Pensamentos Avulsos

Acho chic

tia com seus afilhados em grande abraço familiar

– Ouvir também pode fazer minha alma florir, mesmo quando meus olhos se cansam

Essa semana, enquanto escrevo este texto, está muito em alta uma trend no Instagram que consiste, basicamente, em declarar aquilo que cada pessoa considera chic na vida.

Confesso que gostei bastante dessa trend. Porque me faz questionar algo aparentemente superficial, mas que não necessariamente o seja. O que é o “chic”? O que é luxo?

Uma bolsa? O consumo? O poder aquisitivo de alguém? Um restaurante superfaturado? Uma viagem? Um hotel? Uma roupa? Um carro? O chic pode ser tanta coisa aos olhos de quem vê. Depois deste último fim de semana, voltando do Rio de Janeiro para Vitória, passei boa parte do voo pensando que eu tenho uma lista de coisas que penso serem bem chic…

Para começar, eu acho chic coisas que não cabem numa vitrine. E muitas delas, não estarem à venda.

Eu acho chic ter uma amiga que passa o dia em uma feira literária porque realmente quer estar lá. Que está não só fisicamente como também inteira: ouvindo autores, pensando, fazendo perguntas, descobrindo livros, encontrando pessoas. Essa amiga em questão estava na FLIN, a Festa Literária Internacional de Niterói, que este ano aconteceu sob o tema “Território das Palavras”, celebrando literatura, memória, diversidade e encontros. Mesmo ocupada, ela me mandava mensagens empolgada para contar sobre as palestras que queria assistir, porque coincidência ou não, eu também estaria em Niterói.

Eu acho chic ter amigos que fazem você querer crescer intelectualmente. Que ampliam o seu vocabulário, seu local de fala. Que apresentam autores que você não conhecia. Que fazem o mundo parecer maior depois de uma conversa. Acho chic ter amigos que aumentam nosso senso de pertencimento. Que fazem a gente lembrar que não estamos sozinhos. Amigos que, por uma dessas coincidências bonitas da vida, acabam indo parar na casa da sua avó em uma sexta-feira aleatória.

Era a primeira vez que recebia esta amiga na dona Onilda, minha avó. Quem, assim que conheceu minha amiga, ofereceu jantar e, porque eu contei, descobriu que ela era vegetariana e se ofereceu para fritar um ovo. Minha amiga, no entanto, em vez de fazer cerimônia, foi lá e fritou o próprio ovo, depois sentou à mesa e devorou o prato como se tivesse feito aquilo desde sempre. Eu acho chic isso.

Não precisar pedir licença para existir. Não transformar uma casa em território estrangeiro. Sentir-se recebido. Não precisar pisar em ovos. Acho chic fazer o outro se sentir à vontade também. Mais tarde, quando todos foram dormir, ficamos nós duas bebendo vinho e conversando. Ela me contou sobre os meses difíceis que tinha atravessado. Separação. Dor. Mudanças. Medos. Vulnerabilidades que só aparecem quando existe confiança suficiente para que a gente deixe de tentar parecer bem.

Depois rimos. Rimos tanto que minha barriga começou a doer e meus olhos a lacrimejarem. Eu acho chic poder conversar sobre as coisas mais difíceis da vida e, algumas horas depois, estar chorando de rir.

Acho chic ter amigos que sabem ser profundos sem serem pesados. Amigos especialistas em sua área de atuação que – do absoluto NEIDA – começam a explicar a rotina de um urutau¹. Um pássaro absolutamente estranho e extraordinariamente esplêndido que eu não sabia da existência (?). Agora sei. E acho chic isso também. Ter conhecimento sobre coisas aleatórias para mim, mas totalmente sensíveis e relevantes para o outro. Como o nome de uma árvore. Reconhecer um pássaro. Saber preparar uma geleia. Saber acender uma fogueira. Saber fazer alguma coisa que não serve para aumentar o salário, melhorar o currículo ou alimentar o algoritmo. Saber porque é parte da sua existência.

