Mas sempre dá para fazer alguma coisa.
Resolvi escrever esse texto após subir ao pódio, em quinto lugar na minha categoria, da maior prova de triathlon olímpico do Espírito Santo, o capixaba de ferro.
O texto é sobre uma coisa curiosa: Eu quase não comecei esse triathlon. Não porque faltou vontade. Mas porque, durante muito tempo, fazer tudo era simplesmente impossível.
Quando operei a coluna, eu só podia andar pela casa para tomar banho e fazer minhas refeições. Depois, fui liberada para subir e descer as escadas uma vez por dia. Uma vez. Na época, eu estava no apartamento da minha avó, no primeiro andar e sem elevador. Mais tarde, eu trocaria para o meu apartamento atual (enquanto escrevo esse texto), no quarto andar e também sem elevador.
Depois veio a recomendação médica de caminhar cinco minutos. Era isso.
Cinco minutos por dia. E eu me sentia inútil. Porque o que são cinco minutos?
Enquanto o mundo continuava correndo, eu tinha que andar durante cinco minutos. E, para piorar, doía. Às vezes eu queria chorar porque até cinco minutos parecia difícil demais. Mesmo assim eu ia. Cinco minutos. Todos os dias.
Depois de uma semana, o médico disse que eu poderia aumentar conforme meu corpo permitisse. Então aumentei cinco minutos. Quando doía, diminuía. Quando conseguia, aumentava. E assim fui descobrindo uma coisa que hoje parece óbvia, mas que naquela época eu precisava aprender todos os dias: não dá para fazer tudo mas sempre dá para fazer alguma coisa.
Lembro que durante o primeiro mês de fisioterapia, minha “aula de natação” nem sequer era uma aula de natação. Eu entrava na piscina e caminhava. Só isso. A piscina tinha 15 metros e a borda parecia estar do outro lado do planeta. Até que um dia eu nadei. Não foi bonito. Eu parecia um pato desajeitado tentando descobrir se deveria bater os braços, as pernas ou simplesmente desistir. Mas nadei. E não senti dor. Só um cansaço enorme. Foi uma das primeiras vezes em meses em que meu corpo me mostrou que ainda existiam coisas que ele conseguia fazer. No último mês de fisioterapia, finalmente consegui nadar de uma borda à outra sem parar. Eu ainda lembro da sensação. Aquilo aconteceu pouco antes do Natal. Eu estava no Rio, hospedada na casa da minha avó para fazer o pós-operatório. Para mim, foi um presente.
Quando voltei para o Espírito Santo, o desafio mudou. Já não era apenas físico. Era psicológico. Eu trabalhava deitada porque ficar sentada por mais de quinze minutos era cansativo. Não podia limpar a casa. Não podia carregar peso. Não podia sair várias vezes por dia porque cada saída significava enfrentar quatro andares de escada. Minha família estava no RJ. Então meus amigos precisaram ajudar. Buscar encomendas. Arrastar móveis. Organizar uma faxineira. Ajudar nas pequenas coisas que, para quem está saudável, parecem absolutamente banais. Como descobrir se uma panela cheia de água é ou não pesada demais.
Durante os primeiros meses, meu desempenho no trabalho despencou. Eu estava cansada. Sem energia. E provavelmente meus clientes percebiam. Mas eu continuava indo à fisioterapia. Trabalhando com segurança. Continuava nadando. Continuava tentando. Lembro até hoje da primeira vez em que conseguimos me manter na prancha alta durante quinze segundos. Quinze. A fisioterapeuta estava ali e eu ainda fazia as sessões em casa. Eu queria gritar e chorar de alegria, mas segurei. Hoje acho engraçado. Eu tinha acabado de passar meses lutando para recuperar movimentos básicos e ainda tentava manter a pose de quem não chorava na frente dos outros.
Cinco meses depois da cirurgia, pedi ao médico para voltar a pedalar. Eu sentia falta. Ele autorizou. E não doeu. Pouco a pouco, a vida começou a devolver pequenas partes de si mesma. Um sábado, fui fazer feira e me empolguei. Comprei mais coisas do que deveria. Voltei caminhando para casa carregando as compras. Dez minutos. Quando contei ao médico, ele achou um ótimo sinal. Eu achei curioso. Até carregar compras podia ser um indicador de recuperação.
