Como dizem os memes: trago verdades. E essa é uma: a vida não pede autorização para mudar os nossos planos.
A inflação aumenta. O preço do supermercado muda. Uma guerra começa do outro lado do mundo e altera o preço do combustível. Um casamento exige que duas pessoas reorganizem suas próprias vidas para construir uma terceira coisa. Um filho nasce e, de repente, alguém que antes organizava os próprios horários precisa descobrir uma nova maneira de medir o tempo. Uma empresa é adquirida. Uma profissão desaparece. Uma doença chega. Uma amizade termina. Outra começa. A família envelhece. O dinheiro deixa de comprar aquilo que comprava. O mundo muda. Mas será que nós mudamos com ele?
Nós não necessariamente mudamos porque queremos. Contudo, somos particularmente bons em mudança. O motivo? Porque não existe alternativa a ela.
Foi pensando nisso que, durante uma aula de psicologia, ouvindo meu professor mencionar um experimento realizado com amebas resolvi escrever este texto.
Fiquei intrigada…
Pesquisando sobre o assunto, descobri que se trata de um experimento realizado em 1966, pelo biólogo Kwang W. Jeon ao observar uma cultura de Amoeba proteus quando algumas delas foram infectadas por uma bactéria. Para a maioria das amebas, a infecção foi letal. As poucas que sobreviveram ficaram debilitadas, cresceram mais lentamente e pareciam ter recebido da vida exatamente aquilo que nenhum organismo gostaria de receber: um problema novo para o qual não estava preparado.
Ao longo das gerações, a relação entre as amebas e as bactérias se estabilizou de tal maneira que, quando os pesquisadores tentaram eliminar as bactérias com antibióticos, as amebas também morreram. Isto é, a bactéria que um dia representara uma ameaça havia passado a fazer parte da vida da ameba. A ameba mudou a própria maneira de existir, literalmente, depois que o problema apareceu.
Existe um conceito filosófico que gosto particularmente quando penso nisso: contingência. Contingente é aquilo que poderia ter acontecido de outra maneira. Não era necessário que acontecesse exatamente assim, ou seja, poderia ter sido diferente.
Uma amizade poderia nunca ter acontecido. Ou ainda, você poderia ter escolhido outra profissão. Poderia ter conhecido outra pessoa. Poderia ter nascido em outra cidade. Aquela oportunidade poderia não ter aparecido. Aquela doença poderia não ter chegado. Aquele casamento poderia não ter acontecido.
Dito isso, a contingência é desconfortável porque ela retira da vida a sensação de que tudo obedece a um roteiro.
Com frequência, nós gostamos de imaginar que existe uma estrada. Uma sequência lógica de acontecimentos que nos trouxe até aqui e que, se fizermos tudo corretamente, continuará nos levando para onde desejamos. Mas a vida não funciona assim. Às vezes existe uma “bactéria” no meio do caminho¹. E ela simplesmente invade seu sistema.
Se pudéssemos voltar ao passado, apagar tudo o que aconteceu e apertar novamente o botão de reprodução, será que a história da vida chegaria novamente ao mesmo lugar?
A evolução possui regularidades, mas também depende profundamente de acontecimentos históricos contingentes. Um encontro que aconteceu poderia não ter acontecido. Uma espécie poderia ter desaparecido. Outra poderia ter surgido. Um caminho evolutivo poderia ter tomado uma direção completamente diferente. E isso me faz pensar na nossa própria existência. Porque também somos resultado de uma fita que não pode ser rebobinada.
Não podemos voltar aos vinte anos e conversar com aquela versão de nós mesmos. Não podemos desfazer escolhas.Não podemos devolver pessoas ao lugar que ocupavam antes de partirem. Não podemos impedir que o mundo mude. Não podemos negociar com a passagem do tempo. A vida acontece uma vez. E, enquanto acontece, somos obrigados a responder ao que aparece.
Aquela pequena ameba do estudo não sabia que a bactéria chegaria. Tampouco havia se preparado. Não havia um curso de “como lidar com uma infecção bacteriana inesperada”. Não havia planejamento estratégico. Análise SWOT. Não havia cinco passos para transformar uma crise em oportunidade. Havia apenas o acontecimento. E depois dele, havia a necessidade de continuar vivendo. Desafio profundamente humano…
Por que passamos boa parte da vida tentando construir estruturas suficientemente seguras para impedir que qualquer coisa saia do lugar?
Organizamos nossas finanças. Planejamos nossa carreira. Escolhemos onde morar.
Não me entenda mal, tudo isso é importante. Mas existe uma pergunta que talvez seja ainda mais importante:
O que acontece comigo quando a vida não respeita o meu planejamento?
Porque há uma diferença entre planejar a vida e acreditar que a vida nos deve obediência. Planejar é uma forma de responsabilidade. Acreditar que o planejamento nos protegerá da contingência é uma forma de ilusão…
Penso que habitar o mundo, ou exercitar nossa humanidade, é aprender a sustentar alguma estabilidade interna enquanto o lado de fora permanece em movimento.
Não significa aceitar tudo passivamente. Ou chamar qualquer sofrimento de “aprendizado”, romantizando dificuldades.
Significa, ao meu ver, que há coisas que precisamos combater.
Há injustiças que precisam ser enfrentadas.
Há decisões que precisam ser tomadas.
Há momentos em que precisamos dizer não.
Há uma parte da vida que simplesmente não está sob nosso comando. E, diante dela, você pode até se perguntar: “Por que isso está acontecendo comigo?”
É aqui que a contingência encontra a felicidade estoica.
Não porque os estoicos acreditassem que tudo que acontece conosco é bom. Mas porque uma das perguntas fundamentais da filosofia estoica é justamente distinguir aquilo que depende de nós daquilo que não depende.
O acontecimento pode escapar ao nosso controle. A nossa resposta a ele não precisa escapar, uma das formas mais concretas de liberdade. Não escolher todas as circunstâncias. Entretanto, participar da construção daquilo que faremos com elas.
A ameba não escolheu a bactéria. Mas, em determinado momento, sua existência passou a depender da relação estabelecida com aquilo que um dia foi estranho ao seu organismo.
Há uma imagem poderosa aí.
Às vezes, a vida coloca contextos dentro de nós, contextos que não pedimos…
Uma responsabilidade.
Uma mudança.
Uma perda.
Uma pessoa.
Uma nova versão de nós mesmos. E passamos algum tempo tentando expulsá-la. Até percebermos que o desafio não é só como eliminar aquilo que chegou, mas também como reorganizar a vida depois que aquilo chegou.
Será que é isso que a palavra “crescer” transmite?
Não tornar-se uma pessoa capaz de impedir que a vida nos atravesse. E sim, tornar-se uma pessoa capaz de se reorganizar sem deixar de ser quem é.
A criança precisa aprender a conviver com limites.
O adulto precisa aprender a conviver com responsabilidades.
Quem ama precisa aprender a conviver com a vulnerabilidade.
Quem estuda precisa aprender a conviver com a própria ignorância.
Quem envelhece precisa aprender a conviver com aquilo que o corpo já não faz como antes.
Maturidade existencial é menos sobre finalmente descobrir como controlar a vida e mais sobre descobrir quanta vida ainda conseguimos produzir quando perdemos o controle sobre ela.
Nós queremos estabilidade. Queremos que as coisas continuem iguais. Mas, se tudo permanecesse igual, não haveria crescimento.
Queremos conhecer o caminho. Mas algumas das transformações mais importantes da nossa vida nascerão justamente daquilo que não planejamos.
Eu já desejei diversas vezes uma existência sem contingências. Contudo, hoje desejo apenas que a vida me dê estrutura suficiente para atravessá-las.
Uma reserva financeira que permita respirar quando a economia aperta.
Uma educação que nos permita aprender a enxergar nossas limitações.
Uma rede de pessoas que nos sustente quando não conseguimos sustentar a nós mesmos.
Um corpo saudável para enfrentar os anos.
Uma mente capaz de rever suas próprias certezas.
Uma filosofia que nos ajude a distinguir aquilo que podemos transformar daquilo que precisaremos aprender a suportar.
IDEOLOGIA, EU QUERO UMA PARA VIVER
CAZUZA
Não para prever o futuro e garantir a estabilidade.
Mas para não desmoronar toda vez que ele chega diferente do que imaginávamos.
Acho bonita a ideia de que, em algum momento da história da vida, uma relação que poderia ter terminado em destruição acabou produzindo uma nova forma de vida.
É claro: não devemos transformar a evolução em uma fábula moral. A biologia não está tentando nos ensinar uma lição. A ameba não “escolheu” filosoficamente transformar adversidade em oportunidade.
Quem atribui sentido à contingência somos nós.
Essa é a nossa responsabilidade: receber os acontecimentos que a vida nos entrega e devolver a eles significado, propósito e pertencimento.
Nem sempre conseguiremos transformar uma dificuldade em algo bom.
Nem toda dor possui uma finalidade escondida. Ainda assim, podemos tentar construir, a partir daquilo que aconteceu, uma maneira mais sábia de continuar.
A insustentável leveza² do ser é balancear este eixo da vida:
Quando a vida colocar dentro de mim alguma coisa que eu não escolhi, eu vou passar o resto da existência tentando voltar a ser quem era — ou vou descobrir quem posso me tornar depois disso?
NOTAS
¹ “No meio do caminho” é uma referência ao poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade, publicado originalmente em 1928, na Revista de Antropofagia, e posteriormente incorporado ao livro Alguma Poesia (1930). O poema tornou-se célebre pela repetição da imagem da “pedra” encontrada no caminho, frequentemente interpretada como metáfora dos obstáculos e acontecimentos que interrompem o percurso esperado. No contexto deste texto, a referência é ressignificada: mais do que retirar a pedra do caminho, interessa pensar o que fazemos quando ela já está ali.
² “A insustentável leveza do ser” é uma referência ao romance A Insustentável Leveza do Ser, do escritor tcheco Milan Kundera, publicado originalmente em 1984. A obra parte da oposição entre leveza e peso para refletir sobre a existência humana, as escolhas e a impossibilidade de repetir a vida: cada decisão acontece uma única vez e, por isso, não pode ser comparada com outras versões possíveis de nós mesmos. No contexto deste texto, a expressão dialoga com a ideia de contingência: carregamos o peso das consequências de acontecimentos que não escolhemos, ao mesmo tempo em que experimentamos a leveza de uma existência que não pode ser repetida.
