Pensamentos Avulsos

Navegar eu quero

será que ainda temos desejo de procurar? 

Felicidade Estoica


Talvez o maior luxo do nosso tempo seja não saber. 

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@ j u l i a s p o r t o

Outro dia, ouvi meu podcast preferido: a energia dos arcanos. Para quem não sabe, nele a hostess, Rita Araújo, fala sobre a carta do dia a qual, enquanto escrevo este texto é o três de paus. A metáfora para explicar esse arcano menor¹ durante o episódio, foi um sujeito diante do infinito oceano, olhando para o horizonte, como quem ainda não sabe exatamente o que encontrará do outro lado mas ainda assim vai.

Um descobridor. Um navegador. Alguém prestes a partir. A conquistar.

O curioso é que, enquanto ouvia, minha cabeça imediatamente foi parar em uma música que você leitor provavelmente conhece: Descobridor dos setes mares², do Tim Maia.

Pensei: Navegar eu quero.

Existe algo tão profundamente humano nesse desejo.

Durante séculos, nós olhamos para o horizonte e sentimos curiosidade pelo que havia depois dele. Atravessamos os oceanos sem saber exatamente o que encontraríamos. Entramos em florestas que não conhecíamos. Subimos montanhas. Observamos o céu. Mapeamos territórios. Fizemos perguntas para as quais não tínhamos respostas. E, muitas vezes, foi justamente a ausência delas que nos fez partir.

Hoje, em contrapartida, temos um problema curioso.

O mundo ficou muito menor. E as respostas, muito mais próximas. Se quero saber alguma coisa, pergunto a OPENAI³. Se quero aprender alguma coisa, procuro um tutorial. Se quero estudar, encontro uma aula. Se quero uma opinião, encontro milhares. Se quero uma síntese de um livro, alguém já fez. Se quero organizar meus pensamentos, uma inteligência artificial pode me ajudar. Se quero saber o caminho, o GPS me mostra. Se quero saber o que outras pessoas pensam, basta abrir uma rede social. Temos mapas para praticamente tudo e talvez por isso estejamos perdendo o gosto pela navegação.

Não porque deixamos de ser curiosos. Mas porque começamos a acreditar que toda pergunta precisa terminar rapidamente em uma resposta. O grande paradoxo do nosso tempo…

Nunca tivemos tanto acesso à informação. Por outro lado, nunca tivemos tanta dificuldade para simplesmente permanecer diante de uma pergunta. Em habitar de verdade a diferença enorme entre receber informação e buscar conhecimento.

Uma resposta pronta pode informar. Entretanto, a procura transforma. É durante a procura que somos obrigados a duvidar. A comparar. A errar. A voltar. A mudar de ideia. A buscar ajuda, dialogar. A descobrir que aquilo que acreditávamos saber era mera opinião.

Os gregos  e filósofos tinham uma palavra para o conhecimento verdadeiro; fundamentado: a episteme⁴. E tinham outra para aquilo que é opinião, aparência, crença: doxa⁴. Caramba, como temos vivido cercados por tanta doxa.

Ela chega pelo celular. Pelo algoritmo. Pelo vídeo de trinta segundos. Pelo comentário de alguém que fala com absoluta convicção sobre aquilo que pesquisou por cinco minutos. Pelo influenciador que transforma opinião em autoridade. Pelo especialista autoproclamado. Pelo amigo que compartilha uma informação porque “viu em algum lugar”. E existe algo particularmente perigoso na doxa: Ela não precisa ser verdadeira para parecer verdadeira. Basta ser convincente. Basta ser repetida. Basta aparecer muitas vezes. Basta ser dita por alguém que fala bem. E é por isso que a filosofia continua sendo tão necessária na minha vida e espero que você a convide para a sua também.

Ela nos ensina a desconfiar da facilidade com que acreditamos que sabemos. Sócrates⁵ fez disso praticamente uma forma de viver, para si e seus alunos. Não porque acreditasse que nada poderia ser conhecido. Mas porque compreendeu algo muito mais desconfortável: há uma diferença entre aquilo que sabemos e aquilo que apenas acreditamos saber. A verdadeira virtude começa justamente nesse espaço.

Entre a certeza e a dúvida. Entre a doxa e a episteme. 

Nesse sentido, a tecnologia nos interessa (e muito). Não tenho medo dela, tampouco da inteligência artificial. Nem você leitor deveria. Pelo contrário. Eu as utilizo. Todos os dias, para as mais variadas tarefas. E acho extraordinário poder conversar com uma ferramenta capaz de me ajudar a pesquisar, organizar ideias, encontrar referências e enxergar ângulos que talvez eu não tivesse percebido sozinha.

Agora, faça a si mesmo uma pergunta:

Essas ferramentas que você usa, são para navegar melhor ou para deixar de navegar?

Uma coisa é usar um mapa para atravessar um território. Outra é nunca olhar para a paisagem porque o mapa já disse onde estamos.

Uma coisa é utilizar uma inteligência artificial para ampliar nossa capacidade de pensar. Outra é terceirizar o próprio pensamento.

Uma coisa é perguntar. Outra é deixar de ter curiosidade.

E aí reside  a ameça; o risco. Não na existência das respostas. Mas na nossa perda de apetite pelas perguntas genuínas. Dessas que tangibilizam as coisas mais importantes da vida, que não possuem nem possuirão um tutorial.

Como amar alguém. Como perdoar. Como criar um filho para o mundo. Como lidar com a morte. Como descobrir quem somos. Como decidir pelo justo mesmo que haja perda. Como saber quando insistir e quando partir. Como viver uma vida boa. Como definir o que é uma vida boa. Como distinguir aquilo que desejamos daquilo que realmente precisamos.

Para essas coisas, podemos consultar filósofos, cientistas, livros, professores, amigos e até inteligências artificiais. Mas no fim do dia ninguém conseguirá navegar na resposta verdadeira para nós e por nós.

Há uma parte da viagem que permanece inevitavelmente nossa. E nós enquanto navegadores não possuiremos todas as respostas. Instrumentos, mapas, conhecimento acumulado por quem veio antes, claro. Mas ainda é preciso partir. Ainda é preciso olhar para o horizonte. Lidar com o vento. Corrigir a rota.

Viver filosoficamente é um pouco isso. Não saber exatamente onde vamos chegar, mas ter coragem suficiente para sair em busca do que nos tornará maiores do que quando viemos ao mundo. A espécie de vida que nasce quando deixamos de exigir certezas. Uma vida em que o desconhecido é um convite, uma pergunta que pode sim permanecer aberta. Por que não?

Uma dúvida não precisa ser resolvida antes do jantar. Tudo bem dizer: eu não sei. E continuar. Uma das frases mais honestas que um ser humano pode pronunciar. Eu não sei.

Não sei se isso é verdadeiro. Não sei se estou certo. Não sei qual é o melhor caminho. Não sei o que existe depois daquele emprego/relacionamento/golpe etc. Mas quero descobrir.

Quero ler.

Quero perguntar.

Quero conversar.

Quero experimentar.

Quero errar.

Quero mudar de ideia.

Quero conhecer.

Quero navegar.

A vida não é uma viagem cujo objetivo é chegar ao lugar onde todas as respostas estão. É a própria disposição de continuar fazendo perguntas melhores para chegar naquilo que é, em essência, verdadeiro.

Aquilo que é justo. Aquilo que é bom. Aquilo que é belo. Aquilo que merece ser vivido. Por todos…

Diante de um mundo que tenta nos entregar tudo pronto, essa disposição pelo incógnito é uma pequena forma de liberdade.

Então, se me perguntarem o que quero fazer com tudo aquilo que ainda não sei…

Eu acho que já tenho a resposta.

Navegar, eu quero.

NOTAS

¹ Três de Paus — Arcano menor do tarô tradicional, frequentemente associado à expansão, aos horizontes e à disposição para explorar aquilo que ainda não foi conhecido. A imagem de uma figura contemplando o horizonte ajuda a representar o momento anterior à partida: já existe um caminho percorrido, mas o que está além ainda permanece desconhecido.

² Navegar eu quero” — referência à canção Descobridor dos Sete Mares, de Tim Maia, lançada em 1983. A música celebra, em tom quase mítico, a figura do navegante que deseja conhecer o mundo e partir em direção ao desconhecido. Aqui, a expressão é utilizada como metáfora para a disposição humana de explorar aquilo que ainda não sabemos

³ OPENAI — É uma empresa de pesquisa e tecnologia de inteligência artificial dos Estados Unidos, fundada em 2015. Ela é famosa por criar o ChatGPT e o gerador de imagens DALL-E, com o objetivo de desenvolver sistemas de IA seguros que ajudem toda a humanidade.

Episteme e doxa — termos de origem grega fundamentais para a reflexão filosófica sobre o conhecimento. Episteme pode ser compreendida como conhecimento fundamentado, enquanto doxa corresponde à opinião, crença ou percepção não necessariamente sustentada por fundamentos sólidos. A distinção aparece de diferentes formas na filosofia grega, especialmente nas discussões de Platão sobre conhecimento e opinião.

Sócrates — filósofo ateniense do século V a.C., conhecido por transformar o questionamento em método de investigação filosófica. Embora a famosa formulação “só sei que nada sei” não apareça literalmente dessa forma nos textos de Platão, ela sintetiza uma ideia recorrente nos diálogos socráticos: reconhecer a própria ignorância é condição para começar a investigar aquilo que se acredita saber.

Pensamentos Avulsos

Não dá para fazer tudo

Mas sempre dá para fazer alguma coisa.

Resolvi escrever esse texto após subir ao pódio, em quinto lugar na minha categoria, da maior prova de triathlon olímpico do Espírito Santo, o capixaba de ferro.

O texto é sobre uma coisa curiosa: Eu quase não comecei esse triathlon. Não porque faltou vontade. Mas porque, durante muito tempo, fazer tudo era simplesmente impossível.

