. Não na existência das respostas. Mas na nossa perda de apetite pelas perguntas genuínas. Dessas que tangibilizam as coisas mais importantes da vida, que não possuem nem possuirão um tutorial.

Como amar alguém. Como perdoar. Como criar um filho para o mundo. Como lidar com a morte. Como descobrir quem somos. Como decidir pelo justo mesmo que haja perda. Como saber quando insistir e quando partir. Como viver uma vida boa. Como definir o que é uma vida boa. Como distinguir aquilo que desejamos daquilo que realmente precisamos.

Para essas coisas, podemos consultar filósofos, cientistas, livros, professores, amigos e até inteligências artificiais. Mas no fim do dia ninguém conseguirá navegar na resposta verdadeira para nós e por nós.

Há uma parte da viagem que permanece inevitavelmente nossa. E nós enquanto navegadores não possuiremos todas as respostas. Instrumentos, mapas, conhecimento acumulado por quem veio antes, claro. Mas ainda é preciso partir. Ainda é preciso olhar para o horizonte. Lidar com o vento. Corrigir a rota.

Viver filosoficamente é um pouco isso. Não saber exatamente onde vamos chegar, mas ter coragem suficiente para sair em busca do que nos tornará maiores do que quando viemos ao mundo. A espécie de vida que nasce quando deixamos de exigir certezas. Uma vida em que o desconhecido é um convite, uma pergunta que pode sim permanecer aberta. Por que não?

Uma dúvida não precisa ser resolvida antes do jantar. Tudo bem dizer: eu não sei. E continuar. Uma das frases mais honestas que um ser humano pode pronunciar. Eu não sei.

Não sei se isso é verdadeiro. Não sei se estou certo. Não sei qual é o melhor caminho. Não sei o que existe depois daquele emprego/relacionamento/golpe etc. Mas quero descobrir.

Quero ler.

Quero perguntar.

Quero conversar.

Quero experimentar.

Quero errar.

Quero mudar de ideia.

Quero conhecer.

Quero navegar.

A vida não é uma viagem cujo objetivo é chegar ao lugar onde todas as respostas estão. É a própria disposição de continuar fazendo perguntas melhores para chegar naquilo que é, em essência, verdadeiro.

Aquilo que é justo. Aquilo que é bom. Aquilo que é belo. Aquilo que merece ser vivido. Por todos…

Diante de um mundo que tenta nos entregar tudo pronto, essa disposição pelo incógnito é uma pequena forma de liberdade.

Então, se me perguntarem o que quero fazer com tudo aquilo que ainda não sei…

Eu acho que já tenho a resposta.

Navegar, eu quero.

NOTAS

¹ Três de Paus — Arcano menor do tarô tradicional, frequentemente associado à expansão, aos horizontes e à disposição para explorar aquilo que ainda não foi conhecido. A imagem de uma figura contemplando o horizonte ajuda a representar o momento anterior à partida: já existe um caminho percorrido, mas o que está além ainda permanece desconhecido.

² Navegar eu quero” — referência à canção Descobridor dos Sete Mares, de Tim Maia, lançada em 1983. A música celebra, em tom quase mítico, a figura do navegante que deseja conhecer o mundo e partir em direção ao desconhecido. Aqui, a expressão é utilizada como metáfora para a disposição humana de explorar aquilo que ainda não sabemos

³ OPENAI — É uma empresa de pesquisa e tecnologia de inteligência artificial dos Estados Unidos, fundada em 2015. Ela é famosa por criar o ChatGPT e o gerador de imagens DALL-E, com o objetivo de desenvolver sistemas de IA seguros que ajudem toda a humanidade.

Episteme e doxa — termos de origem grega fundamentais para a reflexão filosófica sobre o conhecimento. Episteme pode ser compreendida como conhecimento fundamentado, enquanto doxa corresponde à opinião, crença ou percepção não necessariamente sustentada por fundamentos sólidos. A distinção aparece de diferentes formas na filosofia grega, especialmente nas discussões de Platão sobre conhecimento e opinião.

Sócrates — filósofo ateniense do século V a.C., conhecido por transformar o questionamento em método de investigação filosófica. Embora a famosa formulação “só sei que nada sei” não apareça literalmente dessa forma nos textos de Platão, ela sintetiza uma ideia recorrente nos diálogos socráticos: reconhecer a própria ignorância é condição para começar a investigar aquilo que se acredita saber.

Pensamentos Avulsos

Vencer a si mesmo

A única vitória que torna todas as outras possíveis.

Esta semana desabei de cansaço e até chorei porque pela primeira vez tive a sensação de que talvez não consiga terminar uma coisa importante para mim, a prova de triathlon.

Engraçado escrever isso depois de tudo o que aconteceu nos últimos 10 meses (enquanto escrevo esse texto).

Não chorei quando descobri que precisaria operar a coluna. Não chorei quando ouvi que talvez demorasse meses para recuperar os movimentos. Nem quando passei dias andando apenas alguns minutos porque o corpo simplesmente não suportava mais. Mas chorei agora. Não durante a cirurgia. Não durante a recuperação. Chorei duas semanas antes do triathlon. 

Semana passada, uma gripe forte interrompeu praticamente toda a reta final da preparação. Enquanto faço as contas do calendário penso em vários fatores ruins. Mais ainda, que eu vou ter que viajar quatro dias a trabalho para Santa Catarina, enfrentar o frio, mudar completamente minha rotina e voltar dois dias antes da prova. E isso tudo ainda cobrindo as férias do meu chefe e sendo responsável por toda a equipe…

Minha cabeça negocia comigo e me pego observando pensamentos como:

“Talvez você não consiga.”

“Talvez não esteja pronta.”

“Talvez tenha sido esforço demais para nada.”

“Seu trabalho é mais importante, como você vai fazer a prova e viajar?”

“O que vão pensar se você desistir? Se parar no meio?”

Enquanto esses pensamentos martelam a minha cabeça, resolvi fazer outra coisa, esvaziar minha mente com algo que geralmente dá certo: lavar a louça. Às vezes, as atividades mais simples que organizam as ideias mais difíceis. Ali, enxaguando os pratos, lembrei de uma frase que eu mesma escrevi meses atrás, quando comecei, em uma planilha onde acompanho meus objetivos.

A frase é:

Terminar o triathlon olímpico. Vencer a mim mesma antes de vencer o mundo

Parei alguns segundos. Respirei. Meus olhos encheram d’água novamente e ali eu tive uma nova descoberta. Que eu passei meses acreditando que essa frase era sobre a superação física e naquela tarde descobri que não era.

Quando decidi fazer um triathlon, inicialmente meu objetivo era completar uma prova para comemorar minha saúde. Hoje vejo que completar a prova significa outra coisa completamente diferente. E essa prova, eu já completei. 

Não quando comecei a correr.

Não quando aprendi a nadar.

Não quando subi na bicicleta.

Mas no dia em que voltei a acreditar que ainda existia uma vida depois da dor. 

Completei porque, poucos meses antes, existia a Julia que não conseguia carregar uma garrafa de água de 500ml sem sentir dor. Cinco minutos caminhando já eram suficientes para o meu corpo pedir descanso. Respirar doía. Dormir exigia encontrar uma posição que não machucasse. Naquela época, terminar um triathlon seria uma ideia quase ofensiva.

Lembro exatamente do instante em que a ideia nasceu. Caminhava na esteira depois de ser liberada para voltar a pedalar. Pela primeira vez em meses, eu não sentia dor. Sorri e pensei: “Vou fazer um triathlon.”

