Pensamentos Avulsos

Quem sou eu quando não preciso provar que sou capaz?

tatuagem mito do cocheiro

A verdadeira força pode começar quando a batalha termina.

Nas últimas duas semanas, um sentimento estranho me incomoda, me ronda e me cerca.

Eu consegui.

Estabeleci uma vida confortável no Espírito Santo começando do zero, sem amigos e sem família no dia a dia para me apoiar.

Comecei como única mulher do meu setor – em um ambiente predominantemente masculino – e hoje inspiro e treino mais três novas executivas na equipe a conquistarem seu lugar ao sol e baterem suas primeiras metas. 

Trabalho na sexta maior empresa de tecnologia do mundo e todos, incluindo a diretoria e presidência da empresa, confiam em mim, não importa o tamanho da entrega.

Passei na Universidade Federal do Espírito Santo.

Terminei o triathlon olímpico.

Coisas que, durante muito tempo, ocuparam uma enorme quantidade da minha energia, dos meus pensamentos e da minha disciplina. Coisas essas que finalmente aconteceram.

E eu achei que sentiria apenas felicidade pelas conquistas. Mas, depois da euforia, veio uma sensação que eu não esperava: silêncio. E essa ausência me assusta porque durante meses, na verdade anos, sempre havia algo que eu precisava muito fazer.

Treinar. Estudar. Persistir. Acordar cedo. Cumprir a planilha. Fazer fisioterapia.

Correr. Nadar. Pedalar.

Trabalhar. Resolver. Avançar.

Fazer algo.

Havia sempre alguma coisa para conquistar, algum obstáculo para atravessar, alguma montanha para subir. Agora não.

Eu não preciso treinar forte todos os dias. Posso fazer um treino leve porque a competição já passou. Posso chegar em casa depois de uma aula da faculdade, tomar banho e dormir. Não preciso acordar pensando no próximo edital. Não preciso transformar cada semana em uma preparação para alguma coisa. E isso justamente me deixa inquieta.

Porque passei tanto tempo aprendendo a lutar que agora preciso aprender a viver quando não há uma batalha acontecendo.

Meu terapeuta costuma dizer que sou uma pessoa extremamente corajosa. Minha família, há anos, desde que saí de casa para morar no Ceará, em Fortaleza, brinca me chamando de “melhor soldado”. Acho que eles dizem isso porque, diante de um obstáculo, eu simplesmente começo a procurar uma saída. Não importa muito o tamanho do problema. Eu olho para as condições que tenho, entendo meus limites, descubro o que está ao meu alcance e faço o que precisa ser feito. É uma característica da qual gosto. Mas ultimamente essa característica começou a me perseguir de outra forma:

Quem eu sou quando não preciso provar que sou capaz?

Se ser forte é uma das características mais marcantes da minha identidade, o que acontece quando não preciso ser forte?

Se eu sempre estou me preparando para a próxima batalha, será que sei reconhecer quando é hora de guardar a espada e repousar o escudo?

Ou será que, secretamente, preciso de uma luta externa para continuar reconhecendo quem sou?

Felicidade estoica hoje me leva a refletir que a vida reclama que estejamos prontos a buscar a metamorfose de Ovídio¹.

“As Metamorfoses” não é apenas uma obra com uma coleção de histórias fantásticas sobre deuses, heróis, monstros e homens. É, talvez, uma das maiores obras já escritas sobre aquilo que significa estar vivo.

Em Ovídio nada permanece exatamente como é.

Pessoas viram árvores. Homens viram animais. Mulheres viram flores. Pedras ganham vida. Corpos desaparecem. Amores mudam. Impérios caem. E, por trás de todas essas transformações, existe uma ideia incômoda:

Não existe permanência. Tudo muda. Nós mudamos. 

O maior perigo não é a mudança em si, mas em não percebermos no que estamos nos transformando.

Narciso olha para o próprio reflexo e se torna prisioneiro daquilo que contempla.

Midas deseja que tudo aquilo que toca se transforme em ouro e descobre tarde demais que aquilo que parecia poder também pode se transformar em condenação.

Aracne transforma sua habilidade em soberba e desafia aquilo que não reconhece como maior do que ela.