Na manhã seguinte, ainda na minha avó, montamos uma farta mesa de café da manhã: Pão, queijo, geleia caseira, café. E a maior fartura: conversa fiada (risos). Minha tia apareceu e as duas começaram a conversar. Uma hora depois, tinham trocado contatos para compartilhar receitas de geleia como se fossem amigas havia anos. 

Eu acho chic isso. A capacidade humana de criar intimidade com pessoas que, algumas horas antes, eram desconhecidas através da linguagem, da cultura, da afinidade.

Saindo dali, fui para o aniversário da minha mãe. Peguei estrada debaixo de chuva. Dirigi devagar, colocando as fofocas familiares em dia. Cheguei em uma casa cheia, com cheiro de feijoada, som de lenha crepitando e gente falando ao mesmo tempo. Criança correndo. Adultos discutindo. Os cachorros pedindo um petisco. Alguém perguntando se ainda tinha café.

Eu acho chic tradição. Não porque a tradição seja sempre boa. Mas porque existem algumas tradições que carregam memória. Receitas que atravessam gerações. Jeitos de cozinhar que ninguém escreveu. O fogo que meu pai me ensinou a controlar. Aquela espécie de conhecimento doméstico que não aparece em nenhum certificado, mas que passa de uma pessoa para outra simplesmente porque alguém um dia parou para ensinar.

Eu acho chic isso. Parar para ensinar.

Mais tarde, dormi com meus afilhados. Nós quatro na mesma cama. De conchinha. Assistindo a um desenho que eu assistia quando criança e que agora eles amam: os jovens titãs. Acordei com os braços dormentes enquanto eles continuavam dormindo. E pensei:

Eu acho chic dormir profundamente nos braços de alguém porque você sabe que está seguro. Existe luxo maior?

No dia seguinte, outro café da manhã. Uma mesa novamente grande o suficiente para caber todo mundo. Meus amigos, que dormiram na casa dos meus pais, acordando cedo e saindo para comprar pão enquanto todo mundo ainda dormia. Voltando com sacolas. Pegando chinelo emprestado. Entrando e saindo da casa sem cerimônia.

Eu acho chic ter amigos que se sentem em casa na sua casa. Me dei ainda mais conta disso quando vi minha amiga que fiicou ensinando minha afilhada a fazer acrobacia pendurada invertida² na corda. Consciência corporal. Força. Tentativa. Erro. Queda. Tentativa outra vez. Eu acho chic uma criança descobrir pela primeira vez que é capaz de fazer coisas que ela ainda não sabia. E acho mais chic ainda uma infância em que existe espaço para isso.

Para correr. Para cair. Para aprender. Para errar sem transformar cada erro em culpa, trauma. Acho chic descobrir o próprio corpo antes de descobrir o mundo através de uma tela.

Tomei um banho demorado e pensei que também acho chic isso. Um banho sem pressa. A sensação de sair do banheiro como se fosse outra pessoa, embora continue sendo exatamente a mesma. A vida adulta nos convence de que tudo precisa ter alguma finalidade. Até o descanso, a conversa, o banho, o conhecimento, o tempo dedicado. E talvez não. Talvez algumas coisas sejam valiosas justamente porque não precisam produzir nada.

Mais tarde fui levar uma das minhas amigas em casa. Ouvindo a playlist dela no spotify. Acho chic afinidade musical e ter intimidade no silêncio. Só na permanência de uma viagem tranquila de carro, sem muita conversa, a música rolando no fundo. Ao chegar, conheci a mãe dela e, naquela situação de conhecer alguém pela primeira vez, ela me pegou desprevenida e pediu desculpas porque estava sem um dente da frente. Literalmente. Tinha acabado de perder uma prótese e estava visivelmente constrangida. Mas, para minha surpresa, não tentou esconder e explicou o que havia acontecido. E, mesmo morrendo de vergonha daquele primeiro encontro, insistiu para que eu ficasse para almoçar.

Eu acho chic isso. A vulnerabilidade que não pede autorização.