Hoje percebo que aquele momento nunca foi sobre condicionamento físico. Era, de novo, sobre recuperar a confiança de que ainda existia uma vida depois da dor. 

Pensamos que vencer a nós mesmos significa realizar grandes feitos. Mas começo a desconfiar de que acontece exatamente o contrário.

Vencer a si mesmo raramente é um acontecimento extraordinário.

É uma coleção de decisões pequenas. É alguém absolutamente comum fazendo, todos os dias, pequenas escolhas extraordinariamente consistentes.

Levantar quando ninguém está olhando.

Ir à fisioterapia mesmo sem vontade.

Dormir cedo.

Respeitar o repouso.

Pedir ajuda.

Recomeçar.

Continuar.

Permitir que alguém carregue o peso por você.

Além disso, a realidade cruel me bate quando lembro que enquanto estou aqui, preocupada com uma prova, minha avó ficou quatro dias internada na UTI e depois um grande susto para a família, receberá alta. Que minha tia, uma das pessoas que mais admirei (e admiro) durante toda a minha vida, também enfrenta problemas sérios de saúde. Conversando por vídeo, ouvi dela algo que me emocionou profundamente. Ela disse que acompanhar minha preparação para o triathlon a motivava a cuidar da própria saúde.

Será que foi mesmo o triathlon que a inspirou/motivou? Acredito que não. 

Eu não conquistei nenhuma medalha. Tampouco cruzei a linha de chegada. Mas essa mulher, uma segunda mãe para mim, me diz cheia de afeto que o que ela enxerga é alguém que continuou tentando vencer suas pequenas batalhas diárias.

O que deveria nos inspirar no outro não se trata de resultados ou fotos instagramáveis. É aquilo que o outro precisou se tornar para alcançá-los. 

Vivemos querendo mudar o mundo. Eu também quero.

Quero um mundo onde nenhuma mulher tenha medo de voltar sozinha para casa.

Quero um mundo sem fome. Sem violência. Sem corrupção. Sem crianças abandonadas.

Quero uma sociedade mais justa. Mais gentil. Mais consciente.

Mas ultimamente tenho pensado que existe um perigo escondido nisso. É muito fácil desejar transformar a humanidade enquanto ignoramos aquilo que acontece dentro de nós.

Queremos acabar com a violência enquanto alimentamos pequenas agressividades.

Queremos saúde, mas mexemos no celular na cama, noite adentro.

Queremos honestidade enquanto justificamos pequenas desonestidades. 

Queremos empatia mas somos incapazes de dialogar com quem pensa diferente.

Queremos uma sociedade menos egoísta. Mas nem sempre percebemos o egoísmo que carregamos conosco. Eu, inclusive. Toda grande transformação coletiva começa exatamente onde quase ninguém gosta de olhar. Na escala de uma única consciência.

Os estoicos diziam que algumas coisas dependem de nós. Outras, não.

Não depende de mim quando vou adoecer. Nem a morte. Nem a injustiça. Nem a economia. Nem o comportamento das outras pessoas. Mas depende de mim decidir quem continuo sendo diante de tudo isso. Essa é a batalha mais difícil da existência.

Porque vencer o mundo pode acontecer por acaso. Mas vencer a si mesmo…

Essa é uma tarefa suficientemente difícil para ocupar uma vida inteira.

Existe uma frase de Sêneca que acompanha meus dias há algum tempo. Ela fica escrita no alto da planilha onde organizo meus sonhos.

“Tenha a satisfação de ver seus vícios morrerem antes de você.”

Quanto mais penso nela, mais eu vou tomando consciência das coisas que preciso mudar.

Preguiça. Vaidade. Orgulho. Covardia. Ressentimento.

Daquela parte de nós, de mim, que insiste em permanecer pequena quando a vida nos convida a crescer. Essa é a verdadeira vitória. Não aquela que sobe ao pódio, nem aquela que faz o oba oba e recebe a medalha no pescoço. É a que acontece silenciosamente, dentro de quem aprende o que deve morrer um pouco em si para a humanidade renascer melhor.

Não sei se terminarei o triathlon.

Talvez caminhe.

Talvez pare.

Talvez meu corpo cobre um preço que minha vontade não consiga pagar.

Mas existe uma coisa que ninguém pode tirar de mim.

A pessoa que precisei me tornar para chegar até a linha de largada.

Porque medalhas oxidam. Recordes são quebrados. Títulos mudam de dono. O corpo envelhece. Mas nenhuma derrota é capaz de desfazer a vitória de quem lapidou o próprio caráter. Essa que transforma quem a conquista. Por isso sigo acreditando que um mundo melhor nunca começará nas grandes revoluções.

Talvez seja por isso que Sêneca dizia para termos a satisfação de ver nossos vícios morrerem antes de nós. Porque, no fim, vencer a si mesmo é sobre a construção de alguém capaz de permanecer íntegro, mesmo quando não há pódio algum esperando no final do caminho.

Na escolha diária de morrer um pouco para que algo melhor possa nascer dentro de nós.

Porque, no fim das contas, nenhuma vitória muda tanto o mundo quanto aquela que muda primeiro quem a conquistou.

Pensamentos Avulsos

Repouso

Repouso

A perda de tempo de quem se acostumou a medir a vida pelo movimento. 

carnaval no brasil e felicidade

Esta semana meu corpo tomou uma decisão sem me consultar.

Ele decidiu repousar. Imagina, que ultraje?!

A verdade é que eu já sabia que isso aconteceria depois de deliberadamente escolher fazer uma tatuagem grande, cobrindo o abdômen e parte das costelas, não existia outro caminho possível né (risos).

Sem natação.

Sem bicicleta.

Sem fisioterapia.

Sem boa parte da rotina que costumo usar para organizar a cabeça, a mente e o espírito.

Mesmo sabendo da necessidade de descansar algo dentro de mim resistiu. Porque existe uma diferença gritante entre saber que precisamos parar, aceitar que precisamos parar e de fato parar.

Me peguei nesse tapete de Penélope¹, desfazendo durante o dia aquilo que havia decidido pela manhã. Marquei e desmarquei com a fisioterapeuta, com a professora de dança, o rolê com os amigos.

O desconforto da cicatrização começou a me abalar. Percebi o quanto, de um lado, meu corpo estava exigindo repouso e, de outro, minha mente insistia em negociar. Como um cabo de guerra.

Sem poder movimentar o corpo, resolvi movimentar uma palavra. 

Como não podia correr para lugar nenhum, corri atrás dessa singela palavra: repouso. Ela, para mim, sempre foi uma intrigante dificuldade que esconde dentro de si duas partes:

Re-pousar.

É como pousar outra vez. Voltar ao solo. Retornar à terra firme. 

Deitada, com as linhas da tatuagem besuntadas de óleo de coco, focada em não me mexer, pensei nos aviões…

Depois de meditar por longos minutos, constatei um fato: nenhum piloto passa horas preparando uma decolagem para simplesmente permanecer no ar para sempre. Então por que era o que estava tentando fazer?

“Julia, todo voo pressupõe um pouso”. Disse a mim mesma.

Veja, todo deslocamento pressupõe uma pausa. É, o óbvio realmente precisa ser dito.

Recorri à internet para alimentar meu novo objeto de curiosidade: como pousar um avião.

Descobri algo interessante: antes de pousar, pilotos executam uma série de verificações para garantir que a aeronave e seus passageiros chegarão em segurança ao destino. Não é nem de longe a parte mais glamourosa da viagem. Contudo, é uma das mais importantes.

