É assim que eu sou quando não preciso me adaptar para estar com você.
Dina Salustiano uma vez escreveu:
escrever sobre o amor é tão ou mais difícil do que vivê-lo
SALUSTINO, Dina.
Nesse sentido, me aventuro a escrever sobre o amor. Talvez porque, ultimamente, tenho percebido que ele aparece para mim justamente quando diminuo a velocidade.
Penso que o amor à vida e às pessoas tem um pouco disso: aprender a prestar atenção nessas faces.
É engraçado como, quando você ama, até a experiência sutil de enxergar — e não apenas ver — o outro colocando água no café parece ganhar importância. Ou o silêncio de alguém depois de um dia longo. O jeito como ela escolhe sentar no sofá. Como ela faz uma receita de strogonoff. A maneira como alguém te olha quando você fala. Coisas pequenas demais para, à primeira vista, merecerem uma história, mas que, por algum motivo, alugam temporada na memória.
Tenho pensado muito nisso porque, quando estou com quem amo, percebo que os momentos aparentemente insignificantes do cotidiano me ensinam a enxergar o mundo de outra maneira.
Quando penso em amar gostaria que a resposta fosse sempre: Quem amo confia em mim o suficiente para não precisar performar uma versão socialmente esperada de companhia. Isto é, estando ao meu lado, ainda assim se permitir ser.
Como estar junto e não precisar conversar. Poder passar uma hora dentro de um carro, dividindo o mesmo caminho, cada qual mergulhado em seus próprios pensamentos, sem que o silêncio precise ser interrompido para provar que estamos bem. No começo, confesso, existe um pequeno estranhamento com este amor.
Porque aprendemos desde cedo algumas regras muito específicas sobre o que significa amar alguém.
Se estamos juntos, devemos conversar.
Se gostamos de alguém, devemos aproveitar cada minuto.
Se existe saudade, precisamos compensá-la com muitas palavras, muitos planos, muitas experiências. Ou melhor, nos dias atuais, posts performáticos. Como se a companhia ou o sentimento em si precisassem produzir alguma coisa o tempo inteiro para justificar sua validade. Por esse motivo, resolvo fazer uma faxina nas minhas memórias e trazer à tona a sensação gostosa de estar acompanhada de confiança que não precisa ser preenchida e sim compartilhada.
Já houve um tempo em que pensei que essa intimidade característica do amor seria conhecer profundamente aquilo que o outro nos diz. Hoje vejo que existe uma intimidade ainda mais silenciosa: conhecer aquilo que o outro não precisa dizer quando está conosco.
Saber diferenciar alguém permanecer em silêncio porque não tem o que dizer e alguém poder permanecer em silêncio porque não precisa desempenhar nenhum papel. É como se, ao recolher-se do convívio diário, o amor nos dissesse sem palavras:
“É assim que eu sou quando não preciso me adaptar para estar com você.”
Para mim, uma das formas mais bonitas de amar alguém é justamente essa: oferecer um lugar onde a pessoa não precise se explicar o tempo inteiro. Contudo, isso também me confronta. Porque percebo o quanto, muitas vezes, esperamos que as pessoas nos amem dentro das formas que aprendemos a reconhecer como amor.
Mensagens respondidas na hora. Atenção exclusiva. Demonstrações pirotécnicas e instagramáveis de afeto. Muitos planos. Muitas palavras. E, quando elas não aparecem na forma que imaginamos, chegamos rapidamente à conclusão de que alguma coisa está faltando. Mas e se estiver apenas faltando a nossa capacidade de reconhecer outras formas de amor?
Essa pergunta começou a roubar mais armazenamento nesta minha nuvem particular chamada pensamento.
Será que estamos confundindo amor com aquilo que conseguimos facilmente identificar como amor? Presença com quantidade de acontecimentos? intimidade com a necessidade de preencher todos os espaços?
Pode ser que nosso tempo tenha desaprendido o cerne que repousa o amor: atenção legítima, genuína e gentil.
Vivemos anos em que amar, ou existir de forma geral, parece trazer consigo a obrigação de ter alguma coisa acontecendo. Uma notícia nova. Uma reunião. Uma notificação. Uma crise. Uma meta. Uma oportunidade. Uma preocupação. Um vídeo. Acontecimentos que exigem imediatamente alguma reação.
