Pensamentos Avulsos

Navegar eu quero

mulher naa montanha admirando a paisagem

será que ainda temos desejo de procurar? 

Felicidade Estoica


Talvez o maior luxo do nosso tempo seja não saber. 

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@ j u l i a s p o r t o

Outro dia, ouvi meu podcast preferido: a energia dos arcanos. Para quem não sabe, nele a hostess, Rita Araújo, fala sobre a carta do dia a qual, enquanto escrevo este texto é o três de paus. A metáfora para explicar esse arcano menor¹ durante o episódio, foi um sujeito diante do infinito oceano, olhando para o horizonte, como quem ainda não sabe exatamente o que encontrará do outro lado mas ainda assim vai.

Um descobridor. Um navegador. Alguém prestes a partir. A conquistar.

O curioso é que, enquanto ouvia, minha cabeça imediatamente foi parar em uma música que você leitor provavelmente conhece: Descobridor dos setes mares², do Tim Maia.

Pensei: Navegar eu quero.

Existe algo tão profundamente humano nesse desejo.

Durante séculos, nós olhamos para o horizonte e sentimos curiosidade pelo que havia depois dele. Atravessamos os oceanos sem saber exatamente o que encontraríamos. Entramos em florestas que não conhecíamos. Subimos montanhas. Observamos o céu. Mapeamos territórios. Fizemos perguntas para as quais não tínhamos respostas. E, muitas vezes, foi justamente a ausência delas que nos fez partir.

Hoje, em contrapartida, temos um problema curioso.

O mundo ficou muito menor. E as respostas, muito mais próximas. Se quero saber alguma coisa, pergunto a OPENAI³. Se quero aprender alguma coisa, procuro um tutorial. Se quero estudar, encontro uma aula. Se quero uma opinião, encontro milhares. Se quero uma síntese de um livro, alguém já fez. Se quero organizar meus pensamentos, uma inteligência artificial pode me ajudar. Se quero saber o caminho, o GPS me mostra. Se quero saber o que outras pessoas pensam, basta abrir uma rede social. Temos mapas para praticamente tudo e talvez por isso estejamos perdendo o gosto pela navegação.

Não porque deixamos de ser curiosos. Mas porque começamos a acreditar que toda pergunta precisa terminar rapidamente em uma resposta. O grande paradoxo do nosso tempo…

Nunca tivemos tanto acesso à informação. Por outro lado, nunca tivemos tanta dificuldade para simplesmente permanecer diante de uma pergunta. Em habitar de verdade a diferença enorme entre receber informação e buscar conhecimento.

Uma resposta pronta pode informar. Entretanto, a procura transforma. É durante a procura que somos obrigados a duvidar. A comparar. A errar. A voltar. A mudar de ideia. A buscar ajuda, dialogar. A descobrir que aquilo que acreditávamos saber era mera opinião.

Os gregos  e filósofos tinham uma palavra para o conhecimento verdadeiro; fundamentado: a episteme³. E tinham outra para aquilo que é opinião, aparência, crença: doxa³. Caramba, como temos vivido cercados por tanta doxa.

Ela chega pelo celular. Pelo algoritmo. Pelo vídeo de trinta segundos. Pelo comentário de alguém que fala com absoluta convicção sobre aquilo que pesquisou por cinco minutos. Pelo influenciador que transforma opinião em autoridade. Pelo especialista autoproclamado. Pelo amigo que compartilha uma informação porque “viu em algum lugar”. E existe algo particularmente perigoso na doxa: Ela não precisa ser verdadeira para parecer verdadeira. Basta ser convincente. Basta ser repetida. Basta aparecer muitas vezes. Basta ser dita por alguém que fala bem. E é por isso que a filosofia continua sendo tão necessária na minha vida e espero que você a convide para a sua também.

Ela nos ensina a desconfiar da facilidade com que acreditamos que sabemos. Sócrates⁴ fez disso praticamente uma forma de viver, para si e seus alunos. Não porque acreditasse que nada poderia ser conhecido. Mas porque compreendeu algo muito mais desconfortável: há uma diferença entre aquilo que sabemos e aquilo que apenas acreditamos saber. A verdadeira virtude começa justamente nesse espaço.

Entre a certeza e a dúvida. Entre a doxa e a episteme. 

Nesse sentido, a tecnologia nos interessa (e muito). Não tenho medo dela, tampouco da inteligência artificial. Nem você leitor deveria. Pelo contrário. Eu as utilizo. Todos os dias, para as mais variadas tarefas. E acho extraordinário poder conversar com uma ferramenta capaz de me ajudar a pesquisar, organizar ideias, encontrar referências e enxergar ângulos que talvez eu não tivesse percebido sozinha.

