Pensamentos Avulsos

A ansiedade da espera e a beleza do reencontro.

Quantos encontros acontecem no Carnaval. Muitos? Centenas? Que deixam rastro, poucos. Talvez um único. O encontro da sorte de ser encontrada. Uma foto de brincadeira e o destino batendo no direct de verdade. Tem sentimentos que não pedem licença, eles simplesmente ocupam o sofá, pedem um vinho e decidem passar a noite.

Esse único encontro acontece entre as risadas de amigos e mergulhos na piscina. No café da manhã, no gosto da rotina fora de ordem, mas que, de alguma forma, parece ocupar a estante como prêmio de a mais correta. No gosto dos corpos e também… na lareira acolhedora e ao mesmo tempo agonizante do silêncio.

Observar um sentimento nascer é um exercício de paciência que muitas vezes nós não dominamos. Ou melhor, nem temos. 

08:26h. 

08:34h.

14:16h. 

17:09h. Mais uma vez buscamos por uma notificação. É engraçado, sabe? A palavra “encontro” tem sua origem no latim incontrare, formado pela junção do prefixo in- (“em”, “para dentro”) e contra (“contra”, “oposto”). Originalmente, o termo designava um confronto ou oposição, evoluindo para o sentido de “ir na direção de” ou deparar-se com algo/alguém. Hoje, as mensagens vão na direção dos transeuntes. Da amante, do amigo. Contudo, a presença não ocorre; se arrasta e escapa aos dedos, como uma ampulheta em que a areia escorre. Nesse intervalo em que ansiamos a espera e bem aventurados desejamos o reencontro. Até o reconstruímos oniricamente. Histórias suas, sons nossos, lembramo-nos de cada toque. É doido, caçamos e buscamos até o erro, a fresta por onde o encanto pudesse ter escapado. É curioso como a mente tenta nos convencer de que a conexão é um delírio só nosso, só porque o celular não vibra na hora que o coração pede. Destarte, o sentimento está presente, pulsa. Sobrevive ao vácuo das horas. Ele se mantém aquecido na mensagem no fim de tarde. Que traz consigo o sol se pondo. Seria isso uma metáfora da beleza que há na impermanência e o convite à promessa de um novo começo?

Os encontros não precisam de monitoramento 24h para serem reais.

Ainda assim, eu sei. É difícil esperar. Com o miojo, o microondas, o fast-food, o whatsapp e tantas coisas hoje instantâneas. Será que esse “aperto” no peito é só o medo que sentimos de perder o que mal começou, mas que já tem peso de algo que sabemos, inconscientemente, que é importante?

As cartas que o destino traz têm um ritmo que eu ainda estou aprendendo a ler. O bom é que a cigana leu o meu destino e me explicou que no baralho as cartas sozinhas não dizem nada, precisam de combinações. De dois. De ouro. O novo ano, o novo ciclo, me fazem parar de pensar e sim… vivenciar. Guardo o baralho das minhas inquietações e escolho acreditar no quão bom é ser vulnerável. Porque é nisso que o sentimento recém-nascido se apoia. E, pelo visto, onde ele quer crescer.

Pensamentos Avulsos

Motivos para continuar

Motivos para Continuar

“Age como alguém que influencia o destino de muitos.”

— Sêneca, Cartas, 94.

Do meu quarto, encaro o calentário do próximo ano enviado pelo marketing do médico sem fronteiras.

Disposto sobre a mesa com o slogan:

Quais são os seus?

Me lembro que houve um tempo em que para mim, não havia nenhum. É nítido em minha memória. As luzes apagadas, a antiga casa dos meus pais. Todos dormindo, inclusive minha irmã, ao meu lado, na cama que costumávamos compartilhar. Me recordo de encarar o teto de madeira e pensar:

— Qual é o motivo de acordar amanhã? — A vida seria tão mais fácil, simples, se eu pudesse não acordar.

Nos dias de hoje é o contrário. Quer dizer, um misto disso. Grande parte de mim, antes de descobrir uma lesão na coluna e precisar operar às pressas, achava que sabia de todos os motivos para continuar.

