
Seu tempo não tem feito muito sentido?
Ou será que nós temos esquecido de alimentar nossas engrenagens internas?
Desde criança eu reparo que todo professor que um dia admirei — e continuo admirando — usava um desses relógios pequenininhos de pulso. Desses que mal dá para ver os ponteiros, sabe?
Geralmente tinham o mesmo padrão: arredondados, dourados e com uma fina pulseira de couro.
Nos meus vinte e poucos anos, comprei um parecido em uma feira em São Paulo. Permaneci com ele durante um bom tempo até que, já morando em Vitória, um grande amigo, dono de uma relojoaria, publicou a foto de um relógio¹ aparentemente modesto que fez eu me apaixonar de bate-pronto.
Tem algumas coisas na vida das quais eu simplesmente não entendo bulhufas: Carros, bordados e relógios são bons exemplos. Ainda assim, esse amigo pacientemente me explicou tudo sobre aquele relógio até que formalizamos o negócio e eu finalmente o comprei.
Na minha leiga ignorância sobre o assunto, lembro que, mesmo depois de ele ter explicado tudo, alguns dias depois — eu havia passado uma semana trabalhando em São Paulo — voltei para casa, peguei o relógio para usá-lo pela primeira vez e, para minha surpresa, ele estava parado.
Passei a mão no telefone e, seguindo minha experiência de quem acha que todo relógio precisa de bateria, mandei um áudio para o amigo:
— Rafa, tem alguma coisa errada. Acho que temos que trocar a bateria do relógio!
Minutos depois, ele respondeu me encaminhando um áudio no whatsapp com a mesma paciência de sempre:
— Julia, esse relógio funciona com corda, minha amiga.
Eu havia esquecido.
Bastava acertar as horas, girar a coroa algumas vezes e, a partir dali, as engrenagens internas fariam o restante. E não é que foi assim mesmo? Bastou dar corda no bendito e ele: pah! Funcionou perfeitamente. Naquela época, achei apenas curioso e a vida seguiu.
Hoje acho que talvez eu tenha comprado uma pequena lição de vida sem saber porque, enquanto escrevo este texto, cheguei ao fim de uma semana particularmente difícil.
Foi a primeira semana de aulas na UFES. Primeira semana que minha rotina virou de cabeça para baixo. Rotina essa que não parou só para que eu pudesse ser caloura novamente…
Teve Trabalho. Família. Estudos. Treinos. Compromissos. Mensagens. Prazos. Meta de trimestre. Gente precisando de mim. Eu tentando estar presente para todo mundo e, ao mesmo tempo, tentando não desaparecer de mim mesma. Em determinado momento, precisei desistir por alguns minutos. Eu juro. Só isso. Desistir por alguns minutos. Fui para a escada de incêndio do trabalho procurar uma coisa que havia se tornado um luxo nessa bendita semana: silêncio.
Levei uma xícara de café comigo. Sentei e respirei fundo. E, antes de dar o primeiro gole, olhei de relance para o pulso e percebi que o relógio estava parado. Pensei: “Será que é esse o problema?”. Mais ainda, que esse problema veio carregado de uma segunda pergunta um pouco mais incômoda: essa semana, quando foi a última vez que eu dei corda para as engrenagens internas que sustentam a minha própria vida?
Pois é. Eu não tinha dado. Penso que nossa vida seja um pouco parecida com esse fino relógio de corda. Existem momentos em que olhamos para ela e pensamos:
“Por que nada está funcionando?”
“Por que eu estou tão cansada?”
“Por que estou estagnada?”
“Por que parece que todo mundo está andando e eu fiquei para trás?”
“Por que o tempo está passando e eu não consigo acompanhar?”
Mas talvez, em alguns desses momentos, a pergunta não seja sobre o relógio e sim sobre a corda. Porque um relógio mecânico não funciona por mágica. Existe uma energia que precisa ser colocada dentro dele. Depois, essa energia percorre engrenagens minúsculas, uma após a outra, até produzir aquilo que conseguimos enxergar do lado de fora: o movimento dos ponteiros. É bonito pensar nisso. Porque quase tudo o que sustenta uma vida boa também acontece assim: Por dentro. Silenciosamente.
Ninguém vê a engrenagem.
As pessoas veem o ponteiro. Veem o resultado. O corpo. O diploma. O emprego. A casa. A viagem. A fotografia bonita. O relacionamento. O sucesso. O carro. Mas quase ninguém tem consciência daquilo que mantém tudo isso funcionando.
A disciplina. A prudência. A coragem. A honestidade. A ética. A capacidade de dizer não. O descanso. Dar o primeiro passo pedindo ajuda. A temperança. O cuidado. É aí que o estoicismo volta para mim.
A felicidade estoica² não promete uma vida em que tudo funciona. Muito pelo contrário.
Os estoicos sabiam que existem coisas que não estão sob nosso controle: A doença, a morte, a opinião dos outros, o acaso, o resultado de determinadas escolhas, a economia, o clima, o candidato eleito, a passagem do tempo. Não somos donos dos ponteiros. Mas somos responsáveis, na medida do possível, pela energia que colocamos nas engrenagens que dependem de nós, engrenagens essas que uma a uma moldam a sociedade.
Cabe aqui ressaltar brevemente as quatro engrenagens estoicas que nos ensinam a dar corda na vida, nas relações e no nosso caráter:
Sabedoria, para compreender o que está acontecendo e distinguir aquilo que depende de mim daquilo que não depende.
Coragem, para agir mesmo quando aquilo que precisa ser feito assusta.
Justiça, para lembrar que minha vida não existe isoladamente e que minhas escolhas também atingem as pessoas ao meu redor.
Temperança, para saber que nem toda corda precisa ser esticada.
Um relógio, assim como a vida, também pode ser danificado quando tentamos exigir dele mais do que seu mecanismo suporta.
Há momentos em que precisamos sim dar corda. Outros, em que precisamos apenas ajustar os ponteiros. E há momentos em que também precisamos simplesmente deixá-la repousar e seguir seu curso porque, o que cabia a nós (regular a corda), já foi feito.
Além das quatro virtudes, os estoicos constantemente repetem o mantra memento mori³. Isto é, o tempo está passando: Lembre-se de que você vai morrer.
À primeira vista, parece uma frase sombria. Para mim, é quase o contrário. É um convite para lembrar que os ponteiros estão andando. Que existe uma quantidade finita de tempo disponível. Que não temos a garantia de amanhã. E que justamente por isso precisamos prestar atenção à maneira como estamos utilizando o tempo que recebemos.
O problema é que lembrar da morte não significa correr desesperadamente contra o relógio. Significa compreender que cada segundo tem peso porque não volta.
A vida vai acontecendo. E talvez a grande pergunta não seja: “Quanto tempo ainda tenho?” Mas: “O que estou fazendo com o tempo que tenho?”
Penso nisso agora porque passei alguns dias tentando fazer o relógio funcionar sem perceber que havia esquecido de dar corda. Queria produtividade sem descanso. Disciplina sem temperança. Resultado sem processo. Movimento sem direção. E é aqui que reside a sabedoria filosófica. Não como uma coleção de frases bonitas para colocar em um post no instagram. E sim como uma maneira de olhar para a própria vida e perguntar: Que engrenagens estou alimentando?
Estou alimentando a vaidade? A comparação? A ansiedade? O ressentimento? A necessidade de aprovação? A pressa?
Ou estou alimentando aquilo que realmente quero que conduza minha vida? Sabedoria. Coragem. Justiça. Temperança.
Nossos hábitos conscientes são justamente a corda que damos diariamente à nossa existência.
Toda vez que escolhemos agir de acordo com aquilo que acreditamos ser correto, damos uma pequena volta na coroa. Toda vez que descansamos quando precisamos, mais uma. Toda vez que fazemos aquilo que sabemos que devemos fazer mesmo sem vontade, mais uma. Toda vez que recusamos uma pequena desonestidade, mais uma. Toda vez que tratamos alguém com dignidade mesmo quando seria mais fácil agir com crueldade, mais uma. Toda vez que reconhecemos que não sabemos, pedimos ajuda e aprendemos, mais uma. E então, lentamente, quase sem perceber, alguma coisa começa a funcionar.
Será que é daí que vem esta memória afetiva tão grande com esse relógio?
Não porque ele seja sofisticado, ou porque ele seja caro. Nem sequer porque eu entenda alguma coisa sobre relojoaria. Gosto dele porque ele me lembra uma coisa que tenho uma tendência enorme a esquecer: as coisas que importam precisam ser cuidadas.
Não existe vida em piloto automático. Não existe caráter em piloto automático. Não existe relacionamento em piloto automático. Não existe corpo em piloto automático. Não existe amizade em piloto automático. Não existe felicidade em piloto automático.
Até um relógio precisa receber energia para continuar fazendo aquilo para o qual foi construído. Nós também.
Às vezes essa energia vem do descanso. Às vezes, de uma conversa. Às vezes, de um livro. Às vezes, de um treino. Às vezes, de um café sozinho na escada de incêndio. Às vezes, de uma pessoa por quem estamos apaixonados. Às vezes, simplesmente da decisão silenciosa de continuar.
Hoje, quando olho para o meu relógio, não vejo apenas as horas. Vejo uma pergunta: Dei corda para a minha vida hoje?
Não necessariamente fazendo mais e sim fazendo melhor. Sendo mais presente. Talvez para você, leitor, seja dormindo, ou estudando ou dizendo não. Até mesmo, fazer melhor seja pedir desculpas. Perdoar. Praticar o silêncio.
Não quero passar pela vida apenas observando os ponteiros se moverem. Quero participar das engrenagens. Quero escolher, tanto quanto estiver ao meu alcance, aquilo que dá movimento à minha existência. E, quando a corda acabar, quero ter a tranquilidade de saber que não desperdicei o mecanismo inteiro tentando fazer o relógio marcar uma hora que não era a minha. Afinal, o tempo continuará passando independentemente de mim. O que depende de mim é como escolho viver enquanto ele passa.
É sobre isso. Dar corda.
Ajustar os ponteiros, respeitar os limites e cuidar das engrenagens. Dali pra frente elas irão continuar.
Segundo a segundo.
Minuto a minuto.
Hora a hora.
Dia a dia.
Até que, olhando para trás, eu possa reconhecer que não apenas o tempo passou.
Eu estive presente enquanto ele passava.


NOTA
¹ O relógio que acompanha esta história é um Zenith vintage, de fabricação suíça, provavelmente produzido entre as décadas de 1950 e 1960. Trata-se de um relógio social de pequena dimensão. Seu funcionamento é mecânico, de corda manual: em vez de utilizar bateria, a coroa tensiona uma mola no interior do mecanismo, que libera gradualmente sua energia e movimenta os ponteiros. A peça conserva características originais de sua época, incluindo a caixa delicada, a coroa serrilhada e a pulseira fina de couro. Mais do que um objeto de alta relojoaria, para mim ele acabou se tornando uma pequena lembrança diária de que até aquilo que parece parado pode estar apenas precisando de energia para voltar a se mover.
² Felicidade estoica — Na tradição estoica, a felicidade está relacionada à eudaimonia, isto é, ao florescimento humano por meio de uma vida vivida de acordo com a razão e com a natureza. Esse caminho é sustentado pelo exercício das quatro virtudes cardeais: sabedoria, para distinguir o que é verdadeiro, bom e está sob nosso controle; coragem, para agir corretamente diante do medo e da adversidade; justiça, para reconhecer que nossa vida também se realiza na relação com os outros; e temperança, para estabelecer medida sobre desejos, impulsos e paixões. Assim, a felicidade não é algo que simplesmente encontramos, mas algo que construímos pelo caráter e pelas escolhas que repetimos diariamente. É nesse sentido que uso a expressão felicidade estoica: não como promessa de uma vida sem problemas, mas como o esforço contínuo de aprender a viver bem, qualquer que seja o movimento das circunstâncias.
³ Memento mori é uma expressão latina que significa, literalmente, “lembre-se de que você morrerá”. Embora a frase tenha se tornado fortemente associada ao estoicismo, sua formulação e circulação histórica são mais amplas do que a filosofia estoica. Para os estoicos, porém, a consciência da finitude não deveria produzir medo, mas urgência para viver bem: a morte é uma das coisas que não dependem de nós; o que depende de nós é a maneira como utilizamos o tempo que nos foi concedido. Em vez de esperar que a vida nos lembre de sua brevidade apenas quando algo termina, o memento mori nos convida a perguntar, enquanto ainda temos tempo: “O que estou fazendo com a vida que tenho?” É justamente nesse sentido que a expressão se conecta à imagem do relógio: os ponteiros continuam avançando, independentemente de estarmos atentos a eles.

Eu to ficando sem ter o que comentar por que você já diz tudo! Nos últimos dois meses tenho experimentado mais viver em presença e não em ansiedade (nem todo dia consigo), mas os poucos momentos em que percebo que consegui me salvam o resto do dia inteiro.
Orgulho de você! Ontem e hoje. Feliz com quem você está se tornando e se comprometendo dia após dia. Ahh, teus textos sempre me lembram algo. Esse me lembrou do livro A NATUREZA DA MORDIDA da Carla Madeira. Recomendo!