Pensamentos Avulsos

A Casa do Ser.

mulheres sorrindo e trabalhando, olhando para algo, na empresa NTT DATA

Até que em algum momento, único, exclusivo e diferente para cada um de nós, nos damos conta de que na verdade essa companhia não mora no apartamento dos sonhos, no carro do ano, no cônjuge, nem no trabalho. E então começamos a ruminar pelo mundo, nos alimentando das mais variadas fontes de informações indigestas ao ser

O meio da travessia costuma ser solitário mesmo. Talvez você se pergunte: Por que é mais fácil encontrar companhia do que encontrar conexão?

É interessante pensar que se o objetivo for claro, todo GPS recalcula a rota, mesmo se você pegar o caminho errado. Então por que seria diferente conosco? Os pensamentos que nos assolam são tão cruéis. E nos matam em partes, como Jack. Tanta comparação, cada uma delas um golpe à autenticidade. A curiosidade que tínhamos pelo mundo passa a ser um picolé de chuchu porque as coisas simplesmente perderam a graça. Você se pergunta onde estão as novidades. Esse é o problema da vida construída em metas futuras. Ela traz consigo o vazio que é perceber que nenhuma delas oferece companhia interior.

Talvez Jung tenha razão. O homem é mais capaz de construir uma nave que o leve à lua do que ao interior de si mesmo. E por isso fomos apenas à Lua.

Como habitar a própria interioridade

Talvez habitar a própria interioridade comece justamente quando paramos de tentar escapar dela. Porque quase tudo hoje parece desenhado para impedir esse encontro.

As notificações. Os vídeos curtos. O excesso de opinião. A necessidade constante de performance. O algoritmo que escolhe e seleciona por você. A verdade é que quase sempre estamos ocupados demais para perceber o que sentimos de verdade. E talvez exista algo de profundamente assustador nisso: o silêncio. Acho que por isso eu demorei a me adaptar à natação. Sou só eu, meus medos e meus pensamentos. Porque quando o barulho cessa, sobra o encontro com perguntas que passamos anos tentando adiar. Para alguns de nós, décadas!

Quem sou eu sem as metas? Quem sou eu sem o trabalho? Quem sou eu sem alguém para validar minha existência? Desnorteados, confundimos distração com felicidade. E voltamos ao vuco vuco do mundo VUCA¹.

Habitar a própria interioridade não significa gostar de tudo o que existe dentro de si. Às vezes significa apenas permanecer mesmo depois de conferir o que há do outro lado. Sem fugir imediatamente. Sem anestesiar cada vazio com consumo, relações rasas ou excesso de estímulo.

Existe uma coragem silenciosa em sustentar a própria companhia. Falamos pouco dessa firmeza que é repousar na infinitude do ser.

Não como quem se basta o tempo inteiro — porque isso também seria uma fantasia contemporânea — mas como alguém que aprende, pouco a pouco, a não se abandonar. Talvez o autoconhecimento não seja uma grande revelação mística e sim intimidade construída com repetição. Como visitar diariamente uma casa antiga até reconhecer onde o chão range, onde entra luz pela manhã e quais paredes ainda precisam de reforma.

A obra de uma casa não termina nunca. O interior humano também é uma casa. E muitas vezes passamos anos decorando a fachada enquanto os cômodos internos permanecem abandonados e o alicerce pede uma intervenção.

Talvez por isso a solidão doa tanto. Porque ela nos obriga a ouvir ecos que a vida acelerada abafa. Notificação a notificação. Todavia, existe algo importante do outro lado desse encontro. No momento em que aprendemos a habitar minimamente a nós mesmos, as relações deixam de ser apenas tentativa de preenchimento. O outro deixa de carregar a responsabilidade impossível de nos salvar da própria ausência interior.

E então, pela primeira vez, a conexão verdadeira se torne possível.

Não porque deixamos de sentir vazio.

Mas porque finalmente paramos de preenchê-lo com coisas que não o cabem.

¹mundo VUCA: É um acrônimo² criado pelo exército dos Estados Unidos após a Guerra Fria para descrever ambientes marcados por Volatility, Uncertainty, Complexity e Ambiguity — em português: volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade. O conceito passou a ser amplamente utilizado no mundo corporativo e acadêmico para caracterizar cenários de rápidas transformações, imprevisibilidade e excesso de informações.

² Acrônimo é uma palavra formada pelas letras ou sílabas iniciais de outras palavras.

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