E se a vida que você está organizando hoje já precisasse comportar o “eu” que você mesmo ainda não conhece?


Fui a uma formatura no último fim de semana. Não a minha (ainda).
Eu estava ali para prestigiar uma colega de trabalho, minha xará, Julia, que estava se formando em Biblioteconomia. Confesso que fui pensando que faria aquilo que normalmente fazemos nessas ocasiões: assistir à cerimônia, aplaudir, tirar algumas fotos, abraçar a formanda, desejar sucesso e voltar para casa. Contudo, fui surpreendida pela fala da professora homenageada pela turma, fala essa que me fez prestar ainda mais atenção ao discurso.
Ela mencionou uma das ideias fundamentais da Biblioteconomia, formulada pelo matemático e bibliotecário indiano S. R. Ranganathan:
“A biblioteca é um organismo em crescimento.”¹
É uma frase simples e um tanto quanto óbvia. Entretanto, a vida tem me ensinado todos os dias que o óbvio precisa ser dito. Fiquei pensando na frase durante todas as 9 horas de viagem até o Rio de Janeiro (eu já estava com passagem comprada para ir direto da formatura para a rodoviária). Pensei cá com meus botões… por que uma biblioteca não pode ser organizada apenas para aquilo que já existe dentro dela? A resposta? Porque ela precisa ser capaz de receber aquilo que ainda virá.
Livros novos. Autores novos. Descobertas novas. Novas formas de produzir conhecimento (como bibliotecas digitais). Novas áreas. Novas necessidades.
De repente, percebi que essa singela frase – organiza-os em crescimento – não é só sobre livros. É um mantra sobre a vida.

