Pensamentos Avulsos

A versão AMEBA de mim

mito de sisifo
mulher deitada no banco de um parque

Como dizem os memes: trago verdades. E essa é uma: a vida não pede autorização para mudar os nossos planos.

A inflação aumenta. O preço do supermercado muda. Uma guerra começa do outro lado do mundo e altera o preço do combustível. Um casamento exige que duas pessoas reorganizem suas próprias vidas para construir uma terceira coisa. Um filho nasce e, de repente, alguém que antes organizava os próprios horários precisa descobrir uma nova maneira de medir o tempo. Uma empresa é adquirida. Uma profissão desaparece. Uma doença chega. Uma amizade termina. Outra começa. A família envelhece. O dinheiro deixa de comprar aquilo que comprava. O mundo muda. Mas será que nós mudamos com ele?

Nós não necessariamente mudamos porque queremos. Contudo, somos particularmente bons em mudança. O motivo? Porque não existe alternativa a ela.

Foi pensando nisso que, durante uma aula de psicologia, ouvindo meu professor mencionar um experimento realizado com amebas resolvi escrever este texto.

Fiquei intrigada…

Pesquisando sobre o assunto, descobri que se trata de um experimento realizado em 1966, pelo biólogo Kwang W. Jeon ao observar uma cultura de Amoeba proteus quando algumas delas foram infectadas por uma bactéria. Para a maioria das amebas, a infecção foi letal. As poucas que sobreviveram ficaram debilitadas, cresceram mais lentamente e pareciam ter recebido da vida exatamente aquilo que nenhum organismo gostaria de receber: um problema novo para o qual não estava preparado.

Ao longo das gerações, a relação entre as amebas e as bactérias se estabilizou de tal maneira que, quando os pesquisadores tentaram eliminar as bactérias com antibióticos, as amebas também morreram. Isto é, a bactéria que um dia representara uma ameaça havia passado a fazer parte da vida da ameba. A ameba mudou a própria maneira de existir, literalmente, depois que o problema apareceu.

Existe um conceito filosófico que gosto particularmente quando penso nisso: contingência. Contingente é aquilo que poderia ter acontecido de outra maneira. Não era necessário que acontecesse exatamente assim, ou seja, poderia ter sido diferente.

Uma amizade poderia nunca ter acontecido. Ou ainda, você poderia ter escolhido outra profissão. Poderia ter conhecido outra pessoa. Poderia ter nascido em outra cidade. Aquela oportunidade poderia não ter aparecido. Aquela doença poderia não ter chegado. Aquele casamento poderia não ter acontecido.

Dito isso, a contingência é desconfortável porque ela retira da vida a sensação de que tudo obedece a um roteiro.

Com frequência, nós gostamos de imaginar que existe uma estrada. Uma sequência lógica de acontecimentos que nos trouxe até aqui e que, se fizermos tudo corretamente, continuará nos levando para onde desejamos. Mas a vida não funciona assim. Às vezes existe uma “bactéria” no meio do caminho¹. E ela simplesmente invade seu sistema.

Se pudéssemos voltar ao passado, apagar tudo o que aconteceu e apertar novamente o botão de reprodução, será que a história da vida chegaria novamente ao mesmo lugar?

A evolução possui regularidades, mas também depende profundamente de acontecimentos históricos contingentes. Um encontro que aconteceu poderia não ter acontecido. Uma espécie poderia ter desaparecido. Outra poderia ter surgido. Um caminho evolutivo poderia ter tomado uma direção completamente diferente. E isso me faz pensar na nossa própria existência. Porque também somos resultado de uma fita que não pode ser rebobinada.

Não podemos voltar aos vinte anos e conversar com aquela versão de nós mesmos. Não podemos desfazer escolhas.Não podemos devolver pessoas ao lugar que ocupavam antes de partirem. Não podemos impedir que o mundo mude. Não podemos negociar com a passagem do tempo. A vida acontece uma vez. E, enquanto acontece, somos obrigados a responder ao que aparece.

Aquela pequena ameba do estudo não sabia que a bactéria chegaria. Tampouco havia se preparado. Não havia um curso de “como lidar com uma infecção bacteriana inesperada”. Não havia planejamento estratégico. Análise SWOT. Não havia cinco passos para transformar uma crise em oportunidade. Havia apenas o acontecimento. E depois dele, havia a necessidade de continuar vivendo. Desafio profundamente humano…

Por que passamos boa parte da vida tentando construir estruturas suficientemente seguras para impedir que qualquer coisa saia do lugar?

Organizamos nossas finanças. Planejamos nossa carreira. Escolhemos onde morar.

Não me entenda mal, tudo isso é importante. Mas existe uma pergunta que talvez seja ainda mais importante:

O que acontece comigo quando a vida não respeita o meu planejamento?

Porque há uma diferença entre planejar a vida e acreditar que a vida nos deve obediência. Planejar é uma forma de responsabilidade. Acreditar que o planejamento nos protegerá da contingência é uma forma de ilusão…

Penso que habitar o mundo, ou exercitar nossa humanidade, é aprender a sustentar alguma estabilidade interna enquanto o lado de fora permanece em movimento.

Não significa aceitar tudo passivamente. Ou chamar qualquer sofrimento de “aprendizado”, romantizando dificuldades.

Significa, ao meu ver, que há coisas que precisamos combater.

Há injustiças que precisam ser enfrentadas.

