Pensamentos Avulsos

Human Firewall: um texto sobre responsabilidade.

mulher em bar

Como permanecer aberto ao mundo sem deixar que qualquer coisa atravesse nossas fronteiras?

– Julia Porto

casal na varanda

Recentemente, durante um curso obrigatório de cibersegurança na empresa em que trabalho, aprendi um conceito que eu não conhecia: Human Firewall.¹

Em segurança da informação, um human firewall é, de maneira bastante simplificada, uma camada humana de proteção. Em outras palavras, a tecnologia consegue fazer muita coisa: 

  • Identificar padrões.
  • Bloquear acessos.
  • Detectar comportamentos suspeitos.
  • Criar barreiras.
  • Monitorar sistemas.

Entretanto, existem ameaças que não chegam exatamente da maneira que uma máquina espera. Às vezes, elas chegam disfarçadas de uma mensagem urgente. De uma solicitação aparentemente legítima. De alguém que parece confiável. De uma situação que exige uma decisão rápida. E é justamente nesse espaço entre aquilo que a tecnologia consegue prever e aquilo que exige julgamento humano que entra o human firewall.

A orientação que recebi durante o curso era relativamente simples:

Pare, pergunte, ative os protocolos de segurança e reporte ao responsável por ajudar.

Depois de pegar meu certificado de conclusão, comecei a pensar que, para mim, esse protocolo é justamente uma importante habilidade da vida em sociedade. Isto é, já somos uma espécie de human firewall, só que com a vida.

No mundo em que vivemos, acelerado pela tecnologia e pelo mutualismo² que a globalização produz, por diversas vezes é compreensível que não consigamos controlar — nem de longe — a maioria das ameaças que nos atravessam.

Não controlamos a economia. A inflação. As eleições, o preço dos alimentos. Não controlamos aquilo que nossos filhos sentirão. Não controlamos quem ficará ou partirá. E, ainda assim, precisamos continuar vivendo. E viver por si só já demanda tanto! Estudar, trabalhar, amar, criar filhos, fazer amigos, tomar decisões, escolher representantes, entrar em relacionamentos, sair deles, confiar, desconfiar.

Nesse cenário, é bem comum eu me perguntar: Será que existe uma maneira de construir uma vida em que nenhuma ameaça consiga chegar até mim, a minha família, aos meus amigos? Continuo nesta linha de pensamento por poucos minutos, até constatar que, ao pensar assim, eu estaria construindo em torno de mim um muro, uma prisão.

Ousei questionar a mim… como seria o contrário? E se eu pudesse ir além dessa pergunta e pensar em maneiras de responder esta outra: Como construir uma vida em que eu consiga reconhecer com maior facilidade o que não deveria atravessar minhas fronteiras?

Você leitor, deve concordar comigo que são inúmeras as vezes em que a vida nos machuca em nossos esconderijos mais íntimos. Situações diversas em que ela escava nossos sentimentos por saber exatamente onde encontrá-los. Por outro lado, é tão difícil admitir que grande parte dessas vezes é por estarmos com a guarda baixa, desatentos, “piloto-automaticando” perante o mundo.

O que não é necessariamente errado. A vulnerabilidade é uma condição humana, necessária para coisas essenciais, como amar, cuidar, ouvir.

Contudo, existe uma diferença entre estar aberta e estar desprotegida. Ao meu ver, uma das distinções mais difíceis da vida adulta (mais ainda da mulher adulta, o que deixaremos para outra discussão).

Quando as ameaças da vida invadem nossos protocolos de segurança, a reação mais imediata pode ser instalar um muro.

O famoso “Nunca mais”. E por consequência aquele efeito de “chutar o pau da barraca”, no jeitinho brasileiro de ser.

É compreensível. Mas será que não é também uma espécie de derrota?

Porque um muro realmente funciona, ele impede que a ameaça entre. Mas também impede que a beleza entre. Impede o amor. Impede a amizade. Impede a surpresa. Impede a possibilidade de enxergar o mundo de uma maneira que ainda não conhecíamos. Um muro nos protege mas também nos aprisiona.

Um firewall é diferente.

Ele não diz “nada ultrapassa”. Ele pergunta: “O que está tentando passar?”

Penso que amadurecer seja aprender a fazer essa pergunta antes de abrir todas as portas.

Nem toda opinião merece nossa indignação.

Nem toda provocação merece resposta.

Nem toda informação merece nossa atenção.

Nem toda oportunidade merece nosso tempo.

Nem toda pessoa merece acesso irrestrito à nossa intimidade.

Nem todo discurso que se apresenta como verdade merece nossa confiança.

Nem todo afeto que nos é oferecido é necessariamente cuidado.

E isso vale para a vida privada, para a vida pública, para a vida política…

Tomemos o mesmo exemplo de um funcionário que exerce seu human firewall em uma grande empresa. Com esse conjunto de atitudes, suas escolhas têm consequências concretas no coletivo e sobre a maneira como diferentes pessoas poderão permanecer ou não na empresa. O mesmo cabe à vida.

Discursos políticos podem ampliar ou restringir direitos, produzir pertencimento ou exclusão. Palavras são capazes de transformar diferenças em ameaças, normalizar preconceitos. Podem até convencer pessoas de que determinados grupos merecem menos proteção, menos dignidade ou menos espaço. Talvez seja justamente nesses momentos que o human firewall deixe de ser apenas uma metáfora de segurança digital e se transforme em uma responsabilidade ética.

O que estou deixando passar por mim?

Que ideias estou reproduzindo sem verificar?

Que tipo de comportamento estou normalizando?