REFERÊNCIAS
Imagens da releitura de Sísifo retiradas do instagram @reservatoriodedopamina
Ou será que nós temos esquecido de alimentar nossas engrenagens internas?
Desde criança eu reparo que todo professor que um dia admirei — e continuo admirando — usava um desses relógios pequenininhos de pulso. Desses que mal dá para ver os ponteiros, sabe?
Geralmente tinham o mesmo padrão: arredondados, dourados e com uma fina pulseira de couro.
Nos meus vinte e poucos anos, comprei um parecido em uma feira em São Paulo. Permaneci com ele durante um bom tempo até que, já morando em Vitória, um grande amigo, dono de uma relojoaria, publicou a foto de um relógio¹ aparentemente modesto que fez eu me apaixonar de bate-pronto.
Tem algumas coisas na vida das quais eu simplesmente não entendo bulhufas: Carros, bordados e relógios são bons exemplos. Ainda assim, esse amigo pacientemente me explicou tudo sobre aquele relógio até que formalizamos o negócio e eu finalmente o comprei.
Na minha leiga ignorância sobre o assunto, lembro que, mesmo depois de ele ter explicado tudo, alguns dias depois — eu havia passado uma semana trabalhando em São Paulo — voltei para casa, peguei o relógio para usá-lo pela primeira vez e, para minha surpresa, ele estava parado.
Passei a mão no telefone e, seguindo minha experiência de quem acha que todo relógio precisa de bateria, mandei um áudio para o amigo:
— Rafa, tem alguma coisa errada. Acho que temos que trocar a bateria do relógio!
Minutos depois, ele respondeu me encaminhando um áudio no whatsapp com a mesma paciência de sempre:
— Julia, esse relógio funciona com corda, minha amiga.
Eu havia esquecido.
Bastava acertar as horas, girar a coroa algumas vezes e, a partir dali, as engrenagens internas fariam o restante. E não é que foi assim mesmo? Bastou dar corda no bendito e ele: pah! Funcionou perfeitamente. Naquela época, achei apenas curioso e a vida seguiu.
Hoje acho que talvez eu tenha comprado uma pequena lição de vida sem saber porque, enquanto escrevo este texto, cheguei ao fim de uma semana particularmente difícil.
Foi a primeira semana de aulas na UFES. Primeira semana que minha rotina virou de cabeça para baixo. Rotina essa que não parou só para que eu pudesse ser caloura novamente…
Teve Trabalho. Família. Estudos. Treinos. Compromissos. Mensagens. Prazos. Meta de trimestre. Gente precisando de mim. Eu tentando estar presente para todo mundo e, ao mesmo tempo, tentando não desaparecer de mim mesma. Em determinado momento, precisei desistir por alguns minutos. Eu juro. Só isso. Desistir por alguns minutos. Fui para a escada de incêndio do trabalho procurar uma coisa que havia se tornado um luxo nessa bendita semana: silêncio.
Levei uma xícara de café comigo. Sentei e respirei fundo. E, antes de dar o primeiro gole, olhei de relance para o pulso e percebi que o relógio estava parado. Pensei: “Será que é esse o problema?”. Mais ainda, que esse problema veio carregado de uma segunda pergunta um pouco mais incômoda: essa semana, quando foi a última vez que eu dei corda para as engrenagens internas que sustentam a minha própria vida?
Pois é. Eu não tinha dado. Penso que nossa vida seja um pouco parecida com esse fino relógio de corda. Existem momentos em que olhamos para ela e pensamos:
“Por que nada está funcionando?”
“Por que eu estou tão cansada?”
“Por que estou estagnada?”
“Por que parece que todo mundo está andando e eu fiquei para trás?”
“Por que o tempo está passando e eu não consigo acompanhar?”
Mas talvez, em alguns desses momentos, a pergunta não seja sobre o relógio e sim sobre a corda. Porque um relógio mecânico não funciona por mágica. Existe uma energia que precisa ser colocada dentro dele. Depois, essa energia percorre engrenagens minúsculas, uma após a outra, até produzir aquilo que conseguimos enxergar do lado de fora: o movimento dos ponteiros. É bonito pensar nisso. Porque quase tudo o que sustenta uma vida boa também acontece assim: Por dentro. Silenciosamente.
Ninguém vê a engrenagem.
As pessoas veem o ponteiro. Veem o resultado. O corpo. O diploma. O emprego. A casa. A viagem. A fotografia bonita. O relacionamento. O sucesso. O carro. Mas quase ninguém tem consciência daquilo que mantém tudo isso funcionando.
A disciplina. A prudência. A coragem. A honestidade. A ética. A capacidade de dizer não. O descanso. Dar o primeiro passo pedindo ajuda. A temperança. O cuidado. É aí que o estoicismo volta para mim.
A felicidade estoica² não promete uma vida em que tudo funciona. Muito pelo contrário.
Os estoicos sabiam que existem coisas que não estão sob nosso controle: A doença, a morte, a opinião dos outros, o acaso, o resultado de determinadas escolhas, a economia, o clima, o candidato eleito, a passagem do tempo. Não somos donos dos ponteiros. Mas somos responsáveis, na medida do possível, pela energia que colocamos nas engrenagens que dependem de nós, engrenagens essas que uma a uma moldam a sociedade.
Cabe aqui ressaltar brevemente as quatro engrenagens estoicas que nos ensinam a dar corda na vida, nas relações e no nosso caráter:
Sabedoria, para compreender o que está acontecendo e distinguir aquilo que depende de mim daquilo que não depende.
Coragem, para agir mesmo quando aquilo que precisa ser feito assusta.
Justiça, para lembrar que minha vida não existe isoladamente e que minhas escolhas também atingem as pessoas ao meu redor.
Temperança, para saber que nem toda corda precisa ser esticada.
Um relógio, assim como a vida, também pode ser danificado quando tentamos exigir dele mais do que seu mecanismo suporta.
Há momentos em que precisamos sim dar corda. Outros, em que precisamos apenas ajustar os ponteiros. E há momentos em que também precisamos simplesmente deixá-la repousar e seguir seu curso porque, o que cabia a nós (regular a corda), já foi feito.
Além das quatro virtudes, os estoicos constantemente repetem o mantra memento mori³. Isto é, o tempo está passando: Lembre-se de que você vai morrer.
À primeira vista, parece uma frase sombria. Para mim, é quase o contrário. É um convite para lembrar que os ponteiros estão andando. Que existe uma quantidade finita de tempo disponível. Que não temos a garantia de amanhã. E que justamente por isso precisamos prestar atenção à maneira como estamos utilizando o tempo que recebemos.
O problema é que lembrar da morte não significa correr desesperadamente contra o relógio. Significa compreender que cada segundo tem peso porque não volta.
A vida vai acontecendo. E talvez a grande pergunta não seja: “Quanto tempo ainda tenho?” Mas: “O que estou fazendo com o tempo que tenho?”
Penso nisso agora porque passei alguns dias tentando fazer o relógio funcionar sem perceber que havia esquecido de dar corda. Queria produtividade sem descanso. Disciplina sem temperança. Resultado sem processo. Movimento sem direção. E é aqui que reside a sabedoria filosófica. Não como uma coleção de frases bonitas para colocar em um post no instagram. E sim como uma maneira de olhar para a própria vida e perguntar: Que engrenagens estou alimentando?
Estou alimentando a vaidade? A comparação? A ansiedade? O ressentimento? A necessidade de aprovação? A pressa?
Ou estou alimentando aquilo que realmente quero que conduza minha vida? Sabedoria. Coragem. Justiça. Temperança.
Nossos hábitos conscientes são justamente a corda que damos diariamente à nossa existência.
Toda vez que escolhemos agir de acordo com aquilo que acreditamos ser correto, damos uma pequena volta na coroa. Toda vez que descansamos quando precisamos, mais uma. Toda vez que fazemos aquilo que sabemos que devemos fazer mesmo sem vontade, mais uma. Toda vez que recusamos uma pequena desonestidade, mais uma. Toda vez que tratamos alguém com dignidade mesmo quando seria mais fácil agir com crueldade, mais uma. Toda vez que reconhecemos que não sabemos, pedimos ajuda e aprendemos, mais uma. E então, lentamente, quase sem perceber, alguma coisa começa a funcionar.
Será que é daí que vem esta memória afetiva tão grande com esse relógio?
Não porque ele seja sofisticado, ou porque ele seja caro. Nem sequer porque eu entenda alguma coisa sobre relojoaria. Gosto dele porque ele me lembra uma coisa que tenho uma tendência enorme a esquecer: as coisas que importam precisam ser cuidadas.
Não existe vida em piloto automático. Não existe caráter em piloto automático. Não existe relacionamento em piloto automático. Não existe corpo em piloto automático. Não existe amizade em piloto automático. Não existe felicidade em piloto automático.
Até um relógio precisa receber energia para continuar fazendo aquilo para o qual foi construído. Nós também.
Às vezes essa energia vem do descanso. Às vezes, de uma conversa. Às vezes, de um livro. Às vezes, de um treino. Às vezes, de um café sozinho na escada de incêndio. Às vezes, de uma pessoa por quem estamos apaixonados. Às vezes, simplesmente da decisão silenciosa de continuar.
Hoje, quando olho para o meu relógio, não vejo apenas as horas. Vejo uma pergunta: Dei corda para a minha vida hoje?
Não necessariamente fazendo mais e sim fazendo melhor. Sendo mais presente. Talvez para você, leitor, seja dormindo, ou estudando ou dizendo não. Até mesmo, fazer melhor seja pedir desculpas. Perdoar. Praticar o silêncio.
Não quero passar pela vida apenas observando os ponteiros se moverem. Quero participar das engrenagens. Quero escolher, tanto quanto estiver ao meu alcance, aquilo que dá movimento à minha existência. E, quando a corda acabar, quero ter a tranquilidade de saber que não desperdicei o mecanismo inteiro tentando fazer o relógio marcar uma hora que não era a minha. Afinal, o tempo continuará passando independentemente de mim. O que depende de mim é como escolho viver enquanto ele passa.
É sobre isso. Dar corda.
Ajustar os ponteiros, respeitar os limites e cuidar das engrenagens. Dali pra frente elas irão continuar.
Segundo a segundo.
Minuto a minuto.
Hora a hora.
Dia a dia.