Há decisões que precisam ser tomadas.

Há momentos em que precisamos dizer não.

Há uma parte da vida que simplesmente não está sob nosso comando. E, diante dela, você pode até se perguntar: “Por que isso está acontecendo comigo?”

É aqui que a contingência encontra a felicidade estoica.

Não porque os estoicos acreditassem que tudo que acontece conosco é bom. Mas porque uma das perguntas fundamentais da filosofia estoica é justamente distinguir aquilo que depende de nós daquilo que não depende.

O acontecimento pode escapar ao nosso controle. A nossa resposta a ele não precisa escapar, uma das formas mais concretas de liberdade. Não escolher todas as circunstâncias. Entretanto, participar da construção daquilo que faremos com elas.

A ameba não escolheu a bactéria. Mas, em determinado momento, sua existência passou a depender da relação estabelecida com aquilo que um dia foi estranho ao seu organismo.

Há uma imagem poderosa aí.

Às vezes, a vida coloca contextos dentro de nós, contextos que não pedimos…

Uma responsabilidade.

Uma mudança.

Uma perda.

Uma pessoa.

Uma nova versão de nós mesmos. E passamos algum tempo tentando expulsá-la. Até percebermos que o desafio não é só como eliminar aquilo que chegou, mas também como reorganizar a vida depois que aquilo chegou.

Será que é isso que a palavra “crescer” transmite?

Não tornar-se uma pessoa capaz de impedir que a vida nos atravesse. E sim, tornar-se uma pessoa capaz de se reorganizar sem deixar de ser quem é.

A criança precisa aprender a conviver com limites.

O adulto precisa aprender a conviver com responsabilidades.

Quem ama precisa aprender a conviver com a vulnerabilidade.

Quem estuda precisa aprender a conviver com a própria ignorância.

Quem envelhece precisa aprender a conviver com aquilo que o corpo já não faz como antes.

Maturidade existencial é menos sobre finalmente descobrir como controlar a vida e mais sobre descobrir quanta vida ainda conseguimos produzir quando perdemos o controle sobre ela. 

Nós queremos estabilidade. Queremos que as coisas continuem iguais. Mas, se tudo permanecesse igual, não haveria crescimento.

Queremos conhecer o caminho. Mas algumas das transformações mais importantes da nossa vida nascerão justamente daquilo que não planejamos.

Eu já desejei diversas vezes uma existência sem contingências. Contudo, hoje desejo apenas que a vida me dê estrutura suficiente para atravessá-las.

Uma reserva financeira que permita respirar quando a economia aperta.

Uma educação que nos permita aprender a enxergar nossas limitações.

Uma rede de pessoas que nos sustente quando não conseguimos sustentar a nós mesmos.

Um corpo saudável para enfrentar os anos.

Uma mente capaz de rever suas próprias certezas.

Uma filosofia que nos ajude a distinguir aquilo que podemos transformar daquilo que precisaremos aprender a suportar.

IDEOLOGIA, EU QUERO UMA PARA VIVER

CAZUZA

Não para prever o futuro e garantir a estabilidade.

Mas para não desmoronar toda vez que ele chega diferente do que imaginávamos.

Acho bonita a ideia de que, em algum momento da história da vida, uma relação que poderia ter terminado em destruição acabou produzindo uma nova forma de vida.

É claro: não devemos transformar a evolução em uma fábula moral. A biologia não está tentando nos ensinar uma lição. A ameba não “escolheu” filosoficamente transformar adversidade em oportunidade.

Quem atribui sentido à contingência somos nós.

Essa é a nossa responsabilidade: receber os acontecimentos que a vida nos entrega e devolver a eles significado, propósito e pertencimento.

Nem sempre conseguiremos transformar uma dificuldade em algo bom.

Nem toda dor possui uma finalidade escondida. Ainda assim, podemos tentar construir, a partir daquilo que aconteceu, uma maneira mais sábia de continuar.

A insustentável leveza² do ser é balancear este eixo da vida:

Quando a vida colocar dentro de mim alguma coisa que eu não escolhi, eu vou passar o resto da existência tentando voltar a ser quem era — ou vou descobrir quem posso me tornar depois disso?

NOTAS

¹ “No meio do caminho” é uma referência ao poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade, publicado originalmente em 1928, na Revista de Antropofagia, e posteriormente incorporado ao livro Alguma Poesia (1930). O poema tornou-se célebre pela repetição da imagem da “pedra” encontrada no caminho, frequentemente interpretada como metáfora dos obstáculos e acontecimentos que interrompem o percurso esperado. No contexto deste texto, a referência é ressignificada: mais do que retirar a pedra do caminho, interessa pensar o que fazemos quando ela já está ali.

² “A insustentável leveza do ser” é uma referência ao romance A Insustentável Leveza do Ser, do escritor tcheco Milan Kundera, publicado originalmente em 1984. A obra parte da oposição entre leveza e peso para refletir sobre a existência humana, as escolhas e a impossibilidade de repetir a vida: cada decisão acontece uma única vez e, por isso, não pode ser comparada com outras versões possíveis de nós mesmos. No contexto deste texto, a expressão dialoga com a ideia de contingência: carregamos o peso das consequências de acontecimentos que não escolhemos, ao mesmo tempo em que experimentamos a leveza de uma existência que não pode ser repetida.

REFERÊNCIAS

Imagens da releitura de Sísifo retiradas do instagram @reservatoriodedopamina

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