Quando operei a coluna, eu só podia andar pela casa para tomar banho e fazer minhas refeições. Depois, fui liberada para subir e descer as escadas uma vez por dia. Uma vez. Na época, eu estava no apartamento da minha avó, no primeiro andar e sem elevador. Mais tarde, eu trocaria para o meu apartamento atual (enquanto escrevo esse texto), no quarto andar e também sem elevador.

Depois veio a recomendação médica de caminhar cinco minutos. Era isso.

Cinco minutos por dia. E eu me sentia inútil. Porque o que são cinco minutos?

Enquanto o mundo continuava correndo, eu tinha que andar durante cinco minutos. E, para piorar, doía. Às vezes eu queria chorar porque até cinco minutos parecia difícil demais. Mesmo assim eu ia. Cinco minutos. Todos os dias.

Depois de uma semana, o médico disse que eu poderia aumentar conforme meu corpo permitisse. Então aumentei cinco minutos. Quando doía, diminuía. Quando conseguia, aumentava. E assim fui descobrindo uma coisa que hoje parece óbvia, mas que naquela época eu precisava aprender todos os dias: não dá para fazer tudo mas sempre dá para fazer alguma coisa.

Lembro que durante o primeiro mês de fisioterapia, minha “aula de natação” nem sequer era uma aula de natação. Eu entrava na piscina e caminhava. Só isso. A piscina tinha 15 metros e a borda parecia estar do outro lado do planeta. Até que um dia eu nadei. Não foi bonito. Eu parecia um pato desajeitado tentando descobrir se deveria bater os braços, as pernas ou simplesmente desistir. Mas nadei. E não senti dor. Só um cansaço enorme. Foi uma das primeiras vezes em meses em que meu corpo me mostrou que ainda existiam coisas que ele conseguia fazer. No último mês de fisioterapia, finalmente consegui nadar de uma borda à outra sem parar. Eu ainda lembro da sensação. Aquilo aconteceu pouco antes do Natal. Eu estava no Rio, hospedada na casa da minha avó para fazer o pós-operatório. Para mim, foi um presente.

Quando voltei para o Espírito Santo, o desafio mudou. Já não era apenas físico. Era psicológico. Eu trabalhava deitada porque ficar sentada por mais de quinze minutos era cansativo. Não podia limpar a casa. Não podia carregar peso. Não podia sair várias vezes por dia porque cada saída significava enfrentar quatro andares de escada. Minha família estava no RJ. Então meus amigos precisaram ajudar. Buscar encomendas. Arrastar móveis. Organizar uma faxineira. Ajudar nas pequenas coisas que, para quem está saudável, parecem absolutamente banais. Como descobrir se uma panela cheia de água é ou não pesada demais.

Durante os primeiros meses, meu desempenho no trabalho despencou. Eu estava cansada. Sem energia. E provavelmente meus clientes percebiam. Mas eu continuava indo à fisioterapia. Trabalhando com segurança. Continuava nadando. Continuava tentando. Lembro até hoje da primeira vez em que conseguimos me manter na prancha alta durante quinze segundos. Quinze. A fisioterapeuta estava ali e eu ainda fazia as sessões em casa. Eu queria gritar e chorar de alegria, mas segurei. Hoje acho engraçado. Eu tinha acabado de passar meses lutando para recuperar movimentos básicos e ainda tentava manter a pose de quem não chorava na frente dos outros.

Cinco meses depois da cirurgia, pedi ao médico para voltar a pedalar. Eu sentia falta. Ele autorizou. E não doeu. Pouco a pouco, a vida começou a devolver pequenas partes de si mesma. Um sábado, fui fazer feira e me empolguei. Comprei mais coisas do que deveria. Voltei caminhando para casa carregando as compras. Dez minutos. Quando contei ao médico, ele achou um ótimo sinal. Eu achei curioso. Até carregar compras podia ser um indicador de recuperação.

Comecei então a testar pequenas coisas. Quanto consigo andar? Quanto consigo carregar? Quanto tempo consigo nadar? Como meu corpo responde? Eu estava, sem perceber, reconstruindo minha confiança em pequenos experimentos. Até que um dia, andando na esteira, pensei:

Eu já nado três vezes por semana. Já consigo andar sem dor. Já pedalo. E se eu fizesse um triathlon?

A ideia parecia absurda para os outros, mas fazia sentido pra mim, comemorar a vida em uma prova difícil, com tudo o que eu achei que não fosse mais conseguir fazer. Assim, pedi autorização ao médico e ele permitiu. Com uma condição: Nada de corrida ainda. Começaria pela bicicleta e pela natação. Minha fisioterapeuta entrou no plano comigo e começamos a preparar meu corpo para, algum dia (que eu não sabia quando), sustentar uma corrida. Troquei a pequena piscina onde treinava por uma piscina olímpica perto do trabalho. Resultado? Voltei a me sentir incapaz.

As raias tinham 25 metros. Era difícil. Eu não conseguia acompanhar os educativos. Terminava as aulas me sentindo a pior pessoa do mundo, Comecei a evoluir mesmo depois de três semanas. Até que um dia (de novo) cheguei para a aula e as raias estavam organizadas em 50 metros. Pronto. Voltei para a estaca zero. Eu simplesmente não conseguia chegar ao outro lado. Parecia que ia desmaiar de tanto esforço. Mas continuei.

3 meses depois finalmente consegui completar a meta da aula. Dois quilômetros. Depois de três meses tentando. Naquele dia eu não tinha conquistado nenhuma medalha. Mas alguma coisa dentro de mim tinha mudado. 

Na bicicleta a mesma coisa. Eu descobri que, para fazer a prova precisaria de uma bicicleta speed. Fui experimentar uma. Não sei se você já assistiu a Harry Potter, mas me senti como aquela aranha andando de patins¹. Não consegui andar nem dez metros. O equilíbrio era próximo ao de um gato numa canoa. Mesmo assim, comprei.

Daí veio o medo de cair, as novas posições, os exercícios de força e toda aquela sensação maravilhosa de ser novamente uma iniciante, só que não. Até que eu dominei o modos operandi da bike e aos domingos, eu pedalava trinta quilômetros, sem exceção. Aumentava tempo e intensidade conforme meu médico havia orientado. E caminhava também. Dez quilômetros. O treino que eu mais queria evitar… a tal da caminhada. Para conseguir terminar, colocava uma palestra de uma ou duas horas da professora Lúcia Helena Galvão e caminhava. De novo. E de novo. E de novo. Até que, faltando um mês para a prova, finalmente veio a autorização para correr. Só que havia outra condição.

Precisava fazer um exame² para avaliar minha pisada e comprar o tênis adequado. O resultado foi uma palmilha ortopédica e um novo processo de adaptação de mais 45 dias. Eu queria chorar novamente. Finalmente podia correr mas precisava esperar.

Três semanas antes da prova, fiz minha primeira corrida de verdade. Cinco quilômetros completos. E aconteceu uma coisa que até hoje me parece estranha.

Eu corri sem sofrimento. Sem aquela sensação de que meu corpo estava sendo testado pela primeira vez. Corri como quem passeia no shopping. Pensei: Que doideira. Até aqui, tudo foi tão difícil. Será que o universo está me pregando uma peça?

Então chegou o grande dia. O dia da competição³. 

A praia era diferente daquela que eu conhecia. O circuito da bike teria morros. A corrida seria de dez quilômetros e no asfalto.

Eu nunca tinha feito as três modalidades juntas em condições reais: na rua, com subidas, sol de 30º. E, honestamente, achava que chegaria em último. Principalmente por causa da corrida e da correnteza do mar. Eu imaginava um tempo enorme. Imaginava começar e dar tudo errado. Imaginava não terminar. Mas entre o medo e a linha de chegada existia tudo aquilo que eu havia feito durante meses sem perceber.

Cinco minutos. Depois dez. Depois quinze. Depois vinte. Uma piscina pequena. Uma piscina grande. Um quilômetro. Dois quilômetros. Trinta quilômetros de bicicleta. Dez quilômetros caminhando. Cinco quilômetros correndo. E então, naquele domingo, nadei. Pedalei. Corri. Minuto a minuto, consciente, focada, desliguei o mundo lá fora e pensei: só mais 5 minutos. Até que eles se tornaram 3 horas e 44 minutos e quinto lugar na categoria feminina de 25 a 29 anos. Eu subi ao pódio. Mas, para mim, o pódio mesmo, veio quando eu só podia caminhar cinco minutos e decidi caminhar mesmo assim.

Existe uma tendência nossa de olhar para grandes conquistas e imaginar que elas nasceram grandes. Não nasceram. Quase tudo que admiramos começou pequeno demais para parecer importante.

Uma página. Uma aula. Uma conversa. Uma decisão. Cinco minutos.

O problema é que queremos enxergar o caminho inteiro antes de dar o primeiro passo.

Queremos saber se vamos conseguir.

Queremos saber quanto tempo vai levar.

Queremos saber se o esforço será suficiente.

Queremos garantias. Quem não quer? Mas a vida não nos dá nenhuma. Só o próximo passo. E eu aprendi a aceitá-lo.

Hoje, quando alguém olha para mim e vê uma mulher que terminou um triathlon olímpico e subiu ao pódio, logo me manda mensagem sobre disciplina, força, determinação. E tudo isso existe. Mas existe também uma versão muito menos glamourosa dessa história.

A Julia que chorava porque precisava andar cinco minutos. A que achava que aquilo era injusto.

A que dependia dos amigos para tarefas simples.

A que não conseguia segurar uma garrafa de água sem dor. 

A que não conseguia atravessar uma piscina de quinze metros.

A que não conseguia andar dez metros em uma bicicleta nova.

A que precisava esperar.

A que regredia.

A que recomeçava.

A que, muitas vezes, simplesmente fazia alguma coisa porque não conseguia fazer tudo. E é justamente isso que eu gostaria de deixar para você com esse texto.