Internamente, pensei com meus botões: E se minha vida fosse um avião? quais seriam os procedimentos necessários para repousar? Peguei papel e caneta e construí um pequeno checklist…

Admitir que o combustível é finito

#1 procedimentos necessários para repousar

Nenhum piloto ignora o nível de combustível.

Nenhum avião permanece voando indefinidamente. Mas nós tentamos.

Ah, o ser humano… seria cômico se não fosse trágico.

Dormimos menos.

Aceleramos mais.

Empilhamos compromissos.

Transformamos a exaustão em medalha.

Como se reconhecer limites fosse sinal de fraqueza. Não é.

Verificar as condições externas

#2 procedimentos necessários para repousar

Antes de pousar, um piloto observa vento, visibilidade, pista e condições meteorológicas. Não porque controla essas variáveis, mas porque precisa respeitá-las. Se necessário, ele irá cancelar o voo. Mesmo que isso não satisfaça a opinião pública.

Nós raramente fazemos o mesmo. Eu raramente faço o mesmo.

Insistimos em exigir de nós produtividade máxima durante períodos que pedem recolhimento. Queremos desempenho de verão em estações de inverno.

Resultado?

Chamamos de fracasso aquilo que muitas vezes é apenas incompatibilidade entre expectativa e realidade.

Reduzir velocidade

#3 procedimentos necessários para repousar

Nenhum avião pousa acelerando.

Ele desacelera.

Perde altitude.

Ajusta trajetória e só então abre espaço para tocar o chão.

Penso que a vida funciona de forma parecida. Com fases que não exigem crescimento e sim assimilação.

Não produzir. Integrar.

Não lutar. Cicatrizar.

Foi isso que meu corpo me ensinou esta semana.

Enquanto eu observava a tatuagem cicatrizando, a pele rejeitando o filme protetor e o desconforto aparecendo até para respirar, percebi uma coisa curiosa:

A natureza não considera o repouso uma interrupção da vida. Nós é que consideramos.

Para a natureza, repouso também é processo.

A ferida repousa para fechar.

O alimento repousa para ser digerido.

A lagarta repousa no casulo antes de ganhar asas.

Até o solo que pisamos entra em repouso para voltar a produzir, a ter fertilidade.

Só nós – humanos – parecemos acreditar que viver significa estar em movimento permanente.

Por isso essa semana a palavra “repousar” me pareceu tão bonita, tão filosófica.

Pesquisei e sua origem remonta ao latim repausare, ligada à ideia de descansar, pausar e retornar a um estado de equilíbrio. Curiosamente, o prefixo re- carrega justamente esse sentido de voltar, retornar, fazer novamente.

Repousar não é desistir da viagem. É garantir que ela possa continuar.

Não é abandonar o voo.

É tocar o solo por tempo suficiente para que uma nova decolagem seja possível. É a vida silenciosamente nos ensinando a reconhecer quando a jornada pede menos aceleração e mais aterrissagem.

Nem toda pausa é atraso.

Nem todo descanso é improdutividade.

Nem todo repouso é ausência de caminho.

Às vezes, é apenas a preparação necessária para continuar viajando, em segurança, com inteireza.

Com a humildade de quem finalmente compreendeu que até os aviões mais sofisticados precisam, de vez em quando, voltar ao chão.

Confiar no pouso.

#4 procedimentos necessários para repousar

O repouso não apaga o caminho.

Ele preserva quem o percorre.

Repousar não é apenas voltar ao chão. É voltar para si.

Porque nenhuma viagem continua por muito tempo quando abandonamos o piloto, ignoramos os instrumentos e fingimos que o combustível é infinito.

Às vezes, a maior demonstração de coragem não é continuar voando.

É aceitar a pista, tocar o solo e confiar que haverá céu novamente.

¹ Tapete de Penélope: referência à personagem Penélope, da Odisseia de Homero. Enquanto aguardava o retorno de Ulisses da Guerra de Troia, ela tecia durante o dia e desfazia o trabalho à noite para adiar uma decisão que não desejava tomar. A expressão passou a representar situações em que avançamos e retrocedemos continuamente, construindo e desfazendo os próprios planos.

Pensamentos Avulsos

O conjunto da obra.

mulher contemplando a natureza

Maria Eduarda vive em nós.

O que estamos nos tornando?

Meu plano para esta semana era escrever sobre um prêmio que descobri no instagram.

Mais especificamente sobre um prêmio recebido por Fernanda Torres pelo conjunto da obra¹.

Gosto dessa expressão.

Conjunto da obra.

Ela sugere que uma vida não pode ser reduzida a um único acontecimento.

Nem ao maior sucesso.

Nem ao pior fracasso.

Nem ao dia em que fomos brilhantes.

Nem ao dia em que falhamos.

Sugere que nossa vida é avaliada pela soma.

Pela trajetória.

Pelo que construímos.

E até pelo que deixamos.

Bom, esse era o plano. Só que, a vida acontece enquanto fazemos planos e, numa bela manhã de sol, como diria Joseph Climber, voltamos à estaca zero.

Antes, perguntar ao leitor o que gostaria de encontrar caso um dia olhasse para trás e enxergasse sua própria obra completa parecia ter bastante sentido. Mas a semana tomou outro rumo quando no meio do caminho encontrei uma pedra, como diria Drummond, a história de Maria Eduarda.

Uma jovem de 21 anos que morreu durante um salto de rope jump².

Quantas Maria Eduardas vivem em nós?

Assisti à notícia. Ri, porque de início, achei que era um vídeo produzido com IA, uma fake news, de tão absurdo.

Depois, infelizmente, vi os noticiários, as grandes emissoras com seus relatos e por último, os comentários…

E foi ali que senti algo difícil de nomear. Não era apenas tristeza. Era uma espécie de vergonha.

Vergonha de pertencer à mesma civilização capaz de transformar uma tragédia em entretenimento.

Enquanto uma família enterra uma filha, homens disputavam criatividade para produzir piadas como:

“Eu indo no IML juntar os pedaços para fazer a festa” 

“Será que vai ter festa no IML?” 

“Se juntar direitinho as peças dá pra se divertir ainda” 

“Vou fazer concurso para o IML” 

Enquanto uma vida era interrompida, surgiam comentários tratando restos humanos como material para festa. E você sabe muito bem que tipo de festa os autores se referem.

Fechei a tela.

Afastei o celular.

Dediquei bons minutos de silêncio admitindo para mim mesma que enquanto escrevo este texto uma mulher não está segura nem mesmo morta.

Se existisse um prêmio pelo conjunto da obra da humanidade, nós o mereceríamos?

A questão me persegue porque os números mostram tanto e também tão pouco de nossa capacidade.

Construímos cidades.

Construímos aviões.

Construímos satélites.

Criamos vacinas.

Criamos inteligência artificial.

Mapeamos o genoma humano.

Enviamos máquinas para outros planetas.

Um único ser humano atinge o status de trilionário.

Somos capazes de conversar instantaneamente com pessoas do outro lado do mundo.

Mas ainda não aprendemos algo infinitamente mais simples.

Respeitar a linha tênue onde termina nosso espaço e começa o do outro. A como agir com humanidade. Talvez este seja o paradoxo do nosso tempo:

Nunca fomos tão sofisticados tecnicamente. E, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas oportunidades de exibir nossa incapacidade de lidar com a humanidade – ou ausência dela – do outro.

O problema não está na tecnologia.

