
Por que às vezes o sucesso
assusta mais do que o fracasso?
O fracasso, por mais doloroso que seja, nos permite continuar sendo quem já somos. O sucesso não. Ele exige transformação.

“Um dia eu vou mudar minha vida.”
Para dizer essa frase o fato é que o “eu” de agora precisa desaparecer para dar lugar àquela pessoa nova que chegou, que ousou. Aquela que mudou.
E toda morte simbólica produz luto. Mesmo quando é necessária.
Carl Jung escreveu que ninguém se ilumina imaginando figuras de luz, mas tornando consciente a própria escuridão.
Porque crescer não é apenas sobre adicionar coisas novas.
É também abandonar versões antigas de nós mesmos.

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@juliasporto
Algumas delas muito confortáveis, familiares e acima de tudo, seguras.
É… existe uma estranha proteção no fracasso, mesmo que eu não queira admitir.
Ele nos permite continuar explicando para o mundo — e para nós mesmos — aquilo que poderíamos ter sido.
O sucesso remove essa proteção.
Depois dele, já não existe mais a hipótese. Existe a responsabilidade.
Acho que é por isso que durante anos permaneci na ante-sala dos meus próprios sonhos. O primeiro e mais ousado deles, para a Julia da época, foi amar outra mulher. Não porque me faltasse essa capacidade mas porque me sobrava consciência de que atravessar essa porta mudaria tudo.
Fracassar e vencer são acontecimentos. Transformar-se é uma condição. E essa condição assusta. Assusta porque exige coragem para abandonar a pessoa que fomos. Mas também porque exige humildade para acolher a pessoa que estamos nos tornando e que não sabe como chegar lá, qual caminho percorrer.
A pergunta para mim está longe de ser: “E se eu fracassar?”
A pergunta que raramente faço e que me assusta de verdade é: “E se eu conseguir?”
Porque, às vezes, o que nos paralisa não é o medo de cair. É o medo de descobrir que somos capazes de voar.
Não dê coragem aos seus medos.
Durante as últimas semanas eu venho tendo esse medo do sucesso.
Muito medo. Não medo da vida, das coisas que acontecem, dos noticiários. Mas da história que minha cabeça insiste em contar sobre ela.
Curioso escrever isso depois de tudo o que vivi nos últimos meses. Melhor, nos últimos anos.
Enquanto escrevo ainda sinto medo.
Medo de chegar até a largada e descobrir que eu simplesmente não sou capaz.
O curioso é que, consciente dos fatos, percebo que quase nada disso é provável de acontecer. Esse medo é apenas a minha cabeça tentando preencher com certezas um futuro que ainda não existe. Você acredita que comecei até a sonhar que desistia da prova? Sonhei que me machucava. Que alguma coisa dava errado. Acordada, os pensamentos continuam a vir e me inundar.
“Talvez você não consiga.”
“Talvez tenha começado tarde demais.”
“Talvez seu corpo ainda não esteja pronto.”

Pedalar 40km
Dá medo.

Fazer novos amigos
Da medo.