Até que, olhando para trás, eu possa reconhecer que não apenas o tempo passou.
Eu estive presente enquanto ele passava.
NOTA
¹ O relógio que acompanha esta história é um Zenith vintage, de fabricação suíça, provavelmente produzido entre as décadas de 1950 e 1960. Trata-se de um relógio social de pequena dimensão. Seu funcionamento é mecânico, de corda manual: em vez de utilizar bateria, a coroa tensiona uma mola no interior do mecanismo, que libera gradualmente sua energia e movimenta os ponteiros. A peça conserva características originais de sua época, incluindo a caixa delicada, a coroa serrilhada e a pulseira fina de couro. Mais do que um objeto de alta relojoaria, para mim ele acabou se tornando uma pequena lembrança diária de que até aquilo que parece parado pode estar apenas precisando de energia para voltar a se mover.
² Felicidade estoica — Na tradição estoica, a felicidade está relacionada à eudaimonia, isto é, ao florescimento humano por meio de uma vida vivida de acordo com a razão e com a natureza. Esse caminho é sustentado pelo exercício das quatro virtudes cardeais: sabedoria, para distinguir o que é verdadeiro, bom e está sob nosso controle; coragem, para agir corretamente diante do medo e da adversidade; justiça, para reconhecer que nossa vida também se realiza na relação com os outros; e temperança, para estabelecer medida sobre desejos, impulsos e paixões. Assim, a felicidade não é algo que simplesmente encontramos, mas algo que construímos pelo caráter e pelas escolhas que repetimos diariamente. É nesse sentido que uso a expressão felicidade estoica: não como promessa de uma vida sem problemas, mas como o esforço contínuo de aprender a viver bem, qualquer que seja o movimento das circunstâncias.
³ Memento mori é uma expressão latina que significa, literalmente, “lembre-se de que você morrerá”. Embora a frase tenha se tornado fortemente associada ao estoicismo, sua formulação e circulação histórica são mais amplas do que a filosofia estoica. Para os estoicos, porém, a consciência da finitude não deveria produzir medo, mas urgência para viver bem: a morte é uma das coisas que não dependem de nós; o que depende de nós é a maneira como utilizamos o tempo que nos foi concedido. Em vez de esperar que a vida nos lembre de sua brevidade apenas quando algo termina, o memento mori nos convida a perguntar, enquanto ainda temos tempo: “O que estou fazendo com a vida que tenho?” É justamente nesse sentido que a expressão se conecta à imagem do relógio: os ponteiros continuam avançando, independentemente de estarmos atentos a eles.
A verdadeira força pode começar quando a batalha termina.
Nas últimas duas semanas, um sentimento estranho me incomoda, me ronda e me cerca.
Eu consegui.
Estabeleci uma vida confortável no Espírito Santo começando do zero, sem amigos e sem família no dia a dia para me apoiar.
Comecei como única mulher do meu setor – em um ambiente predominantemente masculino – e hoje inspiro e treino mais três novas executivas na equipe a conquistarem seu lugar ao sol e baterem suas primeiras metas.
Trabalho na sexta maior empresa de tecnologia do mundo e todos, incluindo a diretoria e presidência da empresa, confiam em mim, não importa o tamanho da entrega.
Passei na Universidade Federal do Espírito Santo.
Terminei o triathlon olímpico.
Coisas que, durante muito tempo, ocuparam uma enorme quantidade da minha energia, dos meus pensamentos e da minha disciplina. Coisas essas que finalmente aconteceram.
E eu achei que sentiria apenas felicidade pelas conquistas. Mas, depois da euforia, veio uma sensação que eu não esperava: silêncio. E essa ausência me assusta porque durante meses, na verdade anos, sempre havia algo que eu precisava muito fazer.
Treinar. Estudar. Persistir. Acordar cedo. Cumprir a planilha. Fazer fisioterapia.
Correr. Nadar. Pedalar.
Trabalhar. Resolver. Avançar.
Fazer algo.
Havia sempre alguma coisa para conquistar, algum obstáculo para atravessar, alguma montanha para subir. Agora não.
Eu não preciso treinar forte todos os dias. Posso fazer um treino leve porque a competição já passou. Posso chegar em casa depois de uma aula da faculdade, tomar banho e dormir. Não preciso acordar pensando no próximo edital. Não preciso transformar cada semana em uma preparação para alguma coisa. E isso justamente me deixa inquieta.
Porque passei tanto tempo aprendendo a lutar que agora preciso aprender a viver quando não há uma batalha acontecendo.
Meu terapeuta costuma dizer que sou uma pessoa extremamente corajosa. Minha família, há anos, desde que saí de casa para morar no Ceará, em Fortaleza, brinca me chamando de “melhor soldado”. Acho que eles dizem isso porque, diante de um obstáculo, eu simplesmente começo a procurar uma saída. Não importa muito o tamanho do problema. Eu olho para as condições que tenho, entendo meus limites, descubro o que está ao meu alcance e faço o que precisa ser feito. É uma característica da qual gosto. Mas ultimamente essa característica começou a me perseguir de outra forma:
Quem eu sou quando não preciso provar que sou capaz?
Se ser forte é uma das características mais marcantes da minha identidade, o que acontece quando não preciso ser forte?
Se eu sempre estou me preparando para a próxima batalha, será que sei reconhecer quando é hora de guardar a espada e repousar o escudo?
Ou será que, secretamente, preciso de uma luta externa para continuar reconhecendo quem sou?
Felicidade estoica hoje me leva a refletir que a vida reclama que estejamos prontos a buscar a metamorfose de Ovídio¹.
“As Metamorfoses” não é apenas uma obra com uma coleção de histórias fantásticas sobre deuses, heróis, monstros e homens. É, talvez, uma das maiores obras já escritas sobre aquilo que significa estar vivo.
Em Ovídio nada permanece exatamente como é.
Pessoas viram árvores. Homens viram animais. Mulheres viram flores. Pedras ganham vida. Corpos desaparecem. Amores mudam. Impérios caem. E, por trás de todas essas transformações, existe uma ideia incômoda:
Não existe permanência. Tudo muda. Nós mudamos.
O maior perigo não é a mudança em si, mas em não percebermos no que estamos nos transformando.
Narciso olha para o próprio reflexo e se torna prisioneiro daquilo que contempla.
Midas deseja que tudo aquilo que toca se transforme em ouro e descobre tarde demais que aquilo que parecia poder também pode se transformar em condenação.
Aracne transforma sua habilidade em soberba e desafia aquilo que não reconhece como maior do que ela.
Ícaro recebe asas para escapar e morre justamente porque não soube reconhecer o limite entre a liberdade e a imprudência.
É curioso pensar nisso agora.
Porque eu passei tanto tempo aprendendo a voar que posso estar começando a esquecer que quando parar de voar.
Olho para a tatuagem da carruagem alada no meu corpo e penso nisso, de novo e de novo. Durante muito tempo, eu achei que a pergunta importante era:
“Consigo?”
Consigo terminar? Consigo correr? Consigo nadar? Consigo estudar? Consigo trabalhar? Consigo suportar? Consigo chegar até lá? E quase sempre a resposta foi sim.
Agora a pergunta é muito mais difícil: “Devo?”
Devo continuar acelerando? Devo transformar todo descanso em preparação? Devo transformar todo desejo em meta? Devo transformar toda oportunidade em obrigação? Devo continuar correndo e fazer um ironman apenas porque descobri que consigo?
Busco responder qual a diferença entre coragem e temperança.
A coragem nos ensina a atravessar a tempestade.
A temperança nos ensina a reconhecer quando não precisamos atravessá-la.
Respiro fundo na rede e abraço mais um poema de Ovídio. O problema de Ícaro não era ter asas. Era não saber quando parar de subir. Ele recebeu uma ferramenta extraordinária e confundiu capacidade com permissão.
Poder fazer alguma coisa não significa que devemos fazê-la.
Uma das lições mais difíceis para alguém acostumado a vencer desafios. Porque existe uma embriaguez particular em descobrir que somos capazes.
Você vence uma coisa. Depois outra. E outra. E começa a construir uma identidade em torno da própria capacidade de superar. Até que, sem perceber, a superação deixa de ser uma ferramenta e vira uma prisão.
Você não descansa porque “consegue mais”. Não recusa porque “dá conta”. Não para porque “ainda aguenta”. Não aceita o suficiente porque sempre existe um pouco mais que poderia ser conquistado. E então aquilo que um dia foi coragem começa a se transformar em compulsão.
É aqui que Ovídio volta a fazer sentido.
As metamorfoses não acontecem apenas no corpo. Elas acontecem no caráter.
Nossos hábitos, escolhas, paixões e desejos vão lentamente inscrevendo quem somos na forma da nossa vida.
A pessoa que escolhe a vaidade repetidamente se torna mais vaidosa.
A pessoa que alimenta o ressentimento se torna ressentida.
A pessoa que precisa provar o próprio valor o tempo inteiro se torna dependente da prova.
A pessoa que não sabe parar pode, pouco a pouco, esquecer por que começou a correr.
E eu não quero isso.
Não quero me tornar escrava das minhas próprias virtudes.
Não quero que a disciplina que me salvou se transforme na rigidez que me aprisiona.
Não quero que a coragem que me trouxe até aqui me impeça de reconhecer quando é hora de repousar.
Não quero precisar estar sempre vencendo para me sentir alguém.
Penso que em algum momento da vida há uma nova pergunta esperando por todos nós:
Quem somos quando não estamos tentando chegar a lugar nenhum?
Ainda não sei completamente. E talvez essa seja a resposta por enquanto…
Durante muito tempo, eu quis construir uma identidade baseada naquilo que conseguiria conquistar. Agora começo a perceber que existe uma identidade muito mais profunda escondida atrás das conquistas.
O caráter.
A maneira como trato as pessoas.
A honestidade com que reconheço meus próprios limites.
A disposição de aprender.
A capacidade de permanecer gentil quando ninguém está olhando.
A coragem de pedir ajuda.
A temperança de saber quando parar.
A justiça de reconhecer que o mundo não existe apenas para atender as metas que estabeleço.
A sabedoria de perceber que, por mais que eu saiba um pouco, existe um universo inteiro que ainda desconheço.
Isso permanece quando todas as medalhas deixam de importar.
Quando o diploma já está na parede. Quando a planilha é encerrada. Quando a prova termina. Quando ninguém mais está olhando.
Quem somos quando não precisamos provar nada?