A tecnologia apenas amplifica aquilo que já existe. Porque ela não inventou a crueldade, apenas lhe deu um microfone.

O problema é que avançamos muito rápido por fora e muito devagar por dentro.

Desenvolvemos ferramentas extraordinárias.

Mas o caráter não tem acompanhado o mesmo ritmo.

Por isso penso que um prêmio pelo conjunto da obra da humanidade não seria decidido pelas nossas invenções.

Seria decidido pela forma como tratamos uns aos outros e ao universo como um todo.

Pela capacidade de enxergar dignidade onde hoje enxergamos apenas utilidade.

Pela compaixão.

Pela responsabilidade.

Pela defesa daqueles que não podem se defender.

Pela consciência de que existe alguém do outro lado.

Talvez seja por isso que algumas pessoas continuam me inspirando mais do que qualquer inovação tecnológica.

Não porque foram perfeitas.

Mas porque preservaram algo raro.

Humanidade.

foto de nise da silveira

Nise da Silveira

Enfrentou perseguição profissional e isolamento por se recusar a tratar pacientes psiquiátricos com métodos considerados desumanos. Mudou a forma como o Mundo enxergava saúde mental.

Sua luta foi contra a desumanização institucional.

foto deputada erika hilton

Erika Hilton

Ao longo de sua trajetória pública, enfrentou campanhas de ódio, ameaças frequentes. Ainda assim, continua defendendo princípios que considera universais, como dignidade, respeito e participação democrática. Um exemplo recente ocorreu quando se posicionou em defesa do direito de fala de uma parlamentar com quem possui divergências ideológicas profundas, reforçando a ideia de que o respeito às pessoas e à instituição humanda deve existir primeiro.

Margarida Maria Alves, sindicalista paraibana e defensora dos direitos trabalhistas rurais

Margarida Maria Alves

Lutou pelos direitos dos trabalhadores rurais da Paraíba e foi assassinada na porta de casa. Seu nome permanece vivo na maior marcha de mulheres da América Latina. Seu exemplo inspirou trabalhadoras rurais a se organizarem nacionalmente para denunciar desigualdades e reivindicar políticas públicas voltadas ao campo.


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Maria Eduarda

Ela não criou uma lei.

Não liderou um movimento.

Não fundou uma instituição.

Não teve tempo para isso.

Só é alguém que poderia ser nossa filha.

Nossa irmã.

Nossa amiga.

Nossa vizinha.

Sua morte não revelou apenas uma tragédia.

Revelou a facilidade com que ainda transformamos sofrimento em entretenimento.

Ela é um lembrete da velocidade com que esquecemos que existe uma pessoa do outro lado da tela.

Se eu recebesse hoje um prêmio pelo conjunto da obra da minha própria vida, não gostaria que ele fosse entregue pelas viagens que fiz, pelos títulos que acumulei ou pelas metas que alcancei.

Gostaria que fosse entregue pela quantidade de humanidade que consegui preservar dentro de mim enquanto o mundo me ensinava diariamente a perdê-la. E, se algum dia existir um prêmio capaz de medir uma vida humana, espero que ele considere menos os monumentos que erguemos e mais a humanidade que conseguimos não perder pelo caminho. 

Porque, no fim das contas, talvez o verdadeiro conjunto da obra não seja aquilo que construímos. Mas aquilo que nos recusamos a destruir dentro de nós ao continuar decidindo sermos humanos em um ambiente que frequentemente recompensa o contrário. 

NOTAS

¹Conjunto da obra: expressão utilizada para se referir à avaliação integral da trajetória de uma pessoa, considerando não apenas realizações pontuais, mas o legado construído ao longo da vida. Em premiações artísticas, costuma corresponder ao chamado Lifetime Achievement Award (“prêmio pelo conjunto da obra” ou “pela carreira”).

²Rope jump: modalidade de esporte de aventura em que a pessoa realiza um salto de altura presa a um sistema de cordas e ancoragens previamente instalado. Diferentemente do bungee jump, o praticante não fica conectado a um cabo elástico, mas a cordas estáticas ou semiestáticas utilizadas para amortecer e controlar o movimento do salto.

Pensamentos Avulsos

Cláusulas pétreas da humanidade

Que objetivo vale uma vida inteira tentando alcançá-lo?

mulher contemplando a natureza
Foto registrada em uma das cachoeiras do monte mestre álvaro, Serra, ES.
casal contemplando a natureza
Foto registrada no topo do monte mestre álvaro, Serra, ES.

Marco Aurélio certa vez escreveu que aquilo que prejudica a colmeia prejudica também a abelha.

Sempre gostei dessa imagem para me lembrar que ninguém existe isoladamente. Isto é, nossas ações fazem parte de algo maior: todo o universo e a humanidade. Por esse motivo, quando uma pessoa morre, algo da humanidade desaparece junto com ela. Uma forma única de enxergar o mundo. Uma voz. Uma história. Uma perspectiva irrepetível.
Coincidência ou não, nesta mesma semana que eu estava bem reflexiva nesse tema, uma grande amiga disse: 

“Caraaa, falando em filosofia… vi que tu tá cursando, que tudo. Tem um anime que é muito essa pegada (frieren). Coisa mais linda já feita.”

fonte anônima

Não preciso nem dizer que, depois dessa mensagem, a primeira coisa que eu fiz quando chegou o final de semana foi assinar o HBO Max para ver a bendita série. Confesso que não esperava encontrar tanta filosofia em um anime aleatório sobre uma elfa.

anime frieren
Fonte: Google images.

Ao longo do texto, espero que você entenda porque eu resolvi escrever aqui o tanto que o enredo me cativou em vez de uma simples resenha. A história acompanha Frieren, uma maga élfica que resolve ajudar um grupo de guerreiros a derrotar o Rei Demônio e restaurar a paz ao mundo. Em qualquer outra narrativa, esse seria o final da história. Por exemplo, se você, assim como eu, é apaixonado pelos filmes de animação – Moana, Rei Leão, Vida de Inseto, como treinar seu dragão – vai perceber um padrão: nessas obras você acompanha a jornada.

Nesses clássicos, os heróis:


  • começam sem nada;
  • Sofrem todos os desafios possíveis;
  • Acham que vão desistir;
  • Dão a volta por cima;
  • E só no final, retornam a sua cidade de origem vitoriosos.

E todos vivem felizes para sempre.

Aquela famosa “jornada do herói”. Frieren – na contramão de tudo e todos – começa exatamente onde as outras histórias terminam.

Na primeira cena:

A guerra já acabou.

A paz já foi conquistada.

A missão já foi cumprida.

Ela é a mulher mais poderosa de seu tempo.

Domina um conhecimento técnico inconcebível para outros, ninguém mais está a sua altura. Ela pode fazer o que quiser. Mas e agora, ela pensa, o que fazer?

A pergunta parece simples. Contudo, está bem longe de ser.

A título de contexto, Frieren viveu uma campanha¹ de dez anos ao lado dos bravos guerreiros que se tornaram heróis: Himmel, Eisen e Heiter. A maga, no entanto, por mais que tivesse consciência do grande impacto de sua empreitada (a paz mundial) enxergava a aventura como apenas um pequeno fragmento de sua existência. Dez anos em uma vida de mais de mil? Uma nota de rodapé, um nada. Ainda mais porque, para ela, os humanos envelhecem, morrem e desaparecem. Então por que essas experiências teriam algum valor? Ela, ao contrário, permanece. 