A sensação é de que o mundo adquiriu uma velocidade que não conseguimos acompanhar. E essa velocidade também aparece nas relações. Esperamos que alguém acompanhe tudo isso conosco, responda a tudo, demonstre tudo, esteja disponível para tudo — e chamamos essa aceleração de amor.
Será que é dai que o amor tranquilo nos parece tão estranho?
Porque ele não está tentando produzir uma experiência o tempo inteiro. Ele simplesmente está. Foi então que comecei a pensar que essa experiência tão cotidiana — amar alguém — pudesse esconder uma pergunta filosófica bem antiga…
O que, afinal, acontece conosco quando amamos?
Não apenas quem merece ser amado. Não apenas como saber se alguém nos ama. Mas o que o amor faz com aquele que ama?
Em O Banquete¹, quando Sócrates apresenta o ensinamento de Diotima, o amor não aparece simplesmente como a posse de alguém belo ou como a satisfação de um desejo. Eros aparece como movimento: um desejo em direção ao belo e ao bom. Isso me interessa porque muda drasticamente a pergunta. Deslocando amar alguém de simplesmente encontrar aquilo que desejávamos para caminharmos em outra direção porque encontramos algo que nos fez desejar enxergar mais.
Diotima² apresenta o amor como uma espécie de ascensão: começamos diante de uma beleza particular e, pouco a pouco, podemos aprender a reconhecer a beleza em outras pessoas, nas almas, nas práticas, nos conhecimentos e na própria beleza.
Não preciso transformar isso em uma escada para entender o que me interessa nela. Basta perceber que uma pessoa pode ser o começo de uma ampliação do nosso olhar.
Começo observando alguém colocar água no café e termino percebendo que existe um mundo inteiro acontecendo de uma maneira que não é a minha. O que faz alguém rir. O que a assusta. O que prefere calar.
Amar alguém é, em alguma medida, descobrir que a minha maneira de experimentar a vida não é a maneira de experimentar a vida. É apenas uma delas. E o outro, quando realmente o enxergamos, desmonta um pouco da nossa arrogância. Será que por isso amar tenha um quê filosófico? Porque Filosofar também começa quando aquilo que parecia óbvio o deixa de ser.
Eu achava que estar acompanhada precisava de conversa. O amor me fez perguntar por quê.
Eu achava que presença precisava ser demonstrada. O amor me fez perguntar por quê.
Eu achava que conhecer alguém era saber o que essa pessoa pensa e diz. O amor me fez perceber que também existe aquilo que alguém só consegue ser quando não precisa dizer nada.
Tenho caminhado cada dia mais para enxergar o ato de amar como um exercício de descentralização. Sair um pouco do centro da própria experiência para perguntar: Como será que o mundo parece daqui?
Não para abandonar quem somos. Não para concordar com tudo. Não para aceitar aquilo que nos machuca. Mas para desenvolver a delicadeza necessária para perceber que existe uma – senão mais de uma – realidade acontecendo ao lado da nossa.
Para mim, tratar o amor assim é especialmente desafiador — e especialmente necessário — nas relações.
Porque não controlo a forma como alguém demonstra amor. Não controlo o ritmo de outra pessoa. Não controlo aquilo que ela sente. Não controlo suas escolhas. Entretanto, posso observar minhas próprias impressões antes de transformá-las em certezas.
Posso perguntar por que interpretei um silêncio como rejeição. Por que uma mensagem não respondida imediatamente me pareceu abandono. Por que preciso de determinada demonstração para me sentir segura. Posso distinguir aquilo que aconteceu da história que construí sobre aquilo que aconteceu.
Antes de exigir, observar.
Antes de concluir, compreender.
Antes de transformar o outro em personagem das minhas expectativas, lembrar que ele é uma pessoa inteira. Isso não significa, no entanto, romantizar ausência, negligência ou sofrimento. Significa apenas reconhecer que amar alguém não me dá o direito de reduzir a pessoa àquilo que preciso que ela seja para confirmar minhas próprias expectativas.