Não espere estar pronto para começar. Não espere ter força para fazer tudo. Não espere conhecer o caminho inteiro. Se hoje você só consegue caminhar cinco minutos, caminhe cinco. Se não consegue estudar uma hora, estude dez minutos. Se não consegue resolver a vida inteira, resolva o próximo problema. 

Se não consegue correr, caminhe.

Se não consegue caminhar, fique de pé.

Se nem isso for possível hoje, descanse.

Mas não confunda o tamanho do passo com a importância da direção. Porque pequenos passos continuam sendo passos. E, às vezes, o que parece pouco para quem observa de fora é exatamente o máximo que alguém consegue fazer naquele momento.

Não dá para fazer tudo. Mas sempre dá para fazer alguma coisa.

Assim que os sonhos acontecem. Não quando finalmente conseguimos correr em direção a eles. Mas quando aprendemos a caminhar. Um passo. Depois outro. Depois outro.

Até perceber, algum dia, que aquilo que parecia impossível estava apenas esperando que a gente apenas começasse.

NOTAS

¹ Bicho-papão e Riddikulus: em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, o professor Remo Lupin ensina os alunos a enfrentar bichos-papões, criaturas que assumem a forma daquilo que cada pessoa mais teme. O feitiço Riddikulus transforma a manifestação do medo em algo cômico, retirando dela parte de seu poder.

² Baropodometria: exame que analisa a distribuição das pressões exercidas pelos pés sobre uma plataforma equipada com sensores, podendo avaliar tanto a posição estática quanto o movimento. Na corrida, esse tipo de avaliação pode fornecer informações sobre a distribuição de carga e aspectos da mecânica dos pés e dos membros inferiores, auxiliando profissionais na análise individual do corredor e na tomada de decisões sobre treinamento, calçados ou outras intervenções quando indicadas.

³ Capixaba de Ferro: competição de triathlon realizada no Espírito Santo que reúne diferentes distâncias. Na categoria Standard, modalidade disputada por mim, os atletas percorrem 1,5 km de natação, 40 km de ciclismo e 10 km de corrida, em sequência. São três modalidades diferentes, realizadas de forma contínua, exigindo não apenas preparo físico, mas também estratégia e capacidade de administrar o esforço ao longo de toda a prova.

Pensamentos Avulsos

O peso de se tornar

mulher conduzindo palestra em evento com power point

Por que às vezes o sucesso

assusta mais do que o fracasso?

O fracasso, por mais doloroso que seja, nos permite continuar sendo quem já somos. O sucesso não. Ele exige transformação.

“Um dia eu vou mudar minha vida.”

Para dizer essa frase o fato é que o “eu” de agora precisa desaparecer para dar lugar àquela pessoa nova que chegou, que ousou. Aquela que mudou.

E toda morte simbólica produz luto. Mesmo quando é necessária.

Carl Jung escreveu que ninguém se ilumina imaginando figuras de luz, mas tornando consciente a própria escuridão.

Porque crescer não é apenas sobre adicionar coisas novas.

É também abandonar versões antigas de nós mesmos.

mulher contemplando árvore nativa brasileira em floresta

★★★★★

@juliasporto

Algumas delas muito confortáveis, familiares e acima de tudo, seguras.

É… existe uma estranha proteção no fracasso, mesmo que eu não queira admitir.

Ele nos permite continuar explicando para o mundo — e para nós mesmos — aquilo que poderíamos ter sido.

O sucesso remove essa proteção.

Depois dele, já não existe mais a hipótese. Existe a responsabilidade.

Acho que é por isso que durante anos permaneci na ante-sala dos meus próprios sonhos. O primeiro e mais ousado deles, para a Julia da época, foi amar outra mulher. Não porque me faltasse essa capacidade mas porque me sobrava consciência de que atravessar essa porta mudaria tudo.

Fracassar e vencer são acontecimentos. Transformar-se é uma condição. E essa condição assusta. Assusta porque exige coragem para abandonar a pessoa que fomos. Mas também porque exige humildade para acolher a pessoa que estamos nos tornando e que não sabe como chegar lá, qual caminho percorrer.

A pergunta para mim está longe de ser: “E se eu fracassar?”

A pergunta que raramente faço e que me assusta de verdade é: “E se eu conseguir?”

Porque, às vezes, o que nos paralisa não é o medo de cair. É o medo de descobrir que somos capazes de voar.

Não dê coragem aos seus medos.

Durante as últimas semanas eu venho tendo esse medo do sucesso.

Muito medo. Não medo da vida, das coisas que acontecem, dos noticiários. Mas da história que minha cabeça insiste em contar sobre ela.

Curioso escrever isso depois de tudo o que vivi nos últimos meses. Melhor, nos últimos anos.

Enquanto escrevo ainda sinto medo.

Medo de chegar até a largada e descobrir que eu simplesmente não sou capaz.

O curioso é que, consciente dos fatos, percebo que quase nada disso é provável de acontecer. Esse medo é apenas a minha cabeça tentando preencher com certezas um futuro que ainda não existe. Você acredita que comecei até a sonhar que desistia da prova? Sonhei que me machucava. Que alguma coisa dava errado. Acordada, os pensamentos continuam a vir e me inundar.

“Talvez você não consiga.”

“Talvez tenha começado tarde demais.”

“Talvez seu corpo ainda não esteja pronto.”

Pedalar 40km

Dá medo.

Fazer novos amigos

Da medo.

Explorar uma trilha

Dá medo.

O medo tem uma característica curiosa. Ele fala sempre no futuro. Nunca no presente.

Foi então que encontrei, por acaso, essa frase no Instagram: “Não darei coragem aos meus medos.”

Li. Uma, duas, três vezes. Continuei olhando fixamente a tela. A frase continuou comigo por todo o dia. Mais tarde, percebi que eu já venho fazendo exatamente isso. Ou melhor, venho tentando fazer o contrário!

Em vez de dar coragem aos meus medos, há alguns anos me convido e me forço a  investigá-los.

Eu tinha medo da nova praia onde acontecerá o triathlon. Então convidei um amigo para nadarmos nela antes da prova e conhecemos o percurso, as pedras, a correnteza, a temperatura da água. Dai o desconhecido começou a perder espaço. Porque parei de tentar convencer a mim mesma de que daria tudo certo e passei a observar a vida e permitir que ela me mostrasse como realmente era. 

Eu tinha medo de a bicicleta apresentar algum problema. Levei-a a um mecânico especializado. Fizemos uma revisão completa. Depois eu fiz o bikefit¹. Troca do que precisava ser trocado. Outro medo que ficou menor.

Eu tinha medo de o tênis não suportar os dez quilômetros. Passei horas pesquisando. Conversei com pessoas mais experientes. Escolhi um modelo adequado para a diminuição do impacto nas articulações. Mais um medo perdeu força.

Eu tinha medo de mim. De não conseguir terminar. Então fiz aquilo que sempre me ajuda a organizar a cabeça: Conversei com amigos, escrevi. É escrevendo que me recordo o que, a essa altura do campeonato, já deveria saber. O triathlon nunca foi a prova. Nem ter me mudado sozinha para o Espírito Santo. Nem ter superado a depressão. O autopreconceito. A prova sempre foi tudo aquilo que aconteceu e vem acontecendo. A prova é a coragem de continuar vivendo.

A cirurgia, a fisioterapia, os primeiros passos, a primeira pedalada, o primeiro mergulho, a primeira corrida sem dor.

Em suma, a vida em movimento.

Sócrates tem uma afirmação que fala sobre isso e num primeiro momento parece simples, mas mudou completamente minha relação com o medo. Ele diz que temer aquilo que não conhecemos é uma forma de acreditar que sabemos mais do que realmente sabemos.

Então percebi que meus medos falam como se conhecessem o futuro.

“Você vai fracassar.”

“Vai dar errado.”

“Você não consegue.”

Mas eles não sabem. Estão apenas supondo. 

Porque o medo traz hipóteses. Nós é que lhes damos status de verdade.

A tonta aqui começou a perceber que toda vez que eu investigava um medo ele diminuía. Em contrapartida, toda vez que permanecia apenas imaginando, ele crescia. Não sei os seus, mas esses meus medos adoram a distância. É na distância que eles parecem invencíveis. Quando nos aproximamos deles, quase sempre descobrimos que eram menores do que imaginávamos.

Me lembro do primeiro dia que resolvi que meu blog teria o nome “felicidade estoica”. É que os estoicos ensinam as coisas que dependem de nós e outras, que não.

Eu nunca poderia controlar o clima da prova. Nem o comportamento do meu corpo no dia. Mas posso conhecer melhor a praia. Revisar a bicicleta. Pedir ajuda. Estudar os videos de quem já fez. Posso treinar. Posso monitorar meus tempos. Posso continuar caminhando.

Hoje o medo é um triathlon.

Ontem foi pedir demissão.

Amanhã provavelmente o medo será começar uma nova faculdade.

Ou encerrar um relacionamento.

Pedir desculpas.

O medo, no futuro, pode ser o simples fato de ter que recomeçar. De novo e de novo.

Independentemente de qual seja o medo, a pergunta que te ajudará quase sempre será a mesma: Você está investigando esse medo ou apenas acreditando na história que ele conta?

Nossa, quantos anos e quanto tempo dei coragem aos meus próprios medos.

Alimentei cenários que nunca aconteceram. Sofri antecipadamente por futuros que jamais existiram. Transformei hipóteses em certezas.

Repito novamente o mantra: Não darei coragem aos meus medos.

Não porque eles desaparecerão.

Eles continuam aqui e tenho certeza que outros novos virão. É que eles continuarão aparecendo sempre que a vida me convidar a crescer.

E ela, em sua sabedoria, me ensinará que coragem não é expulsar o medo. É recusar entregar a ele o direito de decidir os próximos passos. É continuar fazendo perguntas. É procurar respostas. É admitir humildemente onde termina aquilo que sei e onde começa aquilo que ainda preciso aprender.

Aí que mora a verdadeira coragem. Na disposição de caminhar sem transformar nossas incertezas em destino. No fim das contas, acho que era isso que Sócrates tentava nos ensinar. A sabedoria não elimina o desconhecido. Ela apenas nos impede de tratarmos nossa ignorância como verdade.

Hoje vejo que posso repetir essa frase com muito mais convicção do que quando a li pela primeira vez.

Não darei coragem aos meus medos.

Porque toda vez que caminho em direção a eles procurando compreender o que realmente existe ali, eles deixam de parecerem monstros. E voltam a ser apenas aquilo que sempre foram.

Portas pelas quais a vida me convida a atravessar para crescer.

NOTAS

¹ processo de ajuste ergonômico da bicicleta às características físicas e biomecânicas do ciclista. Envolve regulagens como altura e recuo do selim, posição do guidão e das sapatilhas, buscando aumentar o conforto, a eficiência da pedalada e reduzir o risco de dores e lesões. Mais do que melhorar desempenho, busca harmonizar postura, conforto e eficiência, reduzindo o desgaste físico e o risco de lesões ao longo da pedalada.

Pensamentos Avulsos

Vencer a si mesmo

A única vitória que torna todas as outras possíveis.

Esta semana desabei de cansaço e até chorei porque pela primeira vez tive a sensação de que talvez não consiga terminar uma coisa importante para mim, a prova de triathlon.

Engraçado escrever isso depois de tudo o que aconteceu nos últimos 10 meses (enquanto escrevo esse texto).

Não chorei quando descobri que precisaria operar a coluna. Não chorei quando ouvi que talvez demorasse meses para recuperar os movimentos. Nem quando passei dias andando apenas alguns minutos porque o corpo simplesmente não suportava mais. Mas chorei agora. Não durante a cirurgia. Não durante a recuperação. Chorei duas semanas antes do triathlon. 

Semana passada, uma gripe forte interrompeu praticamente toda a reta final da preparação. Enquanto faço as contas do calendário penso em vários fatores ruins. Mais ainda, que eu vou ter que viajar quatro dias a trabalho para Santa Catarina, enfrentar o frio, mudar completamente minha rotina e voltar dois dias antes da prova. E isso tudo ainda cobrindo as férias do meu chefe e sendo responsável por toda a equipe…

Minha cabeça negocia comigo e me pego observando pensamentos como:

“Talvez você não consiga.”

“Talvez não esteja pronta.”

“Talvez tenha sido esforço demais para nada.”

“Seu trabalho é mais importante, como você vai fazer a prova e viajar?”

“O que vão pensar se você desistir? Se parar no meio?”

Enquanto esses pensamentos martelam a minha cabeça, resolvi fazer outra coisa, esvaziar minha mente com algo que geralmente dá certo: lavar a louça. Às vezes, as atividades mais simples que organizam as ideias mais difíceis. Ali, enxaguando os pratos, lembrei de uma frase que eu mesma escrevi meses atrás, quando comecei, em uma planilha onde acompanho meus objetivos.

A frase é:

Terminar o triathlon olímpico. Vencer a mim mesma antes de vencer o mundo

Parei alguns segundos. Respirei. Meus olhos encheram d’água novamente e ali eu tive uma nova descoberta. Que eu passei meses acreditando que essa frase era sobre a superação física e naquela tarde descobri que não era.

Quando decidi fazer um triathlon, inicialmente meu objetivo era completar uma prova para comemorar minha saúde. Hoje vejo que completar a prova significa outra coisa completamente diferente. E essa prova, eu já completei. 

Não quando comecei a correr.

Não quando aprendi a nadar.

Não quando subi na bicicleta.

Mas no dia em que voltei a acreditar que ainda existia uma vida depois da dor. 

Completei porque, poucos meses antes, existia a Julia que não conseguia carregar uma garrafa de água de 500ml sem sentir dor. Cinco minutos caminhando já eram suficientes para o meu corpo pedir descanso. Respirar doía. Dormir exigia encontrar uma posição que não machucasse. Naquela época, terminar um triathlon seria uma ideia quase ofensiva.

Lembro exatamente do instante em que a ideia nasceu. Caminhava na esteira depois de ser liberada para voltar a pedalar. Pela primeira vez em meses, eu não sentia dor. Sorri e pensei: “Vou fazer um triathlon.”

Hoje percebo que aquele momento nunca foi sobre condicionamento físico. Era, de novo, sobre recuperar a confiança de que ainda existia uma vida depois da dor. 

Pensamos que vencer a nós mesmos significa realizar grandes feitos. Mas começo a desconfiar de que acontece exatamente o contrário.

Vencer a si mesmo raramente é um acontecimento extraordinário.

É uma coleção de decisões pequenas. É alguém absolutamente comum fazendo, todos os dias, pequenas escolhas extraordinariamente consistentes.

Levantar quando ninguém está olhando.

Ir à fisioterapia mesmo sem vontade.

Dormir cedo.

Respeitar o repouso.

Pedir ajuda.

Recomeçar.

Continuar.

Permitir que alguém carregue o peso por você.

Além disso, a realidade cruel me bate quando lembro que enquanto estou aqui, preocupada com uma prova, minha avó ficou quatro dias internada na UTI e depois um grande susto para a família, receberá alta. Que minha tia, uma das pessoas que mais admirei (e admiro) durante toda a minha vida, também enfrenta problemas sérios de saúde. Conversando por vídeo, ouvi dela algo que me emocionou profundamente. Ela disse que acompanhar minha preparação para o triathlon a motivava a cuidar da própria saúde.

Será que foi mesmo o triathlon que a inspirou/motivou? Acredito que não. 

Eu não conquistei nenhuma medalha. Tampouco cruzei a linha de chegada. Mas essa mulher, uma segunda mãe para mim, me diz cheia de afeto que o que ela enxerga é alguém que continuou tentando vencer suas pequenas batalhas diárias.

O que deveria nos inspirar no outro não se trata de resultados ou fotos instagramáveis. É aquilo que o outro precisou se tornar para alcançá-los. 

Vivemos querendo mudar o mundo. Eu também quero.

Quero um mundo onde nenhuma mulher tenha medo de voltar sozinha para casa.

Quero um mundo sem fome. Sem violência. Sem corrupção. Sem crianças abandonadas.

Quero uma sociedade mais justa. Mais gentil. Mais consciente.

Mas ultimamente tenho pensado que existe um perigo escondido nisso. É muito fácil desejar transformar a humanidade enquanto ignoramos aquilo que acontece dentro de nós.

Queremos acabar com a violência enquanto alimentamos pequenas agressividades.

Queremos saúde, mas mexemos no celular na cama, noite adentro.

Queremos honestidade enquanto justificamos pequenas desonestidades. 

Queremos empatia mas somos incapazes de dialogar com quem pensa diferente.

Queremos uma sociedade menos egoísta. Mas nem sempre percebemos o egoísmo que carregamos conosco. Eu, inclusive. Toda grande transformação coletiva começa exatamente onde quase ninguém gosta de olhar. Na escala de uma única consciência.

Os estoicos diziam que algumas coisas dependem de nós. Outras, não.

Não depende de mim quando vou adoecer. Nem a morte. Nem a injustiça. Nem a economia. Nem o comportamento das outras pessoas. Mas depende de mim decidir quem continuo sendo diante de tudo isso. Essa é a batalha mais difícil da existência.

Porque vencer o mundo pode acontecer por acaso. Mas vencer a si mesmo…

Essa é uma tarefa suficientemente difícil para ocupar uma vida inteira.

Existe uma frase de Sêneca que acompanha meus dias há algum tempo. Ela fica escrita no alto da planilha onde organizo meus sonhos.

“Tenha a satisfação de ver seus vícios morrerem antes de você.”

Quanto mais penso nela, mais eu vou tomando consciência das coisas que preciso mudar.

Preguiça. Vaidade. Orgulho. Covardia. Ressentimento.

Daquela parte de nós, de mim, que insiste em permanecer pequena quando a vida nos convida a crescer. Essa é a verdadeira vitória. Não aquela que sobe ao pódio, nem aquela que faz o oba oba e recebe a medalha no pescoço. É a que acontece silenciosamente, dentro de quem aprende o que deve morrer um pouco em si para a humanidade renascer melhor.

Não sei se terminarei o triathlon.

Talvez caminhe.

Talvez pare.

Talvez meu corpo cobre um preço que minha vontade não consiga pagar.

Mas existe uma coisa que ninguém pode tirar de mim.

A pessoa que precisei me tornar para chegar até a linha de largada.

Porque medalhas oxidam. Recordes são quebrados. Títulos mudam de dono. O corpo envelhece. Mas nenhuma derrota é capaz de desfazer a vitória de quem lapidou o próprio caráter. Essa que transforma quem a conquista. Por isso sigo acreditando que um mundo melhor nunca começará nas grandes revoluções.

Talvez seja por isso que Sêneca dizia para termos a satisfação de ver nossos vícios morrerem antes de nós. Porque, no fim, vencer a si mesmo é sobre a construção de alguém capaz de permanecer íntegro, mesmo quando não há pódio algum esperando no final do caminho.

Na escolha diária de morrer um pouco para que algo melhor possa nascer dentro de nós.

Porque, no fim das contas, nenhuma vitória muda tanto o mundo quanto aquela que muda primeiro quem a conquistou.

Pensamentos Avulsos

Repouso

Repouso

A perda de tempo de quem se acostumou a medir a vida pelo movimento. 

carnaval no brasil e felicidade

Esta semana meu corpo tomou uma decisão sem me consultar.

Ele decidiu repousar. Imagina, que ultraje?!

A verdade é que eu já sabia que isso aconteceria depois de deliberadamente escolher fazer uma tatuagem grande, cobrindo o abdômen e parte das costelas, não existia outro caminho possível né (risos).

Sem natação.

Sem bicicleta.

Sem fisioterapia.

Sem boa parte da rotina que costumo usar para organizar a cabeça, a mente e o espírito.