Agora, faça a si mesmo uma pergunta:

Essas ferramentas que você usa, são para navegar melhor ou para deixar de navegar?

Uma coisa é usar um mapa para atravessar um território. Outra é nunca olhar para a paisagem porque o mapa já disse onde estamos.

Uma coisa é utilizar uma inteligência artificial para ampliar nossa capacidade de pensar. Outra é terceirizar o próprio pensamento.

Uma coisa é perguntar. Outra é deixar de ter curiosidade.

E aí reside  a ameça; o risco. Não na existência das respostas. Mas na nossa perda de apetite pelas perguntas genuínas. Dessas que tangibilizam as coisas mais importantes da vida, que não possuem nem possuirão um tutorial.

Como amar alguém. Como perdoar. Como criar um filho para o mundo. Como lidar com a morte. Como descobrir quem somos. Como decidir pelo justo mesmo que haja perda. Como saber quando insistir e quando partir. Como viver uma vida boa. Como definir o que é uma vida boa. Como distinguir aquilo que desejamos daquilo que realmente precisamos.

Para essas coisas, podemos consultar filósofos, cientistas, livros, professores, amigos e até inteligências artificiais. Mas no fim do dia ninguém conseguirá navegar na resposta verdadeira para nós e por nós.

Há uma parte da viagem que permanece inevitavelmente nossa. E nós enquanto navegadores não possuiremos todas as respostas. Instrumentos, mapas, conhecimento acumulado por quem veio antes, claro. Mas ainda é preciso partir. Ainda é preciso olhar para o horizonte. Lidar com o vento. Corrigir a rota.

Viver filosoficamente é um pouco isso. Não saber exatamente onde vamos chegar, mas ter coragem suficiente para sair em busca do que nos tornará maiores do que quando viemos ao mundo. A espécie de vida que nasce quando deixamos de exigir certezas. Uma vida em que o desconhecido é um convite, uma pergunta que pode sim permanecer aberta. Por que não?

Uma dúvida não precisa ser resolvida antes do jantar. Tudo bem dizer: eu não sei. E continuar. Uma das frases mais honestas que um ser humano pode pronunciar. Eu não sei.

Não sei se isso é verdadeiro. Não sei se estou certo. Não sei qual é o melhor caminho. Não sei o que existe depois daquele emprego/relacionamento/golpe etc. Mas quero descobrir.

Quero ler.

Quero perguntar.

Quero conversar.

Quero experimentar.

Quero errar.

Quero mudar de ideia.

Quero conhecer.

Quero navegar.

A vida não é uma viagem cujo objetivo é chegar ao lugar onde todas as respostas estão. É a própria disposição de continuar fazendo perguntas melhores para chegar naquilo que é, em essência, verdadeiro.

Aquilo que é justo. Aquilo que é bom. Aquilo que é belo. Aquilo que merece ser vivido. Por todos…

Diante de um mundo que tenta nos entregar tudo pronto, essa disposição pelo incógnito é uma pequena forma de liberdade.

Então, se me perguntarem o que quero fazer com tudo aquilo que ainda não sei…

Eu acho que já tenho a resposta.

Navegar, eu quero.

NOTAS

¹ Três de Paus — Arcano menor do tarô tradicional, frequentemente associado à expansão, aos horizontes e à disposição para explorar aquilo que ainda não foi conhecido. A imagem de uma figura contemplando o horizonte ajuda a representar o momento anterior à partida: já existe um caminho percorrido, mas o que está além ainda permanece desconhecido.

² Navegar eu quero” — referência à canção Descobridor dos Sete Mares, de Tim Maia, lançada em 1983. A música celebra, em tom quase mítico, a figura do navegante que deseja conhecer o mundo e partir em direção ao desconhecido. Aqui, a expressão é utilizada como metáfora para a disposição humana de explorar aquilo que ainda não sabemos

³ Episteme e doxa Episteme e doxa — termos de origem grega fundamentais para a reflexão filosófica sobre o conhecimento. Episteme pode ser compreendida como conhecimento fundamentado, enquanto doxa corresponde à opinião, crença ou percepção não necessariamente sustentada por fundamentos sólidos. A distinção aparece de diferentes formas na filosofia grega, especialmente nas discussões de Platão sobre conhecimento e opinião.

⁴ filósofo ateniense do século V a.C., conhecido por transformar o questionamento em método de investigação filosófica. Embora a famosa formulação “só sei que nada sei” não apareça literalmente dessa forma nos textos de Platão, ela sintetiza uma ideia recorrente nos diálogos socráticos: reconhecer a própria ignorância é condição para começar a investigar aquilo que se acredita saber.

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