Junto dela seu conhecimento, experiência, poder. Nessa linha de raciocínio, Frieren acredita fielmente que todos aqueles encontros foram insignificantes. Até que, um dia, no enterro de um dos heróis (um pequeno spoiler aqui foi inevitável), ela descobre algo perturbador. 

A sábia maga de mil anos de vida nunca compreendeu de verdade o valor daqueles dez anos. O valor das pessoas. O valor do próprio tempo.

Ainda no primeiro episódio, pensei em como nós também organizamos a vida ao redor de grandes objetivos e ignoramos o valor do nosso tempo e das pessoas que compartilham esse tempo conosco. Então, fui obrigada a parar, porque eu simplesmente não conseguia mais assistir, tamanho o incômodo existencial. E talvez você, leitor, também pense que a vida é:

Passar no vestibular.

Conseguir um emprego.

Comprar uma casa.

Casar.

Ter filhos.

Publicar um livro.

Receber uma promoção.

Aposentar-se.

Já reparou que existe sempre alguma montanha à vista no horizonte (ou no nosso tempo, nas redes sociais) prometendo que, quando finalmente alcançarmos o topo, encontraremos aquilo que procurávamos? Mas existe um problema aí.

Todo pico da montanha tem um fim. E o que fazemos quando chegamos lá?

Lembro de quando era criança e sonhava em andar de avião.

Depois sonhei em falar inglês.

Depois em morar sozinha.

Depois em trabalhar viajando.

E cada vez que uma dessas coisas aconteceu, eu, como Frieren, me perguntei (e continuo me perguntando): “E agora?”

Não porque minhas conquistas sejam vazias.

Mas porque são finitas.

E porque nenhuma delas representa plenamente quem sou ou quem desejo me tornar.

Atingi metas que nunca pensei estarem ao meu alcance.

Frieren venceu o Rei demônio quando ninguém acreditava ser possível.

E agora?

A maior armadilha da vida moderna é escrever em pedra que o sentido da existência está escondido em alguma linha de chegada. Sempre a uma distância de um diploma, uma promoção, um carro, uma casa, um iphone, uma viagem da felicidade.

No curto, médio ou longo prazo tudo isso passará. E, nesse momento, experimentar essa melancolia silenciosa justamente depois de conquistar aquilo que desejamos não é um fracasso. É apenas o encontro inevitável com uma pergunta que esperamos encontrar resposta do outro lado da meta.

Por que continuar?

Em uma das cenas mais bonitas da série, Frieren joga na cara dos amigos que aqueles dez anos ao lado dos heróis não representavam um décimo de sua longa existência. Anos depois, um daqueles antigos companheiros lhe oferece uma resposta simples e devastadora, ao quanto ela mudou em 50 anos (quando ela retorna):

Não importa quanto tempo durou. Importa o que aquele tempo fez com você.

Nesse momento percebi a tal filosofia da série, aquela que minha amiga comentou lá atrás…

A pergunta mais importante não é quanto tempo vivemos. Nem o que acumulamos. Nem o que conquistamos.

A pergunta é:

O que nos transforma para melhor enquanto estamos vivos?

Uma guerra pode acabar.

Uma carreira pode terminar.

Um relacionamento pode chegar ao fim.

Os filhos crescem.

Os amigos partem.

Os pais envelhecem.

As fases mudam.

As pessoas morrem.

Se o sentido da vida estiver apenas nessas coisas, estaremos condenados a perdê-lo toda vez que uma delas terminar.

E se existirem projetos diferentes? Projetos que não terminam? Projetos capazes de atravessar uma vida inteira? Mil anos? Civilizações?

Tornar-se alguém mais sábio.

Aprender a amar genuinamente.

Compreender a si mesmo.

Desenvolver coragem.

Exercitar a bondade.

Refinar o caráter.

Jornadas estas que não possuem linha de chegada porque pertencem a algo mais profundo. Algo que aprendi com meu pai e sua paixão pelo Direito: as cláusulas pétreas². São princípios tão fundamentais que não podem ser abolidos nem mesmo por uma emenda constitucional.

E se a humanidade também possuísse suas próprias cláusulas pétreas?

Não leis, fundamentos irrevogáveis.

A capacidade de aprender.

A busca pela verdade.

A construção do caráter.

A transmissão de conhecimento entre gerações.

O cuidado com o universo, nossa casa.

Talvez sejam essas as coisas que permanecem mesmo quando tudo o mais muda.

Impérios caem.

Tecnologias são descontinuadas.

As cláusulas pétreas atravessam séculos.

Foi isso que Eisen, o velho guerreiro, tentou ensinar à elfa… que a existência por si só não basta. Acumular mil anos não basta. Sobreviver não basta. Porque uma vida não é medida apenas pelo tempo que dura e sim pelas transformações que abriga. A série mostra que os mártires guerreiros, mesmo após a morte, continuam transformando Frieren.

Como professores continuam vivos em seus alunos. Pais continuam vivos nos filhos. Amigos continuam vivos nas relações que ajudaram a moldar. As quebras de paradigma entre gerações que vêm e vão.

Talvez Marco Aurélio estivesse certo.

Quando uma pessoa parte, a humanidade perde algo de si. Mas aquilo que ela transformou nos outros permanece. E é por isso continuamos e devemos continuar.

Não porque ainda falta alguma coisa. Mas porque a verdadeira meta é buscar aquilo que nos transformará ao trilhar o caminho. E elevará consigo a humanidade mais um pouco. 

A guerra termina.

Os companheiros partem.

As montanhas ficam para trás.

As cláusulas pétreas da humanidade ficam.

E talvez seja nelas que construiremos uma humanidade que delibera sobre galgar metas no âmbito do ser e que reverberam em toda a terra-pátria³ pela eternidade.

Notas

¹ Campanha: Na linguagem militar, campanha é uma série de ações e batalhas realizadas ao longo do tempo para atingir um objetivo maior. Em Frieren, refere-se à jornada de dez anos empreendida pelos heróis para derrotar o Rei Demônio e restaurar a paz ao mundo.

² Cláusulas Pétreas: Dispositivos fundamentais da Constituição Federal brasileira que não podem ser abolidos nem mesmo por emenda constitucional. Estão previstas no art. 60, §4º da Constituição de 1988 e protegem princípios essenciais do Estado Democrático de Direito, como a separação dos poderes, o voto direto e os direitos e garantias individuais.

³ Conceito desenvolvido pelo filósofo e sociólogo francês Edgar Morin para expressar a ideia de que toda a humanidade compartilha uma mesma casa comum: o planeta Terra. O termo propõe uma consciência planetária baseada na interdependência entre povos, culturas e ecossistemas, superando visões restritas de nação, raça ou território.

REFERÊNCIAS

FRIEREN

Frieren: Beyond Journey’s End. Frieren: Beyond Journey’s End (Sousou no Frieren). Direção de Keiichiro Saito. Japão: Madhouse, 2023. Série de televisão.

Obra original:

Sousou no Frieren. YAMADA, Kanehito; ABE, Tsukasa. Sousou no Frieren. Tóquio: Shogakukan, 2020.


MARCO AURÉLIO

Meditações. MARCO AURÉLIO. Meditações. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2019.


EDGAR MORIN

Terra-Pátria. MORIN, Edgar; KERN, Anne Brigitte. Terra-Pátria. Porto Alegre: Sulina, 2003.

Pensamentos Avulsos

O Brasileiro Médio.

A mina que ninguém vê.

Certo dia li uma manchete que dizia, em letras garrafais:
“O brasileiro médio não sabe o que é nióbio”, Confesso que me senti representada. Até pouco tempo atrás, eu também não fazia ideia. Nunca fui muito fã das aulas de geografia, apesar de, ainda no ensino fundamental, ter feito uma prova para ganhar uma viagem pelo National Geographic (risos).

Se você ainda não sabe, o nióbio é um metal utilizado em uma infinidade de produtos que atravessam nosso cotidiano sem pedir licença: ligas de aço de alta resistência, equipamentos médicos, automóveis, turbinas, celulares e tantas outras tecnologias das quais nos tornamos dependentes. Você provavelmente conhece um dos produtos acabados mais admirados do mercado: o iPhone . 

O curioso é que o Brasil concentra a maior parte das reservas conhecidas desse mineral no mundo (entre 94% e 98%). Mas foi justamente aí que uma pergunta me ocorreu. Se possuímos uma das maiores reservas de nióbio do planeta, por que isso não nos transforma automaticamente no país mais desenvolvido do mundo?

A resposta parece óbvia. Contudo, possuir não é o mesmo que transformar. O nióbio enterrado sob a terra não produz riqueza. Ele não constrói aviões. Não fabrica celulares. Não movimenta a economia. Porque antes de tudo isso, ele precisa ser descoberto, extraído e processado. Ou melhor, antes de tudo estudado e por fim transformado.

Uma jazida, por mais valiosa que seja, não gera nenhum benefício apenas por existir. E talvez a mesma coisa aconteça conosco. Vivemos em uma época obcecada pelos produtos acabados.

O celular pronto. O livro publicado. O atleta campeão. O empreendedor bem-sucedido. A carreira consolidada. A foto perfeita. O verificado no instagram. 

O resultado. Sempre o resultado. Poucas vezes paramos para pensar na mina. 

Julia porto

Quando alguém tira um iPhone do bolso, é fácil admirar o objeto. 

E os anos de pesquisa? 

Os processos industriais, a matéria-prima escondida sob o solo? 

E as milhares de pessoas que participaram da transformação daquele potencial em realidade?

O produto final sempre recebe os aplausos. O processo permanece invisível.

Com as pessoas acontece algo parecido.

Frequentemente admiramos aquilo que alguém se tornou, mas ignoramos o que precisou ser escavado para chegar até ali. A disciplina que ninguém viu. Os fracassos. As dúvidas. As renúncias. As tentativas frustradas. As pequenas escolhas repetidas diariamente. Talvez cada ser humano carregue dentro de si uma reserva semelhante.

Não de nióbio. Mas de potencial. O problema é que – de novo – confundimos potencial com realização. Enganamo-nos ao acreditar que possuir uma capacidade é o mesmo que desenvolvê-la. Que ter um talento equivale a exercê-lo. Que desejar algo significa estar caminhando em sua direção. Mas nenhuma jazida produz riqueza apenas por existir. Nenhum talento produz valor apenas por estar presente. O que admiramos externamente no mundo passou por algum processo de transformação com muito esforço envolvido.

Um avião. Uma obra de arte. Uma descoberta científica. Uma amizade duradoura. Um caráter íntegro. Nada disso surgiu pronto. E talvez seja justamente aí que mora uma das maiores dificuldades da vida contemporânea. Fomos ensinados a admirar o resultado e a desprezar o processo.

Queremos a colheita sem o cultivo.

A obra sem a construção.

A sabedoria sem a experiência.

A transformação sem o trabalho.

No entanto, a vida parece funcionar de outra maneira.

Ela exige escavação, refinamento e tempo.

Talvez a verdadeira riqueza de uma pessoa não esteja naquilo que ela possui, mas naquilo que conseguiu transformar dentro de si.

Porque, no final das contas, o valor nunca esteve apenas na matéria-prima.

O valor está naquilo que somos capazes de fazer com ela.

A transformação do nióbio em tecnologia é um projeto.

A transformação do potencial humano em humanidade efetiva também.

A diferença é que uma mina pode ser explorada por máquinas.

Já a interioridade exige consciência.

REFERÊNCIAS

BRANCO, Pércio de Moraes. Nióbio brasileiro. Serviço Geológico do Brasil (SGB), 19 out. 2016. Disponível em: Serviço Geológico do Brasil (SGB). Acesso em: 30 maio 2026.

SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL (SGB). Brasil lidera produção global de nióbio e se destaca como principal detentor das reservas. 1 mar. 2024. Disponível em: Serviço Geológico do Brasil (SGB). Acesso em: 30 maio 2026.

Pensamentos Avulsos

Quero tempo com você.

foto de muro pintado em são paulo

Eu quero o seu olhar atento por cima da xícara de café.

Quero o tempo que a gente quase nunca pede, mas sempre precisa.

No meio de tanta informação, a alma pede algo simples: presença.

E é vivendo os dias — não apenas passando por eles — que isso se revela.
Pedalando sem pressa, cozinhando juntos, recebendo amigos, arrumando a casa, rindo de coisas pequenas. É aí que a vida mostra o que realmente importa.

Quando a gente acerta o ritmo, não precisa de muito.
Quase sempre, o detalhe já é suficiente.

Não o iPhone; tempo pra ligar.
Não o carro do ano; tempo pra passear.
Porque, no fim, não é sobre onde a gente chega,
mas com quem — e como — a gente atravessa o caminho.

Tem algo na presença verdadeira que nos organiza por dentro.
Sem perceber, a gente vai se tornando alguém melhor — não por esforço, mas por convivência.

Hoje eu entendo: não há vilões na nossa história.
Há escolhas, erros, tentativas.
E, acima de tudo, vontade de fazer dar certo.

Mas “dar certo” não é acúmulo.
Não é a casa, o cargo ou o corpo dos sonhos.
É outra coisa. Mais silenciosa. Mais difícil de medir.

Também não é sobre grandes promessas, controlar tudo.
Se vier o sol, a gente aproveita.
Se vier a chuva, a gente fica.

Porque o que importa não muda com a circunstância.

Eu já tentei entender tudo antes de viver.
Já procurei respostas rápidas para perguntas profundas.
Não funciona.

Nem tudo precisa ser resolvido.
Algumas coisas só precisam ser vividas.

Talvez seja isso que a gente busque sem saber:
um acordo silencioso de presença.

Sem excessos. Sem performance.
Sem a necessidade de parecer mais do que é.
Só sendo.

E, no fim, é isso que fica:
a lembrança de que a vida não precisa ser grandiosa para ser verdadeira.
Ela só precisa ser vivida com atenção.

Se existe alguma promessa aqui, é essa:
continuar escolhendo estar presente.
Continuar escolhendo crescer — cada um no seu tempo,
sem se perder do outro no caminho. Agindo principalmente por aqueles que não podem escolher sozinhos.

Porque, no fim,
o que a gente constrói não são grandes acontecimentos.

É o tempo.
Vestido de humanidade.

E isso basta.

Pensamentos Avulsos

A decisão que inaugura destinos

Talvez por isso o “vir a ser” seja tão fundamental que, de certa forma, está refletido até nas estruturas que criamos para proteger a vida, as Leis. Há em nós — e nas sociedades que organizamos — um reconhecimento implícito de que aquilo que ainda não é plenamente também merece existir.

Mas há um ponto crítico aqui: nada disso acontece sem decisão.

Ser amigo de si mesmo

Sêneca escreveu a Lucílio algo simples e radical: “Sê tu mesmo o amigo que gostarias de ter.”

Essa frase, quando levada a sério, muda tudo.