Imagine uma biblioteca perfeitamente organizada.
Tudo catalogado. Tudo em seu devido lugar. Nenhum espaço vazio. Nenhuma prateleira disponível. Nenhuma necessidade de reorganização. À primeira vista, parece o sonho de qualquer pessoa que gosta de organização. Mas existe um problema. Ela parou de crescer.
Uma biblioteca que não consegue receber novos conhecimentos pode estar perfeitamente organizada e, ainda assim, estar obsoleta.
Penso que nossa vida funcione de maneira parecida. Muitas vezes organizamos nossa rotina e nossos horários para aquilo que somos hoje. Organizamos nosso tempo. Nossa agenda. Nosso dinheiro. Nosso corpo. Nossa carreira. Nossos relacionamentos. Nossos conhecimentos. Mas será que deixamos espaço para aquilo que ainda não sabemos que precisaremos aprender a lidar?
Vivemos em uma época estranha…
Temos mais acesso ao conhecimento do que qualquer geração anterior. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil saber o que merece nossa atenção. Uma informação chega antes mesmo de termos formulado uma pergunta. Uma inteligência artificial responde antes que tenhamos terminado de pensar. Isso quando pensamos…
Algoritmos selecionam aquilo que supostamente deveríamos assistir. Um curso promete ensinar uma nova habilidade em poucas horas. Um aplicativo sugere nossos hábitos. Outro monitora nosso sono. Outro mede nossos treinos. Outro nos diz quanto tempo deveríamos dedicar a alguma coisa. Nunca tivemos tantas ferramentas para organizar a vida.
E essa máxima da biblioteconomia aloja um triplex na minha cabeça e me faz questionar de novo e de novo:
Estamos realmente nos organizando para crescer ou apenas tentando administrar aquilo que já conhecemos?
Organizar é colocar as coisas em ordem.
Crescer é descobrir que a ordem anterior já não é suficiente. E isso pode (e de fato é) ser desconfortável. Porque crescer exige abrir espaço. Às vezes, precisamos abandonar uma rotina que funcionava. Aprender uma habilidade que não dominamos. Mudar uma opinião.
Aceitar que uma crença antiga estava errada. Reconhecer que temos falas preconceituosas, capacitistas. A vida e a biblioteconomia nos convidam a admitir que o conhecimento que nos trouxe até aqui talvez não seja suficiente para nos levar até o próximo lugar. Mais ainda, por este motivo inúmeras pessoas param de crescer. Pessoas que confundem estabilidade com completude.
Ranganathan estava pensando em bibliotecas. Mas vejo que ele foi tão além… A quinta lei tem um grande provocação escondida:
Uma estrutura precisa crescer junto com aquilo que pretende sustentar.
Se o conhecimento cresce, a biblioteca precisa crescer.
Se uma empresa cresce, sua estrutura precisa crescer.
Se uma sociedade cresce, suas instituições e seus líderes precisam crescer.
E se nós crescemos?
O que precisa mudar dentro de nós para acompanhar esse crescimento?
Uma pergunta que raramente fazemos.
Queremos uma carreira maior com os mesmos hábitos.
Queremos responsabilidades maiores, mas não desenvolvemos nossa capacidade de lidar com elas.
Queremos relações mais maduras, mas continuamos utilizando as mesmas ferramentas emocionais de quando éramos adolescentes.
Queremos compreender um mundo VUCA² cada vez mais complexo, mas continuamos alimentando nossas certezas com aquilo que confirma apenas o que já pensamos.
Queremos utilizar tecnologias novas, mas não desenvolvemos a capacidade de questionar aquilo que elas nos entregam.
Queremos crescer. Mas será que estamos estruturados para crescer?
Tenho pensado muito nisso desde que comecei a estudar filosofia. O mais belo do conhecimento é perceber que ele não termina. Uma resposta pode produzir uma pergunta melhor. Uma pergunta pode revelar nossa ignorância. Nossa ignorância pode nos levar a estudar. O estudo pode mudar aquilo que pensávamos saber. E aquilo que aprendemos pode, novamente, nos mostrar o quanto ainda falta conhecer e mudar o rumo de toda Humanidade. Não é um processo linear. É crescimento.
Uma vida saudável precisa ter um quê de biblioteca.
Precisamos catalogar experiências. Revisitar ideias. Descartar aquilo que perdeu validade. Abrir espaço para novos conhecimentos. Conectar assuntos que antes pareciam distantes. E, principalmente, não transformar nossas próprias estantes em prisão. Requisito urgente na Era da tecnologia.
O mundo que estamos construindo será mais complexo do que aquele que recebemos.
A inteligência artificial está mudando profissões. A automação está transformando processos. Novas tecnologias surgem em velocidades que tornam impossível acompanhar todas elas. As relações de trabalho mudam. A informação se multiplica. As fronteiras entre conhecimento, opinião, propaganda e entretenimento ficam cada vez mais confusas.
O mundo não está esperando que terminemos de nos preparar. Ele simplesmente continua acontecendo. Você pode até se perguntar:
“Estou preparado para o futuro?”
Você descobrirá que ninguém está. A pergunta mais pé no chão, no entanto, é:
Minha estrutura atual consegue suportar o futuro que me trará inúmeras coisas que ainda não sei e com as quais precisarei lidar?”
Penso nisso também de uma maneira muito prática.
Que espaço existe hoje na minha agenda para aprender alguma coisa que não tem utilidade imediata? Que espaço existe para mudar de opinião? Para errar? Descansar? Para uma conversa que não estava planejada? Para um livro que não tem relação nenhuma com meu trabalho/com minha faculdade? Que espaço existe para uma pessoa diferente de mim? Que espaço existe para aquilo que ainda não sei mas vou precisar?
Crescimento não é simplesmente adicionar. É organizar o presente de maneira suficientemente inteligente para que o futuro possa caber dentro dele.
Você pode inicialmente interpretar isso como disciplina. Isto é, repetição, fazer o que precisa ser feito, todos os dias: no horário certo, sem negociar. Até existe valor nisso. Mas existe também uma disciplina ainda mais sofisticada:a disciplina de permanecer disponível para mudar.
Uma pessoa verdadeiramente comprometida com o crescimento precisa estar disposta a reorganizar a própria biblioteca.
Aquilo que ontem era essencial pode deixar de ser.
Aquilo que ontem parecia irrelevante pode se tornar fundamental.
Uma experiência que parecia fracasso pode virar conhecimento.
Uma pessoa pode nos ensinar algo que nenhum livro ensinaria.
Uma aula pode abrir uma porta que não sabíamos que existia.
E, às vezes, aquilo que chamamos de desorganização é apenas o começo de uma reorganização necessária à mudança genuína.
Sou extremamente grata pelas aulas magnas gratuitas que a vida me insere. Me encanta como ela pode fazer o ato de prestigiar uma colega recebendo um diploma num merecido tapa de luva da eterna lapidação do ser.
Como ela me faz enxergar minha própria precária biblioteca. Com suas prateleiras internas.
Conhecimentos que tenho acumulado. Outros que tenho deixado de lado…
O fomento sutil das ideias que preciso revisitar.
Nas certezas que precisem ser questionadas.
E, principalmente, nos espaços vazios que ainda preciso preservar.
Porque uma biblioteca sem espaço para novos livros não é uma biblioteca preparada. É uma biblioteca lotada.
Estar cheio não significa estar preparado para crescer
JULIA PORTO
Não sei o que o futuro vai exigir de mim. Mas quero construir uma vida que consiga receber aquilo que ainda não conheço e que será necessário.
Quero mudar de opinião quando encontrar razões melhores.
Quero desenvolver virtudes que possam sustentar responsabilidades que ainda não tenho.
Quero que meus hábitos de hoje sejam capazes de acolher a pessoa que vou me tornar amanhã.
A verdadeira organização… Não colocar tudo no lugar definitivo e sim construir uma estrutura que saiba se reorganizar quando a vida crescer.
Porque, se a quinta lei de Ranganathan ensina que uma biblioteca é um organismo em crescimento, talvez nós também possamos experimentar essa ideia. Não como quem tenta controlar o futuro mas como quem se prepara para encontrá-lo.
“Como organizar minha vida para que ela continue capaz de crescer?”
Com um estilo de vida que não encerra possibilidades. Apenas cria – constantemente – espaço para elas.
NOTAS
¹ A quinta lei de Ranganathan, formulada pelo bibliotecário e matemático indiano S. R. Ranganathan em The Five Laws of Library Science (1931), afirma: “A biblioteca é um organismo em crescimento.” As cinco leis foram concebidas como princípios fundamentais para orientar a Biblioteconomia, e a quinta chama atenção para o caráter dinâmico das bibliotecas: o conhecimento, os acervos, as tecnologias e as necessidades dos leitores mudam continuamente. Por isso, uma biblioteca não pode ser pensada como uma estrutura acabada, mas como um organismo que precisa se adaptar para continuar útil. A ideia também se relaciona à concepção de Ranganathan de um “Universo do Conhecimento” em desenvolvimento contínuo.
² VUCA é um acrônimo, em inglês, para Volatility, Uncertainty, Complexity and Ambiguity — volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade. O conceito surgiu no contexto militar norte-americano no final da Guerra Fria e passou a ser utilizado também para descrever ambientes sociais, econômicos e profissionais marcados por mudanças rápidas, dificuldade de previsão, múltiplas variáveis e interpretações possíveis. Falar em preparação para um mundo VUCA, portanto, não significa tentar prever o futuro, mas desenvolver estruturas capazes de aprender, adaptar-se e tomar boas decisões mesmo quando as condições mudam.

Um final poético, para o início de uma nova semana. <3
Li umas 3 vezes.