Comecei então a testar pequenas coisas. Quanto consigo andar? Quanto consigo carregar? Quanto tempo consigo nadar? Como meu corpo responde? Eu estava, sem perceber, reconstruindo minha confiança em pequenos experimentos. Até que um dia, andando na esteira, pensei:
Eu já nado três vezes por semana. Já consigo andar sem dor. Já pedalo. E se eu fizesse um triathlon?
A ideia parecia absurda para os outros, mas fazia sentido pra mim, comemorar a vida em uma prova difícil, com tudo o que eu achei que não fosse mais conseguir fazer. Assim, pedi autorização ao médico e ele permitiu. Com uma condição: Nada de corrida ainda. Começaria pela bicicleta e pela natação. Minha fisioterapeuta entrou no plano comigo e começamos a preparar meu corpo para, algum dia (que eu não sabia quando), sustentar uma corrida. Troquei a pequena piscina onde treinava por uma piscina olímpica perto do trabalho. Resultado? Voltei a me sentir incapaz.
As raias tinham 25 metros. Era difícil. Eu não conseguia acompanhar os educativos. Terminava as aulas me sentindo a pior pessoa do mundo, Comecei a evoluir mesmo depois de três semanas. Até que um dia (de novo) cheguei para a aula e as raias estavam organizadas em 50 metros. Pronto. Voltei para a estaca zero. Eu simplesmente não conseguia chegar ao outro lado. Parecia que ia desmaiar de tanto esforço. Mas continuei.
3 meses depois finalmente consegui completar a meta da aula. Dois quilômetros. Depois de três meses tentando. Naquele dia eu não tinha conquistado nenhuma medalha. Mas alguma coisa dentro de mim tinha mudado.
Na bicicleta a mesma coisa. Eu descobri que, para fazer a prova precisaria de uma bicicleta speed. Fui experimentar uma. Não sei se você já assistiu a Harry Potter, mas me senti como aquela aranha andando de patins¹. Não consegui andar nem dez metros. O equilíbrio era próximo ao de um gato numa canoa. Mesmo assim, comprei.
Daí veio o medo de cair, as novas posições, os exercícios de força e toda aquela sensação maravilhosa de ser novamente uma iniciante, só que não. Até que eu dominei o modos operandi da bike e aos domingos, eu pedalava trinta quilômetros, sem exceção. Aumentava tempo e intensidade conforme meu médico havia orientado. E caminhava também. Dez quilômetros. O treino que eu mais queria evitar… a tal da caminhada. Para conseguir terminar, colocava uma palestra de uma ou duas horas da professora Lúcia Helena Galvão e caminhava. De novo. E de novo. E de novo. Até que, faltando um mês para a prova, finalmente veio a autorização para correr. Só que havia outra condição.
Precisava fazer um exame² para avaliar minha pisada e comprar o tênis adequado. O resultado foi uma palmilha ortopédica e um novo processo de adaptação de mais 45 dias. Eu queria chorar novamente. Finalmente podia correr mas precisava esperar.
Três semanas antes da prova, fiz minha primeira corrida de verdade. Cinco quilômetros completos. E aconteceu uma coisa que até hoje me parece estranha.
Eu corri sem sofrimento. Sem aquela sensação de que meu corpo estava sendo testado pela primeira vez. Corri como quem passeia no shopping. Pensei: Que doideira. Até aqui, tudo foi tão difícil. Será que o universo está me pregando uma peça?
Então chegou o grande dia. O dia da competição³.
A praia era diferente daquela que eu conhecia. O circuito da bike teria morros. A corrida seria de dez quilômetros e no asfalto.
Eu nunca tinha feito as três modalidades juntas em condições reais: na rua, com subidas, sol de 30º. E, honestamente, achava que chegaria em último. Principalmente por causa da corrida e da correnteza do mar. Eu imaginava um tempo enorme. Imaginava começar e dar tudo errado. Imaginava não terminar. Mas entre o medo e a linha de chegada existia tudo aquilo que eu havia feito durante meses sem perceber.