Porque ser amigo de si mesmo não é se poupar — é se conduzir.
Não é ceder — é orientar.
Não é buscar conforto imediato — é sustentar aquilo que, no longo prazo, nos torna melhores do que éramos.

Foi isso que comecei a compreender, ainda aos 18 anos, quando decidi trilhar um caminho filosófico. Mas hoje, uma década depois, enquanto escrevo este texto, afirmo: compreender não é o mesmo que viver.

Durante anos, essa decisão existiu mais como intenção do que como prática. Até que, algo mudou. Eu me coloquei propositalmente em um contexto que exigia de mim aquilo que eu dizia valorizar: morar sozinha, em outro estado, em um trabalho novo, sem família, sem amigos, longe das referências que antes sustentavam minha identidade.

Foi ali que a filosofia deixou de ser teoria e passou a ser ferramenta sustentadora da decisão: a busca pelo propósito.

Quando você entende que decidir custa

Essa semana, em São Paulo, a vida me deu um desses pequenos testes que parecem banais — mas não são.

Fiquei hospedada em um hotel funcional: confortável, bem localizado, mas sem academia, sem piscina, sem espaço adequado para estudo. Um ambiente feito para quem acorda, toma café (se enche de comida com tudo que sabemos que tem num café da manhã de hotel), trabalha, dorme e repete.

Para a maioria das pessoas, isso não seria um problema. Para mim, era. Porque eu tomei uma decisão junto com o meu médico. Eu seguiria o pós operatório à risca.

Nadar não é opcional — é parte da minha recuperação. Treinar não é estética — é disciplina da recuperação. Estudar não é obrigação — é direção e treino da mente. É a razão, direcionada à virtude, que sustenta tudo. Então como deixar de treiná-la também através do estudo?

Durante dias, a agenda não ajudou. Reuniões, deslocamentos, vôo errado, conexão nos confins (literalmente, risos), cansaço. Sempre havia um motivo plausível para adiar a escolha. E todos os dias eu estava lá, de novo. No sábado, eu decidi mais uma vez agir de acordo com meu vir a ser. Só que dessa vez, foi a vida quem me surpreendeu. 

Ela não sabe, mas me explicou — em um único dia — a importância de nunca esperar condições ideais.

De não negociar comigo mesma.

De não me diminuir diante do contexto, do desafio ou das pessoas.

As costas doíam. Ainda assim, encontrei uma piscina a 6 km do hotel e fui. São Paulo pela manhã é gelado. A água, parada como um lago de gelo. O treino foi difícil. Mais ainda, respirar do lado direito — algo que vem me desafiando todos os treinos por eu ser canhota, confesso que já estava até desistindo. Mas, sob a orientação do novo professor, começou a destravar. Coordenação, respiração, confiança em cada braçada.

Saí da água melhor do que entrei. Mas o mais interessante ainda estava por vir.

O encontro que nasce de uma decisão

No vestiário, entre o banho e aquele show que é uma mulher se arrumar fora de casa (shampoo, pente, roupas, toalha, cremes etc) e uma conversa casual ao fundo, encontrei duas mulheres. Começamos a falar — primeiro de forma leve, depois com uma profundidade e um rumo inesperado.

Uma delas compartilhou comigo a perda da mãe para o câncer. A dor foi o que a levou à decisão do autocuidado. Ao movimento. À decisão de viver de outra forma. Viver, acima de tudo, honrando a memória de sua falecida mãe.

Demos adeus a nossa outra colega e decidimos fazer um segundo treino juntas, na academia do shopping, No caminho até lá, seguimos conversando. Histórias diferentes, mas um ponto em comum: a decisão de não se render ao que nos aconteceu.

Treinamos juntas. E, ao nos despedirmos, fizemos uma promessa de um lado improvável e, ao mesmo tempo, profundamente séria: em 2031, cruzaremos juntas a linha de chegada da prova de Ironman no Rio de Janeiro.

Pode parecer exagero — duas desconhecidas fazendo um pacto de longo prazo. Mas não é sobre o evento. É sobre o que o tornou possível. Tudo aquilo nasceu de uma única decisão: a de ir treinar naquele dia. Um sábado, no primeiro horário, numa folga, e no meu caso, de uma viagem.

Decisões mudam destinos (mesmo quando ninguém entende)

A decisão de participar de um triathlon mexeu em inúmeros aspectos da minha vida aos quais eu era profundamente apegada: noites longas, álcool, rotina desregulada, encontros que começavam tarde e terminavam mais tarde ainda. Ou cedo, mais especificamente chegando da balada e tomando café na padaria.

Troquei tudo isso por algo simples — e, para muitos, estranho: dormir às 21h. Acordar às 05:00h para treinar (mesmo nos finais de semana), parar de beber, estudar filosofia nas folgas, comprar uma nova bicicleta em vez de um carro.

A reação não demorou:

“Ah, mas só hoje.”
“Você compensa depois.”
“Estamos em São Paulo…”
“Isso é frescura.”

Mas a verdade é que toda decisão real cobra um preço social.

Porque, quando você muda, você desorganiza o ambiente ao seu redor. E ele se reajusta. Porque você ajustou a si mesmo.

Alguns ficam.
Alguns crescem junto.
Alguns vão embora.

E tudo bem.

As amizades que permanecem são aquelas que também decidiram — decidiram crescer, decidiram apoiar, decidiram caminhar. Decidiram crescer na mesma direção.

A amizade como força que movimenta

Existe algo curioso na amizade verdadeira.

Ela não te empurra — mas te impulsiona.
Não te cobra — mas te eleva.

É como o movimento de uma hélice eólica: no começo, há resistência, gravidade. O ar parece insuficiente. As pás são pesadas. Você nem acredita que é possível mexê-las.

Mas, quando elas começam a girar, algo muda.

A própria rotação passa a gerar mais movimento. O impulso inicial gera outros e acumula mais força. O que antes era esforço vira geração de energia.

Assim são as decisões sustentadas — e as relações que nascem delas.

Elas criam um campo de força onde o crescimento deixa de ser exceção e passa a ser direção.

O ponto central

No fim, tudo volta ao mesmo lugar:

Você já é, em potência, aquilo que pode se tornar.

Mas essa potência não se realiza sozinha.

Ela exige decisão.

Decidir dormir cedo.
Decidir treinar.
Decidir estudar.
Decidir se afastar.
Decidir se aproximar.

Decidir dialogar.
Decidir, todos os dias, ser o tipo de pessoa que você se orgulha.

Porque o destino não é algo que se encontra.

É algo que se constrói — uma decisão de cada vez. 

E não decidir… também é uma decisão.

Pensamentos Avulsos

Onde a Conveniência Silencia a essência

Onde a Conveniência Silencia a essência

mulher na cachoeira

A aurora de sábado na praia deveria ser uma ode à  vida. O plano era comemorar o aniversário de uma grande amiga com as pequenas alegrias da vida: o aroma do café preto, o frescor das frutas, o calor dos afetos. Tudo junto e misturado sob o teto infinito do céu e o ritmo ancestral das marés. Era um convite para ser, simplesmente, parte da paisagem em um piquenique na praia.