Apenas pensar sobre a resposta nos coloca em um patamar mais próximo de finalmente livres para descobrir quem somos de verdade.
Ovídio termina As Metamorfoses falando sobre sua própria obra e sobre o que sobrevive à passagem do tempo.
Ele sabia que seu corpo morreria. Sabia que seu mundo mudaria. Sabia que impérios desapareceriam. Mas acreditava que aquilo que havia criado poderia continuar existindo depois dele.
Não a imortalidade do corpo. Mas a do caráter.
Daquilo que ensinamos. Daquilo que despertamos. Das pessoas que tratamos com dignidade. Dos filhos que educamos. Dos amigos que acolhemos. Das ideias que deixamos. Dos gestos que alguém reproduz anos depois sem sequer lembrar de onde aprendeu.
A minha maior preocupação talvez não devesse ser construir uma vida que prove o quanto sou capaz e sim construir uma vida que, quando eu não estiver mais aqui, tenha deixado alguma coisa boa para trás.
Porque as medalhas oxidam. Os títulos mudam de dono. Os corpos envelhecem. Os prédios caem. Os resultados são esquecidos. Mas aquilo que fazemos com o nosso caráter pode atravessar gerações. Essa é a verdadeira metamorfose que nos cabe.
Não transformar nosso corpo em algo extraordinário. Mas transformar, pouco a pouco, aquilo que somos.
Trocar culpa por diálogo.
Pressa por presença.
Vaidade por verdade.
Medo por coragem.
Excesso por temperança.
Egoísmo por cuidado.
Até que, um dia, olhando para trás, possamos reconhecer que todas aquelas pequenas escolhas silenciosamente construíram alguém que valeu a pena ser.
Eu e você podemos não saber para onde devemos apontar nossa carruagem alada². Está tudo bem, não precisamos saber agora. Depois de tantos anos aprendendo a acelerar, a próxima grande lição pode ser simplesmente aprender a conduzi-la.
Saber quando subir. Quando descer. Quando enfrentar o vento. Quando mudar a rota. E, principalmente, quando não voar perto demais do sol. Porque viver não é chegar o mais longe possível. Pode ser atravessar o tempo sem perder a própria humanidade no caminho.
E se tudo está destinado a mudar, como ensinou Ovídio, que pelo menos uma coisa permaneça em movimento: a construção consciente de quem escolhemos ser.
Para mim, a única viagem que realmente importa. E a única vitória que o tempo não consegue nos tirar.
NOTAS
¹ Metamorfoses, de Ovídio —Metamorfoses (Metamorphoseon, em latim), escrita pelo poeta romano Públio Ovídio Nasão no início do século I d.C., é um longo poema narrativo composto por quinze livros que reúne cerca de 250 mitos ligados por um tema comum: a transformação. De deuses a mortais, de homens a animais, árvores ou constelações, Ovídio utiliza a metamorfose para refletir sobre desejo, poder, orgulho, sofrimento, identidade e a impermanência da vida. Mais do que uma coleção de mitos, a obra pode ser lida como uma investigação poética sobre a condição humana: aquilo que somos está permanentemente se transformando, e nossas paixões, escolhas e ações participam dessa transformação.
² A metáfora da carruagem— A imagem da carruagem alada utilizada neste texto dialoga principalmente com o Fedro, de Platão, no qual Sócrates apresenta a famosa alegoria da alma como uma carruagem conduzida por um cocheiro e puxada por dois cavalos (que fiz uma releitura em conjunto com a artista e tatuadora Lis Torres). O cocheiro representa a razão; os cavalos, as forças e desejos que movem a alma, sendo um associado à disciplina e à nobreza e o outro aos impulsos desordenados. A carruagem, portanto, não representa apenas deslocamento, mas a própria condução da vida: cabe ao cocheiro aprender a governar forças que nem sempre apontam na mesma direção. É nesse sentido que a imagem aparece aqui: depois de aprender a acelerar e vencer obstáculos, talvez a próxima tarefa seja reaprender a conduzir (apenas) — reconhecer quando avançar, quando mudar a rota e quando conter o próprio impulso.
Outro dia, ouvi meu podcast preferido: a energia dos arcanos. Para quem não sabe, nele a hostess, Rita Araújo, fala sobre a carta do dia a qual, enquanto escrevo este texto é o três de paus. A metáfora para explicar esse arcano menor¹ durante o episódio, foi um sujeito diante do infinito oceano, olhando para o horizonte, como quem ainda não sabe exatamente o que encontrará do outro lado mas ainda assim vai.
Um descobridor. Um navegador. Alguém prestes a partir. A conquistar.
O curioso é que, enquanto ouvia, minha cabeça imediatamente foi parar em uma música que você leitor provavelmente conhece: Descobridor dos setes mares², do Tim Maia.
Pensei: Navegar eu quero.
Existe algo tão profundamente humano nesse desejo.
Durante séculos, nós olhamos para o horizonte e sentimos curiosidade pelo que havia depois dele. Atravessamos os oceanos sem saber exatamente o que encontraríamos. Entramos em florestas que não conhecíamos. Subimos montanhas. Observamos o céu. Mapeamos territórios. Fizemos perguntas para as quais não tínhamos respostas. E, muitas vezes, foi justamente a ausência delas que nos fez partir.
Hoje, em contrapartida, temos um problema curioso.
O mundo ficou muito menor. E as respostas, muito mais próximas. Se quero saber alguma coisa, pergunto a OPENAI³. Se quero aprender alguma coisa, procuro um tutorial. Se quero estudar, encontro uma aula. Se quero uma opinião, encontro milhares. Se quero uma síntese de um livro, alguém já fez. Se quero organizar meus pensamentos, uma inteligência artificial pode me ajudar. Se quero saber o caminho, o GPS me mostra. Se quero saber o que outras pessoas pensam, basta abrir uma rede social. Temos mapas para praticamente tudo e talvez por isso estejamos perdendo o gosto pela navegação.
Não porque deixamos de ser curiosos. Mas porque começamos a acreditar que toda pergunta precisa terminar rapidamente em uma resposta. O grande paradoxo do nosso tempo…
Nunca tivemos tanto acesso à informação. Por outro lado, nunca tivemos tanta dificuldade para simplesmente permanecer diante de uma pergunta. Em habitar de verdade a diferença enorme entre receber informação e buscar conhecimento.
Uma resposta pronta pode informar. Entretanto, a procura transforma. É durante a procura que somos obrigados a duvidar. A comparar. A errar. A voltar. A mudar de ideia. A buscar ajuda, dialogar. A descobrir que aquilo que acreditávamos saber era mera opinião.
Os gregos e filósofos tinham uma palavra para o conhecimento verdadeiro; fundamentado: a episteme⁴. E tinham outra para aquilo que é opinião, aparência, crença: doxa⁴. Caramba, como temos vivido cercados por tanta doxa.
Ela chega pelo celular. Pelo algoritmo. Pelo vídeo de trinta segundos. Pelo comentário de alguém que fala com absoluta convicção sobre aquilo que pesquisou por cinco minutos. Pelo influenciador que transforma opinião em autoridade. Pelo especialista autoproclamado. Pelo amigo que compartilha uma informação porque “viu em algum lugar”. E existe algo particularmente perigoso na doxa: Ela não precisa ser verdadeira para parecer verdadeira. Basta ser convincente. Basta ser repetida. Basta aparecer muitas vezes. Basta ser dita por alguém que fala bem. E é por isso que a filosofia continua sendo tão necessária na minha vida e espero que você a convide para a sua também.
Ela nos ensina a desconfiar da facilidade com que acreditamos que sabemos. Sócrates⁵ fez disso praticamente uma forma de viver, para si e seus alunos. Não porque acreditasse que nada poderia ser conhecido. Mas porque compreendeu algo muito mais desconfortável: há uma diferença entre aquilo que sabemos e aquilo que apenas acreditamos saber. A verdadeira virtude começa justamente nesse espaço.
Entre a certeza e a dúvida. Entre a doxa e a episteme.
Nesse sentido, a tecnologia nos interessa (e muito). Não tenho medo dela, tampouco da inteligência artificial. Nem você leitor deveria. Pelo contrário. Eu as utilizo. Todos os dias, para as mais variadas tarefas. E acho extraordinário poder conversar com uma ferramenta capaz de me ajudar a pesquisar, organizar ideias, encontrar referências e enxergar ângulos que talvez eu não tivesse percebido sozinha.
Agora, faça a si mesmo uma pergunta:
Essas ferramentas que você usa, são para navegar melhor ou para deixar de navegar?
Uma coisa é usar um mapa para atravessar um território. Outra é nunca olhar para a paisagem porque o mapa já disse onde estamos.
Uma coisa é utilizar uma inteligência artificial para ampliar nossa capacidade de pensar. Outra é terceirizar o próprio pensamento.
Uma coisa é perguntar. Outra é deixar de ter curiosidade.
E aí reside a ameça; o risco. Não na existência das respostas. Mas na nossa perda de apetite pelas perguntas genuínas. Dessas que tangibilizam as coisas mais importantes da vida, que não possuem nem possuirão um tutorial.
Como amar alguém. Como perdoar. Como criar um filho para o mundo. Como lidar com a morte. Como descobrir quem somos. Como decidir pelo justo mesmo que haja perda. Como saber quando insistir e quando partir. Como viver uma vida boa. Como definir o que é uma vida boa. Como distinguir aquilo que desejamos daquilo que realmente precisamos.
Para essas coisas, podemos consultar filósofos, cientistas, livros, professores, amigos e até inteligências artificiais. Mas no fim do dia ninguém conseguirá navegar na resposta verdadeira para nós e por nós.
Há uma parte da viagem que permanece inevitavelmente nossa. E nós enquanto navegadores não possuiremos todas as respostas. Instrumentos, mapas, conhecimento acumulado por quem veio antes, claro. Mas ainda é preciso partir. Ainda é preciso olhar para o horizonte. Lidar com o vento. Corrigir a rota.
Viver filosoficamente é um pouco isso. Não saber exatamente onde vamos chegar, mas ter coragem suficiente para sair em busca do que nos tornará maiores do que quando viemos ao mundo. A espécie de vida que nasce quando deixamos de exigir certezas. Uma vida em que o desconhecido é um convite, uma pergunta que pode sim permanecer aberta. Por que não?