A capacidade de dizer: “É isso. Hoje eu estou assim.” Sem maquiagem emocional. Sem tentar parecer mais bonita, mais forte, mais bem resolvida do que realmente estamos. Acho chic quem sustenta seus próprios ciclos. Quem consegue dizer “estou mal”. “Estou com medo.”. “Não sei.”. “Hoje não estou bem.” E ainda assim abrir a porta da sua casa, do seu ser.

Depois dali, fui deixar minha avó em casa e saí para terminar uma tatuagem que venho fazendo há algum tempo. Enquanto minha tatuadora terminava a arte, conversávamos sobre os próximos meses, nossa vida, nossos planos. Ela vai passar um período nos Estados Unidos, trabalhando e enfrentando uma série de coisas novas. E, no meio da conversa, apareceu o medo e a ansiedade. Medo do que vem pela frente. 

Eu acho chic isso também. Gente que sente medo e vai mesmo assim.

No fim daquele dia, voltei para a casa da minha avó e ela já tinha preparado o jantar: Feijão vermelho, arroz fresquinho e ovo mexido. Tudo simples. E ainda preparou uma marmitinha, e me deu para eu levar no dia seguinte. Porque ela sabe que estou treinando e eu não gosto de comer na rua. Eu acho chic comida que vem acompanhada de memória. Acho chic quando alguém conhece você o suficiente para saber o que colocar dentro de uma marmita. Acho chic quando o amor não precisa ser anunciado.

Ele aparece no ovo feito na manteiga. No pano de prato envolvendo uma marmita para a viagem de volta. 

E foi assim que eu passei o fim de semana. Colecionando coisas que considero chic. Só que, dentro do avião, percebi que talvez eu estivesse usando essa palavra de um jeito completamente diferente. Porque nada daquilo era raro por ser caro. Era raro por ser humano.

Eu não acho chic ter uma casa cheia porque isso demonstra seu networking. Acho chic ter uma casa onde as pessoas podem ir para qualquer outro lugar e ainda assim escolhem ficar.

Não acho chic uma mesa bonita. Acho chic uma mesa onde ninguém precisa olhar o relógio ou o celular.

Não acho chic ter amigos interessantes. Acho chic ter amigos que nos tornam pessoas mais elevadas.

Não acho chic conhecer pessoas importantes. Acho chic fazer pessoas comuns se sentirem importantes.

Não acho chic viajar para lugares distantes. Acho chic ter alguém que pergunta se você chegou bem.

Acho chic uma criança dormir tranquila. Uma mãe oferecer comida. Um pai ensinar a mexer no fogo. Uma amiga contar seus medos. Outra ensinar uma criança a sustentar o próprio corpo. Alguém admitir que está sem um dente. Uma pessoa compartilhar uma receita. Outra compartilhar um livro. Alguém cozinhar pensando nas restrições do outro. Gente adulta cantando Mauricio Manieri no aniversário da mãe; sem vergonha. Sem preocupação com a performance. Só porque é divertido. Eu acho chic o parabéns da Xuxa cantado por adultos.

Eu acho chic um karaokê improvisado de sofrência. Eu acho chic rir até a barriga doer. E acho chic poder voltar para casa depois de tudo isso e perceber que, talvez, nós tenhamos mais do que imaginamos. Um grande privilégio sobre o qual falamos pouco. Não o privilégio de possuir. Mas o privilégio de pertencer.

Ter alguém. Ter histórias. Ter memórias. Ter lugares onde você pode chegar sem precisar explicar quem é. Ter pessoas que sabem como você gosta do café. Ter alguém que percebe quando você não está bem. Ter uma mesa. Ter tempo. Ter diálogo. Ter uma criança que confia em você o suficiente para se aninhar em seus braços. Ter alguém que abre a porta mesmo estando vulnerável. Ter uma avó que prepara comida para a viagem. E, se você não tem ou nunca teve essas experiências, talvez chic seja procurar/estar aberto a elas. Porque algumas das coisas mais bonitas da vida não são herdadas mas podem sim ser construídas.