Ícaro recebe asas para escapar e morre justamente porque não soube reconhecer o limite entre a liberdade e a imprudência.

É curioso pensar nisso agora.

Porque eu passei tanto tempo aprendendo a voar que posso estar começando a esquecer que quando parar de voar.

Olho para a tatuagem da carruagem alada no meu corpo e penso nisso, de novo e de novo. Durante muito tempo, eu achei que a pergunta importante era:

“Consigo?”

Consigo terminar? Consigo correr? Consigo nadar? Consigo estudar? Consigo trabalhar? Consigo suportar? Consigo chegar até lá? E quase sempre a resposta foi sim.

Agora a pergunta é muito mais difícil: “Devo?”

Devo continuar acelerando? Devo transformar todo descanso em preparação? Devo transformar todo desejo em meta? Devo transformar toda oportunidade em obrigação? Devo continuar correndo e fazer um ironman apenas porque descobri que consigo?

Busco responder qual a diferença entre coragem e temperança.

A coragem nos ensina a atravessar a tempestade.

A temperança nos ensina a reconhecer quando não precisamos atravessá-la.

Respiro fundo na rede e abraço mais um poema de Ovídio. O problema de Ícaro não era ter asas. Era não saber quando parar de subir. Ele recebeu uma ferramenta extraordinária e confundiu capacidade com permissão.

Poder fazer alguma coisa não significa que devemos fazê-la.

Uma das lições mais difíceis para alguém acostumado a vencer desafios. Porque existe uma embriaguez particular em descobrir que somos capazes.

Você vence uma coisa. Depois outra. E outra. E começa a construir uma identidade em torno da própria capacidade de superar. Até que, sem perceber, a superação deixa de ser uma ferramenta e vira uma prisão.

Você não descansa porque “consegue mais”. Não recusa porque “dá conta”. Não para porque “ainda aguenta”. Não aceita o suficiente porque sempre existe um pouco mais que poderia ser conquistado. E então aquilo que um dia foi coragem começa a se transformar em compulsão.

É aqui que Ovídio volta a fazer sentido.

As metamorfoses não acontecem apenas no corpo. Elas acontecem no caráter.

Nossos hábitos, escolhas, paixões e desejos vão lentamente inscrevendo quem somos na forma da nossa vida.

A pessoa que escolhe a vaidade repetidamente se torna mais vaidosa.

A pessoa que alimenta o ressentimento se torna ressentida.

A pessoa que precisa provar o próprio valor o tempo inteiro se torna dependente da prova.

A pessoa que não sabe parar pode, pouco a pouco, esquecer por que começou a correr.

E eu não quero isso.

Não quero me tornar escrava das minhas próprias virtudes.

Não quero que a disciplina que me salvou se transforme na rigidez que me aprisiona.

Não quero que a coragem que me trouxe até aqui me impeça de reconhecer quando é hora de repousar.

Não quero precisar estar sempre vencendo para me sentir alguém.

Penso que em algum momento da vida há uma nova pergunta esperando por todos nós:

Quem somos quando não estamos tentando chegar a lugar nenhum?

Ainda não sei completamente. E talvez essa seja a resposta por enquanto…

Durante muito tempo, eu quis construir uma identidade baseada naquilo que conseguiria conquistar. Agora começo a perceber que existe uma identidade muito mais profunda escondida atrás das conquistas.

O caráter.

A maneira como trato as pessoas.

A honestidade com que reconheço meus próprios limites.

A disposição de aprender.

A capacidade de permanecer gentil quando ninguém está olhando.

A coragem de pedir ajuda.

A temperança de saber quando parar.

A justiça de reconhecer que o mundo não existe apenas para atender as metas que estabeleço.

A sabedoria de perceber que, por mais que eu saiba um pouco, existe um universo inteiro que ainda desconheço.

Isso permanece quando todas as medalhas deixam de importar.

Quando o diploma já está na parede. Quando a planilha é encerrada. Quando a prova termina. Quando ninguém mais está olhando.

Quem somos quando não precisamos provar nada?

Apenas pensar sobre a resposta nos coloca em um patamar mais próximo de finalmente livres para descobrir quem somos de verdade.

Ovídio termina As Metamorfoses falando sobre sua própria obra e sobre o que sobrevive à passagem do tempo.