Uma dúvida não precisa ser resolvida antes do jantar. Tudo bem dizer: eu não sei. E continuar. Uma das frases mais honestas que um ser humano pode pronunciar. Eu não sei.
Não sei se isso é verdadeiro. Não sei se estou certo. Não sei qual é o melhor caminho. Não sei o que existe depois daquele emprego/relacionamento/golpe etc. Mas quero descobrir.
Quero ler.
Quero perguntar.
Quero conversar.
Quero experimentar.
Quero errar.
Quero mudar de ideia.
Quero conhecer.
Quero navegar.
A vida não é uma viagem cujo objetivo é chegar ao lugar onde todas as respostas estão. É a própria disposição de continuar fazendo perguntas melhores para chegar naquilo que é, em essência, verdadeiro.
Aquilo que é justo. Aquilo que é bom. Aquilo que é belo. Aquilo que merece ser vivido. Por todos…
Diante de um mundo que tenta nos entregar tudo pronto, essa disposição pelo incógnito é uma pequena forma de liberdade.
Então, se me perguntarem o que quero fazer com tudo aquilo que ainda não sei…
Eu acho que já tenho a resposta.
Navegar, eu quero.
NOTAS
¹ Três de Paus — Arcano menor do tarô tradicional, frequentemente associado à expansão, aos horizontes e à disposição para explorar aquilo que ainda não foi conhecido. A imagem de uma figura contemplando o horizonte ajuda a representar o momento anterior à partida: já existe um caminho percorrido, mas o que está além ainda permanece desconhecido.
² Navegar eu quero” — referência à canção Descobridor dos Sete Mares, de Tim Maia, lançada em 1983. A música celebra, em tom quase mítico, a figura do navegante que deseja conhecer o mundo e partir em direção ao desconhecido. Aqui, a expressão é utilizada como metáfora para a disposição humana de explorar aquilo que ainda não sabemos
³ OPENAI — É uma empresa de pesquisa e tecnologia de inteligência artificial dos Estados Unidos, fundada em 2015. Ela é famosa por criar o ChatGPT e o gerador de imagens DALL-E, com o objetivo de desenvolver sistemas de IA seguros que ajudem toda a humanidade.
⁴ Episteme e doxa — termos de origem grega fundamentais para a reflexão filosófica sobre o conhecimento. Episteme pode ser compreendida como conhecimento fundamentado, enquanto doxa corresponde à opinião, crença ou percepção não necessariamente sustentada por fundamentos sólidos. A distinção aparece de diferentes formas na filosofia grega, especialmente nas discussões de Platão sobre conhecimento e opinião.
⁵ Sócrates — filósofo ateniense do século V a.C., conhecido por transformar o questionamento em método de investigação filosófica. Embora a famosa formulação “só sei que nada sei” não apareça literalmente dessa forma nos textos de Platão, ela sintetiza uma ideia recorrente nos diálogos socráticos: reconhecer a própria ignorância é condição para começar a investigar aquilo que se acredita saber.
A única vitória que torna todas as outras possíveis.
Esta semana desabei de cansaço e até chorei porque pela primeira vez tive a sensação de que talvez não consiga terminar uma coisa importante para mim, a prova de triathlon.
Engraçado escrever isso depois de tudo o que aconteceu nos últimos 10 meses (enquanto escrevo esse texto).
Não chorei quando descobri que precisaria operar a coluna. Não chorei quando ouvi que talvez demorasse meses para recuperar os movimentos. Nem quando passei dias andando apenas alguns minutos porque o corpo simplesmente não suportava mais. Mas chorei agora. Não durante a cirurgia. Não durante a recuperação. Chorei duas semanas antes do triathlon.
Semana passada, uma gripe forte interrompeu praticamente toda a reta final da preparação. Enquanto faço as contas do calendário penso em vários fatores ruins. Mais ainda, que eu vou ter que viajar quatro dias a trabalho para Santa Catarina, enfrentar o frio, mudar completamente minha rotina e voltar dois dias antes da prova. E isso tudo ainda cobrindo as férias do meu chefe e sendo responsável por toda a equipe…
Minha cabeça negocia comigo e me pego observando pensamentos como:
“Talvez você não consiga.”
“Talvez não esteja pronta.”
“Talvez tenha sido esforço demais para nada.”
“Seu trabalho é mais importante, como você vai fazer a prova e viajar?”
“O que vão pensar se você desistir? Se parar no meio?”
Enquanto esses pensamentos martelam a minha cabeça, resolvi fazer outra coisa, esvaziar minha mente com algo que geralmente dá certo: lavar a louça. Às vezes, as atividades mais simples que organizam as ideias mais difíceis. Ali, enxaguando os pratos, lembrei de uma frase que eu mesma escrevi meses atrás, quando comecei, em uma planilha onde acompanho meus objetivos.
A frase é:
“Terminar o triathlon olímpico. Vencer a mim mesma antes de vencer o mundo“
Parei alguns segundos. Respirei. Meus olhos encheram d’água novamente e ali eu tive uma nova descoberta. Que eu passei meses acreditando que essa frase era sobre a superação física e naquela tarde descobri que não era.
Quando decidi fazer um triathlon, inicialmente meu objetivo era completar uma prova para comemorar minha saúde. Hoje vejo que completar a prova significa outra coisa completamente diferente. E essa prova, eu já completei.
Não quando comecei a correr.
Não quando aprendi a nadar.
Não quando subi na bicicleta.
Mas no dia em que voltei a acreditar que ainda existia uma vida depois da dor.
Completei porque, poucos meses antes, existia a Julia que não conseguia carregar uma garrafa de água de 500ml sem sentir dor. Cinco minutos caminhando já eram suficientes para o meu corpo pedir descanso. Respirar doía. Dormir exigia encontrar uma posição que não machucasse. Naquela época, terminar um triathlon seria uma ideia quase ofensiva.
Lembro exatamente do instante em que a ideia nasceu. Caminhava na esteira depois de ser liberada para voltar a pedalar. Pela primeira vez em meses, eu não sentia dor. Sorri e pensei: “Vou fazer um triathlon.”
Hoje percebo que aquele momento nunca foi sobre condicionamento físico. Era, de novo, sobre recuperar a confiança de que ainda existia uma vida depois da dor.
Pensamos que vencer a nós mesmos significa realizar grandes feitos. Mas começo a desconfiar de que acontece exatamente o contrário.
Vencer a si mesmo raramente é um acontecimento extraordinário.
É uma coleção de decisões pequenas. É alguém absolutamente comum fazendo, todos os dias, pequenas escolhas extraordinariamente consistentes.
Levantar quando ninguém está olhando.
Ir à fisioterapia mesmo sem vontade.
Dormir cedo.
Respeitar o repouso.
Pedir ajuda.
Recomeçar.
Continuar.
Permitir que alguém carregue o peso por você.
Além disso, a realidade cruel me bate quando lembro que enquanto estou aqui, preocupada com uma prova, minha avó ficou quatro dias internada na UTI e depois um grande susto para a família, receberá alta. Que minha tia, uma das pessoas que mais admirei (e admiro) durante toda a minha vida, também enfrenta problemas sérios de saúde. Conversando por vídeo, ouvi dela algo que me emocionou profundamente. Ela disse que acompanhar minha preparação para o triathlon a motivava a cuidar da própria saúde.
Será que foi mesmo o triathlon que a inspirou/motivou? Acredito que não.
Eu não conquistei nenhuma medalha. Tampouco cruzei a linha de chegada. Mas essa mulher, uma segunda mãe para mim, me diz cheia de afeto que o que ela enxerga é alguém que continuou tentando vencer suas pequenas batalhas diárias.
O que deveria nos inspirar no outro não se trata de resultados ou fotos instagramáveis. É aquilo que o outro precisou se tornar para alcançá-los.
Vivemos querendo mudar o mundo. Eu também quero.
Quero um mundo onde nenhuma mulher tenha medo de voltar sozinha para casa.
Quero um mundo sem fome. Sem violência. Sem corrupção. Sem crianças abandonadas.
Quero uma sociedade mais justa. Mais gentil. Mais consciente.
Mas ultimamente tenho pensado que existe um perigo escondido nisso. É muito fácil desejar transformar a humanidade enquanto ignoramos aquilo que acontece dentro de nós.
Queremos acabar com a violência enquanto alimentamos pequenas agressividades.
Queremos saúde, mas mexemos no celular na cama, noite adentro.
Queremos honestidade enquanto justificamos pequenas desonestidades.
Queremos empatia mas somos incapazes de dialogar com quem pensa diferente.
Queremos uma sociedade menos egoísta. Mas nem sempre percebemos o egoísmo que carregamos conosco. Eu, inclusive. Toda grande transformação coletiva começa exatamente onde quase ninguém gosta de olhar. Na escala de uma única consciência.
Os estoicos diziam que algumas coisas dependem de nós. Outras, não.
Não depende de mim quando vou adoecer. Nem a morte. Nem a injustiça. Nem a economia. Nem o comportamento das outras pessoas. Mas depende de mim decidir quem continuo sendo diante de tudo isso. Essa é a batalha mais difícil da existência.
Porque vencer o mundo pode acontecer por acaso. Mas vencer a si mesmo…
Essa é uma tarefa suficientemente difícil para ocupar uma vida inteira.
Existe uma frase de Sêneca que acompanha meus dias há algum tempo. Ela fica escrita no alto da planilha onde organizo meus sonhos.
“Tenha a satisfação de ver seus vícios morrerem antes de você.”
Quanto mais penso nela, mais eu vou tomando consciência das coisas que preciso mudar.
Daquela parte de nós, de mim, que insiste em permanecer pequena quando a vida nos convida a crescer. Essa é a verdadeira vitória. Não aquela que sobe ao pódio, nem aquela que faz o oba oba e recebe a medalha no pescoço. É a que acontece silenciosamente, dentro de quem aprende o que deve morrer um pouco em si para a humanidade renascer melhor.
Não sei se terminarei o triathlon.
Talvez caminhe.
Talvez pare.
Talvez meu corpo cobre um preço que minha vontade não consiga pagar.
Mas existe uma coisa que ninguém pode tirar de mim.
A pessoa que precisei me tornar para chegar até a linha de largada.
Porque medalhas oxidam. Recordes são quebrados. Títulos mudam de dono. O corpo envelhece. Mas nenhuma derrota é capaz de desfazer a vitória de quem lapidou o próprio caráter. Essa que transforma quem a conquista. Por isso sigo acreditando que um mundo melhor nunca começará nas grandes revoluções.