Pode ser que amar seja justamente permitir que o outro permaneça outro. E isso é difícil. Porque existe uma tentação silenciosa em todo afeto: transformar aquilo que amamos naquilo que gostaríamos que fosse. Que o outro ame na minha linguagem. Que se encaixe na minha ideia de felicidade.
O amor, quando encontra uma pessoa real, encontra também uma realidade que não foi feita sob medida para nós. Por isso, também vejo que amar é uma forma poderosa de educação. O outro nos obriga a aprender aquilo que a nossa própria experiência não conseguiria nos ensinar sozinha.
Paciência. Justiça. Coragem. Temperança. Ternura. E talvez até sabedoria.
Porque amar alguém pode exigir que eu aprenda a diferenciar desejo de necessidade, expectativa de realidade, medo de intuição, controle de cuidado.
No fim, é possível que o amor seja menos sobre encontrar alguém que nos faça felizes e mais sobre descobrir que tipo de pessoa estamos nos tornando enquanto amamos.
Quero amar a beleza das coisas que não são testemunháveis em primeiro plano.
O silêncio e nenhuma necessidade de preenchê-lo.
O café tomado sem pressa e o olhar atento por cima da xícara³.
Uma caminhada sem objetivo.
Uma conversa que não precisa chegar a nenhuma conclusão.
É curioso como, depois de tanto tempo tentando acompanhar o mundo, um amor tranquilo assim pode parecer quase uma experiência de descompressão. Como chegar em casa depois de um dia difícil, tirar os sapatos e colocar a mochila pesada sobre a mesa da cozinha.
Você não precisa fazer nada imediatamente. Não precisa resolver nada. Não precisa provar nada. Por alguns instantes, basta estar ali. É um privilégio esse amor que nos devolve ao tamanho humano. O amor que não precisa tornar a vida extraordinária para torná-la profundamente percebida.
Uma vida inteira é insuficiente para conhecer completamente alguém. No entanto, podemos passar uma vida inteira aprendendo a prestar atenção nas pequenas quantias despercebidas. E, quando percebemos, existe ali uma fortuna de apreço que não foi construída em grandes momentos, mas na repetição dos pequenos.
Amar como prática diária em reconhecer que existe um mundo inteiro acontecendo dentro de alguém que não sou eu. E, ainda assim, escolher aproximar-me dele com curiosidade, cuidado e respeito.
A felicidade estoica ocorre justamente nesse encontro.
Não na tentativa de possuir o outro ou na exigência de que ele corresponda à versão de amor que aprendemos a reconhecer e sim na possibilidade de olhar para alguém e perceber que existe um mundo inteiro acontecendo ali — um mundo que não é o meu, que não me pertence e que eu jamais conhecerei completamente. E que ainda assim escolho prestar atenção, aprender, transformar e amar.
Porque, no fim, talvez amar seja aceitar o convite para uma festa que não estava nos nossos planos, entrar sem saber exatamente o que esperar, descobrir que havia beleza em uma música que nunca havíamos ouvido e voltar para casa diferentes — não porque a festa tenha mudado, mas porque, depois dela, já não somos exatamente os mesmos que aceitaram o convite de quem nos chamou para dançar.
NOTAS
¹ PLATÃO. O Banquete. Na obra, composta em forma de diálogo, diferentes personagens apresentam discursos sobre Eros. A reflexão de Sócrates, atribuída aos ensinamentos de Diotima, apresenta o amor como desejo orientado ao belo e ao bem e como um movimento de ascensão em direção a formas mais amplas de beleza.
² Diotima é uma personagem de O Banquete, apresentada por Sócrates como uma mulher de Mantineia que teria lhe ensinado sobre a natureza de Eros. Seu discurso constitui a principal elaboração filosófica sobre o amor na obra de Platão.
³ LUFT, Lya. Pensar é transgredir: para entender o mundo e a nós mesmos. Rio de Janeiro: Record, 2004. A obra reúne reflexões da autora sobre temas relacionados à existência, às relações humanas, à liberdade e à experiência de viver, propondo o pensamento como exercício de questionamento das ideias e padrões previamente estabelecidos.