Mesmo sabendo da necessidade de descansar algo dentro de mim resistiu. Porque existe uma diferença gritante entre saber que precisamos parar, aceitar que precisamos parar e de fato parar.

Me peguei nesse tapete de Penélope¹, desfazendo durante o dia aquilo que havia decidido pela manhã. Marquei e desmarquei com a fisioterapeuta, com a professora de dança, o rolê com os amigos.

O desconforto da cicatrização começou a me abalar. Percebi o quanto, de um lado, meu corpo estava exigindo repouso e, de outro, minha mente insistia em negociar. Como um cabo de guerra.

Sem poder movimentar o corpo, resolvi movimentar uma palavra. 

Como não podia correr para lugar nenhum, corri atrás dessa singela palavra: repouso. Ela, para mim, sempre foi uma intrigante dificuldade que esconde dentro de si duas partes:

Re-pousar.

É como pousar outra vez. Voltar ao solo. Retornar à terra firme. 

Deitada, com as linhas da tatuagem besuntadas de óleo de coco, focada em não me mexer, pensei nos aviões…

Depois de meditar por longos minutos, constatei um fato: nenhum piloto passa horas preparando uma decolagem para simplesmente permanecer no ar para sempre. Então por que era o que estava tentando fazer?

“Julia, todo voo pressupõe um pouso”. Disse a mim mesma.

Veja, todo deslocamento pressupõe uma pausa. É, o óbvio realmente precisa ser dito.

Recorri à internet para alimentar meu novo objeto de curiosidade: como pousar um avião.

Descobri algo interessante: antes de pousar, pilotos executam uma série de verificações para garantir que a aeronave e seus passageiros chegarão em segurança ao destino. Não é nem de longe a parte mais glamourosa da viagem. Contudo, é uma das mais importantes.

Internamente, pensei com meus botões: E se minha vida fosse um avião? quais seriam os procedimentos necessários para repousar? Peguei papel e caneta e construí um pequeno checklist…

Admitir que o combustível é finito

#1 procedimentos necessários para repousar

Nenhum piloto ignora o nível de combustível.

Nenhum avião permanece voando indefinidamente. Mas nós tentamos.

Ah, o ser humano… seria cômico se não fosse trágico.

Dormimos menos.

Aceleramos mais.

Empilhamos compromissos.

Transformamos a exaustão em medalha.

Como se reconhecer limites fosse sinal de fraqueza. Não é.

Verificar as condições externas

#2 procedimentos necessários para repousar

Antes de pousar, um piloto observa vento, visibilidade, pista e condições meteorológicas. Não porque controla essas variáveis, mas porque precisa respeitá-las. Se necessário, ele irá cancelar o voo. Mesmo que isso não satisfaça a opinião pública.

Nós raramente fazemos o mesmo. Eu raramente faço o mesmo.

Insistimos em exigir de nós produtividade máxima durante períodos que pedem recolhimento. Queremos desempenho de verão em estações de inverno.

Resultado?

Chamamos de fracasso aquilo que muitas vezes é apenas incompatibilidade entre expectativa e realidade.

Reduzir velocidade

#3 procedimentos necessários para repousar

Nenhum avião pousa acelerando.

Ele desacelera.

Perde altitude.

Ajusta trajetória e só então abre espaço para tocar o chão.

Penso que a vida funciona de forma parecida. Com fases que não exigem crescimento e sim assimilação.

Não produzir. Integrar.

Não lutar. Cicatrizar.

Foi isso que meu corpo me ensinou esta semana.

Enquanto eu observava a tatuagem cicatrizando, a pele rejeitando o filme protetor e o desconforto aparecendo até para respirar, percebi uma coisa curiosa:

A natureza não considera o repouso uma interrupção da vida. Nós é que consideramos.

Para a natureza, repouso também é processo.

A ferida repousa para fechar.

O alimento repousa para ser digerido.

A lagarta repousa no casulo antes de ganhar asas.

Até o solo que pisamos entra em repouso para voltar a produzir, a ter fertilidade.

Só nós – humanos – parecemos acreditar que viver significa estar em movimento permanente.

Por isso essa semana a palavra “repousar” me pareceu tão bonita, tão filosófica.

Pesquisei e sua origem remonta ao latim repausare, ligada à ideia de descansar, pausar e retornar a um estado de equilíbrio. Curiosamente, o prefixo re- carrega justamente esse sentido de voltar, retornar, fazer novamente.

Repousar não é desistir da viagem. É garantir que ela possa continuar.

Não é abandonar o voo.

É tocar o solo por tempo suficiente para que uma nova decolagem seja possível. É a vida silenciosamente nos ensinando a reconhecer quando a jornada pede menos aceleração e mais aterrissagem.

Nem toda pausa é atraso.

Nem todo descanso é improdutividade.

Nem todo repouso é ausência de caminho.

Às vezes, é apenas a preparação necessária para continuar viajando, em segurança, com inteireza.

Com a humildade de quem finalmente compreendeu que até os aviões mais sofisticados precisam, de vez em quando, voltar ao chão.

Confiar no pouso.

#4 procedimentos necessários para repousar

O repouso não apaga o caminho.

Ele preserva quem o percorre.

Repousar não é apenas voltar ao chão. É voltar para si.

Porque nenhuma viagem continua por muito tempo quando abandonamos o piloto, ignoramos os instrumentos e fingimos que o combustível é infinito.

Às vezes, a maior demonstração de coragem não é continuar voando.

É aceitar a pista, tocar o solo e confiar que haverá céu novamente.

¹ Tapete de Penélope: referência à personagem Penélope, da Odisseia de Homero. Enquanto aguardava o retorno de Ulisses da Guerra de Troia, ela tecia durante o dia e desfazia o trabalho à noite para adiar uma decisão que não desejava tomar. A expressão passou a representar situações em que avançamos e retrocedemos continuamente, construindo e desfazendo os próprios planos.

Pensamentos Avulsos

O conjunto da obra.

mulher contemplando a natureza

Maria Eduarda vive em nós.

O que estamos nos tornando?

Meu plano para esta semana era escrever sobre um prêmio que descobri no instagram.

Mais especificamente sobre um prêmio recebido por Fernanda Torres pelo conjunto da obra¹.

Gosto dessa expressão.

Conjunto da obra.

Ela sugere que uma vida não pode ser reduzida a um único acontecimento.

Nem ao maior sucesso.

Nem ao pior fracasso.

Nem ao dia em que fomos brilhantes.

Nem ao dia em que falhamos.

Sugere que nossa vida é avaliada pela soma.

Pela trajetória.

Pelo que construímos.

E até pelo que deixamos.

Bom, esse era o plano. Só que, a vida acontece enquanto fazemos planos e, numa bela manhã de sol, como diria Joseph Climber, voltamos à estaca zero.

Antes, perguntar ao leitor o que gostaria de encontrar caso um dia olhasse para trás e enxergasse sua própria obra completa parecia ter bastante sentido. Mas a semana tomou outro rumo quando no meio do caminho encontrei uma pedra, como diria Drummond, a história de Maria Eduarda.

Uma jovem de 21 anos que morreu durante um salto de rope jump².

Quantas Maria Eduardas vivem em nós?

Assisti à notícia. Ri, porque de início, achei que era um vídeo produzido com IA, uma fake news, de tão absurdo.

Depois, infelizmente, vi os noticiários, as grandes emissoras com seus relatos e por último, os comentários…

E foi ali que senti algo difícil de nomear. Não era apenas tristeza. Era uma espécie de vergonha.

Vergonha de pertencer à mesma civilização capaz de transformar uma tragédia em entretenimento.

Enquanto uma família enterra uma filha, homens disputavam criatividade para produzir piadas como:

“Eu indo no IML juntar os pedaços para fazer a festa” 

“Será que vai ter festa no IML?” 

“Se juntar direitinho as peças dá pra se divertir ainda” 

“Vou fazer concurso para o IML” 

Enquanto uma vida era interrompida, surgiam comentários tratando restos humanos como material para festa. E você sabe muito bem que tipo de festa os autores se referem.

Fechei a tela.

Afastei o celular.

Dediquei bons minutos de silêncio admitindo para mim mesma que enquanto escrevo este texto uma mulher não está segura nem mesmo morta.

Se existisse um prêmio pelo conjunto da obra da humanidade, nós o mereceríamos?

A questão me persegue porque os números mostram tanto e também tão pouco de nossa capacidade.

Construímos cidades.

Construímos aviões.

Construímos satélites.

Criamos vacinas.

Criamos inteligência artificial.

Mapeamos o genoma humano.

Enviamos máquinas para outros planetas.

Um único ser humano atinge o status de trilionário.

Somos capazes de conversar instantaneamente com pessoas do outro lado do mundo.

Mas ainda não aprendemos algo infinitamente mais simples.

Respeitar a linha tênue onde termina nosso espaço e começa o do outro. A como agir com humanidade. Talvez este seja o paradoxo do nosso tempo:

Nunca fomos tão sofisticados tecnicamente. E, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas oportunidades de exibir nossa incapacidade de lidar com a humanidade – ou ausência dela – do outro.

O problema não está na tecnologia.

A tecnologia apenas amplifica aquilo que já existe. Porque ela não inventou a crueldade, apenas lhe deu um microfone.

O problema é que avançamos muito rápido por fora e muito devagar por dentro.

Desenvolvemos ferramentas extraordinárias.

Mas o caráter não tem acompanhado o mesmo ritmo.

Por isso penso que um prêmio pelo conjunto da obra da humanidade não seria decidido pelas nossas invenções.

Seria decidido pela forma como tratamos uns aos outros e ao universo como um todo.

Pela capacidade de enxergar dignidade onde hoje enxergamos apenas utilidade.

Pela compaixão.

Pela responsabilidade.

Pela defesa daqueles que não podem se defender.

Pela consciência de que existe alguém do outro lado.

Talvez seja por isso que algumas pessoas continuam me inspirando mais do que qualquer inovação tecnológica.