Explorar uma trilha
Dá medo.
O medo tem uma característica curiosa. Ele fala sempre no futuro. Nunca no presente.
Foi então que encontrei, por acaso, essa frase no Instagram: “Não darei coragem aos meus medos.”
Li. Uma, duas, três vezes. Continuei olhando fixamente a tela. A frase continuou comigo por todo o dia. Mais tarde, percebi que eu já venho fazendo exatamente isso. Ou melhor, venho tentando fazer o contrário!
Em vez de dar coragem aos meus medos, há alguns anos me convido e me forço a investigá-los.
Eu tinha medo da nova praia onde acontecerá o triathlon. Então convidei um amigo para nadarmos nela antes da prova e conhecemos o percurso, as pedras, a correnteza, a temperatura da água. Dai o desconhecido começou a perder espaço. Porque parei de tentar convencer a mim mesma de que daria tudo certo e passei a observar a vida e permitir que ela me mostrasse como realmente era.
Eu tinha medo de a bicicleta apresentar algum problema. Levei-a a um mecânico especializado. Fizemos uma revisão completa. Depois eu fiz o bikefit¹. Troca do que precisava ser trocado. Outro medo que ficou menor.
Eu tinha medo de o tênis não suportar os dez quilômetros. Passei horas pesquisando. Conversei com pessoas mais experientes. Escolhi um modelo adequado para a diminuição do impacto nas articulações. Mais um medo perdeu força.
Eu tinha medo de mim. De não conseguir terminar. Então fiz aquilo que sempre me ajuda a organizar a cabeça: Conversei com amigos, escrevi. É escrevendo que me recordo o que, a essa altura do campeonato, já deveria saber. O triathlon nunca foi a prova. Nem ter me mudado sozinha para o Espírito Santo. Nem ter superado a depressão. O autopreconceito. A prova sempre foi tudo aquilo que aconteceu e vem acontecendo. A prova é a coragem de continuar vivendo.
A cirurgia, a fisioterapia, os primeiros passos, a primeira pedalada, o primeiro mergulho, a primeira corrida sem dor.
Em suma, a vida em movimento.
Sócrates tem uma afirmação que fala sobre isso e num primeiro momento parece simples, mas mudou completamente minha relação com o medo. Ele diz que temer aquilo que não conhecemos é uma forma de acreditar que sabemos mais do que realmente sabemos.
Então percebi que meus medos falam como se conhecessem o futuro.
“Você vai fracassar.”
“Vai dar errado.”
“Você não consegue.”
Mas eles não sabem. Estão apenas supondo.
Porque o medo traz hipóteses. Nós é que lhes damos status de verdade.
A tonta aqui começou a perceber que toda vez que eu investigava um medo ele diminuía. Em contrapartida, toda vez que permanecia apenas imaginando, ele crescia. Não sei os seus, mas esses meus medos adoram a distância. É na distância que eles parecem invencíveis. Quando nos aproximamos deles, quase sempre descobrimos que eram menores do que imaginávamos.
Me lembro do primeiro dia que resolvi que meu blog teria o nome “felicidade estoica”. É que os estoicos ensinam as coisas que dependem de nós e outras, que não.
Eu nunca poderia controlar o clima da prova. Nem o comportamento do meu corpo no dia. Mas posso conhecer melhor a praia. Revisar a bicicleta. Pedir ajuda. Estudar os videos de quem já fez. Posso treinar. Posso monitorar meus tempos. Posso continuar caminhando.
Hoje o medo é um triathlon.
Ontem foi pedir demissão.
Amanhã provavelmente o medo será começar uma nova faculdade.
Ou encerrar um relacionamento.
Pedir desculpas.
O medo, no futuro, pode ser o simples fato de ter que recomeçar. De novo e de novo.
Independentemente de qual seja o medo, a pergunta que te ajudará quase sempre será a mesma: Você está investigando esse medo ou apenas acreditando na história que ele conta?
Nossa, quantos anos e quanto tempo dei coragem aos meus próprios medos.
Alimentei cenários que nunca aconteceram. Sofri antecipadamente por futuros que jamais existiram. Transformei hipóteses em certezas.
Repito novamente o mantra: Não darei coragem aos meus medos.
Não porque eles desaparecerão.
Eles continuam aqui e tenho certeza que outros novos virão. É que eles continuarão aparecendo sempre que a vida me convidar a crescer.
E ela, em sua sabedoria, me ensinará que coragem não é expulsar o medo. É recusar entregar a ele o direito de decidir os próximos passos. É continuar fazendo perguntas. É procurar respostas. É admitir humildemente onde termina aquilo que sei e onde começa aquilo que ainda preciso aprender.
Aí que mora a verdadeira coragem. Na disposição de caminhar sem transformar nossas incertezas em destino. No fim das contas, acho que era isso que Sócrates tentava nos ensinar. A sabedoria não elimina o desconhecido. Ela apenas nos impede de tratarmos nossa ignorância como verdade.
Hoje vejo que posso repetir essa frase com muito mais convicção do que quando a li pela primeira vez.
Não darei coragem aos meus medos.
Porque toda vez que caminho em direção a eles procurando compreender o que realmente existe ali, eles deixam de parecerem monstros. E voltam a ser apenas aquilo que sempre foram.
Portas pelas quais a vida me convida a atravessar para crescer.
NOTAS
¹ processo de ajuste ergonômico da bicicleta às características físicas e biomecânicas do ciclista. Envolve regulagens como altura e recuo do selim, posição do guidão e das sapatilhas, buscando aumentar o conforto, a eficiência da pedalada e reduzir o risco de dores e lesões. Mais do que melhorar desempenho, busca harmonizar postura, conforto e eficiência, reduzindo o desgaste físico e o risco de lesões ao longo da pedalada.