Até então, eu estava responsável por levar o cafezinho e algumas frutas. Na quinta-feira anterior, veio um pequeno detalhe. “Leva os descartáveis também?”, disseram. E eu, no automatismo das inúmeras urgências (trabalho, estudo, treinos, dieta, casa), comprei. Na hora, não foi nada demais. Acho que você, assim como eu, já organizou uma festa com descartáveis não uma, mas várias vezes. O choque veio depois. Lá estava eu, estudando um módulo da pós sobre o humanismo e o professor um slide sobre o especismo:

Depois da aula (4 horas sobre isso), várias atitudes minhas alugaram um triplex na minha cabeça. Percebi que carregamos, muitas vezes sem notar, a arrogância de quem se crê como a medida de todas as coisas. Olhamos para o oceano e para a terra não como o ventre que nos sustenta, mas como um grande supermercado, posto ali para servir ao nosso conforto imediato com recursos infinitos. É o antropocentrismo¹ em sua forma mais estéril: o humano que, para poupar-se de ter trabalho, condena o mundo a lidar com seus restos por séculos. Isso quando ele consegue.

Na filosofia nós estudamos a deliberação como o ato de ponderar ANTES de agir. E ao agir, agir com virtude: ser correto, justo, corajoso, temperante. Onde estava a minha razão? Adormecida. Essa ferramenta preciosa que nos permite filtrar o que é apenas a “norma social” do que é verdadeiramente ético.

Eu não contei pra ninguém o meu desconforto, mas prometi a mim mesma que faria diferente em próximas ocasiões. Ao segurar aqueles pratinhos, eu não era um ser em comunhão com a natureza; eu era o homem especista, exercendo poder sobre o planeta (ainda que inconscientemente). Ao agirmos assim, nos vemos como o centro, e não como o grão. Esquecemos que a verdadeira liberdade não está em fazer o que é mais cômodo, mas em agir conforme a natureza universal, aquela que exige que cada passo nosso seja coerente com a harmonia do todo. Que essa semana, possamos agir mais assim. Porque entre a intenção e o ato, existe a escolha.


Não há nada que nos envolva em maiores males do que o facto de nos ajustarmos ao rumor comum, considerando como melhor o que é aceite por consenso.

SÊNECA

O banquete na areia, que deveria ser um ritual de gratidão me lembrou como é fácil se perder no que é “normal” quando esquecemos de nossa verdadeira natureza.

É possível abandonar a ilusão de que somos os senhores da paisagem com as nossas atitudes diárias? 

Caminho pela vida na esperança de que meu rastro na areia mostre que sou apenas o desenho dos meus pés descalços, e não o resíduo da minha conveniência. Afinal, a felicidade que buscamos na filosofia não é um estado de conforto, mas um estado de retidão. E a retidão, quase sempre, exige que troquemos o fácil pelo esforço demorado, consciente e contínuo.

Sejamos o grão de areia — pequeno, consciente de sua finitude, mas indispensável para a existência.

¹ Concepção filosófica e cultural que posiciona o ser humano como o centro do universo e a medida de todas as coisas. Nesta visão, a natureza e as demais espécies são valorizadas apenas na medida em que servem aos interesses, necessidades e ao bem-estar da humanidade, justificando uma relação de dominação e exploração dos recursos naturais.

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Pensamentos Avulsos

O “pace” do coração

Você já parou para observar como o Rei Leão estava certo? A vida é, de fato, um “ciclo sem fim que nos guiará”. Ela não caminha em linha reta; ela gira. Em um instante, o foco é o vigor dos músculos e a clareza da saúde; ou aquela tatuagem que todo mundo está fazendo. No giro seguinte, o choro de um filho recém-nascido preenche a casa, ou o silêncio de uma mudança de endereço ecoa pelas salas vazias. Relacionamentos florescem e fenecem como as estações, e a notícia de uma doença em alguém que amamos interrompe o ritmo da música. É… a vida é cíclica, agridoce e inevitável.

O problema, no entanto, não é para onde o ciclo nos leva, mas o que deixamos de enxergar enquanto rodamos com ele. Como Epicteto já nos alertava há 2 mil anos atrás: “Não são as coisas que atormentam os homens, mas as opiniões que eles têm sobre as coisas.”

À medida que pequenos, médios e grandes eventos nos atropelam, dia após dia, nós nos tornamos arquitetos de indicadores. Criamos planilhas para a existência. Monitoramos obsessivamente a velocidade média da corrida na orla, o cronômetro que marca o engarrafamento, os litros de água que descem pela garganta e as fatias de um salário que, em teoria, compra pedaços de felicidade. No digital, a obsessão ganha outros contornos de urgência: contamos os minutos de vácuo no WhatsApp e dissecamos a métrica cruel entre quem visualizou nossos stories e quem, de fato, deixou um “coraçãozinho” pulsando na tela fria.

Nos cercamos de números e KPIs para tentar provar a nós mesmos que estamos indo bem. Mas e o pace do seu coração, você mede?

Não falo da frequência cardíaca que o seu relógio de última geração marca enquanto você corre, anda, nada. Falo do ritmo da sua alma. Daquela batida surda que acontece no centro do peito quando o mundo lá fora grita. E se a oxigenação que o smartwatch marca fosse a deliberação sobre o nosso interior? A nossa essência, ao contrário do que o status quo quer que você acredite, não é um passageiro mudo em um carro em alta velocidade. Carl Jung, com a precisão de quem conhece as sombras, já costumava dizer:

Eu senti o peso dessa máquina esta semana. Faltando sete dias para o fechamento do ano fiscal na empresa onde trabalho (multinacional que olha o ano de abril março x Brasil que olha janeiro a dezembro), eu me vi no centro de um paradoxo barulhento. De um lado, a consciência afiada das entregas, o foco cirúrgico no cumprimento das metas de março. Do outro, um cansaço que não é físico, mas de perspectiva. E o mundo? O mundo não para para que possamos respirar. Ele despeja sobre nós festivais, o jogo do Flamengo, o riso dos amigos em uma balada e um noticiário que, por vezes, parece uma carta de despedida da humanidade: guerra, estupro, corrupção, feminicídio.

Nesse turbilhão de estímulos, com que frequência você para (para mesmo) e ajusta a rota? Em que momento você escuta quando o seu coração pede um tempo de silêncio? Veja, não um desvio no caminho, mas caminho algum. Isto é, introspecção, comedimento, solitude.

Esta semana, o meu convite é para que você desacelere o olhar. Sinta o estado do seu interior à medida que pessoas e situações convergem e divergem de você. Tenha a coragem quase revolucionária de parar diante de um convite, de uma tarefa ou de uma notícia, e deliberar em silêncio: Isso está adequado à minha alma? Ao meu “eu” superior?

Os estóicos chamavam essa bússola interna de Daimon — uma centelha divina, um guia silencioso que usa a razão para filtrar o que é nobre e o que é apenas ruído. Agir com o Daimon é dar o polimento final na própria vida, através do uso correto das aparências¹, escolhendo a temperança quando o mundo exige euforia, e a justiça quando o mundo oferece conveniência.

Não permita que sua alma corra no automático, sendo levada por algoritmos ou calendários fiscais. Monitore o ritmo que nasce de dentro. Garanta que cada passo no asfalto esteja em harmonia com o passo do seu Ser. Como Sócrates disse a Alcibíades:

– Tente ser belo.

Boa semana e, acima de tudo, bom monitoramento interno.

¹ Aparências (Phantasia): Na psicologia estoica de Epicteto, são as impressões que o mundo externo causa em nossa mente. O exercício da virtude consiste em não aceitá-las cegamente, mas em examiná-las através da razão para decidir se devemos ou não dar importância a elas.

REFERÊNCIAS

EPICTETO. Discursos. Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien. São Cristóvão: Editora UFS, 2014.

JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991. (Obras completas de C.G. Jung, v. 6).

PLATÃO. O Banquete. Tradução de José Cavalcante de Souza. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991.