Ele sabia que seu corpo morreria. Sabia que seu mundo mudaria. Sabia que impérios desapareceriam. Mas acreditava que aquilo que havia criado poderia continuar existindo depois dele.

Não a imortalidade do corpo. Mas a do caráter.

Daquilo que ensinamos. Daquilo que despertamos. Das pessoas que tratamos com dignidade. Dos filhos que educamos. Dos amigos que acolhemos. Das ideias que deixamos. Dos gestos que alguém reproduz anos depois sem sequer lembrar de onde aprendeu.

A minha maior preocupação talvez não devesse ser construir uma vida que prove o quanto sou capaz e sim construir uma vida que, quando eu não estiver mais aqui, tenha deixado alguma coisa boa para trás.

Porque as medalhas oxidam. Os títulos mudam de dono. Os corpos envelhecem. Os prédios caem. Os resultados são esquecidos. Mas aquilo que fazemos com o nosso caráter pode atravessar gerações. Essa é a verdadeira metamorfose que nos cabe.

Não transformar nosso corpo em algo extraordinário. Mas transformar, pouco a pouco, aquilo que somos.

Trocar culpa por diálogo.

Pressa por presença.

Vaidade por verdade.

Medo por coragem.

Excesso por temperança.

Egoísmo por cuidado.

Até que, um dia, olhando para trás, possamos reconhecer que todas aquelas pequenas escolhas silenciosamente construíram alguém que valeu a pena ser.

Eu e você podemos não saber para onde devemos apontar nossa carruagem alada². Está tudo bem, não precisamos saber agora. Depois de tantos anos aprendendo a acelerar, a próxima grande lição pode ser simplesmente aprender a conduzi-la.

Saber quando subir. Quando descer. Quando enfrentar o vento. Quando mudar a rota. E, principalmente, quando não voar perto demais do sol. Porque viver não é chegar o mais longe possível. Pode ser atravessar o tempo sem perder a própria humanidade no caminho.

E se tudo está destinado a mudar, como ensinou Ovídio, que pelo menos uma coisa permaneça em movimento: a construção consciente de quem escolhemos ser.

Para mim, a única viagem que realmente importa. E a única vitória que o tempo não consegue nos tirar.

NOTAS

¹ Metamorfoses, de Ovídio Metamorfoses (Metamorphoseon, em latim), escrita pelo poeta romano Públio Ovídio Nasão no início do século I d.C., é um longo poema narrativo composto por quinze livros que reúne cerca de 250 mitos ligados por um tema comum: a transformação. De deuses a mortais, de homens a animais, árvores ou constelações, Ovídio utiliza a metamorfose para refletir sobre desejo, poder, orgulho, sofrimento, identidade e a impermanência da vida. Mais do que uma coleção de mitos, a obra pode ser lida como uma investigação poética sobre a condição humana: aquilo que somos está permanentemente se transformando, e nossas paixões, escolhas e ações participam dessa transformação.

² A metáfora da carruagem A imagem da carruagem alada utilizada neste texto dialoga principalmente com o Fedro, de Platão, no qual Sócrates apresenta a famosa alegoria da alma como uma carruagem conduzida por um cocheiro e puxada por dois cavalos (que fiz uma releitura em conjunto com a artista e tatuadora Lis Torres). O cocheiro representa a razão; os cavalos, as forças e desejos que movem a alma, sendo um associado à disciplina e à nobreza e o outro aos impulsos desordenados. A carruagem, portanto, não representa apenas deslocamento, mas a própria condução da vida: cabe ao cocheiro aprender a governar forças que nem sempre apontam na mesma direção. É nesse sentido que a imagem aparece aqui: depois de aprender a acelerar e vencer obstáculos, talvez a próxima tarefa seja reaprender a conduzir (apenas) — reconhecer quando avançar, quando mudar a rota e quando conter o próprio impulso.

Um comentário sobre “Quem sou eu quando não preciso provar que sou capaz?”

  1. Val disse:

    A pergunta nunca se encerrou por aqui. E a verdade é que acho que nunca se encerra. Acredito que a gente vai sempre descobrindo mais sobre quem somos e quem ainda podemos ser.
    Vou levar um tempo pra digerir esse. ‍

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