Continuar me exercitando.

Continuar seguindo a dieta.

Continuar indo para o trabalho.

Continuar limpando a casa.

Continuar, continuar, continuar.

Mas quando a vida te força a parar, a renunciar a tudo e a todos, ao que você ama, o que sobra?

E se continuar agora significasse permanecer quieto, parado e inerte, qual nova conotação ganha o sentido?

Encaro minha mala no canto do quarto da casa da minha avó e tia, onde estou temporariamente sob cuidados pós operatórios e de repente desejo fugir.

— Para onde? — Escuto os meus próprios pensamentos…

— Para o meu verdadeiro Eu — Respondo.

futuro quem eu sou
felicidadeestoica texto motivacional

AFINAL, QUEM É NOSSO VERDADEIRO EU?

Aquele que mesmo incapacitado, adoecido, vulnerável, melancólico, apequenado, taciturno, desgastado, cansado, sobrecarregado… emerge das águas que o afogam, dia após dia, limpa o rosto demoradamente com ambas as mãos, retira o excesso de água e sorri! Largo. Os dentes podem estar meio opacos, desalinhados. Contudo, ele ainda assim sorri e…

felicidadeestoica

Julia Porto

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@juliasporto

Ele bate os braços e as pernas preguiçosamente ao meu encontro e me convida a entrar também!

ele pode jurar que a água está uma delícia, que não há perigo e que eu sei como nadar.

Viktor Frankl uma vez disse, em sua obra “Em busca de sentido”, que o ser humano é aquele a que tudo se adapta. Talvez, esse seja o motivo que erroneamente usamos para continuar. O fato de, por sobrevivência ou desespero, continuarmos a qualquer custo. Mas a que preço?

Talvez, só talvez, a prioridade, o farol, a luz que guia, seja encontrar o caminho de volta a si mesmo e nele arrastar consigo toda a humanidade.

“Tudo o que um homem excelente (ou um grande homem) faz, os homens comuns imitam, e o padrão que ele estabelece, todo o mundo o segue”

— Bhagavad-Gita¹. 3.21.

¹ Livro sagrado do hinduísmo, a mais conhecida obra da literatura sânscrita, e uma das mais importantes da literatura universal. A Bhagavad-Gītā (“Canto do Bem-aventurado”) é um diálogo filosófico e espiritual que compõe parte do épico indiano Mahābhārata. Composta por 18 capítulos e cerca de 700 versos, ela apresenta o ensinamento do deus Krishna ao guerreiro Arjuna, que está tomado por dúvida e angústia no campo de batalha de Kurukshetra.

Pensamentos Avulsos

Na ausência, quem somos?

O ano era 2004.

— Esse “J” está muito grande, filha. Faz de novo, deixa eu ver.
Mamãe dizia, enquanto lavava o pano de prato na pia de mármore, e eu treinava numa folha A4 a caligrafia do meu nome. Mostrava-lhe o resultado, orgulhosa. No ambiente, o rádio Panasonic tocava bem alto Amor e Sexo, de Rita Lee. Minha mãe cantava animada, ainda esfregando o pano encardido do trabalho. Eu a acompanhava na cantoria, rindo, balançando os pés.

Hoje, me vejo ouvindo a Alexa na cozinha, ecoando 50 receitas, de Leoni, enquanto repouso na cama após uma cirurgia na coluna. Sou obrigada a interromper a leitura: o efeito déjà vu é intenso. Como na infância, dona Glória ainda canta enquanto cuida da casa. Ouço-a arrumando as compras recém-chegadas do supermercado, cantando a plenos pulmões.

Desde que me lembro, Maria da Glória — nome dado em homenagem à Nossa Senhora da Glória — sempre trabalhou fora. Era comum sair cedo para a escola e ela já não estar em casa. Ao voltar, ainda não havia chegado: só aparecia à noitinha, no servir do jantar, que por tradição e ordem do meu pai acontecia sempre à mesa, sem distrações, apenas nós em família. No fim de semana, no entanto, a história mudava: mamãe acordava cedo para lavar roupa, faxinar a casa e conversar sobre nossa semana.