Quem pode ser colocado em risco quando eu escolho permanecer indiferente?

Porque uma sociedade também possui vulnerabilidades. E nós fazemos parte dela.

A ideia de segurança absoluta pode nos convencer de que o objetivo da vida é eliminar o risco. Mas viver é — sobretudo — correr riscos.

Amar é correr riscos. Pensar é correr riscos. Mudar de profissão é correr riscos. Ter filhos é correr riscos. Fazer amigos é correr riscos. Estudar algo que pode transformar nossas convicções é correr riscos. Até mesmo escolher quem queremos ser envolve risco. A história nos prova isso, basta lembrar tudo que você aprendeu no ensino médio…

Não existe liberdade sem exposição.

Hoje, agradeço ao curso de cibersegurança que eu (verdade seja dita) empurrei com a barriga por um mês. Porque ele me fez entender a beleza e o poder de estruturar um firewall em vez de uma fortaleza.

Uma fortaleza diz: “Aqui dentro, nada me alcança.”

Um firewall diz: “Eu continuo conectado ao mundo, mas desenvolvi critérios para decidir o que pode atravessar minhas fronteiras.” Isso é muito diferente.

Os quatro protocolos traduzidos à vida

mulher em bar
contemplação do ser

Parar.

Antes de reagir. Antes de compartilhar. Antes de acreditar. Antes de responder aquela mensagem quando estamos furiosos. Antes de tomar uma decisão porque alguém nos pressionou. Antes de transformar uma dor em uma certeza sobre todas as pessoas.

Parar é recuperar alguns segundos de liberdade entre aquilo que aconteceu e aquilo que faremos com o que aconteceu.

Perguntar.

Isso é realmente o que parece? Eu tenho todas as informações? Por que essa pessoa está me dizendo isso? O que estou sentindo está influenciando minha interpretação? Essa opinião é minha ou apenas algo que repeti tantas vezes que comecei a chamá-la de minha?

Perguntar é zelar pela segurança.

Ativar os protocolos de segurança.

Na vida, isso pode significar procurar ajuda.

Conversar com alguém de confiança. Consultar uma fonte confiável. Estabelecer um limite. Sair de uma situação perigosa. Procurar um profissional.

Protocolo de segurança é entender que há outras ferramentas para facilitar a jornada além de resolvermos tudo sozinhos.

Reportar.

Essa é a parte mais social do human firewall.

Quando encontramos um risco que ultrapassa nossa capacidade individual de lidar com ele, precisamos avisar quem pode ajudar. Isso vale para uma ameaça digital. Mas também para violência. Para assédio. Para preconceito. Para uma injustiça. Para uma pessoa que está em risco. Para uma informação falsa que pode prejudicar outras pessoas. Para qualquer situação em que o silêncio deixe de ser prudência e passe a ser cumplicidade.

Um firewall humano não protege apenas a si mesmo. Ele protege a rede.

JULIA PORTO

Nós não existimos isoladamente.

Somos redes: famílias, amizades, empresas, comunidades, cidades, países. Humanidade.

Aquilo que fazemos atravessa outras pessoas.

Eu não quero me transformar em uma pessoa que precisa de segurança máxima para viver. Não quero construir uma fortaleza ao redor de mim porque há ameaças. Não quero que uma experiência ruim determine todas as experiências que ainda não aconteceram.

Não quero confundir prudência com medo. Nem proteção com isolamento.

Quero continuar amando. Continuar confiando. Continuar conhecendo pessoas. Continuar mudando de opinião. Continuar sendo surpreendida.

Claro, talvez seja necessário fazer isso com um pouco mais de discernimento. A maturidade que aprende a não fechar todas as portas. Mas que vê sabedoria em aprender quais portas precisam permanecer abertas, quais precisam de vigilância e quais precisam ser fechadas sem culpa.

No mundo digital, um firewall não existe para impedir a conexão. Ele existe para tornar a conexão possível com algum grau de segurança. A vida também precisa disso.

Uma liberdade que não seja ausência de limites.

Uma confiança que não seja ausência de critérios.

Uma abertura que não seja ausência de proteção.

Uma humanidade que não precise escolher entre ser viver em sociedade e permanecer segura.

Podemos ser as duas coisas.

Diante de tudo aquilo que o mundo inevitavelmente colocará diante de nós, o desafio é aprender a viver assim:

não atrás de muros, mas com bons firewalls.

NOTAS

¹ Human Firewall é uma expressão utilizada em cibersegurança para designar a participação ativa das pessoas na proteção de sistemas e organizações. A ideia parte do reconhecimento de que ferramentas tecnológicas não conseguem identificar ou bloquear todos os riscos: comportamentos humanos — como reconhecer uma tentativa de fraude, questionar uma solicitação suspeita, verificar informações, seguir protocolos e comunicar um incidente — constituem uma camada adicional de segurança. Assim, o colaborador deixa de ser visto apenas como um possível “elo fraco” da segurança e passa a atuar como agente ativo de prevenção, detecção e resposta a ameaças.

² Mutualismo, aqui, é empregado como uma metáfora para expressar a crescente interdependência entre países e sociedades no mundo globalizado. Cadeias produtivas, comércio, tecnologia, energia, circulação de informações, alimentos, medicamentos e capitais fazem com que decisões e acontecimentos em uma parte do mundo produzam efeitos — muitas vezes imediatos — em outras. Essa interdependência ultrapassa as fronteiras nacionais e alcança também a vida cotidiana dos cidadãos, tornando cada vez mais difícil pensar nossa existência como algo completamente separado das relações que mantemos, direta ou indiretamente, com o restante do mundo. O mesmo vale para as ameaças.

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