Não porque foram perfeitas.

Mas porque preservaram algo raro.

Humanidade.

foto de nise da silveira

Nise da Silveira

Enfrentou perseguição profissional e isolamento por se recusar a tratar pacientes psiquiátricos com métodos considerados desumanos. Mudou a forma como o Mundo enxergava saúde mental.

Sua luta foi contra a desumanização institucional.

foto deputada erika hilton

Erika Hilton

Ao longo de sua trajetória pública, enfrentou campanhas de ódio, ameaças frequentes. Ainda assim, continua defendendo princípios que considera universais, como dignidade, respeito e participação democrática. Um exemplo recente ocorreu quando se posicionou em defesa do direito de fala de uma parlamentar com quem possui divergências ideológicas profundas, reforçando a ideia de que o respeito às pessoas e à instituição humanda deve existir primeiro.

Margarida Maria Alves, sindicalista paraibana e defensora dos direitos trabalhistas rurais

Margarida Maria Alves

Lutou pelos direitos dos trabalhadores rurais da Paraíba e foi assassinada na porta de casa. Seu nome permanece vivo na maior marcha de mulheres da América Latina. Seu exemplo inspirou trabalhadoras rurais a se organizarem nacionalmente para denunciar desigualdades e reivindicar políticas públicas voltadas ao campo.


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Maria Eduarda

Ela não criou uma lei.

Não liderou um movimento.

Não fundou uma instituição.

Não teve tempo para isso.

Só é alguém que poderia ser nossa filha.

Nossa irmã.

Nossa amiga.

Nossa vizinha.

Sua morte não revelou apenas uma tragédia.

Revelou a facilidade com que ainda transformamos sofrimento em entretenimento.

Ela é um lembrete da velocidade com que esquecemos que existe uma pessoa do outro lado da tela.

Se eu recebesse hoje um prêmio pelo conjunto da obra da minha própria vida, não gostaria que ele fosse entregue pelas viagens que fiz, pelos títulos que acumulei ou pelas metas que alcancei.

Gostaria que fosse entregue pela quantidade de humanidade que consegui preservar dentro de mim enquanto o mundo me ensinava diariamente a perdê-la. E, se algum dia existir um prêmio capaz de medir uma vida humana, espero que ele considere menos os monumentos que erguemos e mais a humanidade que conseguimos não perder pelo caminho. 

Porque, no fim das contas, talvez o verdadeiro conjunto da obra não seja aquilo que construímos. Mas aquilo que nos recusamos a destruir dentro de nós ao continuar decidindo sermos humanos em um ambiente que frequentemente recompensa o contrário. 

NOTAS

¹Conjunto da obra: expressão utilizada para se referir à avaliação integral da trajetória de uma pessoa, considerando não apenas realizações pontuais, mas o legado construído ao longo da vida. Em premiações artísticas, costuma corresponder ao chamado Lifetime Achievement Award (“prêmio pelo conjunto da obra” ou “pela carreira”).

²Rope jump: modalidade de esporte de aventura em que a pessoa realiza um salto de altura presa a um sistema de cordas e ancoragens previamente instalado. Diferentemente do bungee jump, o praticante não fica conectado a um cabo elástico, mas a cordas estáticas ou semiestáticas utilizadas para amortecer e controlar o movimento do salto.

Pensamentos Avulsos

Cláusulas pétreas da humanidade

Que objetivo vale uma vida inteira tentando alcançá-lo?

mulher contemplando a natureza
Foto registrada em uma das cachoeiras do monte mestre álvaro, Serra, ES.
casal contemplando a natureza
Foto registrada no topo do monte mestre álvaro, Serra, ES.

Marco Aurélio certa vez escreveu que aquilo que prejudica a colmeia prejudica também a abelha.

Sempre gostei dessa imagem para me lembrar que ninguém existe isoladamente. Isto é, nossas ações fazem parte de algo maior: todo o universo e a humanidade. Por esse motivo, quando uma pessoa morre, algo da humanidade desaparece junto com ela. Uma forma única de enxergar o mundo. Uma voz. Uma história. Uma perspectiva irrepetível.
Coincidência ou não, nesta mesma semana que eu estava bem reflexiva nesse tema, uma grande amiga disse: 

“Caraaa, falando em filosofia… vi que tu tá cursando, que tudo. Tem um anime que é muito essa pegada (frieren). Coisa mais linda já feita.”

fonte anônima

Não preciso nem dizer que, depois dessa mensagem, a primeira coisa que eu fiz quando chegou o final de semana foi assinar o HBO Max para ver a bendita série. Confesso que não esperava encontrar tanta filosofia em um anime aleatório sobre uma elfa.

anime frieren
Fonte: Google images.

Ao longo do texto, espero que você entenda porque eu resolvi escrever aqui o tanto que o enredo me cativou em vez de uma simples resenha. A história acompanha Frieren, uma maga élfica que resolve ajudar um grupo de guerreiros a derrotar o Rei Demônio e restaurar a paz ao mundo. Em qualquer outra narrativa, esse seria o final da história. Por exemplo, se você, assim como eu, é apaixonado pelos filmes de animação – Moana, Rei Leão, Vida de Inseto, como treinar seu dragão – vai perceber um padrão: nessas obras você acompanha a jornada.

Nesses clássicos, os heróis:


  • começam sem nada;
  • Sofrem todos os desafios possíveis;
  • Acham que vão desistir;
  • Dão a volta por cima;
  • E só no final, retornam a sua cidade de origem vitoriosos.

E todos vivem felizes para sempre.

Aquela famosa “jornada do herói”. Frieren – na contramão de tudo e todos – começa exatamente onde as outras histórias terminam.

Na primeira cena:

A guerra já acabou.

A paz já foi conquistada.

A missão já foi cumprida.

Ela é a mulher mais poderosa de seu tempo.

Domina um conhecimento técnico inconcebível para outros, ninguém mais está a sua altura. Ela pode fazer o que quiser. Mas e agora, ela pensa, o que fazer?

A pergunta parece simples. Contudo, está bem longe de ser.

A título de contexto, Frieren viveu uma campanha¹ de dez anos ao lado dos bravos guerreiros que se tornaram heróis: Himmel, Eisen e Heiter. A maga, no entanto, por mais que tivesse consciência do grande impacto de sua empreitada (a paz mundial) enxergava a aventura como apenas um pequeno fragmento de sua existência. Dez anos em uma vida de mais de mil? Uma nota de rodapé, um nada. Ainda mais porque, para ela, os humanos envelhecem, morrem e desaparecem. Então por que essas experiências teriam algum valor? Ela, ao contrário, permanece. 

Junto dela seu conhecimento, experiência, poder. Nessa linha de raciocínio, Frieren acredita fielmente que todos aqueles encontros foram insignificantes. Até que, um dia, no enterro de um dos heróis (um pequeno spoiler aqui foi inevitável), ela descobre algo perturbador. 

A sábia maga de mil anos de vida nunca compreendeu de verdade o valor daqueles dez anos. O valor das pessoas. O valor do próprio tempo.

Ainda no primeiro episódio, pensei em como nós também organizamos a vida ao redor de grandes objetivos e ignoramos o valor do nosso tempo e das pessoas que compartilham esse tempo conosco. Então, fui obrigada a parar, porque eu simplesmente não conseguia mais assistir, tamanho o incômodo existencial. E talvez você, leitor, também pense que a vida é:

Passar no vestibular.

Conseguir um emprego.

Comprar uma casa.

Casar.

Ter filhos.

Publicar um livro.

Receber uma promoção.

Aposentar-se.

Já reparou que existe sempre alguma montanha à vista no horizonte (ou no nosso tempo, nas redes sociais) prometendo que, quando finalmente alcançarmos o topo, encontraremos aquilo que procurávamos? Mas existe um problema aí.

Todo pico da montanha tem um fim. E o que fazemos quando chegamos lá?

Lembro de quando era criança e sonhava em andar de avião.

Depois sonhei em falar inglês.

Depois em morar sozinha.

Depois em trabalhar viajando.

E cada vez que uma dessas coisas aconteceu, eu, como Frieren, me perguntei (e continuo me perguntando): “E agora?”

Não porque minhas conquistas sejam vazias.

Mas porque são finitas.

E porque nenhuma delas representa plenamente quem sou ou quem desejo me tornar.

Atingi metas que nunca pensei estarem ao meu alcance.

Frieren venceu o Rei demônio quando ninguém acreditava ser possível.

E agora?

A maior armadilha da vida moderna é escrever em pedra que o sentido da existência está escondido em alguma linha de chegada. Sempre a uma distância de um diploma, uma promoção, um carro, uma casa, um iphone, uma viagem da felicidade.

No curto, médio ou longo prazo tudo isso passará. E, nesse momento, experimentar essa melancolia silenciosa justamente depois de conquistar aquilo que desejamos não é um fracasso. É apenas o encontro inevitável com uma pergunta que esperamos encontrar resposta do outro lado da meta.

Por que continuar?

Em uma das cenas mais bonitas da série, Frieren joga na cara dos amigos que aqueles dez anos ao lado dos heróis não representavam um décimo de sua longa existência. Anos depois, um daqueles antigos companheiros lhe oferece uma resposta simples e devastadora, ao quanto ela mudou em 50 anos (quando ela retorna):

Não importa quanto tempo durou. Importa o que aquele tempo fez com você.

Nesse momento percebi a tal filosofia da série, aquela que minha amiga comentou lá atrás…

A pergunta mais importante não é quanto tempo vivemos. Nem o que acumulamos. Nem o que conquistamos.

A pergunta é:

O que nos transforma para melhor enquanto estamos vivos?

Uma guerra pode acabar.

Uma carreira pode terminar.

Um relacionamento pode chegar ao fim.

Os filhos crescem.

Os amigos partem.

Os pais envelhecem.

As fases mudam.

As pessoas morrem.

Se o sentido da vida estiver apenas nessas coisas, estaremos condenados a perdê-lo toda vez que uma delas terminar.

