Pensamentos Avulsos

A vergonha das versões anteriores de nós mesmos.

Que relação você cultiva com quem já foi? simbiose ou parasitismo? 

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Adulta premium

esquecer quem fomos.

Hoje acordei triste.

Não aquela tristeza dramática dos filmes, que chega anunciando sua presença, geralmente acompanhada de um choro copioso. Essa não. Era uma tristeza silenciosa, comedida até. Dessas que se sentam ao nosso lado na mesa do café da manhã e permanecem ali sem dizer nada. 

Por isso fiz o que quase sempre funciona quando preciso colocar a cabeça no lugar: fui para a natureza. Participei de uma trilha no Espírito Santo, rumo ao Monte Mestre Álvaro. Foram cerca de doze quilômetros entre subidas, descidas, pedras, cachoeiras e conversas. Ao longo do caminho, paramos algumas vezes para descansar, comer alguma coisa e simplesmente existir sem pressa. Éramos eu, outros três integrantes e nosso guia.

Em uma dessas paradas, depois de mergulhar numa cachoeira para aliviar o calor da caminhada, sentei numa pedra para secar ao sol, lagarteando. Uma das mulheres do grupo sentou-se ao meu lado. Dentre vários assuntos, um deles foi quando começamos a observar melhor as borboletas que dividiam aquele paraíso conosco.

Eram muitas.

Pequenas, grandes, amarelas, azuis, brancas. Algumas, atravessavam a clareira iluminada pelo sol. Outras pairavam sobre a água cristalina, dividindo espaço com libélulas tão grandes que pareciam ter saído de um documentário. Foi então que ela me perguntou:

— Você sabe por que algumas borboletas têm esses pontos desenhados nas asas?

Eu não sabia.

Ela explicou que aqueles desenhos ajudam a afastar predadores. A ilusão dos olhos faz com que alguns animais pensem estar diante de uma criatura maior e mais perigosa. Achei intrigante, nunca tinha parado para refletir sobre isso, pensei com meus botões. Continuamos observando as borboletas em silêncio por mais alguns instantes. Então ela começou a me contar uma história da infância dela.

Seu pai trabalhava viajando e cortando árvores para vender madeira. Até que certo dia, voltou para casa trazendo um casulo guardado dentro do plástico que envolvia um maço de cigarros. Ela ria enquanto contava que o pai chamava aquela fina embalagem de “calcinha do cigarro”. Também achei graça. Ela me contou que apesar de ainda criança, recebeu o casulo como quem recebe um tesouro. Seus olhos já não estavam ali comigo, viajavam pelas lembranças. Contou que o casulo era grande e marrom, com pequenas linhas douradas, luminosas. Secretamente me contou também que a felicidade foi momentânea. Porque a menina que era acabou esquecendo de retirá-lo do plástico. Quando a borboleta finalmente emergiu, ficou presa. 

Sem espaço para abrir as asas. Sem conseguir voar… Morreu ali mesmo.

Ela me contou que, depois daquele episódio, fez uma promessa para si mesma: não deixaria mais as coisas importantes para depois. Hoje, adulta, sabe que foi apenas um infeliz acidente infantil. Ainda assim, manteve a promessa.

Enquanto ela falava, pensei no quanto sempre fui fascinada pela metáfora da metamorfose. Contei que escrevo e que a borboleta, inclusive, é uma de capa e também muito presente no meu blog.

Ela sorriu. E então me deu um presente que talvez ela nem saiba que me deu. O diálogo. Era como se ela me olhasse da perspectiva do meu passado e me fizesse enxergar o quanto eu não entendia por que fazia todas aquelas coisas. 

Contei a ela que, às vezes, olho para versões antigas de mim mesma e não consigo compreender certos comportamentos. Como a época em que beber todos os dias parecia normal. Na verdade, parecia o certo.

Ela continuou sorrindo. Nunca vou esquecer aquele sorriso porque não era um sorriso de julgamento, nem de longe. Tampouco de concordância. Era um sorriso de quem sabia o que estava bem debaixo do meu nariz e enxergar deveria ser simples. Nem sempre. Afinal o óbvio precisa ser dito, não é? Ela disse:

— E você acha que faz sentido a borboleta olhar para a lagarta que era e perguntar: “Como assim você era uma lagarta?”

Eu ri.

— É verdade. Não faz sentido.

— Pois é — respondeu ela. — É um processo.

Passei o restante da trilha pensando nessa frase.

Talvez um dos maiores sofrimentos humanos seja a dificuldade de fazer as pazes com as versões anteriores de nós mesmos. A trilha pode ter acabado, mas sai de lá com mais uma pergunta alugando um triplex na minha cabeça. 

Quantas pessoas vivem em guerra contra a própria lagarta? incluindo eu mesma?

A jovem insegura.

A pessoa que bebeu demais.

O profissional inexperiente.

A mulher que aceitou menos do que merecia.

O homem que errou.

A adolescente perdida.

Os caminhos tortos.

Como se a lagarta fosse um erro.

Como se tudo aquilo que fomos precisasse ser apagado para validar aquilo que nos tornamos. A natureza parece nos ensinar outra coisa.

A lagarta não é uma falha da borboleta.

Ela é sua condição de existência.

Sem lagarta não existe casulo. Sem casulo não existe metamorfose. Sem metamorfose não existem asas.

Depois da trilha, penso que amadurecer não seja negar quem fomos. Talvez seja compreender que cada fase cumpriu sua função, mesmo aquelas que hoje nos parecem incompreensíveis.

Uma coisa chamou minha atenção também. Nem sempre nos comportamos como a borboleta. Na mesma trilha, nosso guia nos mostrou uma figueira estranguladora. Ela cresce envolvendo outra árvore até sufocá-la por completo. Aos poucos, a estrutura original desaparece e apenas aquilo que cresceu por fora permanece visível.

Pensei imediatamente em quantas vezes fiz algo parecido comigo mesma. Talvez você também tenha feito.

Estrangulamos nossa própria história, esmorecendo-a pouco a pouco.

Tentamos sufocar nossas raízes.

Negamos as etapas anteriores da jornada.

Queremos parecer apenas a borboleta. Ver e Postar apenas a borboleta.

Mas a natureza não funciona assim.

A borboleta não renega a lagarta.

Ela apenas olha do futuro – essa versão nossa que está em gestação – e confia que a lagarta, no momento certo, encontrará um local seguro para continuar o caminho e garantir espaço suficiente para que as asas batam e assumam a jornada a partir dali. Curiosamente, daqui, ela também sabe que sua nova e próxima versão ainda há de enfrentar seus próprios percalços, na poesia eterna de tingir nossas armaduras contra os predadores que retornam dia após dia.

E talvez viver em paz seja exatamente isso.

Reconhecer que a lagarta, o casulo e a borboleta pertencem à mesma história.

A nossa.

P.s Porque aquela lagarta era exatamente quem você precisava ser para chegar até aqui.

2 comentários sobre “A vergonha das versões anteriores de nós mesmos.”

  1. Maria da Glória disse:

    Esclarecedor!! Sigamos!!!

  2. Luiza disse:

    Belas palavras!!

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