Talvez seja por isso que Sêneca dizia para termos a satisfação de ver nossos vícios morrerem antes de nós. Porque, no fim, vencer a si mesmo é sobre a construção de alguém capaz de permanecer íntegro, mesmo quando não há pódio algum esperando no final do caminho.
Na escolha diária de morrer um pouco para que algo melhor possa nascer dentro de nós.
Porque, no fim das contas, nenhuma vitória muda tanto o mundo quanto aquela que muda primeiro quem a conquistou.
A perda de tempo de quem se acostumou a medir a vida pelo movimento.
Esta semana meu corpo tomou uma decisão sem me consultar.
Ele decidiu repousar. Imagina, que ultraje?!
A verdade é que eu já sabia que isso aconteceria depois de deliberadamente escolher fazer uma tatuagem grande, cobrindo o abdômen e parte das costelas, não existia outro caminho possível né (risos).
Sem natação.
Sem bicicleta.
Sem fisioterapia.
Sem boa parte da rotina que costumo usar para organizar a cabeça, a mente e o espírito.
Mesmo sabendo da necessidade de descansar algo dentro de mim resistiu. Porque existe uma diferença gritante entre saber que precisamos parar, aceitar que precisamos parar e de fato parar.
Me peguei nesse tapete de Penélope¹, desfazendo durante o dia aquilo que havia decidido pela manhã. Marquei e desmarquei com a fisioterapeuta, com a professora de dança, o rolê com os amigos.
O desconforto da cicatrização começou a me abalar. Percebi o quanto, de um lado, meu corpo estava exigindo repouso e, de outro, minha mente insistia em negociar. Como um cabo de guerra.
Sem poder movimentar o corpo, resolvi movimentar uma palavra.
Como não podia correr para lugar nenhum, corri atrás dessa singela palavra: repouso. Ela, para mim, sempre foi uma intrigante dificuldade que esconde dentro de si duas partes:
Re-pousar.
É como pousar outra vez. Voltar ao solo. Retornar à terra firme.
Deitada, com as linhas da tatuagem besuntadas de óleo de coco, focada em não me mexer, pensei nos aviões…
Depois de meditar por longos minutos, constatei um fato: nenhum piloto passa horas preparando uma decolagem para simplesmente permanecer no ar para sempre. Então por que era o que estava tentando fazer?
“Julia, todo voo pressupõe um pouso”. Disse a mim mesma.
Veja, todo deslocamento pressupõe uma pausa. É, o óbvio realmente precisa ser dito.
Recorri à internet para alimentar meu novo objeto de curiosidade: como pousar um avião.
Descobri algo interessante: antes de pousar, pilotos executam uma série de verificações para garantir que a aeronave e seus passageiros chegarão em segurança ao destino. Não é nem de longe a parte mais glamourosa da viagem. Contudo, é uma das mais importantes.
Internamente, pensei com meus botões: E se minha vida fosse um avião? quais seriam os procedimentos necessários para repousar? Peguei papel e caneta e construí um pequeno checklist…
Admitir que o combustível é finito
#1 procedimentos necessários para repousar
Nenhum piloto ignora o nível de combustível.
Nenhum avião permanece voando indefinidamente. Mas nós tentamos.
Ah, o ser humano… seria cômico se não fosse trágico.
Dormimos menos.
Aceleramos mais.
Empilhamos compromissos.
Transformamos a exaustão em medalha.
Como se reconhecer limites fosse sinal de fraqueza. Não é.
Verificar as condições externas
#2 procedimentos necessários para repousar
Antes de pousar, um piloto observa vento, visibilidade, pista e condições meteorológicas. Não porque controla essas variáveis, mas porque precisa respeitá-las. Se necessário, ele irá cancelar o voo. Mesmo que isso não satisfaça a opinião pública.
Nós raramente fazemos o mesmo. Eu raramente faço o mesmo.
Insistimos em exigir de nós produtividade máxima durante períodos que pedem recolhimento. Queremos desempenho de verão em estações de inverno.
Resultado?
Chamamos de fracasso aquilo que muitas vezes é apenas incompatibilidade entre expectativa e realidade.
Reduzir velocidade
#3 procedimentos necessários para repousar
Nenhum avião pousa acelerando.
Ele desacelera.
Perde altitude.
Ajusta trajetória e só então abre espaço para tocar o chão.
Penso que a vida funciona de forma parecida. Com fases que não exigem crescimento e sim assimilação.
Não produzir. Integrar.
Não lutar. Cicatrizar.
Foi isso que meu corpo me ensinou esta semana.
Enquanto eu observava a tatuagem cicatrizando, a pele rejeitando o filme protetor e o desconforto aparecendo até para respirar, percebi uma coisa curiosa:
A natureza não considera o repouso uma interrupção da vida. Nós é que consideramos.
Para a natureza, repouso também é processo.
A ferida repousa para fechar.
O alimento repousa para ser digerido.
A lagarta repousa no casulo antes de ganhar asas.
Até o solo que pisamos entra em repouso para voltar a produzir, a ter fertilidade.
Só nós – humanos – parecemos acreditar que viver significa estar em movimento permanente.
Por isso essa semana a palavra “repousar” me pareceu tão bonita, tão filosófica.
Pesquisei e sua origem remonta ao latim repausare, ligada à ideia de descansar, pausar e retornar a um estado de equilíbrio. Curiosamente, o prefixo re- carrega justamente esse sentido de voltar, retornar, fazer novamente.
Repousar não é desistir da viagem. É garantir que ela possa continuar.
Não é abandonar o voo.
É tocar o solo por tempo suficiente para que uma nova decolagem seja possível. É a vida silenciosamente nos ensinando a reconhecer quando a jornada pede menos aceleração e mais aterrissagem.
Nem toda pausa é atraso.
Nem todo descanso é improdutividade.
Nem todo repouso é ausência de caminho.
Às vezes, é apenas a preparação necessária para continuar viajando, em segurança, com inteireza.
Com a humildade de quem finalmente compreendeu que até os aviões mais sofisticados precisam, de vez em quando, voltar ao chão.
Confiar no pouso.
#4 procedimentos necessários para repousar
O repouso não apaga o caminho.
Ele preserva quem o percorre.
Repousar não é apenas voltar ao chão. É voltar para si.
Porque nenhuma viagem continua por muito tempo quando abandonamos o piloto, ignoramos os instrumentos e fingimos que o combustível é infinito.
Às vezes, a maior demonstração de coragem não é continuar voando.
É aceitar a pista, tocar o solo e confiar que haverá céu novamente.
¹ Tapete de Penélope: referência à personagem Penélope, da Odisseia de Homero. Enquanto aguardava o retorno de Ulisses da Guerra de Troia, ela tecia durante o dia e desfazia o trabalho à noite para adiar uma decisão que não desejava tomar. A expressão passou a representar situações em que avançamos e retrocedemos continuamente, construindo e desfazendo os próprios planos.
Meu plano para esta semana era escrever sobre um prêmio que descobri no instagram.
Mais especificamente sobre um prêmio recebido por Fernanda Torres pelo conjunto da obra¹.
Gosto dessa expressão.
Conjunto da obra.
Ela sugere que uma vida não pode ser reduzida a um único acontecimento.
Nem ao maior sucesso.
Nem ao pior fracasso.
Nem ao dia em que fomos brilhantes.
Nem ao dia em que falhamos.
Sugere que nossa vida é avaliada pela soma.
Pela trajetória.
Pelo que construímos.
E até pelo que deixamos.
Bom, esse era o plano. Só que, a vida acontece enquanto fazemos planos e, numa bela manhã de sol, como diria Joseph Climber, voltamos à estaca zero.
Antes, perguntar ao leitor o que gostaria de encontrar caso um dia olhasse para trás e enxergasse sua própria obra completa parecia ter bastante sentido. Mas a semana tomou outro rumo quando no meio do caminho encontrei uma pedra, como diria Drummond, a história de Maria Eduarda.
Uma jovem de 21 anos que morreu durante um salto de rope jump².
Quantas Maria Eduardas vivem em nós?
Assisti à notícia. Ri, porque de início, achei que era um vídeo produzido com IA, uma fake news, de tão absurdo.
Depois, infelizmente, vi os noticiários, as grandes emissoras com seus relatos e por último, os comentários…
E foi ali que senti algo difícil de nomear. Não era apenas tristeza. Era uma espécie de vergonha.
Vergonha de pertencer à mesma civilização capaz de transformar uma tragédia em entretenimento.
Enquanto uma família enterra uma filha, homens disputavam criatividade para produzir piadas como:
“Eu indo no IML juntar os pedaços para fazer a festa”
“Será que vai ter festa no IML?”
“Se juntar direitinho as peças dá pra se divertir ainda”
“Vou fazer concurso para o IML”
Enquanto uma vida era interrompida, surgiam comentários tratando restos humanos como material para festa. E você sabe muito bem que tipo de festa os autores se referem.
Fechei a tela.
Afastei o celular.
Dediquei bons minutos de silêncio admitindo para mim mesma que enquanto escrevo este texto uma mulher não está segura nem mesmo morta.
Se existisse um prêmio pelo conjunto da obra da humanidade, nós o mereceríamos?
A questão me persegue porque os números mostram tanto e também tão pouco de nossa capacidade.
Construímos cidades.
Construímos aviões.
Construímos satélites.
Criamos vacinas.
Criamos inteligência artificial.
Mapeamos o genoma humano.
Enviamos máquinas para outros planetas.
Um único ser humano atinge o status de trilionário.
Somos capazes de conversar instantaneamente com pessoas do outro lado do mundo.
Mas ainda não aprendemos algo infinitamente mais simples.
Respeitar a linha tênue onde termina nosso espaço e começa o do outro. A como agir com humanidade. Talvez este seja o paradoxo do nosso tempo:
Nunca fomos tão sofisticados tecnicamente. E, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas oportunidades de exibir nossa incapacidade de lidar com a humanidade – ou ausência dela – do outro.
O problema não está na tecnologia.
A tecnologia apenas amplifica aquilo que já existe. Porque ela não inventou a crueldade, apenas lhe deu um microfone.
O problema é que avançamos muito rápido por fora e muito devagar por dentro.
Desenvolvemos ferramentas extraordinárias.
Mas o caráter não tem acompanhado o mesmo ritmo.