Cinco minutos. Depois dez. Depois quinze. Depois vinte. Uma piscina pequena. Uma piscina grande. Um quilômetro. Dois quilômetros. Trinta quilômetros de bicicleta. Dez quilômetros caminhando. Cinco quilômetros correndo. E então, naquele domingo, nadei. Pedalei. Corri. Minuto a minuto, consciente, focada, desliguei o mundo lá fora e pensei: só mais 5 minutos. Até que eles se tornaram 3 horas e 44 minutos e quinto lugar na categoria feminina de 25 a 29 anos. Eu subi ao pódio. Mas, para mim, o pódio mesmo, veio quando eu só podia caminhar cinco minutos e decidi caminhar mesmo assim.
Existe uma tendência nossa de olhar para grandes conquistas e imaginar que elas nasceram grandes. Não nasceram. Quase tudo que admiramos começou pequeno demais para parecer importante.
Uma página. Uma aula. Uma conversa. Uma decisão. Cinco minutos.
O problema é que queremos enxergar o caminho inteiro antes de dar o primeiro passo.
Queremos saber se vamos conseguir.
Queremos saber quanto tempo vai levar.
Queremos saber se o esforço será suficiente.
Queremos garantias. Quem não quer? Mas a vida não nos dá nenhuma. Só o próximo passo. E eu aprendi a aceitá-lo.
Hoje, quando alguém olha para mim e vê uma mulher que terminou um triathlon olímpico e subiu ao pódio, logo me manda mensagem sobre disciplina, força, determinação. E tudo isso existe. Mas existe também uma versão muito menos glamourosa dessa história.
A Julia que chorava porque precisava andar cinco minutos. A que achava que aquilo era injusto.
A que dependia dos amigos para tarefas simples.
A que não conseguia segurar uma garrafa de água sem dor.
A que não conseguia atravessar uma piscina de quinze metros.
A que não conseguia andar dez metros em uma bicicleta nova.
A que precisava esperar.
A que regredia.
A que recomeçava.
A que, muitas vezes, simplesmente fazia alguma coisa porque não conseguia fazer tudo. E é justamente isso que eu gostaria de deixar para você com esse texto.
Não espere estar pronto para começar. Não espere ter força para fazer tudo. Não espere conhecer o caminho inteiro. Se hoje você só consegue caminhar cinco minutos, caminhe cinco. Se não consegue estudar uma hora, estude dez minutos. Se não consegue resolver a vida inteira, resolva o próximo problema.
Se não consegue correr, caminhe.
Se não consegue caminhar, fique de pé.
Se nem isso for possível hoje, descanse.
Mas não confunda o tamanho do passo com a importância da direção. Porque pequenos passos continuam sendo passos. E, às vezes, o que parece pouco para quem observa de fora é exatamente o máximo que alguém consegue fazer naquele momento.
Não dá para fazer tudo. Mas sempre dá para fazer alguma coisa.
Assim que os sonhos acontecem. Não quando finalmente conseguimos correr em direção a eles. Mas quando aprendemos a caminhar. Um passo. Depois outro. Depois outro.
Até perceber, algum dia, que aquilo que parecia impossível estava apenas esperando que a gente apenas começasse.
NOTAS
¹ Bicho-papão e Riddikulus: em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, o professor Remo Lupin ensina os alunos a enfrentar bichos-papões, criaturas que assumem a forma daquilo que cada pessoa mais teme. O feitiço Riddikulus transforma a manifestação do medo em algo cômico, retirando dela parte de seu poder.
² Baropodometria: exame que analisa a distribuição das pressões exercidas pelos pés sobre uma plataforma equipada com sensores, podendo avaliar tanto a posição estática quanto o movimento. Na corrida, esse tipo de avaliação pode fornecer informações sobre a distribuição de carga e aspectos da mecânica dos pés e dos membros inferiores, auxiliando profissionais na análise individual do corredor e na tomada de decisões sobre treinamento, calçados ou outras intervenções quando indicadas.
³ Capixaba de Ferro: competição de triathlon realizada no Espírito Santo que reúne diferentes distâncias. Na categoria Standard, modalidade disputada por mim, os atletas percorrem 1,5 km de natação, 40 km de ciclismo e 10 km de corrida, em sequência. São três modalidades diferentes, realizadas de forma contínua, exigindo não apenas preparo físico, mas também estratégia e capacidade de administrar o esforço ao longo de toda a prova.