E se existirem projetos diferentes? Projetos que não terminam? Projetos capazes de atravessar uma vida inteira? Mil anos? Civilizações?

Tornar-se alguém mais sábio.

Aprender a amar genuinamente.

Compreender a si mesmo.

Desenvolver coragem.

Exercitar a bondade.

Refinar o caráter.

Jornadas estas que não possuem linha de chegada porque pertencem a algo mais profundo. Algo que aprendi com meu pai e sua paixão pelo Direito: as cláusulas pétreas². São princípios tão fundamentais que não podem ser abolidos nem mesmo por uma emenda constitucional.

E se a humanidade também possuísse suas próprias cláusulas pétreas?

Não leis, fundamentos irrevogáveis.

A capacidade de aprender.

A busca pela verdade.

A construção do caráter.

A transmissão de conhecimento entre gerações.

O cuidado com o universo, nossa casa.

Talvez sejam essas as coisas que permanecem mesmo quando tudo o mais muda.

Impérios caem.

Tecnologias são descontinuadas.

As cláusulas pétreas atravessam séculos.

Foi isso que Eisen, o velho guerreiro, tentou ensinar à elfa… que a existência por si só não basta. Acumular mil anos não basta. Sobreviver não basta. Porque uma vida não é medida apenas pelo tempo que dura e sim pelas transformações que abriga. A série mostra que os mártires guerreiros, mesmo após a morte, continuam transformando Frieren.

Como professores continuam vivos em seus alunos. Pais continuam vivos nos filhos. Amigos continuam vivos nas relações que ajudaram a moldar. As quebras de paradigma entre gerações que vêm e vão.

Talvez Marco Aurélio estivesse certo.

Quando uma pessoa parte, a humanidade perde algo de si. Mas aquilo que ela transformou nos outros permanece. E é por isso continuamos e devemos continuar.

Não porque ainda falta alguma coisa. Mas porque a verdadeira meta é buscar aquilo que nos transformará ao trilhar o caminho. E elevará consigo a humanidade mais um pouco. 

A guerra termina.

Os companheiros partem.

As montanhas ficam para trás.

As cláusulas pétreas da humanidade ficam.

E talvez seja nelas que construiremos uma humanidade que delibera sobre galgar metas no âmbito do ser e que reverberam em toda a terra-pátria³ pela eternidade.

Notas

¹ Campanha: Na linguagem militar, campanha é uma série de ações e batalhas realizadas ao longo do tempo para atingir um objetivo maior. Em Frieren, refere-se à jornada de dez anos empreendida pelos heróis para derrotar o Rei Demônio e restaurar a paz ao mundo.

² Cláusulas Pétreas: Dispositivos fundamentais da Constituição Federal brasileira que não podem ser abolidos nem mesmo por emenda constitucional. Estão previstas no art. 60, §4º da Constituição de 1988 e protegem princípios essenciais do Estado Democrático de Direito, como a separação dos poderes, o voto direto e os direitos e garantias individuais.

³ Conceito desenvolvido pelo filósofo e sociólogo francês Edgar Morin para expressar a ideia de que toda a humanidade compartilha uma mesma casa comum: o planeta Terra. O termo propõe uma consciência planetária baseada na interdependência entre povos, culturas e ecossistemas, superando visões restritas de nação, raça ou território.

REFERÊNCIAS

FRIEREN

Frieren: Beyond Journey’s End. Frieren: Beyond Journey’s End (Sousou no Frieren). Direção de Keiichiro Saito. Japão: Madhouse, 2023. Série de televisão.

Obra original:

Sousou no Frieren. YAMADA, Kanehito; ABE, Tsukasa. Sousou no Frieren. Tóquio: Shogakukan, 2020.


MARCO AURÉLIO

Meditações. MARCO AURÉLIO. Meditações. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2019.


EDGAR MORIN

Terra-Pátria. MORIN, Edgar; KERN, Anne Brigitte. Terra-Pátria. Porto Alegre: Sulina, 2003.

Pensamentos Avulsos

A vergonha das versões anteriores de nós mesmos.

Que relação você cultiva com quem já foi? simbiose ou parasitismo? 

amigos adolescentes bebendo

Julia adolescente?

Porque toda…

mulher que trabalha na sankhya

Julia semi adulta

transformação do…

Julia capixaba

mundo não exige…

Adulta premium

esquecer quem fomos.

Hoje acordei triste.

Não aquela tristeza dramática dos filmes, que chega anunciando sua presença, geralmente acompanhada de um choro copioso. Essa não. Era uma tristeza silenciosa, comedida até. Dessas que se sentam ao nosso lado na mesa do café da manhã e permanecem ali sem dizer nada. 

Por isso fiz o que quase sempre funciona quando preciso colocar a cabeça no lugar: fui para a natureza. Participei de uma trilha no Espírito Santo, rumo ao Monte Mestre Álvaro. Foram cerca de doze quilômetros entre subidas, descidas, pedras, cachoeiras e conversas. Ao longo do caminho, paramos algumas vezes para descansar, comer alguma coisa e simplesmente existir sem pressa. Éramos eu, outros três integrantes e nosso guia.

Em uma dessas paradas, depois de mergulhar numa cachoeira para aliviar o calor da caminhada, sentei numa pedra para secar ao sol, lagarteando. Uma das mulheres do grupo sentou-se ao meu lado. Dentre vários assuntos, um deles foi quando começamos a observar melhor as borboletas que dividiam aquele paraíso conosco.

Eram muitas.

Pequenas, grandes, amarelas, azuis, brancas. Algumas, atravessavam a clareira iluminada pelo sol. Outras pairavam sobre a água cristalina, dividindo espaço com libélulas tão grandes que pareciam ter saído de um documentário. Foi então que ela me perguntou:

— Você sabe por que algumas borboletas têm esses pontos desenhados nas asas?

Eu não sabia.

Ela explicou que aqueles desenhos ajudam a afastar predadores. A ilusão dos olhos faz com que alguns animais pensem estar diante de uma criatura maior e mais perigosa. Achei intrigante, nunca tinha parado para refletir sobre isso, pensei com meus botões. Continuamos observando as borboletas em silêncio por mais alguns instantes. Então ela começou a me contar uma história da infância dela.

Seu pai trabalhava viajando e cortando árvores para vender madeira. Até que certo dia, voltou para casa trazendo um casulo guardado dentro do plástico que envolvia um maço de cigarros. Ela ria enquanto contava que o pai chamava aquela fina embalagem de “calcinha do cigarro”. Também achei graça. Ela me contou que apesar de ainda criança, recebeu o casulo como quem recebe um tesouro. Seus olhos já não estavam ali comigo, viajavam pelas lembranças. Contou que o casulo era grande e marrom, com pequenas linhas douradas, luminosas. Secretamente me contou também que a felicidade foi momentânea. Porque a menina que era acabou esquecendo de retirá-lo do plástico. Quando a borboleta finalmente emergiu, ficou presa. 

Sem espaço para abrir as asas. Sem conseguir voar… Morreu ali mesmo.

Ela me contou que, depois daquele episódio, fez uma promessa para si mesma: não deixaria mais as coisas importantes para depois. Hoje, adulta, sabe que foi apenas um infeliz acidente infantil. Ainda assim, manteve a promessa.

Enquanto ela falava, pensei no quanto sempre fui fascinada pela metáfora da metamorfose. Contei que escrevo e que a borboleta, inclusive, é uma de capa e também muito presente no meu blog.

Ela sorriu. E então me deu um presente que talvez ela nem saiba que me deu. O diálogo. Era como se ela me olhasse da perspectiva do meu passado e me fizesse enxergar o quanto eu não entendia por que fazia todas aquelas coisas. 

Contei a ela que, às vezes, olho para versões antigas de mim mesma e não consigo compreender certos comportamentos. Como a época em que beber todos os dias parecia normal. Na verdade, parecia o certo.

Ela continuou sorrindo. Nunca vou esquecer aquele sorriso porque não era um sorriso de julgamento, nem de longe. Tampouco de concordância. Era um sorriso de quem sabia o que estava bem debaixo do meu nariz e enxergar deveria ser simples. Nem sempre. Afinal o óbvio precisa ser dito, não é? Ela disse:

— E você acha que faz sentido a borboleta olhar para a lagarta que era e perguntar: “Como assim você era uma lagarta?”

Eu ri.

— É verdade. Não faz sentido.

— Pois é — respondeu ela. — É um processo.

Passei o restante da trilha pensando nessa frase.

Talvez um dos maiores sofrimentos humanos seja a dificuldade de fazer as pazes com as versões anteriores de nós mesmos. A trilha pode ter acabado, mas sai de lá com mais uma pergunta alugando um triplex na minha cabeça. 

Quantas pessoas vivem em guerra contra a própria lagarta? incluindo eu mesma?

A jovem insegura.

A pessoa que bebeu demais.

O profissional inexperiente.

A mulher que aceitou menos do que merecia.

O homem que errou.

A adolescente perdida.

Os caminhos tortos.

Como se a lagarta fosse um erro.

Como se tudo aquilo que fomos precisasse ser apagado para validar aquilo que nos tornamos. A natureza parece nos ensinar outra coisa.

A lagarta não é uma falha da borboleta.

Ela é sua condição de existência.

Sem lagarta não existe casulo. Sem casulo não existe metamorfose. Sem metamorfose não existem asas.

Depois da trilha, penso que amadurecer não seja negar quem fomos. Talvez seja compreender que cada fase cumpriu sua função, mesmo aquelas que hoje nos parecem incompreensíveis.

Uma coisa chamou minha atenção também. Nem sempre nos comportamos como a borboleta. Na mesma trilha, nosso guia nos mostrou uma figueira estranguladora. Ela cresce envolvendo outra árvore até sufocá-la por completo. Aos poucos, a estrutura original desaparece e apenas aquilo que cresceu por fora permanece visível.