Por isso penso que um prêmio pelo conjunto da obra da humanidade não seria decidido pelas nossas invenções.
Seria decidido pela forma como tratamos uns aos outros e ao universo como um todo.
Pela capacidade de enxergar dignidade onde hoje enxergamos apenas utilidade.
Pela compaixão.
Pela responsabilidade.
Pela defesa daqueles que não podem se defender.
Pela consciência de que existe alguém do outro lado.
Talvez seja por isso que algumas pessoas continuam me inspirando mais do que qualquer inovação tecnológica.
Não porque foram perfeitas.
Mas porque preservaram algo raro.
Humanidade.
Nise da Silveira
Enfrentou perseguição profissional e isolamento por se recusar a tratar pacientes psiquiátricos com métodos considerados desumanos. Mudou a forma como o Mundo enxergava saúde mental.
Sua luta foi contra a desumanização institucional.
Erika Hilton
Ao longo de sua trajetória pública, enfrentou campanhas de ódio, ameaças frequentes. Ainda assim, continua defendendo princípios que considera universais, como dignidade, respeito e participação democrática. Um exemplo recente ocorreu quando se posicionou em defesa do direito de fala de uma parlamentar com quem possui divergências ideológicas profundas, reforçando a ideia de que o respeito às pessoas e à instituição humanda deve existir primeiro.
Margarida Maria Alves
Lutou pelos direitos dos trabalhadores rurais da Paraíba e foi assassinada na porta de casa. Seu nome permanece vivo na maior marcha de mulheres da América Latina. Seu exemplo inspirou trabalhadoras rurais a se organizarem nacionalmente para denunciar desigualdades e reivindicar políticas públicas voltadas ao campo.
Maria Eduarda
Ela não criou uma lei.
Não liderou um movimento.
Não fundou uma instituição.
Não teve tempo para isso.
Só é alguém que poderia ser nossa filha.
Nossa irmã.
Nossa amiga.
Nossa vizinha.
Sua morte não revelou apenas uma tragédia.
Revelou a facilidade com que ainda transformamos sofrimento em entretenimento.
Ela é um lembrete da velocidade com que esquecemos que existe uma pessoa do outro lado da tela.
Se eu recebesse hoje um prêmio pelo conjunto da obra da minha própria vida, não gostaria que ele fosse entregue pelas viagens que fiz, pelos títulos que acumulei ou pelas metas que alcancei.
Gostaria que fosse entregue pela quantidade de humanidade que consegui preservar dentro de mim enquanto o mundo me ensinava diariamente a perdê-la. E, se algum dia existir um prêmio capaz de medir uma vida humana, espero que ele considere menos os monumentos que erguemos e mais a humanidade que conseguimos não perder pelo caminho.
Porque, no fim das contas, talvez o verdadeiro conjunto da obra não seja aquilo que construímos. Mas aquilo que nos recusamos a destruir dentro de nós ao continuar decidindo sermos humanos em um ambiente que frequentemente recompensa o contrário.
NOTAS
¹Conjunto da obra: expressão utilizada para se referir à avaliação integral da trajetória de uma pessoa, considerando não apenas realizações pontuais, mas o legado construído ao longo da vida. Em premiações artísticas, costuma corresponder ao chamado Lifetime Achievement Award (“prêmio pelo conjunto da obra” ou “pela carreira”).
²Rope jump: modalidade de esporte de aventura em que a pessoa realiza um salto de altura presa a um sistema de cordas e ancoragens previamente instalado. Diferentemente do bungee jump, o praticante não fica conectado a um cabo elástico, mas a cordas estáticas ou semiestáticas utilizadas para amortecer e controlar o movimento do salto.
Que objetivo vale uma vida inteira tentando alcançá-lo?
Foto registrada em uma das cachoeiras do monte mestre álvaro, Serra, ES.
Foto registrada no topo do monte mestre álvaro, Serra, ES.
Marco Aurélio certa vez escreveu que aquilo que prejudica a colmeia prejudica também a abelha.
Sempre gostei dessa imagem para me lembrar que ninguém existe isoladamente. Isto é, nossas ações fazem parte de algo maior: todo o universo e a humanidade. Por esse motivo, quando uma pessoa morre, algo da humanidade desaparece junto com ela. Uma forma única de enxergar o mundo. Uma voz. Uma história. Uma perspectiva irrepetível. Coincidência ou não, nesta mesma semana que eu estava bem reflexiva nesse tema, uma grande amiga disse:
“Caraaa, falando em filosofia… vi que tu tá cursando, que tudo. Tem um anime que é muito essa pegada (frieren). Coisa mais linda já feita.”
fonte anônima
Não preciso nem dizer que, depois dessa mensagem, a primeira coisa que eu fiz quando chegou o final de semana foi assinar o HBO Max para ver a bendita série. Confesso que não esperava encontrar tanta filosofia em um anime aleatório sobre uma elfa.
Fonte: Google images.
Ao longo do texto, espero que você entenda porque eu resolvi escrever aqui o tanto que o enredo me cativou em vez de uma simples resenha. A história acompanha Frieren, uma maga élfica que resolve ajudar um grupo de guerreiros a derrotar o Rei Demônio e restaurar a paz ao mundo. Em qualquer outra narrativa, esse seria o final da história. Por exemplo,se você, assim como eu, é apaixonado pelos filmes de animação – Moana, Rei Leão, Vida de Inseto, como treinar seu dragão – vai perceber um padrão:nessas obras você acompanha a jornada.
Nesses clássicos, os heróis:
começam sem nada;
Sofrem todos os desafios possíveis;
Acham que vão desistir;
Dão a volta por cima;
E só no final, retornam a sua cidade de origem vitoriosos.
E todos vivem felizes para sempre.
Aquela famosa “jornada do herói”. Frieren – na contramão de tudo e todos – começa exatamente onde as outras histórias terminam.
Na primeira cena:
A guerra já acabou.
A paz já foi conquistada.
A missão já foi cumprida.
Ela é a mulher mais poderosa de seu tempo.
Domina um conhecimento técnico inconcebível para outros, ninguém mais está a sua altura. Ela pode fazer o que quiser. Mas e agora, ela pensa, o que fazer?
A pergunta parece simples. Contudo, está bem longe de ser.
A título de contexto, Frieren viveu uma campanha¹ de dez anos ao lado dos bravos guerreiros que se tornaram heróis: Himmel, Eisen e Heiter. A maga, no entanto, por mais que tivesse consciência do grande impacto de sua empreitada (a paz mundial) enxergava a aventura como apenas um pequeno fragmento de sua existência. Dez anos em uma vida de mais de mil? Uma nota de rodapé, um nada. Ainda mais porque, para ela, os humanos envelhecem, morrem e desaparecem. Então por que essas experiências teriam algum valor? Ela, ao contrário, permanece.
Junto dela seu conhecimento, experiência, poder. Nessa linha de raciocínio, Frieren acredita fielmente que todos aqueles encontros foram insignificantes. Até que, um dia, no enterro de um dos heróis (um pequeno spoiler aqui foi inevitável), ela descobre algo perturbador.
A sábia maga de mil anos de vida nunca compreendeu de verdade o valor daqueles dez anos. O valor das pessoas. O valor do próprio tempo.
Ainda no primeiro episódio, pensei em como nós também organizamos a vida ao redor de grandes objetivos e ignoramos o valor do nosso tempo e das pessoas que compartilham esse tempo conosco. Então, fui obrigada a parar, porque eu simplesmente não conseguia mais assistir, tamanho o incômodo existencial. E talvez você, leitor, também pense que a vida é:
Passar no vestibular.
Conseguir um emprego.
Comprar uma casa.
Casar.
Ter filhos.
Publicar um livro.
Receber uma promoção.
Aposentar-se.
Já reparou que existe sempre alguma montanha à vista no horizonte (ou no nosso tempo, nas redes sociais) prometendo que, quando finalmente alcançarmos o topo, encontraremos aquilo que procurávamos? Mas existe um problema aí.
Todo pico da montanha tem um fim. E o que fazemos quando chegamos lá?
Lembro de quando era criança e sonhava em andar de avião.
Depois sonhei em falar inglês.
Depois em morar sozinha.
Depois em trabalhar viajando.
E cada vez que uma dessas coisas aconteceu, eu, como Frieren, me perguntei (e continuo me perguntando): “E agora?”
Não porque minhas conquistas sejam vazias.
Mas porque são finitas.
E porque nenhuma delas representa plenamente quem sou ou quem desejo me tornar.
Atingi metas que nunca pensei estarem ao meu alcance.
Frieren venceu o Rei demônio quando ninguém acreditava ser possível.
E agora?
A maior armadilha da vida moderna é escrever em pedra que o sentido da existência está escondido em alguma linha de chegada. Sempre a uma distância de um diploma, uma promoção, um carro, uma casa, um iphone, uma viagem da felicidade.
No curto, médio ou longo prazo tudo isso passará. E, nesse momento, experimentar essa melancolia silenciosa justamente depois de conquistar aquilo que desejamos não é um fracasso. É apenas o encontro inevitável com uma pergunta que esperamos encontrar resposta do outro lado da meta.
Por que continuar?
Em uma das cenas mais bonitas da série, Frieren joga na cara dos amigos que aqueles dez anos ao lado dos heróis não representavam um décimo de sua longa existência. Anos depois, um daqueles antigos companheiros lhe oferece uma resposta simples e devastadora, ao quanto ela mudou em 50 anos (quando ela retorna):
Não importa quanto tempo durou. Importa o que aquele tempo fez com você.
Nesse momento percebi a tal filosofia da série, aquela que minha amiga comentou lá atrás…
A pergunta mais importante não é quanto tempo vivemos. Nem o que acumulamos. Nem o que conquistamos.
A pergunta é:
O que nos transforma para melhor enquanto estamos vivos?
Uma guerra pode acabar.
Uma carreira pode terminar.
Um relacionamento pode chegar ao fim.
Os filhos crescem.
Os amigos partem.
Os pais envelhecem.
As fases mudam.
As pessoas morrem.
Se o sentido da vida estiver apenas nessas coisas, estaremos condenados a perdê-lo toda vez que uma delas terminar.
E se existirem projetos diferentes? Projetos que não terminam? Projetos capazes de atravessar uma vida inteira? Mil anos? Civilizações?
Tornar-se alguém mais sábio.
Aprender a amar genuinamente.
Compreender a si mesmo.
Desenvolver coragem.
Exercitar a bondade.
Refinar o caráter.
Jornadas estas que não possuem linha de chegada porque pertencem a algo mais profundo. Algo que aprendi com meu pai e sua paixão pelo Direito: as cláusulas pétreas². São princípios tão fundamentais que não podem ser abolidos nem mesmo por uma emenda constitucional.
E se a humanidade também possuísse suas próprias cláusulas pétreas?
Não leis, fundamentos irrevogáveis.
A capacidade de aprender.
A busca pela verdade.
A construção do caráter.
A transmissão de conhecimento entre gerações.
O cuidado com o universo, nossa casa.
Talvez sejam essas as coisas que permanecem mesmo quando tudo o mais muda.
Impérios caem.
Tecnologias são descontinuadas.
As cláusulas pétreas atravessam séculos.
Foi isso que Eisen, o velho guerreiro, tentou ensinar à elfa… que a existência por si só não basta. Acumular mil anos não basta. Sobreviver não basta. Porque uma vida não é medida apenas pelo tempo que dura e sim pelas transformações que abriga. A série mostra que os mártires guerreiros, mesmo após a morte, continuam transformando Frieren.
Como professores continuam vivos em seus alunos. Pais continuam vivos nos filhos. Amigos continuam vivos nas relações que ajudaram a moldar. As quebras de paradigma entre gerações que vêm e vão.
Talvez Marco Aurélio estivesse certo.
Quando uma pessoa parte, a humanidade perde algo de si. Mas aquilo que ela transformou nos outros permanece. E é por isso continuamos e devemos continuar.
Não porque ainda falta alguma coisa. Mas porque a verdadeira meta é buscar aquilo que nos transformará ao trilhar o caminho. E elevará consigo a humanidade mais um pouco.
A guerra termina.
Os companheiros partem.
As montanhas ficam para trás.
As cláusulas pétreas da humanidade ficam.
E talvez seja nelas que construiremos uma humanidade que delibera sobre galgar metas no âmbito do ser e que reverberam em toda a terra-pátria³ pela eternidade.
Notas
¹ Campanha: Na linguagem militar, campanha é uma série de ações e batalhas realizadas ao longo do tempo para atingir um objetivo maior. Em Frieren, refere-se à jornada de dez anos empreendida pelos heróis para derrotar o Rei Demônio e restaurar a paz ao mundo.
² Cláusulas Pétreas: Dispositivos fundamentais da Constituição Federal brasileira que não podem ser abolidos nem mesmo por emenda constitucional. Estão previstas no art. 60, §4º da Constituição de 1988 e protegem princípios essenciais do Estado Democrático de Direito, como a separação dos poderes, o voto direto e os direitos e garantias individuais.
³ Conceito desenvolvido pelo filósofo e sociólogo francês Edgar Morin para expressar a ideia de que toda a humanidade compartilha uma mesma casa comum: o planeta Terra. O termo propõe uma consciência planetária baseada na interdependência entre povos, culturas e ecossistemas, superando visões restritas de nação, raça ou território.
REFERÊNCIAS
FRIEREN
Frieren: Beyond Journey’s End. Frieren: Beyond Journey’s End (Sousou no Frieren). Direção de Keiichiro Saito. Japão: Madhouse, 2023. Série de televisão.
Obra original:
Sousou no Frieren. YAMADA, Kanehito; ABE, Tsukasa. Sousou no Frieren. Tóquio: Shogakukan, 2020.
MARCO AURÉLIO
Meditações. MARCO AURÉLIO. Meditações. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2019.
EDGAR MORIN
Terra-Pátria. MORIN, Edgar; KERN, Anne Brigitte. Terra-Pátria. Porto Alegre: Sulina, 2003.
Certo dia li uma manchete que dizia, em letras garrafais: “O brasileiro médio não sabe o que é nióbio”, Confesso que me senti representada. Até pouco tempo atrás, eu também não fazia ideia. Nunca fui muito fã das aulas de geografia, apesar de, ainda no ensino fundamental, ter feito uma prova para ganhar uma viagem pelo National Geographic (risos).
Se você ainda não sabe, o nióbio é um metal utilizado em uma infinidade de produtos que atravessam nosso cotidiano sem pedir licença: ligas de aço de alta resistência, equipamentos médicos, automóveis, turbinas, celulares e tantas outras tecnologias das quais nos tornamos dependentes. Você provavelmente conhece um dos produtos acabados mais admirados do mercado: o iPhone .
O curioso é que o Brasil concentra a maior parte das reservas conhecidas desse mineral no mundo (entre 94% e 98%). Mas foi justamente aí que uma pergunta me ocorreu. Se possuímos uma das maiores reservas de nióbio do planeta, por que isso não nos transforma automaticamente no país mais desenvolvido do mundo?
A resposta parece óbvia. Contudo, possuir não é o mesmo que transformar. O nióbio enterrado sob a terra não produz riqueza. Ele não constrói aviões. Não fabrica celulares. Não movimenta a economia. Porque antes de tudo isso, ele precisa ser descoberto, extraído e processado. Ou melhor, antes de tudo estudado e por fim transformado.
Uma jazida, por mais valiosa que seja, não gera nenhum benefício apenas por existir. E talvez a mesma coisa aconteça conosco. Vivemos em uma época obcecada pelos produtos acabados.
O celular pronto. O livro publicado. O atleta campeão. O empreendedor bem-sucedido. A carreira consolidada. A foto perfeita. O verificado no instagram.
O resultado. Sempre o resultado. Poucas vezes paramos para pensar na mina.
Julia porto
Quando alguém tira um iPhone do bolso, é fácil admirar o objeto.
E os anos de pesquisa?
Os processos industriais, a matéria-prima escondida sob o solo?
E as milhares de pessoas que participaram da transformação daquele potencial em realidade?
O produto final sempre recebe os aplausos. O processo permanece invisível.
Com as pessoas acontece algo parecido.
Frequentemente admiramos aquilo que alguém se tornou, mas ignoramos o que precisou ser escavado para chegar até ali. A disciplina que ninguém viu. Os fracassos. As dúvidas. As renúncias. As tentativas frustradas. As pequenas escolhas repetidas diariamente. Talvez cada ser humano carregue dentro de si uma reserva semelhante.
Não de nióbio. Mas de potencial. O problema é que – de novo – confundimos potencial com realização. Enganamo-nos ao acreditar que possuir uma capacidade é o mesmo que desenvolvê-la. Que ter um talento equivale a exercê-lo. Que desejar algo significa estar caminhando em sua direção. Mas nenhuma jazida produz riqueza apenas por existir. Nenhum talento produz valor apenas por estar presente. O que admiramos externamente no mundo passou por algum processo de transformação com muito esforço envolvido.
Um avião. Uma obra de arte. Uma descoberta científica. Uma amizade duradoura. Um caráter íntegro. Nada disso surgiu pronto. E talvez seja justamente aí que mora uma das maiores dificuldades da vida contemporânea. Fomos ensinados a admirar o resultado e a desprezar o processo.
Queremos a colheita sem o cultivo.
A obra sem a construção.
A sabedoria sem a experiência.
A transformação sem o trabalho.
No entanto, a vida parece funcionar de outra maneira.
Ela exige escavação, refinamento e tempo.
Talvez a verdadeira riqueza de uma pessoa não esteja naquilo que ela possui, mas naquilo que conseguiu transformar dentro de si.
Porque, no final das contas, o valor nunca esteve apenas na matéria-prima.
O valor está naquilo que somos capazes de fazer com ela.
A transformação do nióbio em tecnologia é um projeto.
A transformação do potencial humano em humanidade efetiva também.
A diferença é que uma mina pode ser explorada por máquinas.
Já a interioridade exige consciência.
REFERÊNCIAS
BRANCO, Pércio de Moraes. Nióbio brasileiro. Serviço Geológico do Brasil (SGB), 19 out. 2016. Disponível em: Serviço Geológico do Brasil (SGB). Acesso em: 30 maio 2026.
SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL (SGB).Brasil lidera produção global de nióbio e se destaca como principal detentor das reservas. 1 mar. 2024. Disponível em: Serviço Geológico do Brasil (SGB). Acesso em: 30 maio 2026.
Eu quero o seu olhar atento por cima da xícara de café.
Quero o tempo que a gente quase nunca pede, mas sempre precisa.
No meio de tanta informação, a alma pede algo simples: presença.
E é vivendo os dias — não apenas passando por eles — que isso se revela. Pedalando sem pressa, cozinhando juntos, recebendo amigos, arrumando a casa, rindo de coisas pequenas. É aí que a vida mostra o que realmente importa.
Quando a gente acerta o ritmo, não precisa de muito. Quase sempre, o detalhe já é suficiente.
Não o iPhone; tempo pra ligar. Não o carro do ano; tempo pra passear. Porque, no fim, não é sobre onde a gente chega, mas com quem — e como — a gente atravessa o caminho.
Tem algo na presença verdadeira que nos organiza por dentro. Sem perceber, a gente vai se tornando alguém melhor — não por esforço, mas por convivência.
Hoje eu entendo: não há vilões na nossa história. Há escolhas, erros, tentativas. E, acima de tudo, vontade de fazer dar certo.
Mas “dar certo” não é acúmulo. Não é a casa, o cargo ou o corpo dos sonhos. É outra coisa. Mais silenciosa. Mais difícil de medir.
Também não é sobre grandes promessas, controlar tudo. Se vier o sol, a gente aproveita. Se vier a chuva, a gente fica.
Porque o que importa não muda com a circunstância.
Eu já tentei entender tudo antes de viver. Já procurei respostas rápidas para perguntas profundas. Não funciona.
Nem tudo precisa ser resolvido. Algumas coisas só precisam ser vividas.
Talvez seja isso que a gente busque sem saber: um acordo silencioso de presença.
Sem excessos. Sem performance. Sem a necessidade de parecer mais do que é. Só sendo.
E, no fim, é isso que fica: a lembrança de que a vida não precisa ser grandiosa para ser verdadeira. Ela só precisa ser vivida com atenção.
Se existe alguma promessa aqui, é essa: continuar escolhendo estar presente. Continuar escolhendo crescer — cada um no seu tempo, sem se perder do outro no caminho. Agindo principalmente por aqueles que não podem escolher sozinhos.
Porque, no fim, o que a gente constrói não são grandes acontecimentos.