Você pode ser a pessoa que oferece o jantar. A pessoa que chama um amigo para conversar. A pessoa que cria uma tradição. A pessoa que prepara uma comida pensando em alguém. A pessoa que ensina uma criança. A pessoa que escuta. A pessoa que abre a porta. A pessoa que diz: “Pode ficar.”

Penso que é assim que uma vida boa começa a ser construída. Não necessariamente com grandes acontecimentos mas com pequenos lugares de segurança espalhados pelo caminho. 

Com mesas onde caibam mais pessoas.

Com conversas que durem mais do que deveriam.

Com comida feita sem pressa.

Com amigos que chegam e ficam.

Com coragem para mostrar o que está faltando.

Com crianças que possam cair sem medo.

Com adultos que possam brincar sem vergonha.

Com famílias que preservem aquilo que vale a pena preservar.

E com a consciência de que, no fim, quase tudo aquilo que realmente importa não pode ser comprado. Pode apenas ser vivido. Se alguém me perguntasse hoje:

“O que você acha chic?”

Eu responderia:

Eu acho chic estar inteiro onde o corpo está.

Eu acho chic saber conversar.

Eu acho chic saber ouvir.

Eu acho chic ter curiosidade.

Eu acho chic ter amigos que nos fazem pensar.

Eu acho chic cuidar.

Eu acho chic deixar-se cuidar.

Eu acho chic pedir ajuda.

Eu acho chic admitir vulnerabilidade.

Eu acho chic uma mesa cheia.

Eu acho chic uma casa onde você pode entrar de chinelo.

Eu acho chic uma pessoa dormindo segura.

Eu acho chic alguém te preparar uma marmita.

Eu acho chic rir.

Eu acho chic cantar por cantar.

Eu acho chic cozinhar para todos, respeitando que alguém não pode comer o que todos comem.

Eu acho chic respeitar o momento do outro.

Eu acho chic ensinar alguma coisa sem esperar nada em troca.

Eu acho chic continuar aprendendo.

Eu acho chic ter coragem para partir.

E, principalmente,

Eu acho chic construir uma vida da qual não precisamos fugir de nós para encontrar o belo.

Porque existem coisas que, ao meu ver, nunca sairão da trend.

A gentileza.

A amizade.

A curiosidade.

A vulnerabilidade.

A presença.

O cuidado.

O riso.

O conhecimento.

A comunidade.

O amor.

Coisas que não precisam de tendência. Tampouco de algoritmo ou aprovação. Coisas que não precisam de uma postagem ou fotografia para existir. E talvez esse seja o verdadeiro luxo.

Chegar ao fim de um fim de semana absolutamente comum, olhar pela janela e perceber que, apesar de tudo que ainda falta conquistar, há coisas que já são tão inefáveis que eu e você já somos privilegiados por tê-las.

E para você, o que é chic?

NOTAS

¹ Urutau — nome popular dado a aves noturnas do gênero Nyctibius, encontradas principalmente nas regiões tropicais da América Latina. De hábitos discretos e predominantemente noturnos, o urutau é conhecido por sua impressionante camuflagem: durante o dia, permanece imóvel sobre galhos, assumindo uma aparência semelhante à de um pedaço de madeira ou tronco. Seus grandes olhos e sua expressão peculiar fazem dele uma das aves mais curiosas da fauna brasileira. O nome também aparece associado a diferentes espécies de Nyctibius, entre elas o urutau-comum (Nyctibius griseus).

² Pendurada invertida — movimento de ginástica e treinamento de força realizado em uma barra, no qual a pessoa parte da posição suspensa, eleva as pernas e passa o corpo para trás, ficando temporariamente invertida, com as pernas acima da cabeça. O movimento exige força de braços, ombros, abdômen e costas, além de mobilidade e consciência corporal para controlar a posição com segurança. Apesar de parecer uma simples acrobacia, é um exercício que ensina algo bastante bonito: confiar no próprio corpo, sustentar o próprio peso e aprender gradualmente até onde ele é capaz de ir.

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