Pensei imediatamente em quantas vezes fiz algo parecido comigo mesma. Talvez você também tenha feito.

Estrangulamos nossa própria história, esmorecendo-a pouco a pouco.

Tentamos sufocar nossas raízes.

Negamos as etapas anteriores da jornada.

Queremos parecer apenas a borboleta. Ver e Postar apenas a borboleta.

Mas a natureza não funciona assim.

A borboleta não renega a lagarta.

Ela apenas olha do futuro – essa versão nossa que está em gestação – e confia que a lagarta, no momento certo, encontrará um local seguro para continuar o caminho e garantir espaço suficiente para que as asas batam e assumam a jornada a partir dali. Curiosamente, daqui, ela também sabe que sua nova e próxima versão ainda há de enfrentar seus próprios percalços, na poesia eterna de tingir nossas armaduras contra os predadores que retornam dia após dia.

E talvez viver em paz seja exatamente isso.

Reconhecer que a lagarta, o casulo e a borboleta pertencem à mesma história.

A nossa.

P.s Porque aquela lagarta era exatamente quem você precisava ser para chegar até aqui.

Pensamentos Avulsos

O Brasileiro Médio.

A mina que ninguém vê.

Certo dia li uma manchete que dizia, em letras garrafais:
“O brasileiro médio não sabe o que é nióbio”, Confesso que me senti representada. Até pouco tempo atrás, eu também não fazia ideia. Nunca fui muito fã das aulas de geografia, apesar de, ainda no ensino fundamental, ter feito uma prova para ganhar uma viagem pelo National Geographic (risos).

Se você ainda não sabe, o nióbio é um metal utilizado em uma infinidade de produtos que atravessam nosso cotidiano sem pedir licença: ligas de aço de alta resistência, equipamentos médicos, automóveis, turbinas, celulares e tantas outras tecnologias das quais nos tornamos dependentes. Você provavelmente conhece um dos produtos acabados mais admirados do mercado: o iPhone . 

O curioso é que o Brasil concentra a maior parte das reservas conhecidas desse mineral no mundo (entre 94% e 98%). Mas foi justamente aí que uma pergunta me ocorreu. Se possuímos uma das maiores reservas de nióbio do planeta, por que isso não nos transforma automaticamente no país mais desenvolvido do mundo?

A resposta parece óbvia. Contudo, possuir não é o mesmo que transformar. O nióbio enterrado sob a terra não produz riqueza. Ele não constrói aviões. Não fabrica celulares. Não movimenta a economia. Porque antes de tudo isso, ele precisa ser descoberto, extraído e processado. Ou melhor, antes de tudo estudado e por fim transformado.

Uma jazida, por mais valiosa que seja, não gera nenhum benefício apenas por existir. E talvez a mesma coisa aconteça conosco. Vivemos em uma época obcecada pelos produtos acabados.

O celular pronto. O livro publicado. O atleta campeão. O empreendedor bem-sucedido. A carreira consolidada. A foto perfeita. O verificado no instagram. 

O resultado. Sempre o resultado. Poucas vezes paramos para pensar na mina. 

Julia porto

Quando alguém tira um iPhone do bolso, é fácil admirar o objeto. 

E os anos de pesquisa? 

Os processos industriais, a matéria-prima escondida sob o solo? 

E as milhares de pessoas que participaram da transformação daquele potencial em realidade?

O produto final sempre recebe os aplausos. O processo permanece invisível.

Com as pessoas acontece algo parecido.

Frequentemente admiramos aquilo que alguém se tornou, mas ignoramos o que precisou ser escavado para chegar até ali. A disciplina que ninguém viu. Os fracassos. As dúvidas. As renúncias. As tentativas frustradas. As pequenas escolhas repetidas diariamente. Talvez cada ser humano carregue dentro de si uma reserva semelhante.

Não de nióbio. Mas de potencial. O problema é que – de novo – confundimos potencial com realização. Enganamo-nos ao acreditar que possuir uma capacidade é o mesmo que desenvolvê-la. Que ter um talento equivale a exercê-lo. Que desejar algo significa estar caminhando em sua direção. Mas nenhuma jazida produz riqueza apenas por existir. Nenhum talento produz valor apenas por estar presente. O que admiramos externamente no mundo passou por algum processo de transformação com muito esforço envolvido.

Um avião. Uma obra de arte. Uma descoberta científica. Uma amizade duradoura. Um caráter íntegro. Nada disso surgiu pronto. E talvez seja justamente aí que mora uma das maiores dificuldades da vida contemporânea. Fomos ensinados a admirar o resultado e a desprezar o processo.

Queremos a colheita sem o cultivo.

A obra sem a construção.

A sabedoria sem a experiência.

A transformação sem o trabalho.

No entanto, a vida parece funcionar de outra maneira.

Ela exige escavação, refinamento e tempo.

Talvez a verdadeira riqueza de uma pessoa não esteja naquilo que ela possui, mas naquilo que conseguiu transformar dentro de si.

Porque, no final das contas, o valor nunca esteve apenas na matéria-prima.

O valor está naquilo que somos capazes de fazer com ela.

A transformação do nióbio em tecnologia é um projeto.

A transformação do potencial humano em humanidade efetiva também.

A diferença é que uma mina pode ser explorada por máquinas.

Já a interioridade exige consciência.

REFERÊNCIAS

BRANCO, Pércio de Moraes. Nióbio brasileiro. Serviço Geológico do Brasil (SGB), 19 out. 2016. Disponível em: Serviço Geológico do Brasil (SGB). Acesso em: 30 maio 2026.

SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL (SGB). Brasil lidera produção global de nióbio e se destaca como principal detentor das reservas. 1 mar. 2024. Disponível em: Serviço Geológico do Brasil (SGB). Acesso em: 30 maio 2026.

Pensamentos Avulsos

A Casa do Ser.

Até que em algum momento, único, exclusivo e diferente para cada um de nós, nos damos conta de que na verdade essa companhia não mora no apartamento dos sonhos, no carro do ano, no cônjuge, nem no trabalho. E então começamos a ruminar pelo mundo, nos alimentando das mais variadas fontes de informações indigestas ao ser

O meio da travessia costuma ser solitário mesmo. Talvez você se pergunte: Por que é mais fácil encontrar companhia do que encontrar conexão?

É interessante pensar que se o objetivo for claro, todo GPS recalcula a rota, mesmo se você pegar o caminho errado. Então por que seria diferente conosco? Os pensamentos que nos assolam são tão cruéis. E nos matam em partes, como Jack. Tanta comparação, cada uma delas um golpe à autenticidade. A curiosidade que tínhamos pelo mundo passa a ser um picolé de chuchu porque as coisas simplesmente perderam a graça. Você se pergunta onde estão as novidades. Esse é o problema da vida construída em metas futuras. Ela traz consigo o vazio que é perceber que nenhuma delas oferece companhia interior.

Talvez Jung tenha razão. O homem é mais capaz de construir uma nave que o leve à lua do que ao interior de si mesmo. E por isso fomos apenas à Lua.

Como habitar a própria interioridade

Talvez habitar a própria interioridade comece justamente quando paramos de tentar escapar dela. Porque quase tudo hoje parece desenhado para impedir esse encontro.

As notificações. Os vídeos curtos. O excesso de opinião. A necessidade constante de performance. O algoritmo que escolhe e seleciona por você. A verdade é que quase sempre estamos ocupados demais para perceber o que sentimos de verdade. E talvez exista algo de profundamente assustador nisso: o silêncio. Acho que por isso eu demorei a me adaptar à natação. Sou só eu, meus medos e meus pensamentos. Porque quando o barulho cessa, sobra o encontro com perguntas que passamos anos tentando adiar. Para alguns de nós, décadas!

Quem sou eu sem as metas? Quem sou eu sem o trabalho? Quem sou eu sem alguém para validar minha existência? Desnorteados, confundimos distração com felicidade. E voltamos ao vuco vuco do mundo VUCA¹.

Habitar a própria interioridade não significa gostar de tudo o que existe dentro de si. Às vezes significa apenas permanecer mesmo depois de conferir o que há do outro lado. Sem fugir imediatamente. Sem anestesiar cada vazio com consumo, relações rasas ou excesso de estímulo.

Existe uma coragem silenciosa em sustentar a própria companhia. Falamos pouco dessa firmeza que é repousar na infinitude do ser.

Não como quem se basta o tempo inteiro — porque isso também seria uma fantasia contemporânea — mas como alguém que aprende, pouco a pouco, a não se abandonar. Talvez o autoconhecimento não seja uma grande revelação mística e sim intimidade construída com repetição. Como visitar diariamente uma casa antiga até reconhecer onde o chão range, onde entra luz pela manhã e quais paredes ainda precisam de reforma.

A obra de uma casa não termina nunca. O interior humano também é uma casa. E muitas vezes passamos anos decorando a fachada enquanto os cômodos internos permanecem abandonados e o alicerce pede uma intervenção.

Talvez por isso a solidão doa tanto. Porque ela nos obriga a ouvir ecos que a vida acelerada abafa. Notificação a notificação. Todavia, existe algo importante do outro lado desse encontro. No momento em que aprendemos a habitar minimamente a nós mesmos, as relações deixam de ser apenas tentativa de preenchimento. O outro deixa de carregar a responsabilidade impossível de nos salvar da própria ausência interior.

E então, pela primeira vez, a conexão verdadeira se torne possível.

Não porque deixamos de sentir vazio.

Mas porque finalmente paramos de preenchê-lo com coisas que não o cabem.

¹mundo VUCA: É um acrônimo² criado pelo exército dos Estados Unidos após a Guerra Fria para descrever ambientes marcados por Volatility, Uncertainty, Complexity e Ambiguity — em português: volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade. O conceito passou a ser amplamente utilizado no mundo corporativo e acadêmico para caracterizar cenários de rápidas transformações, imprevisibilidade e excesso de informações.

² Acrônimo é uma palavra formada pelas letras ou sílabas iniciais de outras palavras.