De súbito, percebo: é comum nos sentirmos vazios. Solitários, mesmo rodeados de gente. Ao longo do dia. Das semanas. Dos meses. Das festas. Essa consciência não é doce — pelo contrário. Fernando Pessoa já disse:

“Pensar incomoda como andar à chuva. Quando o vento cresce e parece que chove mais”.

pessoa, fernando. poemas completos. são paulo, saraiva (2007).

Em repouso, há em nós um caleidoscópio de pensamentos. Já reparou? Recordo de uma conversa em que expliquei à minha namorada que me considerava workaholic — Será que você é viciada em trabalho ou está fugindo de si mesma?  perguntou. Resolvi morar nos versos de Pessoa, fugi para a chuva, corri para o pensar, fui pega pegas gotas pesadas trazidas pelo vento. Estar presa à cama e de repouso mostrou-me que a força com que continuamos a caminhar no dia a dia repousa, inevitavelmente, no amor pelo inefável cotidiano. A anedota está aí: “inefável” tanto nomeia aquilo que nos encanta e dá prazer quanto aquilo que não sabemos descrever, tamanha sua força e beleza. Desde que retornei à minha cidade natal, esse pout-pourri de sabedoria que habita o dia a dia me arrebata a fronte, tira-me o ar como uma maratona. Estou afastada do trabalho por trinta dias e, na ausência dele, quem sou? A tia que embala os lanches? A filha que precisa dos pais depois de uma cirurgia? A paciente sob ordens médicas de repouso extremo? Não. Existe algo aí, enterrado no profundo do ser. Algo que permeia tanto o labor de Sísifo¹ — dormir, acordar, comer, estudar, trabalhar, se relacionar — quanto a ataraxia da alma: a serenidade que nasce da ausência de inquietações.

Talvez quem somos afastados do lugar de onde deveríamos estar seja isso: aprender a existir sem a definição de rótulos, etnias, cargos ou conquistas. É poder habitar a simplicidade de ser, como quem canta distraído lavando um pano de prato ou repousa no silêncio de um quarto. Não se trata de reinventar-se todos os dias, mas de recordar que, por trás de todos os papéis, há uma essência que permanece. E é nessa essência que encontramos o verdadeiro sentido da vida: sermos quem somos, sem adornos, sem medo, simplesmente.

O cotidiano é um palco pequeno, mas infinito: nele cabem nossas dores, nossas memórias e nossas alegrias. Autenticidade na ausência não é um destino grandioso, mas o gesto singelo de não fugirmos de nós mesmos. É descobrir, mesmo entre as cicatrizes, que o amor pelo ordinário nos sustenta. Que somos mais do que pacientes, filhos, profissionais ou amantes. Somos o sopro que insiste, a chama que permanece — e, talvez, seja nisso que a existência encontra o seu sentido… em quão humano somos.

A vida não nos pede grandes façanhas todos os dias, mas nos pede presença. Ser, no fundo, é isso: dar-se inteiro àquilo que se propõe a fazer, seja no repouso ou na luta, no trabalho ou na quietude. Se não sabemos ao certo quem somos sem os rótulos, talvez seja porque autenticidade, este eterno viver, não é uma resposta pronta — é uma busca. Uma escolha diária de viver como somos, mesmo quando o mundo (ou nós mesmos) espera que sejamos outra coisa.

Eu aconselho as pessoas a pensarem: no final da sua vida, quem é o ser humano que você quer ser? Qualidades que quer ter desenvolvido. Os defeitos que quer ter polido.
— Lúcia Helena Galvão


¹ Na mitologia grega, Sísifo foi condenado pelos deuses a rolar uma enorme pedra montanha acima, apenas para vê-la despencar toda vez que se aproximava do cume, sendo obrigado a repetir a tarefa por toda a eternidade. O mito simboliza a repetição incessante e, muitas vezes, a aparente inutilidade das ações humanas, mas também pode ser interpretado — como fez Albert Camus em O Mito de Sísifo (1942) — como metáfora da condição humana: ainda que a vida seja marcada pela rotina e pela inevitabilidade da morte, é na consciência e na aceitação desse esforço que podemos encontrar liberdade e sentido.


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Pensamentos Avulsos

O Relógio e o Humano: A sabedoria das pausas.

“O homem que move montanhas começa carregando pequenas pedras.”

— Confúcio.

A metáfora do relógio nos direciona para a necessidade de atenção aos detalhes, como o relojoeiro ajustando parafusos quase invisíveis. Assim também são nossos próprios ajustes internos — pequenos, mas decisivos.

A NATUREZA COMO MECANISMO DE REGULAÇÃO DO NOSSO RELÓGIO INTERNO.

Para ver o post da foto na íntegra acesse meu instagram.

@juliasporto

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Julia Porto

O relógio

mecânico, tal como o conhecemos hoje com seus ponteiros marcando as horas, nasceu na Europa medieval, entre os séculos XIII e XIV. Este relógio analógico é feito de sistemas delicados de engrenagens, molas, rubis sintéticos, balanços e parafusos minúsculos. O ser humano também é composto por mecanismos internos sofisticados. Há em nós, uma engenharia sutil que rege o sono, a criatividade, a paciência, a força de decisão e até a capacidade de amar. O avanço desses sistemas levou ao nascimento de uma nova profissão altamente especializada: o relojoeiro. Isto é, aquele que identifica quando esses sistemas estão em descompasso. Esse profissional  nos mostra que essa incongruência faz tempo da vida perder seu ritmo — ficamos adiantados, ansiosos, ou atrasados, paralisados.

Na relojoaria, é comum que um relógio, mesmo sem estar visivelmente quebrado, precise de pausas para revisão e manutenção. O relojoeiro desmonta cada parte, limpa o acúmulo invisível de impurezas, lubrifica as junções, ajusta o balanço. Só então o tempo volta a fluir com precisão. Com o ser humano, é a mesma coisa — mas muitas vezes, não sabemos ou não queremos parar. Seguimos rodando no automático, mesmo rangendo por dentro.
A sociedade contemporânea, no entanto, oferece pausas que mais aceleram do que restauram: shopping centers barulhentos, compras impulsivas, telas e notificações, uma cultura de consumo disfarçada de lazer. São pausas que não nos desafivelam do ruído — apenas o maquiam. Elas nos distraem do cansaço, mas não o curam.

O descanso

verdadeiro é outro. Ele não brilha em vitrines, não pulsa em LED. Está nas trilhas silenciosas, no barulho da água batendo em pedras, no cheiro de mato depois da chuva, no vento salgado das praias vazias. Está também no sofá de casa, no silêncio de uma manhã sem obrigação, na leitura lenta, no diário escrito à mão. Nestes lugares, não fazemos nada — e ao mesmo tempo, tudo se rearranja. É como se a própria natureza fosse o relojoeiro que nós não conseguimos ser para nós mesmos.


O corpo sabe. A alma escuta. E ali, sem pressa, as molas se soltam, os rubis internos voltam a brilhar, os parafusos se assentam, e o balanço da vida reencontra seu compasso.

Fazer pausas não é um luxo. É manutenção. E não qualquer pausa — mas aquelas que nos reconectam com o que temos de mais essencial: o silêncio, o espaço, a natureza, o tempo sem cobrança. Assim como um relógio precisa parar para continuar marcando bem as horas, nós também precisamos parar para seguir vivendo com precisão, presença e propósito.

Conheça outros autores.

Abaixo, deixo alguns perfis que sigo no Instagram e que me ajudam a estar presente nessa constante manutenção interna do ser.

Lúcia Helena

@profluciahelenagalvao

Lucas Zappia

@lucas.neurofood

Madama

@br000na

Thais Godinho

@thaisgodinho.perfil