Pensamentos Avulsos

Repouso

mulher contemplando a natureza na trilha

Repouso

A perda de tempo de quem se acostumou a medir a vida pelo movimento. 

carnaval no brasil e felicidade

Esta semana meu corpo tomou uma decisão sem me consultar.

Ele decidiu repousar. Imagina, que ultraje?!

A verdade é que eu já sabia que isso aconteceria depois de deliberadamente escolher fazer uma tatuagem grande, cobrindo o abdômen e parte das costelas, não existia outro caminho possível né (risos).

Sem natação.

Sem bicicleta.

Sem fisioterapia.

Sem boa parte da rotina que costumo usar para organizar a cabeça, a mente e o espírito.

Mesmo sabendo da necessidade de descansar algo dentro de mim resistiu. Porque existe uma diferença gritante entre saber que precisamos parar, aceitar que precisamos parar e de fato parar.

Me peguei nesse tapete de Penélope¹, desfazendo durante o dia aquilo que havia decidido pela manhã. Marquei e desmarquei com a fisioterapeuta, com a professora de dança, o rolê com os amigos.

O desconforto da cicatrização começou a me abalar. Percebi o quanto, de um lado, meu corpo estava exigindo repouso e, de outro, minha mente insistia em negociar. Como um cabo de guerra.

Sem poder movimentar o corpo, resolvi movimentar uma palavra. 

Como não podia correr para lugar nenhum, corri atrás dessa singela palavra: repouso. Ela, para mim, sempre foi uma intrigante dificuldade que esconde dentro de si duas partes:

Re-pousar.

É como pousar outra vez. Voltar ao solo. Retornar à terra firme. 

Deitada, com as linhas da tatuagem besuntadas de óleo de coco, focada em não me mexer, pensei nos aviões…

Depois de meditar por longos minutos, constatei um fato: nenhum piloto passa horas preparando uma decolagem para simplesmente permanecer no ar para sempre. Então por que era o que estava tentando fazer?

“Julia, todo voo pressupõe um pouso”. Disse a mim mesma.

Veja, todo deslocamento pressupõe uma pausa. É, o óbvio realmente precisa ser dito.

Recorri à internet para alimentar meu novo objeto de curiosidade: como pousar um avião.

Descobri algo interessante: antes de pousar, pilotos executam uma série de verificações para garantir que a aeronave e seus passageiros chegarão em segurança ao destino. Não é nem de longe a parte mais glamourosa da viagem. Contudo, é uma das mais importantes.

Internamente, pensei com meus botões: E se minha vida fosse um avião? quais seriam os procedimentos necessários para repousar? Peguei papel e caneta e construí um pequeno checklist…

Admitir que o combustível é finito

#1 procedimentos necessários para repousar

Nenhum piloto ignora o nível de combustível.

Nenhum avião permanece voando indefinidamente. Mas nós tentamos.

Ah, o ser humano… seria cômico se não fosse trágico.

Dormimos menos.

Aceleramos mais.

Empilhamos compromissos.

Transformamos a exaustão em medalha.

Como se reconhecer limites fosse sinal de fraqueza. Não é.

Verificar as condições externas

#2 procedimentos necessários para repousar

Antes de pousar, um piloto observa vento, visibilidade, pista e condições meteorológicas. Não porque controla essas variáveis, mas porque precisa respeitá-las. Se necessário, ele irá cancelar o voo. Mesmo que isso não satisfaça a opinião pública.

Nós raramente fazemos o mesmo. Eu raramente faço o mesmo.

Insistimos em exigir de nós produtividade máxima durante períodos que pedem recolhimento. Queremos desempenho de verão em estações de inverno.

Resultado?

Chamamos de fracasso aquilo que muitas vezes é apenas incompatibilidade entre expectativa e realidade.

Reduzir velocidade

#3 procedimentos necessários para repousar

Nenhum avião pousa acelerando.

Ele desacelera.

Perde altitude.

Ajusta trajetória e só então abre espaço para tocar o chão.

Penso que a vida funciona de forma parecida. Com fases que não exigem crescimento e sim assimilação.

Não produzir. Integrar.

Não lutar. Cicatrizar.

Foi isso que meu corpo me ensinou esta semana.

Enquanto eu observava a tatuagem cicatrizando, a pele rejeitando o filme protetor e o desconforto aparecendo até para respirar, percebi uma coisa curiosa:

A natureza não considera o repouso uma interrupção da vida. Nós é que consideramos.

Para a natureza, repouso também é processo.

A ferida repousa para fechar.

O alimento repousa para ser digerido.

A lagarta repousa no casulo antes de ganhar asas.

Até o solo que pisamos entra em repouso para voltar a produzir, a ter fertilidade.

Só nós – humanos – parecemos acreditar que viver significa estar em movimento permanente.

Por isso essa semana a palavra “repousar” me pareceu tão bonita, tão filosófica.

Pesquisei e sua origem remonta ao latim repausare, ligada à ideia de descansar, pausar e retornar a um estado de equilíbrio. Curiosamente, o prefixo re- carrega justamente esse sentido de voltar, retornar, fazer novamente.

Repousar não é desistir da viagem. É garantir que ela possa continuar.

Não é abandonar o voo.

É tocar o solo por tempo suficiente para que uma nova decolagem seja possível. É a vida silenciosamente nos ensinando a reconhecer quando a jornada pede menos aceleração e mais aterrissagem.

Nem toda pausa é atraso.

Nem todo descanso é improdutividade.

Nem todo repouso é ausência de caminho.

Às vezes, é apenas a preparação necessária para continuar viajando, em segurança, com inteireza.

Com a humildade de quem finalmente compreendeu que até os aviões mais sofisticados precisam, de vez em quando, voltar ao chão.

Confiar no pouso.

#4 procedimentos necessários para repousar

O repouso não apaga o caminho.

Ele preserva quem o percorre.

Repousar não é apenas voltar ao chão. É voltar para si.

Porque nenhuma viagem continua por muito tempo quando abandonamos o piloto, ignoramos os instrumentos e fingimos que o combustível é infinito.

Às vezes, a maior demonstração de coragem não é continuar voando.

É aceitar a pista, tocar o solo e confiar que haverá céu novamente.

¹ Tapete de Penélope: referência à personagem Penélope, da Odisseia de Homero. Enquanto aguardava o retorno de Ulisses da Guerra de Troia, ela tecia durante o dia e desfazia o trabalho à noite para adiar uma decisão que não desejava tomar. A expressão passou a representar situações em que avançamos e retrocedemos continuamente, construindo e desfazendo os próprios planos.

2 comentários sobre “Repouso”

  1. Fonte anônima disse:

    Nem todo pouso é ausência de caminho”. Esse trecho me deixa reflexiva, porque, mesmo em “pouso”, a vida continua a movimentar-se. E como posso perceber todos esses detalhes sutis do rodo cotidiano se não estiver em repouso para observá-lo? É uma grande viagem e espero que, ao repousar, você tenha voltado bem e saudável para si (para dentro).

  2. Mirella disse:

    Que texto sensível! “Nem todo repouso é ausência de caminho”.
    Em tempos onde somos estimulados a produzir o tempo todo, pousar é para quem tem coragem.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *