Pensamentos Avulsos

Vencer a si mesmo

mulher fazendo pilates

A única vitória que torna todas as outras possíveis.

Esta semana desabei de cansaço e até chorei porque pela primeira vez tive a sensação de que talvez não consiga terminar uma coisa importante para mim, a prova de triathlon.

Engraçado escrever isso depois de tudo o que aconteceu nos últimos 10 meses (enquanto escrevo esse texto).

Não chorei quando descobri que precisaria operar a coluna. Não chorei quando ouvi que talvez demorasse meses para recuperar os movimentos. Nem quando passei dias andando apenas alguns minutos porque o corpo simplesmente não suportava mais. Mas chorei agora. Não durante a cirurgia. Não durante a recuperação. Chorei duas semanas antes do triathlon. 

Semana passada, uma gripe forte interrompeu praticamente toda a reta final da preparação. Enquanto faço as contas do calendário penso em vários fatores ruins. Mais ainda, que eu vou ter que viajar quatro dias a trabalho para Santa Catarina, enfrentar o frio, mudar completamente minha rotina e voltar dois dias antes da prova. E isso tudo ainda cobrindo as férias do meu chefe e sendo responsável por toda a equipe…

Minha cabeça negocia comigo e me pego observando pensamentos como:

“Talvez você não consiga.”

“Talvez não esteja pronta.”

“Talvez tenha sido esforço demais para nada.”

“Seu trabalho é mais importante, como você vai fazer a prova e viajar?”

“O que vão pensar se você desistir? Se parar no meio?”

Enquanto esses pensamentos martelam a minha cabeça, resolvi fazer outra coisa, esvaziar minha mente com algo que geralmente dá certo: lavar a louça. Às vezes, as atividades mais simples que organizam as ideias mais difíceis. Ali, enxaguando os pratos, lembrei de uma frase que eu mesma escrevi meses atrás, quando comecei, em uma planilha onde acompanho meus objetivos.

A frase é:

Terminar o triathlon olímpico. Vencer a mim mesma antes de vencer o mundo

Parei alguns segundos. Respirei. Meus olhos encheram d’água novamente e ali eu tive uma nova descoberta. Que eu passei meses acreditando que essa frase era sobre a superação física e naquela tarde descobri que não era.

Quando decidi fazer um triathlon, inicialmente meu objetivo era completar uma prova para comemorar minha saúde. Hoje vejo que completar a prova significa outra coisa completamente diferente. E essa prova, eu já completei. 

Não quando comecei a correr.

Não quando aprendi a nadar.

Não quando subi na bicicleta.

Mas no dia em que voltei a acreditar que ainda existia uma vida depois da dor. 

Completei porque, poucos meses antes, existia a Julia que não conseguia carregar uma garrafa de água de 500ml sem sentir dor. Cinco minutos caminhando já eram suficientes para o meu corpo pedir descanso. Respirar doía. Dormir exigia encontrar uma posição que não machucasse. Naquela época, terminar um triathlon seria uma ideia quase ofensiva.

Lembro exatamente do instante em que a ideia nasceu. Caminhava na esteira depois de ser liberada para voltar a pedalar. Pela primeira vez em meses, eu não sentia dor. Sorri e pensei: “Vou fazer um triathlon.”

Hoje percebo que aquele momento nunca foi sobre condicionamento físico. Era, de novo, sobre recuperar a confiança de que ainda existia uma vida depois da dor. 

Pensamos que vencer a nós mesmos significa realizar grandes feitos. Mas começo a desconfiar de que acontece exatamente o contrário.

Vencer a si mesmo raramente é um acontecimento extraordinário.

É uma coleção de decisões pequenas. É alguém absolutamente comum fazendo, todos os dias, pequenas escolhas extraordinariamente consistentes.

Levantar quando ninguém está olhando.

Ir à fisioterapia mesmo sem vontade.

Dormir cedo.

Respeitar o repouso.

Pedir ajuda.

Recomeçar.

Continuar.

Permitir que alguém carregue o peso por você.

Além disso, a realidade cruel me bate quando lembro que enquanto estou aqui, preocupada com uma prova, minha avó ficou quatro dias internada na UTI e depois um grande susto para a família, receberá alta. Que minha tia, uma das pessoas que mais admirei (e admiro) durante toda a minha vida, também enfrenta problemas sérios de saúde. Conversando por vídeo, ouvi dela algo que me emocionou profundamente. Ela disse que acompanhar minha preparação para o triathlon a motivava a cuidar da própria saúde.

Será que foi mesmo o triathlon que a inspirou/motivou? Acredito que não. 

Eu não conquistei nenhuma medalha. Tampouco cruzei a linha de chegada. Mas essa mulher, uma segunda mãe para mim, me diz cheia de afeto que o que ela enxerga é alguém que continuou tentando vencer suas pequenas batalhas diárias.

O que deveria nos inspirar no outro não se trata de resultados ou fotos instagramáveis. É aquilo que o outro precisou se tornar para alcançá-los. 

Vivemos querendo mudar o mundo. Eu também quero.

Quero um mundo onde nenhuma mulher tenha medo de voltar sozinha para casa.

Quero um mundo sem fome. Sem violência. Sem corrupção. Sem crianças abandonadas.

Quero uma sociedade mais justa. Mais gentil. Mais consciente.

Mas ultimamente tenho pensado que existe um perigo escondido nisso. É muito fácil desejar transformar a humanidade enquanto ignoramos aquilo que acontece dentro de nós.

Queremos acabar com a violência enquanto alimentamos pequenas agressividades.

Queremos saúde, mas mexemos no celular na cama, noite adentro.

Queremos honestidade enquanto justificamos pequenas desonestidades. 

Queremos empatia mas somos incapazes de dialogar com quem pensa diferente.

Queremos uma sociedade menos egoísta. Mas nem sempre percebemos o egoísmo que carregamos conosco. Eu, inclusive. Toda grande transformação coletiva começa exatamente onde quase ninguém gosta de olhar. Na escala de uma única consciência.

Os estoicos diziam que algumas coisas dependem de nós. Outras, não.

Não depende de mim quando vou adoecer. Nem a morte. Nem a injustiça. Nem a economia. Nem o comportamento das outras pessoas. Mas depende de mim decidir quem continuo sendo diante de tudo isso. Essa é a batalha mais difícil da existência.

Porque vencer o mundo pode acontecer por acaso. Mas vencer a si mesmo…

Essa é uma tarefa suficientemente difícil para ocupar uma vida inteira.

Existe uma frase de Sêneca que acompanha meus dias há algum tempo. Ela fica escrita no alto da planilha onde organizo meus sonhos.

“Tenha a satisfação de ver seus vícios morrerem antes de você.”

Quanto mais penso nela, mais eu vou tomando consciência das coisas que preciso mudar.

Preguiça. Vaidade. Orgulho. Covardia. Ressentimento.

Daquela parte de nós, de mim, que insiste em permanecer pequena quando a vida nos convida a crescer. Essa é a verdadeira vitória. Não aquela que sobe ao pódio, nem aquela que faz o oba oba e recebe a medalha no pescoço. É a que acontece silenciosamente, dentro de quem aprende o que deve morrer um pouco em si para a humanidade renascer melhor.

Não sei se terminarei o triathlon.

Talvez caminhe.

Talvez pare.

Talvez meu corpo cobre um preço que minha vontade não consiga pagar.

Mas existe uma coisa que ninguém pode tirar de mim.

A pessoa que precisei me tornar para chegar até a linha de largada.

Porque medalhas oxidam. Recordes são quebrados. Títulos mudam de dono. O corpo envelhece. Mas nenhuma derrota é capaz de desfazer a vitória de quem lapidou o próprio caráter. Essa que transforma quem a conquista. Por isso sigo acreditando que um mundo melhor nunca começará nas grandes revoluções.

Talvez seja por isso que Sêneca dizia para termos a satisfação de ver nossos vícios morrerem antes de nós. Porque, no fim, vencer a si mesmo é sobre a construção de alguém capaz de permanecer íntegro, mesmo quando não há pódio algum esperando no final do caminho.

Na escolha diária de morrer um pouco para que algo melhor possa nascer dentro de nós.

Porque, no fim das contas, nenhuma vitória muda tanto o mundo quanto aquela que muda primeiro quem a conquistou.

Um comentário sobre “Vencer a si mesmo”

  1. Val disse:

    Você é incrível Julinha!
    Esse foi teu texto que mais me tocou. Obrigada por isso.
    E sim, você vai vencer aquilo que precisa vencer. Sua preparação não terá sido em vão. Parabéns desde já! Quem te ama vai estar aplaudindo na linha da chegada com muito, muito orgulho de quem você e de quem você está se tornando. Eu, inclusive!

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